sexta-feira, novembro 02, 2018

Ir ao cemitério

Passara por mim, apressada, com um ramo de flores nas mãos. Ía para o cemitério. Ainda não tinha tido tempo de limpar a campa do seu pai. Mas hoje tem de ser. Hoje é dia de ir ao cemitério. Hoje é dia de romagem para visitar as campas dos nossos. A conversa durou muito pouco. Trocados os bons dias, pouco mais trocámos que palavras relacionadas com o frenesim do dia de hoje, a ida ao cemitério da parte da tarde, depois da missa, e os adornos das campas. Costas já voltadas, ainda se virou para me dizer. Que necessidade temos de ir hoje ao cemitério?! Não sei se era uma pergunta se era uma afirmação. Se era uma pergunta, também não deu tempo para responder. De igual modo não sei se ela ia ao cemitério por hábito, por tradição, pelo facto de todos ou quase todos lá irem, se por não parecer mal, se por devoção, se por fé, ou sei lá. Não conheço suficientemente o seu coração. 
Antes da minha mãe falecer, eu estava convencido que havia um excessivo culto aos mortos e tornava-se mais visível nesta ocasião. Por estas datas dos santos, dos finados ou fiéis defuntos. Continuo a achar que há um excessivo culto aos mortos, inclusive dentro do grupo dos cristãos mais formados. Mas também recordo que, a partir daquela data fatídica de 7 de Outubro de 2001, o meu olhar para estas coisas alterou ligeiramente. A campa da minha mãe passou a ser o seu santuário, aquelo espaço físico que me religa a ela ou ao que ela é para mim, mesmo depois de ter falecido. Por isso de vez em quando dou lá um salto, dou um beijo na foto que se vai gastando com o tempo, e ofereço-lhe a minha oração. Creio que é isso que fazemos quando vamos visitar uma campa no cemitério. Não vamos visitar propriamente os “nossos” porque os nossos já não estão ali. Ali foram depositados apenas seus corpos. O dia de hoje é, na minha opinião, um dia de homenagearmos quem tanto continuamos a amar e que nos precedem no céu. É um dia de acção de graças pelos dons das suas vidas. É um dia para lhes ofertarmos a nossa oração, que é a melhor prenda que se pode dar a alguém que se ama assim. É um dia para pensarmos na vida como esse tão grande dom que Deus nos dá e que não tem fim, mesmo diante da morte.

quinta-feira, novembro 01, 2018

Morrer é passar da morte para a vida

Gostaria de lhe falar do meu medo diante da morte. Foi assim que se dirigiu a mim, meio desconfiado, meio temeroso, meio receoso de estar a dizer a maior palermice do mundo. Às vezes custa-me dormir, porque começo a pensar nestas coisas. O coração acelera e a angústia vem. Começo a chorar. Só a ideia de desparecermos, dentro de um caixão e debaixo da terra, assusta. Sou católico. Acho que sou católico. Já nem sei. Também acredito que haja qualquer coisa depois da morte. Mas... Ficou no Mas. Como nós ficamos milhentas vezes no Mas. 
Depois de uma pausa para respirar fundo, perguntou-me como eu lidava com isso. Olha o que ele foi perguntar. No fundo, também eu já fizera a mesma pergunta a mim mesmo. Respondi com sinceridade, porque penso deste modo, embora isso não signifique que não existam dificuldades, dúvidas, receios. Disse-o porque o penso. 
A vida culmina na morte. Morrer é passar da morte para a vida, ou seja, passar da condição mortal para a condição de Vida eterna. Nós olhamos a morte como o findar da vida. Parece-me, no entanto, que é o largar da nossa condição mortal. Na morte, passamos para a Vida.

terça-feira, outubro 30, 2018

Desenhar a humanidade de Jesus

A catequista estava num encontro de catequese quando, no momento de realizar as actividades manuais, a pequenita Carolina a abordou explicando o que ia desenhar. Olha, catequista, eu vou desenhar a humanidade de Jesus. A catequista ficou admirada, pois não era comum uma criança ter um desejo deste género, mas aprovou o seu desejo e ficou expectante com os resultados do ansiado desenho. Não tardou muito para que a Carolina lhe mostrasse uma folha, ainda que pouco colorida, com um Jesus ligeiramente diferente. Olha, catequista, levei Jesus ao cabeleireiro, para aparar a barba e cortar um bocadinho o cabelo. Gostas? Achas que ficou bem? A catequista escondeu o sorriso e, mais uma vez, aprovou a ideia. Sim, Carolina, ficou muito bem. Foi uma boa ideia levares Jesus ao cabeleireiro. Ele ficou muito bonito, contente e agradece-te de coração. No teu próprio coração. Só falta dares uma pinturinha, uma cor aqui e outra acolá, para Jesus ficar ainda mais bonito. Ela assim fez e ficou a espirrar felicidade! Para quem não sabe, é assim que se pinta a humanidade de Jesus.

