terça-feira, outubro 17, 2023

Um sínodo ‘redondo’

Nunca antes um Sínodo dos Bispos no Vaticano viu cardeais, bispos, padres, leigos, incluídas mulheres, reunidos em mesas redondas para discutir, ouvir, reflectir em conjunto e discernir o futuro da Igreja. As sessões plenárias dos anteriores sínodos decorriam num anfiteatro, com a mesa da presidência, num palco, voltada para o público que estava disposto em filas, de acordo com a respectiva posição na hierarquia. Na Assembleia Sinodal que está a decorrer em Roma, os participantes, sem distinções hierárquicas, encontram-se, olhos nos olhos, em pequenos grupos, sentados em mesas redondas. Todos podem falar dentro destes pequenos grupos e são livres de fazer apresentações escritas ao secretariado. Foi muito interessante ver nesta assembleia sinodal o Papa Francisco sentado à volta de uma destas mesas redondas. O ‘redondo’ explica melhor a comunhão que devia viver a nossa Igreja que é de todos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

terça-feira, outubro 10, 2023

A minha expectativa do sínodo

Quando em 10 de outubro de 2021 o Papa Francisco abriu o sínodo sobre a sinodalidade, ninguém tinha a certeza do seu alcance. Sabia-se que seria algo importante na Igreja, ao menos, pela sua duração e pelas etapas estrategicamente propostas: local, continental e universal. As expectativas atingiram de imediato os chamados progressistas e conservadores dentro da Igreja. Os primeiros, entusiasmados, a pensar que se iriam mudar muitas regras e leis, e os segundos, preocupados, a pensar exactamente no mesmo. Que o sínodo é importante, atesta-o o facto de, entretanto, o Papa ter decidido prolongar em mais um ano a sua duração e em promover duas assembleias sinodais. Os temas que a comunicação gosta de badalar são capa. Os jornalistas não perdem a oportunidade para insistir na ordenação de mulheres, a bênção de casais LGBTQIA+, a alteração do celibato, entre outros assuntos sensíveis similares. Muita atenção se tem centrado nestes assuntos, na expectativa do que poderá vir a suceder. 
Desde outubro de 2021 que tenho acompanhado com atenção este processo. Foi-me dada a oportunidade de liderar algumas reflexões e pronunciamentos. Vou lendo o que o Papa vai dizendo, assim como alguns teólogos que aprecio. Acompanho as notícias. Rezo a Deus pelos bons frutos de tudo o que está a ser feito. Rezo bastante. Mas rezo sobretudo a pedir ao Senhor Deus que ajude os cristãos, todos eles, sem exclusão, a perceber, de uma vez por todas, que a Igreja somos todos nós. Se este sínodo apenas tivesse servido para isto, eu já ficava muito satisfeito. Todos na Igreja temos igual dignidade e missão. O que difere é o modo como o fazemos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Clericalidade da Igreja"

quinta-feira, outubro 05, 2023

entrar na igreja

Uma catequista perguntou aos seus meninos do primeiro ano se conheciam como era uma igreja. Era uma pergunta de retórica, como se costuma dizer, porque estava convencida de que as respostas daqueles meninos que haviam entrado na catequese, pela primeira vez, seriam todas positivas. No meio da confusão natural destes miúdos e dos olhos arregalados daqueles que diziam que sabiam mais ou menos como era, um deles respondeu que nunca tinha entrado numa igreja. Simples, directo e genuíno. E a catequista ficou sem palavras. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os Paulitos de hoje"

segunda-feira, outubro 02, 2023

A Igreja que também é do Papa

Fala-se bastante, por estes tempos, na Igreja do Papa Francisco. Mas eu não consigo ficar indiferente a estas abordagens e às muitas expressões que se usam, quase como se houvesse uma Igreja de Francisco, tal como houve uma de Bento XVI e outra de João Paulo II. Como se os papas fizessem Igrejas à sua medida. A Igreja não é propriamente dos papas. A Igreja é de Cristo. Quando muito, poder-se-ia afirmar que a Igreja é de todos e de cada um de nós, na medida em que a Igreja somos nós. E nesse sentido também é do Papa, seja ele qual for. Entendo o uso desta linguagem, mas não deixo de me inquietar com ela. E tem sido insistente o uso dos chavões eclesiológicos para falar da Igreja dos tempos de Francisco. Ouvem-se, lêem-se, vêem-se, sentem-se. Todos os que tentamos estar actualizados e que tentamos viver uma vida cristã comprometida seguramente já nos apercebemos que a Igreja, segundo o que se vai ouvindo, tem de ser sinodal, missionária, inclusiva, em saída, aberta, laical, samaritana, ministerial, inculturada, intercultural, profética, simples. São palavras muito acertadas para falar da Igreja de Cristo, tal como se conhece desde o início do cristianismo. Gosto especialmente que o Papa Francisco no-lo recorde e se esforce para que a Igreja de Cristo se expresse e se viva cada vez mais deste modo. Mas também temos a obrigação de lembrar que esta não é propriamente a Igreja de Francisco. É a Igreja de todos nós. Ou melhor, é a Igreja de Cristo. É a Igreja... que também é do Papa.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja dos 'chineses'"

sexta-feira, setembro 29, 2023

re-clamação [poema 373]

ainda hoje te reclamo o sangue 
disseste que seria azul e às vezes verde,
como o céu e a terra em tempo eterno 
de acalmia 
 
