quinta-feira, maio 28, 2020

Agora só vão as beatas

Como referia Rino Fisichella há uns dias, a fé precisa dos sentidos. O homem é feito para o relacionamento e isto é ainda mais verdadeiro para a dimensão da fé cristã. Obviamente que vivemos uma época adversa a esta realidade e somos obrigados a viver confinados e a guardar distâncias. Contudo, a distância não pode ser o futuro da existência pessoal ou da fé. 
Falo destas coisas porque ouvi dois paroquianos que me fizeram pensar. Falaram comigo em horas e contextos diferentes e disseram-me quase o mesmo, também de maneira diferente, perante o retomar previsto das celebrações comunitárias. O primeiro, homem, com alguma formação, humana e cristã, depois de ter lido as muitas orientações e regras a cuidar, disse que era melhor ficar em casa e assistir à missa da televisão. O segundo paroquiano era uma mulher, talvez com menos formação, mas pessoa de missa dominical. Em amena cavaqueira foi dizendo que agora quem ia à missa eram só as beatas. E que ela não ia, pois preferia ver a missa em casa. 
Claro que entendo a reação própria do receio. Eu também tenho os meus receios. Mas ouvir estas coisas ditas com tanta naturalidade e facilidade, só veio reforçar a ideia que tenho vindo a ter de que tanta multiplicação de missas nos meios de comunicação social e virtual pode ter confundido as pessoas. Numa sociedade que já privilegiava, por si mesma, o individualismo, pode ter-se reforçado a ideia de que a nossa fé pode ser uma coisa privada, sem comunidade, uma vivência privada, sem relacção.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As missas ou missinhas"

terça-feira, maio 26, 2020

Rezar com eles

Ontem à noite descansei do meu confinamento para ir a um bairro da paróquia rezar com alguns paroquianos. Soube, por uma das senhoras que ali habita, que todos os dias deste mês de maio, às vinte e uma horas, uma das vizinhas colocava uma imagem de Nossa Senhora de Fátima num pequeno patamar de um parque que o bairro tem, com vela acesa, uma jarra com flores e um terço ao pescoço. Os vizinhos vão chegando e, com as devidas distâncias, rezam o terço em conjunto. Sei que há mais bairros da paróquia a fazê-lo, de modo muito parecido mas em outros horários. Ontem estavam umas dez pessoas. Mais eu, que cheguei sem avisar. Foi uma alegria. Rezei com eles. Ainda me pediram para presidir. Não. Tinha ido rezar com eles. E assim foi. Muito bonita a noite com as luzes dos candeeiros e uma estrela no céu a cintilar. Foi retemperador. 
Afinal, também há e houve coisas lindas a nascer nestes tempos de pandemia, mesmo em termos de fé. Estes grupos que, por si mesmo, se reuniram a rezar, são dom de Deus que prova que a Igreja é muito mais do que aquilo a que estamos habituados.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é a minha arma"

domingo, maio 24, 2020

Subir ao céu em corpo e alma

A Joana, que é catequista, comentava que a Ascenção era Jesus a subir ao céu em corpo e alma. Acenei na sua direcção e fiz do meu dedo indicador um metrónomo, de um lado para o outro, a dizer que não. Ficou intrigada e curiosa ao mesmo tempo e, por isso, pediu-me que lhe explicasse o que queria dizer com o meu dedo a acenar. Aprendera assim e era assim que ensinava aos meninos. 
Comecei por lhe dizer que não fazia mal em explicar assim aos meninos, porque para podermos falar de Deus, que não vemos, temos de usar a nossa linguagem e aquilo que conhecemos. 
No entanto, há que dizer que esta festa tem sido mal entendida por muita gente e, nesse sentido, alguns teólogos nem lhe apreciam o nome. Dizem que o termo “ascensão” não é o mais correcto porque evoca a categoria de espaço físico. 
Jesus ressuscitado não subiu nem podia subir ao céu no sentido literal da palavra. Aliás, a sua corporeidade já não era como antes de ter morrido. Não era um fantasma, mas o seu corpo não tinha explicação. Por isso é que os seus não o reconheceram logo, como referem os evangelhos. Não poderia, portanto, ter subido em corpo para o céu. Além disso, Deus também não vive num “espaço” físico. O céu, mais que um “lugar”, é um “estado”, ou seja, uma forma de estar. Ora, para que a subida de Jesus ao céu não se confunda com a imagem de um astronauta ou um balão de hélio que sobe e desaparece no ar, estes teólogos preferem utilizar termos como “exaltação” ou “glorificação”. E têm razão! 
A Ascensão, na verdade, é a glorificação plena de Jesus Cristo. E se percebemos que o céu não é um espaço físico, mas é estar com Deus e em Deus, então percebemos melhor que, afinal, Jesus não nos abandonou. Continua connosco, ao nosso lado. Apenas nos precedeu para a glória de estar com o Pai e no Pai. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O céu e o inferno, parte I"

quinta-feira, maio 21, 2020

prantear [poema 261]

As carpideiras deixaram rastos
Nas grandes catedrais de betão
Entre os caminhos de terra gastos
Entre destroços do coração

Ó mulheres, que vida tão triste tendes
Chorar pelo que não é vosso, mas vos toca
Passa entre as mãos e os vossos terços
Que passais a correr,  de boca em boca

Levai vossos cântaros de água daqui
Para longe guiai essa dor que bramis
Lavai nos tanques a roupa que escureceis
Deixai que o luto mate quem vós matais

entre papeis

terça-feira, maio 19, 2020

asceta [poema 260]

Os homens que se olham parecem parados
Mas são estradas que entram neles
Vozes que crescem por dentro, no que são
Homens que crescem como sementes,
Plantadas no coração

domingo, maio 17, 2020

A caminhar se faz o caminho!

