sábado, junho 04, 2022

A idoneidade do padrinho

interrogação?
Segundo o Código de Direito Canónico, no cânon 874, considera-se idónea para ser padrinho de um baptismo aquela pessoa que tenha sido escolhida pelo que vai ser baptizado, pelos pais ou, em último caso, pelo pároco ou o ministro, tenha 16 anos e maturidade suficiente, seja católico, tenha recebido o Sacramento da Eucaristia, esteja confirmada, leve uma vida coerente com a fé e com a missão que vai assumir, não seja o pai ou a mãe do que vai ser baptizado, além de que não pode estar afecta por qualquer impedimento legal da Igreja. Vale o que vale. Eu sei que são leis e normas, e o homem não vive para elas. São, no entanto, referenciais para que a missão do padrinho seja autenticamente a missão de padrinho. 
Por isso não faz sentido que alguém venha pedir uma declaração de idoneidade para que um adolescente de 12 anos, sem maturidade e sem ter o sacramento da confirmação, com uma vida de fé que podemos designar de afastada, ainda que frequente a catequese, possa exercer a missão de padrinho. Mas a mãe do adolescente pede, quase exige, porque o pároco do local onde vai ser baptizado aceita, desde que apresente uma declaração de idoneidade, sabendo este colega, à partida, que o adolescente não possui a tal idoneidade. Passa a bola para canto. Lava as mãos como Pilatos. Sossega-se e à sua consciência, na esperança de que outros decidam por ele, a favor ou a desfavor. E lá vamos nós ao mesmo de sempre, desbaratando sacramentos. Na verdade, eu não sou ninguém para garantir ou não garantir a idoneidade de alguém. Nem as leis o podem garantir. Porém, ao menos que este sacerdote assumisse a decisão, por uma questão de assumir uma coerência. Por isso é que sou de opinião que, se não se consegue proceder com autenticidade nesta matéria, que se reveja a necessidade da figura do “padrinho”. Ao menos, deixamos de fazer de conta…

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um dia os baptismos ainda hão-de ser baptismos"

terça-feira, maio 31, 2022

A máquina de fazer a fé

a fé difusa
Ela dizia que não tinha fé, porque não via nada. Era tudo muito difuso. Crescera no meio das freiras e a Igreja dizia-lhe alguma coisa. Coisa que não sabia nem quantificar nem dizer. Era assim a nova amiga que gostava de falar com o novo padre. Não conversavam banalidades, embora ela achasse que o assunto dela era banal. E não tinha fé sem saber porque não a tinha. Era tudo muito difuso. Era a palavra que mais repetia para dizer a fé. Depois lembrava o marido, que era um homem das ciências e do empírico. Mas olhe que ele tem uma devoção enorme por Nossa Senhora. Nem sei como explicar o que diz quando se refere a ela. E depois ainda se tornava tudo mais difuso. 
A Sandra não sabia ainda que a fé não é uma máquina de certezas. É um mistério de amor. Não se explica. Vive-se. O seu marido pode ser pragmático, mas deve ter uma relação especial com "essa" mulher. Algo captou o seu coração nessa direcção. O que também pode dizer de uma fé ainda um pouco infantil. Mas está lá. E significa que ele tem alguma abertura de coração para querer algo que não consegue provar. 
O que, às vezes, nos falta é isso, minha nova amiga. Essa abertura de coração. Queremos racionalizar muito as coisas, as vivências, as experiências. Mas, como saberá, as melhores coisas vêm do amor. É aqui que se centra e acontece a fé. Ter uma relação amorosa com Deus é a fé. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O Zé, o marido da Rosária"

terça-feira, maio 24, 2022

Nunca fui à missa

o que é isso da missa?
Ó catequista, o que é isso da missa? Eu nunca fui, dizia um dos miúdos que entrara na catequese. Dizia-o com os olhitos a brilhar de espanto e entusiasmo. Os colegas olharam para ele sem reprovação. Também olharam a catequista, desarmada. Sobretudo por dentro. Por fora, sorriu e disse o que lhe veio à cabeça. É que ela gosta tanto de estar com o Senhor na Eucaristia, que foram mais ou menos essas as palavras que usou para responder. Uns dias mais tarde, veio a saber que o miúdo também não sabia nenhuma oração. E como ele, mais uns dois ou três dos meninos daquele pequeno grupo de catequese. A tristeza não a preencheu, mas quase. E passou-a para mim, quando a partilhou comigo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista Lucinda"

