quarta-feira, março 04, 2026

a propósito dos diáconos permanentes

O número de diáconos permanentes em Portugal aumentou mais de 70% desde 2010. Quando a 8 de dezembro de 1984 foram ordenados os primeiros quatro diáconos permanentes em Portugal, na então jovem Diocese de Setúbal, por iniciativa do seu primeiro bispo, D. Manuel da Silva Martins, não se imaginava que o número de diáconos permanentes fosse aumentando a uma velocidade considerável. Segundo o Annuario Pontificio 2025 e o Annuarium Statisticum Ecclesiae 2023, os diáconos permanentes constituem o grupo de clérigos que cresce mais rapidamente no mundo. O seu número chegou a 51.433 em 2023. Lembrando como a Igreja se foi organizando e construindo nos seus inícios, considero estes dados uma enorme graça. Contudo, e olhando a realidade por outro prisma, não deixo de me fazer a pergunta sobre se não estaremos a assistir a uma clericalização do diaconado ou, pelo contrário, a uma laicização do sacramento da ordem. O risco de clericalização surge quando o diácono entende ou vive o seu ministério como uma forma incompleta de sacerdócio; quando mede a sua eficácia pastoral pela sua proximidade funcional ao altar e à liturgia; quando adopta estilos e linguagem que não brotam da sua própria identidade, mas de uma imitação do sacerdote. Um diácono não precisa nem deve parecer um padre. Mas há um segundo risco, menos visível e talvez mais subtil: a laicização do diaconado. Isto ocorre quando o ministério diaconal é diluído em tarefas que poderiam ser desempenhadas por leigos. A Igreja não ordena para resolver problemas de organização, mas para tornar visível, de forma estável, um aspeto do mistério de Cristo e uma vocação dentro da Igreja. O diaconado não se justifica pela falta de sacerdotes ou para fabricar super-leigos. Justifica-se por si mesmo, como ministério de serviço. Se isto for esquecido, a ordenação diaconal torna-se um acessório.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os diáconos"

6 comentários:

Anónimo disse...

Na actual estrutura funcional da Igreja em Portugal, não passam de meros e pacóvios figurantes, ou, noutra linguagem, de sacristães 'de luxo'. Quantos mais forem, neste, actualmente, inultrapassável estilo, mais se enterram e mais desprestigiada fica a própria Instituição.

Anónimo disse...

Como surgiram os diáconos? O relato dos Actos é perturbador. Fala-se abruptamente da existência de dois grupos, dois partidos na comunidade. Um escândalo rebenta, talvez a gota de água que vem incendiar os ânimos: estão a fazer discriminação no cuidado das viúvas da comunidade! Os Apóstolos reúnem a assembleia para fazerem aprovar democraticamente a decisão que eles próprios tomaram: ficarão com o trabalho da pregação; o outro grupo deverá escolher alguns para arcarem com o serviço das mesas (e cuidarem das viúvas de ambos os grupos!). Todavia, estes escolhidos parecem não estar pelos ajustes relativamente a esta combinação: Estêvão sai a pregar (e mais tarde Filipe), alcançando uma notoriedade fulgurante. Rapidamente irão deitar-lhe as mãos e executá-lo, sem que os Apóstolos aparentemente intervenham para tentar evitar o desfecho. Filipe, mais tarde fugindo, há-de ir para onde os Apóstolos não vão, e na Samaria conseguirá captar uma admirável conversão.
Passados dois mil anos, continuam a dizer-lhes o que devem ou não ser, o que lhes cabe ou não fazer.

Anónimo disse...

Por esses mesmos motivos que o padre indica, os diáconos não me parecem nada necessários. Que necessidade tem a Igreja deles?!

Emília Simões disse...

Bom dia Senhor Padre,
Numa Paróquia grande como a minha, as funções dos diáconos, não entendo bem porquê, não estarão a ser bem aproveitadas, no sentido de que lhes não são distribuídas funções de acordo com os conhecimentos e preparação adquiridos.
Um abraço e boa semana.
Emília

Anónimo disse...

O limbo em que o diaconado se encontra corre o risco de se tornar uma situação ainda mais frustrante se/quando as mulheres puderem ter a ele acesso.

Anónimo disse...

O diaconado permanente foi a forma encontrada de começar a derrubar a barreira do celibato. Mas há um preço a pagar: permanecem filhos de um Deus menor.