sexta-feira, outubro 26, 2018

Os “de fundos”

Nas redes sociais encontramos de tudo um pouco. Coisas que nos afrontam, que nos magoam, que nos enganam, que nos incomodam, que nos inquietam, que nos preocupam, que nos indignam, e depois encontramos situações, palermices ou piadas do mais hilariante possível. 
E foi assim que, há uns dias atrás, a propósito do dia dos “fiéis defuntos”, tive a dita de poder ler uma pergunta fascinante de uma distinta amiga do facebook. Era uma daquelas amigas que, por tudo e por nada, posta coisas no dito cujo. Ora um prato, ora dois, ora uma foto, ora um anúncio, ora uma frase feita, ora umas perguntinhas, ora venha o diabo e escolha. Apeteceu-me dizer Quase hora a hora. Nada que não seja corrente, fluente e banal nos dias de hoje. Mas, adiante. Então a dita amiga, dizia eu, manifestando o seu enorme interesse e conhecimentos sobre o assunto, decidira perguntar aos seus amigos virtuais se sabiam o que eram os “de fundos”? Sim, os “de fundos”. 
Foi assim que li, reli e voltei a ler para ter a certeza de que não tinha lido mal. A dita explicava logo de seguida, tim tim por tim, o que era. Mal ela sabia que estava a falar dos “defuntos” e não dos “de fundos”. Mas eu, dado que a vista se me tornara búzia, turva e sei lá mais o quê, já não conseguia ver qual palavra que fosse. É que não conseguia parar de imaginar aquilo que costumamos dizer que vem lá dos fundos, das nossas zonas fundeiras, ali um pouco abaixo das costas. Ria-me despregadamente a pensar que os “de fundos” só podiam ser esse teimoso cheiro que, de vez em quando, vem lá dos fundos. Já lá dizia o outro: até os mortos se levantaram! 
Ou teriam sido os “de fundos”?

quarta-feira, outubro 24, 2018

segunda-feira, outubro 22, 2018

Um chamamento que não sei

Já lá vão muitos anos. Andava na escola primária quando escutei, pela primeira vez, que o Senhor chamava alguns a ser sacerdote. Na altura a palavra soava-me a algo estranho. Como poderia saber o que era o sacerdócio! Era mais fácil traduzi-la por “padre”. Recordo que ouvi, pela primeira vez, numa aula, um jovem seminarista que, por sinal, hoje é bispo, dizer que o Senhor podia chamar alguns de nós para padre. Continuo a lembrar que a palavra padre só me fazia lembrar o padre da minha paróquia. Aquele senhor de uma certa idade que celebrava as missas. Achei engraçada a ideia de poder ser chamado. E um dia achei que o Senhor me chamava mesmo. Era uma criança. O significado desse chamamento só uns anos mais tarde, depois de fazer muitas perguntas, me foi possível ir entendendo. Mas ainda hoje não sei porque o Senhor me chamou. O que viu em mim. O que vê em mim. Lembro alguns acontecimentos marcantes dessa época da minha meninice. Lembro quando o tal padre da minha paróquia me disse que eu bem podia ser padre. Lembro quando, um dia, corajosamente, me abeirei do altar e me deixei ficar ali, como se fosse esse o meu lugar. O lugar que o Senhor queria que eu ocupasse. Mas ainda hoje não sei porquê. Ainda hoje pergunto ao Senhor porquê. Porquê eu, de tantos outros meninos, a maioria muito melhores que eu. Se me perguntassem se eu gosto de ser padre, não sei bem se a resposta seria positiva. Há um misto e muitos paradoxos nas respostas que poderia dar. Só há uma coisa certa. Estou aqui. Como sou. E Ele está por aqui, por não sei bem donde. Vamos tratando-nos, cada vez, mais por tu. De vez em quando sinto que nos abraçamos. Outras vezes berramos um com o outro. Não me sinto digno do seu amor. Mas Ele teima em querer amar-me assim. Por isso, vou-me sentindo esse indigno amigo que é amado por Alguém que teima em me amar… assim.

sábado, outubro 20, 2018

as minhas aves [poema 194]