sexta-feira, maio 20, 2022

casa [poema 348]

a casa abre-se, expande-se, cresce e as pedras vão
torna-se abrigo, e as aves fazem ali ninho, a voar 
depois de dias com as asas a bater 
para entrar. 

as portas estão abertas, e crescem, crescem para fora, 
com a casa, nas aves, nas muitas aves a nascer, e 
que voam a caminhar no chão, pelas pedras, 
para chegar ao lugar onde mora a casa 
que se abre e cresce 
a casa onde mora a liberdade para quem 
hospedar

terça-feira, maio 17, 2022

Boa tarde, meus andores e minhas andoras

igrejas cheias...
A igreja engalanara-se para a festa. Estava engalanada por todos os cantos e buracos. Mal se lá cabia. Passados dois anos sem festa por causa da pandemia, a vontade avolumara-se. Os cuidados sanitários e a segurança passaram para segundo ou terceiro plano. Ainda sugeri aos mordomos que colocassem os andores, com as respectivas imagens, na rua, junto à Igreja, de modo que a assembleia coubesse em segurança e distância. Mas qual quê! Os santinhos é que tinham de estar na Igreja, que é lá o lugar deles. No meio das flores e dos andores, para serem admirados. A festa é deles. Nem que se limitasse o número de pessoas na missa! Onde já se viu os andores na rua? Perguntou uma senhora mais atrevida, com ar de afirmação. E tinha razão. Os andores não é para andarem na rua, não senhora. Onde é que já se viu! Claro que eu também não fiz disto um cavalo de batalha. A maturidade vai-nos ensinando pelo que vale a pena lutar. E assim lá estávamos nós na Igreja engalanada por todo o lado. Pessoas de um lado e andores do outro. Metade metade. Muita gente na rua. A maioria com vontade de estar na rua. A missa começou com o habitual acolhimento. E o simpático do senhor padre começou por cumprimentar os presentes. Boa tarde, meus senhores e minhas senhoras. Boa tarde, meus andores e minhas andoras... 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "santinhos e missinhas"

domingo, maio 15, 2022

O que pensas da nova imagem do blogue?

primeiro cabeçalho do confessionário
O mundo dos blogues não tem a força de outrora, como quando o "Confessionário" nasceu. Já lá vão uns 22 anos. Sim. O Confessionário nasceu por volta do ano 2000, como conto AQUI. nasceu quando os blogues começaram a ser uma referência no panorama virtual. Na altura, não havia, que eu conhecesse, outros blogues de cariz religioso. Em 2003 entrou de férias e renasceu mais tarde, em 2005. Desde então, aqui tem permanecido, com as circunstâncias que os anos e as vidas trazem. Ahhh e os amigos. Sim. Alguns amigos nasceram como nasceu o blogue. Com a simplicidade das palavras e do que elas dizem. E assim se amadurece. E assim o "confessionário" existe. O seu autor está mais velho. Afinal são muitos anos e muitas vivências. Os entendimentos de fundo são praticamente os mesmos. Os anseios. As vontades. Os sonhos. Mas muito mais maduros. Sem dúvida. Porque entretanto, muita tinta correu. E corre. E queremos que continue a correr com a frescura de outrora. Por isso senti a necessidade de fazer um refresh, ou numa linguagem mais nossa, um refrescar. Só para sentir que continuo como no início. Que continuo sempre novo. Que continuo a querer ser o mesmo padre que afirmei querer ser no dia em que celebrei a minha primeira missa solene. E já passaram mais de 25 anos. E que vós continuais aí. 

