domingo, julho 24, 2022

a missa dela

O pároco encontrou-se com ela na rua, um dia depois do baptizado do filho, que ocorrera na eucaristia dominical. Tinha sido uma festa bonita e, por isso, enquanto a saudava, o padre manifestou, com naturalidade, este sentimento. O que ele não esperava era a reação fria da senhora que, imediatamente, lhe disse que não gostara porque, num dia de festa de celebração da vida do seu filho, o padre tinha celebrado por mortos. O que é compreensível porque, nestas paróquias pequenas, as pessoas mandam celebrar pelas intenções dos seus mortos nas eucaristias dominicais e o pároco só tem obrigação de celebrar uma missa sem intenções, a chamada missa pro populo. A eucaristia é de todos e de toda a comunidade. A senhora, que até nem costuma ir à missa, estava indignada porque aquela era a sua missa. Só faltou dizer que a pagara e que o padre apenas tinha de fazer o serviço que lhe pedira. Lá voltamos ao de sempre. Por mais que um padre se empenhe e esforce em fazer destes sacramentos um momento excelente de evangelização, com a alegria que brota do Evangelho, nos tempos que correm, nesta Igreja prestadora de serviços sem fé ou com uma fé infantilizada, um encontro de rua que podia ser um momento de comunhão tornou-se um momento desagradável, para não dizer intragável.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma benção especial de alianças"

terça-feira, julho 19, 2022

A Igreja líquida

Leio muito sobre a Igreja. Gosto de pensar a Igreja na sua eclesialidade. Gosto de reparar atentamente no rumo dela e no que falam dela. Procuro entendê-la por dentro, se isso é possível. Não tenho certeza que seja, mas procuro olhá-la fundo, por detrás dos acontecimentos e dos milhares de palavras que vou lendo sobre ela. E nos últimos tempos, numa das minhas constatações, fiquei um pouco inquieto, isto é, com vontade de deixar um grito sufocado tornar-se um grito amplificado. 
Hoje a Igreja vai tomando decisões por pressão da sociedade e não por decisão própria. Se há umas centenas de anos ela influenciava ou fazia por influenciar a sociedade, agora é um pouco mais ao contrário. E se isso é interessante, porque significa que ela ouve a sociedade que deve ouvir, também temo que, numa sociedade de opiniões e aparências, ela se deixe moldar por opiniões ou por agrados. Numa sociedade líquida facilmente a Igreja se pode tornar uma Igreja líquida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amanhã vou comprar mais luz para esta igreja"

sábado, julho 16, 2022

os custos do gasóleo

Os custos com o gasóleo e a gasolina estão por demais. Cada cêntimo poupado parece um ordenado ou sabe a uma vitória. Anda tudo à procura das gasolineiras onde estão os maiores descontos. Encontrei uma e aproveitei para atestar. Não consegui calar a mangueira a tempo dos 74 euros e o custo foi parar aos 74 euros e três cêntimos. Quando fui pagar, entreguei à jovem empregada várias notas num total de 75 euros e, para lhe facilitar a vida, entreguei-lhe três moedas de um cêntimo. De troco, entregou-me 1 euro e trinta cêntimos, e o tempo de regresso ao carro foi gasto a pensar que a conta deveria estar mal feita. E estava. Assim que olhei bem o recibo, percebi que ela se enganara e me dera 30 cêntimos a mais. Com os 30 cêntimos na mão, voltei à loja, dizendo-lhe que se enganara. Muito aflita, respondeu que já me dava 1 euro, pois que se devia ter esquecido. Quando lhe expliquei que o engano era a seu favor e que aqueles 30 cêntimos eram seus, ficou a olhar para mim como se não fosse normal alguém dar-se ao trabalho de devolver aqueles poucos cêntimos que toda a gente anda a tentar poupar. Eu também.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A irmã Graça"

quinta-feira, julho 14, 2022

sou uma floresta [poema 349]

não 
chove há muito tempo em mim 
sou a árvore seca da floresta a andar 

senão 
para voltar a vaguear no caminho escuro que eu sou, 
e onde desenho as flores que são também florestas 
em busca do alto mar 

sou 
uma floresta ao amanhecer 
embora as raízes da terra me anoiteçam 
a crescer para o céu 

