terça-feira, março 15, 2022

simeonus [poema 346]

havia uma parede e um eco do outro lado 
punha-me à escuta, encostado a ti 
em punho erguia o meu passado 
para sentir o teu palpitar 
 
ouvia ao longe como se fosse dentro de mim 
o cair da lágrima sobre o lago, e a chuva 
nascia como uma voz que vem do outro lado 
sem fim 
 
havia um muro que galguei como escada 
e um som de longe que estava bem perto 
em mim

quinta-feira, março 10, 2022

Se as mulheres parassem, a Igreja parava.

Não era uma campanha feminista ou coisa do género. Era um diálogo um pouco surdo, ou em surdina, entre duas gerações de mulheres que se dedicam com alma à Igreja, na comunidade onde vivem e celebram a fé. O diálogo ocorreu na minha presença. Uma presença discreta, a minha, que as deixou falar à vontade. 
Uma das mulheres, a mais velha, está habituada a servir o marido e todos os demais à sua volta. Fá-lo com uma generosidade ímpar. A outra, a mais nova, gasta-se a servir como se a sua missão lhe viesse de uma vontade de ser útil, estar presente, ser uma voz entre iguais, fazer o que tem de fazer porque entende que vive numa sociedade e numa Igreja que precisa dela e do seu carisma. A segunda exaltava o papel das mulheres. A primeira apagava o papel das mulheres. Uma esgrimia argumentos a dizer que elas eram imensamente importantes na Igreja. A outra esgrimia poucos argumentos. Ouvia mais que falava. Gostava do que ouvia, mas não precisava disso para fazer o que fazia na comunidade. Era uma mulher submissa. Talvez ainda haja mulheres que sentem ou vivem a palavra “submissão” como subjugação, dependência, servidão, subordinação, sujeição, vassalagem. Eu prefiro entender a palavra como entrega humilde, como disponibilidade. Mas entendo que seja uma palavra difícil, tanto de entender como de usar. Estava interessante a conversa daquelas duas mulheres. Eu gostava do significado das palavras, inclusive dos silêncios e das pausas. Daqueles dois exemplos de fé professada, celebrada e vivida. Na primeira pessoa, ou na segunda ou na terceira. Dava igual. 
Sem as interromper, anotei. Se as mulheres parassem ou fizessem greve nas comunidades cristãs, a Igreja parava. De facto. As mulheres são quem mais trabalha nas comunidades cristãs, quem mais ocupa ministérios litúrgicos e pastorais, quem está mais presente, quem mais se dedica à Igreja. Ei-las no coro, no ambão, no zelo dos altares, na catequese, nos grupos de oração, nos encontros espirituais, na acção socio-caritativa, e por aí fora… Apesar da  hierarquia da Igreja ser constituída só por homens, atrevo-me a dizer que cerca de 95% das comunidades cristãs, no seu todo e no seu particular, são asseguradas por mulheres.
Mais depressa a Igreja parava sem as mulheres que sem os homens. Se as mulheres parassem, a Igreja parava. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

domingo, março 06, 2022

menos catequese

Neste último período mais difícil da pandemia, a paróquia teve de suspender a catequese presencial, que está agora a retomar. Durante dois anos, ora há catequese ora não há. Os itinerários têm sido interrompidos ou intermitentes. Os catequistas bem tentam manter uma presença através de outros meios não presenciais. Contudo, na maioria das vezes, é apenas isso, uma presença. E embora eu sinta, tal como já o afirmei aos catequistas, que é ou pode ser uma oportunidade para tornarmos a nossa catequese mais kerigmática e menos doutrinal, a verdade é que a catequese intermitente é como uma fé intermitente. Não agarra. Não compromete. Não fomenta caminho. Ainda assim, agora que estamos a retomar as sessões presenciais, uma mãe veio ao meu encalço a pedir se a catequese poderia ser menos vezes. Ó senhor padre, assim só de quinze em quinze dias. É bem capaz de ter razão aquela mãe. Também a vida da fé deveria ser só de quinze em quinze dias. Ou até menos. Quanto menos, melhor, Senhor. Menos catequese, por favor! Menos… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nem Pai-Nosso nem Avé-Maria"