A primeira vez que a Valentina falou comigo estes dias foi para me segredar que estava sem rumo, perdida, cheia de medos, receios, dúvidas, angústias. Estava cheia de todas aquelas palavras que tentam definir o pânico. Não sabia que fazer. Não sabia nada de nada. Não estava bem. 
Fui-lhe respondendo que era normal termos receios, mas que não vermos para além deles, era o mesmo que tapar os olhos à luz que se procura no fundo do túnel. Até à presença de Deus que se pressente. Que o caminho a fazer era continuar a viver no meio das limitações... que, afinal, sempre existiram. Agora só nos parecem mais visíveis. E mais isto e mais aquilo, no sentido de apaziguar aquele coração e convidá-lo a fazer caminho. 
Não passaram vinte e quatro horas quando a Valentina me contactou para me dizer que se estava a fazer luz na sua vida e fé, embora com dificuldades. É isso, respondi. O caminho faz-se caminhando, sem certezas que não seja fazer o caminho, mesmo caindo, mesmo voltando um pouco atrás, mesmo com vontade em desistir, mesmo com obstáculos a ultrapassar. O importante na fé não são as certezas, mas o caminho! força... a todos os que se chamam, por estes dias, de Valentina. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padres que não sabem que caminham"

sexta-feira, maio 15, 2020

meu mar [poema 259]

Voltaste com a água do mar, numa onda
Salgada e fria
O teu beijo entrou pelos pés
E devagarinho foi preenchendo o vazio do meu corpo
Seco, fechado e frio
Ficámos entrelaçados ao entardecer, da vida
Olhando o que fora a nossa história, dentro
Um do outro
Voltaste na onda de espuma, mergulhei em ti
Foste e regressaste, depois de mergulhar em mim
Eras minha e eras de quem morasse à beira-mar
Eras todas as ondas, eras o mar
A entrar por mim adentro
Docemente

Um beijo quente

quarta-feira, maio 13, 2020

A Igreja que faz o mesmo de sempre

Temos continuado, nestes tempos de pandemia, a fabricar uma Igreja centrada no padre, ou seja, clerical, e nos sacramentos, nomeadamente a missa, ou seja, sacramentalizadora. Com tudo o que isso tem de bom e de preocupante. Chegamos a transformar o meio num fim. Abusamos um pouco multiplicando celebrações e sinais de que, com boas intenções, conseguimos transformar o invisível e escondido das nossas igrejas fechadas, vazias e silenciadas, num certo produto de consumo e num certo proselitismo, ainda que inconsciente. O objectivo parece passar por mantermos as gentes e os crentes connosco. Com a Igreja dos padres. E nós funcionamos, mesmo sem querer, como funcionários de uma Igreja aparentemente aberta, mas realmente fechada. Ou seja, uma Igreja com cheiro a mofo, porque fechada, e em ruínas, porque não tem crentes. 
É o problema de sempre na Igreja dos últimos tempos, aquele para o qual o Papa Francisco tanto tem alertado. É o problema de uma Igreja em constante manutenção. Conservando-se. Fazendo o mesmo de sempre, embora com novos meios.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O papa e os padres"

segunda-feira, maio 11, 2020

Na tua opinião, como é que Igreja Católica tem procedido, em termos sanitários, e como Igreja diante da pandemia do Covid-19?

Na última sondagem, colocada online a 22 de fevereiro, fazíamos a pergunta: "Acreditas na vida eterna?". Já nessa altura se começava a ouvir falar da pandemia causada pelo Covid-19. Por isso a sondagem ganhava maior sentido. Deixamos os resultados: 


Hoje, em tempos de confinamento e de contingências diversas, mesmo ao nível da Igreja, propomos duas novas sondagens, em simultaneo, uma que se refere ao modo como a Igreja Católica portuguesa tem lidado, em termos sanitários, com a pandemia, e outra que tem a ver com o modo como tem procurado ser Igreja:
1. "Na tua opinião, como tem a Igreja Católica portuguesa lidado com a pandemia do covid-19 em termos sanitários?"
2. "Na tua opinião, o modo como a Igreja tem procurado ser Igreja nestes tempos de contingência tem sido.."

Agradecemos a justificação das vossas opiniões, que poderão ser muito úteis. Aliás, era interessante perceber como tem sido nas vossas comunidades cristãs.

Pedimos desculpa pelo facto de, inicialmente, termos proposto apenas uma sondagem que, de certo modo, induzia em erro.

domingo, maio 10, 2020

amo-te sem saber [poema 258]

Amo-te, mesmo sem te ver
No sol que de dia me encandeia
E de noite me canso a buscar em ti

Amo-te, mesmo sem te tocar
No vento que sopra por mim adentro
Na água que em minha mão desaparece
Depois de me refrescar

Amo-te, sem entender porque te amo
Nos espinhos da minha casa a crescer
Naquele sangue que do teu peito
Cai no meu, fica a escorrer

Amo-te porque te procuro
E te encontro, sem o saber,
com o coração.