AQUI tendes a explicação das mudanças. E convido-vos a dardes a vossas opiniões e sugestões para poder ainda servir-vos melhor. Entretanto, abro uma nova sondagem, para perguntar: "O que pensas da nova imagem do blogue?"

quinta-feira, maio 05, 2022

os sacramentos-eventos

São desgastantes os sacramentos pedidos como eventos. Quem os pede foca-se apenas no evento. Por isso o mais importante são as datas, os horários, as vestimentas, a animação, as fotos, a boda, os convites e as prendas. Nos sacramentos-eventos os padres somos quase sempre os últimos a ser contactados. Ao mesmo tempo, acabam dizendo mal do que chamam de burocracias da Igreja. Que exige muitos documentos e preparações. Sejam casamentos, baptizados, crismas, primeiras comunhões e similares, é quase sempre um desgaste para quem queria que os sacramentos fossem um modo de caminhar na fé, e para alguns, pouco mais são do que um evento familiar, social e cultural. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer ser padrinho"

terça-feira, abril 26, 2022

os ‘voltares’ à Igreja

O Manuel e a Maria casaram pela Igreja. Escolhi-lhes estes nomes para significarem os outros nomes daqueles que ainda se casam pela Igreja e nunca mais foram vistos na Igreja. Não são assim tantos. São cada vez menos. Mas são quase uma maioria dentro daqueles que ainda se casam pela Igreja. Casam e voltam novamente para baptizar o filho que agora trazem ao colo. Acham que tem de ser assim e são honestos no seu achar. Voltam porque ainda há uma ligação com a Igreja, mesmo que seja como um supermercado. Isso é o que fazem no resto das suas vidas numa sociedade que fomenta o consumo de bens, de coisas, de pessoas, de vidas, de espiritualidades. E os que estão à frente das nossas comunidades cristãs, os padres, vamos aceitando estas intermitências e tentamos - ao menos eu tento - fazer destes ‘voltares’ um momento de acolhimento e de gestação. Contudo, por dentro, o que mais me apetecia era dizer umas palavras indignas de serem palavras, vociferar e gritar que Deus nos ama e que isso é muito mais forte e intenso que um baptismo, um casamento ou qualquer outra expressão sacramental ou ritual que a Igreja tem à disposição. O Deus que nos ama é o que a Igreja deveria ter para oferecer e o que as pessoas deveriam buscar quando se abeiram da Igreja.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O caso descaso!"

sexta-feira, abril 15, 2022

Padres a carregar cruzes

Não gosto de pensar que nós, os padres, temos de carregar o peso do mundo ou o peso dos outros. Também não temos de carregar a cruz de Jesus. Ele só nos pede que carreguemos a nossa. Cada um tem de carregar a sua. Cada um tem um peso para levar no caminho. Nós, os padres, não temos de carregar o peso dos outros. Só temos de ir com eles no caminho. Irmos ao lado dos outros já é, de certo modo, carregar com a sua cruz. Ou seja, aliviar-lhe o peso por dentro.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

...desejando que a nossa cruz chegue ao destino, a Páscoa da Ressurreição!

quinta-feira, abril 07, 2022

padres que são um luxo ou uma graça!

Estava danado com o bispo e com os paroquianos, porque não lhe davam a atenção que ele desejava. O bispo não explicava às pessoas como é que elas tinham de tratar o padre, que era o seu novo pároco. E as pessoas da paróquia não se preocupavam com o novo pároco, ao ponto de ele nem receber monetariamente o que achava que merecia. É que, dizia, as pessoas esquecem-se que terem um padre é um luxo. 
Pois, na verdade será, pensei eu para os meus botões. Mas apenas se considerarmos o luxo como algo supérfluo. Talvez nesse sentido. Talvez nesse sentido um padre seja um luxo. Também reconheço – de consciência clara e amadurecida - que ter-se um padre ao alcance é uma graça. Pelo menos porque pode ser um apoio no caminho da fé. Mas a escolha da palavra “luxo” para afirmar que ter um padre é um luxo, fez-me recuar no tempo, ao tempo da Igreja medieval em que a Igreja se confundia com o poder. Um padre nunca será um luxo. Quando muito será uma graça. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O colarinho branco"