quinta-feira, março 03, 2022

os likes da paz

Por estes dias abundam e tornam a abundar nas redes sociais imagens, textos e propostas relacionadas com pedidos de paz. Parece-me bem. Imensamente melhor do que partilhas de fotos de comidas ou similares. Como o Papa Francisco convidou a Igreja a que, no primeiro dia da Quaresma, as pessoas fizessem jejum e oração pela paz na Ucrânia, multiplicaram-se, e bem, os convites e as propostas neste sentido.  Multiplicaram-se também os likes nestas propostas, como era de esperar. O que eu não sei é quantas pessoas que colocaram likes nestas publicações fizeram de verdade jejum ou rezaram pela paz na Ucrânia. Não sei e não queria ajuizar. Mas tenho um dedo mindinho que não para de tentar adivinhar, o malandro. Pois, como é normal no mundo dos likes, muito se resume a likes
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amizades especiais"

terça-feira, março 01, 2022

Os padres fixes

Veio ao meu encontro com uma das mãos no peito e um pouco acabrunhada. Senhor padre, olhe, às vezes ouço dizer mal do senhor padre, porque não faz as vontades às pessoas, como outros que aceitam qualquer um para padrinho e o número de padrinhos que as pessoas quiserem, aceitam qualquer um para se crismar, não exigem preparação aos noivos, entre outras coisas parecidas. Eu fico triste ao ouvir estas coisas e nem lho queria dizer. Mas ela disse. E eu sei-o. E já nem sei se fico triste, porque muitos desses que ela designou de ‘outros’, fazem, geralmente, parte do grupo de colegas que apenas celebra sacramentos, espera receber o contributo respectivo e vive para agradar. 
O que eu gostaria mesmo que dissessem de mim não é que lhes fazia as vontades e que era um fixe, mas que os ajudava a crescer na fé. Que lhes anunciava a Boa Nova de Salvação. Que, quando me escutavam, conseguiam estar mais próximos de Deus. Que confiavam nas palavras de alento que lhes dou no meio do desalento. Porque quem conta não sou eu, mas Deus. O importante não é o padre, mas Deus. Não é Deus que existe porque o padre existe, mas ao contrário.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A queixaria"

quinta-feira, fevereiro 24, 2022

A fé não é bem fazer o bem

Um dia destes, numa tarde ensolarada e à sombra de uma árvore a que não sei dar nome, cruzei-me com a senhora Encarnação, uma mulher acostumada a fazer o bem, mas que não põe os pés na missa, como ela diz. Aquilo está cheio de beatas falsas. Eu faço o bem, senhor padre, sem olhar a quem. Não preciso de ir à missa nem de rezar para fazer o bem. Eu tenho mais fé que todas elas, referindo-se às tais que chama de beatas. 
A conversa prolongou-se entre palavreados castiços de quem não tem tento na língua, mas gosta de a usar para uns dedos de conversa com o senhor prior. E ainda bem. E nunca se azedou a conversa, nem quando lhe expliquei que a fé era muito mais que fazer o bem. Qualquer pessoa pode fazer o bem. Um muçulmano ou um hindu, um agnóstico ou um ateu podem fazer o bem. Naturalmente que tive de explicar algumas destas palavras porque a senhora Encarnação andou na escola apenas até à quarta-classe. E clarifiquei que os cristãos fazem o bem, ou devem fazê-lo, por Cristo, em nome de Cristo. E desse modo é que manifestam a sua fé. A fé tem mais a ver com fazer o bem por Cristo, com Cristo e em Cristo, a típica expressão que usamos na eucaristia e que gosto sobremaneira. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A fé de Portugal"

sábado, fevereiro 19, 2022

Jesus era um leigo

Numa Igreja que se clericalizou, é oportuno recordar alguns dados sobre a identidade humana e histórica de Jesus, assim como os inícios do cristianismo. 
Jesus não era cristão, mas judeu. Tinha uma índole secular, laical, isto é, era um homem imerso no seu mundo, entre os demais humanos, e não fazia parte de nenhuma casta sacerdotal do tempo. Por isso fora tão difícil acreditar que era o Filho de Deus, uma vez que era suposto um filho de Deus nascer e viver imerso na religiosidade, no templo. Como também seria expectável que manifestasse um poderio sem igual. Mas nada disso. Não nasceu nem na grande Judeia nem na cidade santa de Jerusalém, mas na simples Nazaré da Galileia dos gentios. Recorde-se ainda que dos supostos trinta e três anos em que viveu, só três deles foram passados a pregar. Cresceu e viveu como o comum das pessoas, num ocultamento e anonimato. Aliás, pode-se dizer que viveu, como a maioria das pessoas, ignorado e desconhecido. 
Não é adequado, igualmente, afirmar que foi ele que fundou a Igreja, senão que constituiu um grupo de discípulos a quem pediu que continuasse a sua obra. É mais correcto afirmar que apenas lhe colocou os alicerces. Por isso é que não vemos nos evangelhos um momento fundante da Igreja. A obra foi nascendo, cimentando-se, construindo-se, organizando-se, muito à imagem das estruturas de organização e de poder do tempo. É muito difícil fazer uma organização do nada e é natural que se sigam modelos já experimentados. Foi o que ocorreu. E, embora se possa olhar esta necessidade como algo menos positivo, há que dizer também que, ao contrário de outras expressões religiosas, a Igreja não nasceu à volta de doutrinas e de práticas. Ela construiu-se no seguimento de uma personagem histórica que serve de modelo e é precursor de um estilo de vida, no que há que inspirar-se. Seguir Jesus é aderir a Ele. Ser Igreja é estar configurado com Ele… na quotidianidade!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Pesquisar Jesus na Internet"