Amanhã é um novo dia, para dar de beber às aves, sentadas em meu regaço, 
Comprei literalmente, por um vintém que não sei, um fontanário para elas 
Em troca, doei a vida para que a água se debicasse, se bebesse, se afogasse 
As aves esvoaçaram até à fonte, detiveram-se à minha beira, no beirado, 
Como um beirado de uma casa que não têm, ali pousaram em desassossego.
Encharquei a mão de água, imensa água em acanhada mão, com mágoa 
A água desapareceu entre os dedos, e ali quedaram pequenas lágrimas,
Afinal a àgua da fonte são as minhas lágrimas, e as aves vão e voltam
São minhas como beirado, pousam no meu regaço que é um regato
em lágrimas que nasceram na fonte que é água a viver um dia sem fim... 


quinta-feira, outubro 18, 2018

Tenho-te dito

Estava aqui a remexer papeis onde, por ocasião dos meus retiros, anoto alguns pensamentos, ou momentos que, de me tocarem, me levam a escrever. Num desses papéis encontrei um desabafo que escrevi num desses momentos. Já lá vão uns cinco anos. Escrevia assim. 
Estou de retiro. Ou devia estar. Venho, por meus pés, olhar-te na hóstia que depuseram na custódia. Faz sentido que cumpra os horários do retiro. Por isso estou aqui por meus pés, que é como quem diz, por minha própria vontade, embora esta vontade tenha surgido do horário. Há um silêncio à minha volta. Não o há dentro de mim. Queria ter alguma coisa para te falar. Uma conversa. Mas estou vazío. Alguém um dia disse que era preciso uma pessoa esvaziar-se para falar contigo. Contudo, para ser sincero, o meu vazío não me deixa espaço para conversas. Insisto que quero falar contigo, mas não consigo. Será isto um falar-te? Ocorre-me rezar o Pai Nosso, para facilitar as coisas. Mas fico nas duas primeiras palavras. As outras não me saem. Levanto os olhos do papel para te olhar de longe. Estás mesmo aí? O meu ar desconfiado, que não quer sê-lo, está aqui. Penso nos meus paroquianos, porque acho que tenho de pensar em alguma coisa. Quer-me parecer que, por mais que insista, hoje não consigo dizer-te senão que não consigo. 
Tenho-te dito.

sábado, outubro 13, 2018

O frade dorminhoco

São seis horas da madrugada. Depois da liturgia das horas, das laudes, entregamo-nos, numa hora, à meditação. Tem sido assim todos os dias, tanto de manhã como ao findar da tarde. E um dos frades mais velhos que está na comunidade do mosteiro, mal se apagam a maioria das luzes, senta-se num pequeno banco, de joelhos, e o sono cai sobre ele. É engraçado que pende sempre para o seu lado direito. Sempre para o mesmo lado. Como se esse lado o segurasse no tempo. 
A princípio, chamou-me a atenção pelo caricato da situação. Sorria com alguma pena, evitando que, ao meu redor, se apercebessem. Depois fui intuindo que, se calhar, seria uma doença. Deixei de sorrir, mas não deixei de alimentar a pena. Só aos poucos, com o tempo, fui descobrindo que aquele estar poderia muito bem falar da sua intimidade com Deus. Fui descobrindo que aquele frade dorminhoco aproveitava, em cada meditação, para dormir no colo de Deus. Deixava-se embalar nos braços de Deus, como a criança se entrega ao colo da mãe. É no colo da mãe que uma criança mais se sente confortável, segura, confiante, feliz. Não existe maior amor de filho do que aquele que se entrega ao amor de alguém que nos dá a vida, faz viver, ajuda a caminhar, e nos enche de amor. E assim percebi que o frade dorminhoco se entregava a Deus, na sua meditação, muito mais que eu. Eu ainda não aprendera a adormecer no colo de Deus.

quarta-feira, outubro 10, 2018

Noite escura

Desengane-se quem pensa que o recolhimento de um retiro serve a necessidade de paz e tranquilidade. É isso que muitos de nós buscamos num retiro espiritual, num encontro de oração, numa celebração comunitária da fé. Desengane-se quem pensa que uma experiência de encontro com Deus nos traz a paz que ansiamos diariamente e que parece longe de alcançar nas correrias diárias da vida. Um verdadeiro encontro com Deus faz-nos encontrar connosco próprios, com a nossa essência e, portanto, com as nossas misérias, ansiedades, erros e pecados, o que S. João da Cruz chama de “noite escura”. 
O que pode fazer esse encontro com Deus é garantir que Deus nos ama. A experiência de encontro com Deus o que pode operar em nós é o sentirmo-nos amados por Deus. Quando alguém ama e se encontra com a pessoa amada, não deixa de ser quem é, não deixa as suas fragilidades de lado. Ama com tudo o que é. Mas é nesse amor que ganha as forças para viver.