sou quase 
uma floresta, por dentro, a arder

sexta-feira, julho 08, 2022

Uma comissão sinodal pouco sinodal

Estive presente num encontro onde foi possível escutar algumas partilhas sobre o sínodo que está a decorrer na Igreja. O Papa Francisco convidou a Igreja a fazer um sínodo para pensar a sinodalidade da Igreja, com a durabilidade de dois anos, começando pelo que alguns designam como “bases” e que eu prefiro designar como “a base” da Igreja. Tudo começou pelas comunidades de todo o mundo, constituindo-se e criando-se, para o efeito, grupos, sobretudo laicais, e estratégias de partilha, diálogo, participação e comunhão. Cada conferência episcopal tem agora de redigir, com base em relatórios das suas dioceses, um relatório nacional para fazer chegar as vozes de toda esta base ao Vaticano. 
Para já, estamos a ultimar esta primeira fase do sínodo que tem três fases. É uma grande graça e há já quem diga que, depois do concílio Vaticano II, este poderá ser o maior evento da Igreja católica. Concordo em absoluto, embora ainda tenha as minhas desconfianças dos seus frutos práticos. Até porque depende de uma conversão difícil, de uma mudança de mentalidade arreigada e de uma revolução de hábitos que a Igreja alimentou em muitos séculos. E a prova de que tenho alguma razão nestas minhas cautelas foi visível numa das partilhas do referido encontro em que se apresentavam propostas para uma Igreja mais sinodal. Numa das partilhas, os palestrantes apresentaram-se como representantes de uma comissão sinodal composta por “quatro padres e duas colaboradoras”.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Igreja menos clerical"

quinta-feira, junho 30, 2022

Soluções para a falta de padres


Não conhecia o bispo alemão Fritz Lobinger, um bispo missionário aposentado, que está na África do Sul, até ler o que ele escreveu sobre as soluções para lidar com a falta de padres. Até hoje existem, na sua opinião, três soluções: a tradicional, a pragmática e a reformista. No entanto, ele acrescenta-lhe uma quarta solução, que designa de “solução comunitária”. 
Na solução tradicional propõe-se o aumento de oração para que hajam mais candidatos, na esperança de que os seminários se encham ou para que, ao menos, venham padres de outros países ou continentes encher as vagas deixadas nas paróquias pelos sacerdotes que vão envelhecendo e morrendo. 
Na solução reformista insiste-se na abolição do celibato obrigatório, na expectativa de que isso origine um aumento significativo de candidatos. Por princípio, esta solução até admite a ordenação de mulheres. 
Na solução pragmática propõe-se a distribuição por diáconos ou leigos de tarefas que eram executadas por padres. 
Já a “solução comunitária”, tal como refere Lobinger, baseia-se numa visão mais profunda da Igreja, seguindo a linha do Concílio Vaticano II e procurando a vivência das primeiras comunidades cristãs. Ele propõe que as comunidades assumam novamente a responsabilidade que tem estado centralizada no padre. Inspirado por S. Paulo, sugere ainda que se introduza um novo tipo de presbítero para trabalhar ao lado do clero atual, complementando-o. Seriam líderes comunitários “aprovados” (“probati”), eventualmente casados e com as suas profissões. Embora tecnicamente ordenados, não teriam formação no Seminário e só poderiam servir a sua comunidade. 
Olhando para todas estas soluções, fico com a sensação de que nenhuma delas é a solução, e que talvez um misto delas o possa ser. Sou a favor de que se aumente a oração para que hajam mais candidatos ao sacerdócio ministerial e ao compromisso laical. Sou a favor de que se repense o celibato como condição sine qua non. Sou a favor de que a missão seja assumida corresponsavelmente por todas as vocações eclesiais. E sou a favor do caminho que nos leve a formar outros tipos de lideranças nas comunidades, mais participativas e menos clericalizadas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Chama-se Jesus"

quinta-feira, junho 23, 2022

As horas cansadas da missão

"apesar da hora e cansaço"
O telefone tocou numa hora tardia, no final de um domingo desgastante e desgastado. O que menos me apetecia era atender. Mas o volume do som não o permitiu. Estou sim. Do outro lado uma voz feminina perguntou se era da Igreja da terra tal. Não era da Igreja, mas era do seu pároco. A voz estava aflita e embargada. Esperava uma mensagem ou um telefonema da filha que fazia voluntariado naquela terra e naquele dia não dera sinais de vida. Por mais que a mãe tentasse ligar, ela não atendia. A mãe estava numa aflição sem nome. Ligou a pensar que era uma boa ideia contactar uma instituição humanizadora como a Igreja. Estávamos a tentar encontrar uma solução para chegar a alguma luz quando a filha entrou pela casa da mãe adentro. Decidira fazer-lhe uma surpresa. E ficámos ambos mais tranquilos. Muito mais tranquilos. No dia seguinte recebi uma mensagem do mesmo número a agradecer por ter sido tão atencioso e disponível, embora cansado e a desoras. Agradeci de igual modo, dizendo que esta era também a nossa missão, e que na missão não há horas nem cansaço… apesar da hora e cansaço adiantados!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Há dias assim"