disseste que seria um rio, e n’ele eu 
encontraria o mar nas suas margens
 
fui confundido pela palavra que ouvi 
e tu só disseste porque eu pedi 
 
vem com a lança e abraça-me com ela 
no peito desenha uma estrada em forma de cruz 
e o meu sangue será tão confundido como eu 
Será confundido com o teu

terça-feira, setembro 26, 2023

contemplar [poema 372]

não sei falar do campo, nem como se escreve 
pinto-o de cores, com flores, isso sei inventar 
porque basta estar atento 
ao teu olhar 
 
também não sei os nomes das flores, mas as cores 
pinto-as como se fossem os meus amores 
a dançar 
 
falta-me o salto do olhar pelo que desconheço 
mas imagino, pois sei imaginar 
e me fico para perpetuamente 
te contemplar

quarta-feira, setembro 20, 2023

A generosidade dos pobres

Esteve em Roma o tempo suficiente para conhecer algumas ruas de cor e alguns dos seus habitantes. Naturalmente que ia algumas vezes à Praça de São Pedro. Ali perto, encontrava sempre um casal sem-abrigo, ele sentado numa cadeira de rodas, ela sentada a seu lado, muitas vezes a fazer tricô. Saudavam-no sempre que passava. Buongiorno, padre. Reconheciam-no no meio dos transeuntes, porque ele também os saudava. Uma manhã, ao passar junto deles, a senhora pediu-lhe uma ajuda diferente da moedinha habitual. Que ajudasse o marido a levantar-se do seu cobertor estendido no chão e o colocasse na sua cadeira de rodas. Nem o cheiro do descuido o impediu de se dispor prontamente a levantá-lo e a ajustá-lo na cadeira. No final, delicada e muito agradecida, a senhora perguntou-lhe se aceitava um café, que ela teria todo o gosto em oferecer-lho.
 

sexta-feira, setembro 15, 2023

O padre das onze missas ao domingo

Tenho um colega e amigo que vive no outro lado do mapa, numas terras que o Papa Francisco chamaria de ‘periferias’. Desde o tempo dos estudos teológicos na universidade que, de vez em quando, trocamos umas palavras por telefone. Na segunda-feira pela manhã o Lucas estava cansado. Na véspera, no domingo, celebrara onze missas. Começara pelas seis da madrugada e terminara ao final da tarde. E falava-me disto como se fosse o mais natural. Não faz praticamente mais nada nos domingos. Não entendo como consegue. E não acredito que estas onze missas não sejam a correr, com homilias brevíssimas e com o cansaço a arrastar-se nas palavras e nos gestos. Dizia-me que não podia ser de outro modo. As pessoas exigem. As pessoas precisam. Lembrei-lhe o Código de Direito Canónico que ele estudara na universidade e ele respondeu-me com uma respiração prolongada. Lucas, falo-te do que conheço pelas minhas bandas. Se tivéssemos levado a peito, há muito, a norma canónica quanto ao limite de missas, já tínhamos percebido que há muito mais Igreja para além das missas, já tínhamos mais reorganizada a nossa vida pastoral, já tínhamos investido noutros ministérios, já tínhamos ensaiado novos caminhos para sair de uma encruzilhada cada vez mais encruzilhada.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre ou ser Igreja?"

segunda-feira, setembro 11, 2023

a igreja cheia de gatos

Não saberia dizer quantos gatos vão à missa, mas sei que são muitos pelo ‘bichanar’ que se escuta naquela igreja durante quase toda a missa. São vozes de fundo de gente que gosta de rezar o que o padre está a rezar. Sabem a missa de cor, e tentam acompanhar em voz baixa, mas o suficientemente audível. Algumas delas têm o terço na mão e vão passando as contas. São ecos de oração bsch bsch bschee. E por mais que o padre da freguesia lembre que a eucaristia é feita de diálogos entre o presidente da celebração e os demais celebrantes ou que na eucaristia não se deve rezar o tercinho, elas continuam a fazer bsch bsch bsche... Ora o senhor padre, que é muito compreensivo mas risoteiro ao mesmo tempo, um dia destes interrompeu a missa para as escutar. Elas calaram-se assim que deram pelo silêncio. E o senhor padre lá explicou novamente que esses ruídos de fundo eram mais do tempo das missas em latim, quando não se entendia nada do que o padre dizia, mas que agora já não devia ser assim. A não ser que também não entendessem nada do que ele dizia. E na verdade, das duas uma: ou não entendiam mesmo ou então eram surdas. Porque mal o padre terminou a explicação, os gatos continuaram a ser chamados: bsch bsch bsche...

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sinto-me desumano"

segunda-feira, setembro 04, 2023

Vinha apenas para se casar.

Muito querida e simpática. Ele também, mas mais discreto. Ou mais calado. Encontraram-se com o padre para combinar os últimos retoques da cerimónia do seu casamento. Ela olhando de frente e ele de soslaio. Ela atrevida e corajosa e ele meio envergonhado. Senhor padre, queremos pedir-lhe um favor. Durante a cerimónia não pergunte quantos filhos queremos ter. É que, embora em tom mais ou menos de brincadeira, já o ouvimos perguntar a uns noivos quantos pretendiam ter, e como nós não pretendemos ter nenhum, gostaríamos de não ter de responder a isso publicamente. O noivo pareceu-me ter vontade de a interromper para dizer que ela é que não queria ter filhos. No entanto, mudou somente o olhar de soslaio para ela. Ela é que vestia calças, como se costuma dizer. O padre prometeu que não perguntava. Também lhes fez considerações sobre o significado de um amor fecundo. Mas ela não quis ouvir. Vinha apenas para se casar.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Mais um Manuel e uma Maria vão casar pela Igreja"