quarta-feira, fevereiro 16, 2022

A pandemia está a retirar-nos alguns bairrismos escusados

Uns dizem que a pandemia está a acabar e outros que está para durar. Uns dizem que a vida tem de continuar e outros ficam a vê-la passar. E algo similar se passa dentro da Igreja, onde se dá conta de uma série de mudanças que a pandemia tem desvelado e de uma série de mudanças que se têm tornado ainda mais urgentes. Diz-se que o mundo não mais será o mesmo depois desta pandemia. Eu digo que a Igreja ou a sua acção não voltará a ser igual. Tenho pensado muito nisto. Tenho reflectido e amadurecido algumas posturas e pastorais. E reconheço que, quase naturalmente, alguns pequenos processos vão-se tornando parte de uma grande conversão. Pelo menos nas comunidades que, pastoralmente falando, coordeno. Dou alguns exemplos. 
Nalgumas das minhas comunidades mais pequenas, a missa destes últimos tempos tem sido quando é possível, ou seja, quase sempre fora do fim-de-semana. Não têm reclamado não terem missa no Domingo e aceitam a possibilidade que lhes é oferecida. Talvez tenham aprendido que o Domingo é o dia do Senhor, mas que em qualquer dia podemos celebrar a Páscoa do Senhor. 
Nalgumas das comunidades maiores, as pessoas vão-se sentando, à medida que entram na igreja, nos lugares que lhes são indicados pelos ministros do acolhimento, e não no lugar a que se habituaram e que preferiram ou a que se acomodaram durante anos como um direito adquirido. 
Há paroquianos que, cada vez mais, começam a ir à Eucaristia da paróquia maior, porque sabem que ali há sempre eucaristia. A mobilidade que usam para o comércio, usam agora para a celebração da fé. 
A comunicação saiu da Igreja, para além do púlpito, e começou a ser mais usual e visível em outros âmbitos, sobretudo as plataformas virtuais e digitais. Dizem-me que a comunicação está muito melhor e menos fechada. 
Dá-me a sensação de que os ritmos e hábitos dos fiéis estão a ser reconfigurados com uma certa naturalidade. A pandemia está a retirar-nos alguns bairrismos escusados. E está a alargar os nossos horizontes.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A pandemia descristianizante"

domingo, fevereiro 13, 2022

“assassinado pela indiferença”

No centro de Paris, numa rua movimentada, no passado dia 18 de Janeiro, o fotógrafo René Robert, de 85 anos, depois de ter saído de casa, após o jantar, para um passeio, não se sabe ao certo como nem porquê, caiu inconsciente. Ali permaneceu caído cerca de nove horas, exposto ao frio numa noite em que as previsões meteorológicas apontavam para temperaturas de 3ºC. Levado para o hospital, depois que um sem-abrigo chamou os serviços de emergência, já pelas 6h30 da manhã, foi-lhe diagnosticado um traumatismo craniano e uma grave hipotermia como causa do óbito. Foi um desalojado da sociedade, um sem-nome, quem deu o alarme. Mais um dos que não conta. E um jornalista, amigo do fotógrafo, ao falar do assunto, intitulou-o de “assassinado pela indiferença”. Como de facto, assassinado por uma sociedade que tem opinião para tudo, mas que é indiferente a tudo. Uma sociedade que defende a diferença, mas não dá conta do outro. Uma sociedade formada por indivíduos que não se olham senão a si próprios. Paradoxalmente plural e individual como nunca na história do mundo. Uma sociedade em rede desligada. Uma sociedade feita de pessoas que vivem, sozinhas, ao lado uns dos outros!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O sacrário está vazio"

sexta-feira, fevereiro 11, 2022

pedras [poema 345]

as pedras doem nos sapatos e alargam-nos 
fazem ali a calçada para os passantes 

e os que passam não dão conta 
que as pedras doem por dentro 
sem o dizer, na calçada 
da vida, à noite são mais pedras 
a doer