sábado, junho 18, 2022

A espiritualidade em mim

Tão sem palavras...
No meu último retiro, esse espaço ou lugar que gosto especialmente porque me encontro com Deus de forma ímpar, o orientador, aquele que me ajudava a encontrar-me e a encontrá-lo, disse-me algo que ainda hoje me inquieta. Os seus olhos, de um azul e de uma expressividade que me faziam lembrar a imensidão e infinitude do mar, pousaram em mim para me dizer “És um homem com uma espiritualidade forte”. Eu pensava que não, e reagi. Acenei com a cabeça e com o corpo. Olhei para o lado. Acenei que não com tudo e fiz de conta que ele não falava comigo. Mas eu rezo tão pouco, disse. Rezo tão pouco, repeti. E ele voltou a mim. “És intenso na tua intimidade com Deus!” Não disse mais nada. Acho que também não quis ouvir. Passei umas horas a olhar para estas palavras, na tentativa de as deixar dizer o que significavam. É certo que me deixo arrebatar quando me sinto arrebatado na oração. É certo que sou honesto comigo – ao menos comigo – quando tento atravessar os meus sois e sombras. É certo que me gasto com um tu que sinto amar na pessoa de Cristo. Mas isso, para mim, sempre foi apenas um poucochinho de nada. Tão pouco e tão insignificante. Tão raro. Tão anónimo e escondido. Tão sem palavras...

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Na lareira 2"

quinta-feira, junho 09, 2022

Tou. Tou. Tou.

tou. tou. tou
Era meio mouca e meio entrada em idade. Fez-se notar assim que entrou na igreja porque não conseguia falar de modo a não ser ouvida. E às tantas, o maldito telemóvel tocou uma música que lembrava os telemóveis de primeira geração. Todos parámos o que estávamos a fazer. Ela parou também, mas para atender a chamada. Tou. Tou. Tou. Olha. Mas nós é que olhámos. Olha, liga-me daqui a nada que agora estou na missa. E desligou. Nós também desligámos. Mas por pouco tempo. Porque ainda não tinham passado mais que uns dez minutinhos e de novo o telemóvel soou no meio da igreja. Tudo parou de imediato para a senhora voltar a dizer alto e em bom som. Tou. Tou. Tou. Ainda tou na missa. 
 

sábado, junho 04, 2022

A idoneidade do padrinho

interrogação?
Segundo o Código de Direito Canónico, no cânon 874, considera-se idónea para ser padrinho de um baptismo aquela pessoa que tenha sido escolhida pelo que vai ser baptizado, pelos pais ou, em último caso, pelo pároco ou o ministro, tenha 16 anos e maturidade suficiente, seja católico, tenha recebido o Sacramento da Eucaristia, esteja confirmada, leve uma vida coerente com a fé e com a missão que vai assumir, não seja o pai ou a mãe do que vai ser baptizado, além de que não pode estar afecta por qualquer impedimento legal da Igreja. Vale o que vale. Eu sei que são leis e normas, e o homem não vive para elas. São, no entanto, referenciais para que a missão do padrinho seja autenticamente a missão de padrinho. 
Por isso não faz sentido que alguém venha pedir uma declaração de idoneidade para que um adolescente de 12 anos, sem maturidade e sem ter o sacramento da confirmação, com uma vida de fé que podemos designar de afastada, ainda que frequente a catequese, possa exercer a missão de padrinho. Mas a mãe do adolescente pede, quase exige, porque o pároco do local onde vai ser baptizado aceita, desde que apresente uma declaração de idoneidade, sabendo este colega, à partida, que o adolescente não possui a tal idoneidade. Passa a bola para canto. Lava as mãos como Pilatos. Sossega-se e à sua consciência, na esperança de que outros decidam por ele, a favor ou a desfavor. E lá vamos nós ao mesmo de sempre, desbaratando sacramentos. Na verdade, eu não sou ninguém para garantir ou não garantir a idoneidade de alguém. Nem as leis o podem garantir. Porém, ao menos que este sacerdote assumisse a decisão, por uma questão de assumir uma coerência. Por isso é que sou de opinião que, se não se consegue proceder com autenticidade nesta matéria, que se reveja a necessidade da figura do “padrinho”. Ao menos, deixamos de fazer de conta…

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um dia os baptismos ainda hão-de ser baptismos"