domingo, abril 16, 2017

um martírio [poema 139]

Guardo o martírio em casa
Debaixo da cama
entre sapatos sem lama

Envelhece em lençóis de linho
Ali permanece
Ali morre sozinho

Neste dia tão especial, aproveito para desejar a todos os meus leitores e amigos uma Santa Páscoa!

sexta-feira, abril 14, 2017

Quando um coelhinho substitui Jesus

Que o coelhinho nos traga muito mais que simples ovos de chocolate. Que ele nos traga muita saúde, amor, felicidade, compreensão, carinho. Escrevo assim porque li mais ou menos assim. Não o escrevo para desdenhar da boa intenção da pessoa que escreveu cada uma das palavras. Creio que as escreveu sem a perspectiva com que eu as li. E agora reescrevo-as porque ficaram a tinir nos meus pensamentos. 
Se, no Natal, falar do Pai Natal é algo que me custa aceitar, falar ou desejar que um coelho nos traga aquilo que só Deus nos pode eventualmente dar, ainda me custa mais escutar. Se há cidades, como na vizinha Espanha, que tentam transformar a semana santa numa semana cultural, e isso me custa aceitar, mais me custa que Jesus seja substituído por um coelho, por mais bonito, enfeitado ou engraçado que possa parecer para as crianças. 
E é neste mundo e nesta história que Cristo mais uma vez se entrega por nós e manifesta o Seu tão grande Amor ao ponto de nos querer, tal como somos, mesmo quando o substituímos por um coelhinho.

quarta-feira, abril 12, 2017

ter uma fé pequenina

Creio que o comum dos cristãos gostaria de possuir uma grande fé. Dou conta, porém, que pessoalmente, cada dia e cada vez mais, tenho vontade em possuir uma fé pequena. Uma fé tão pequena que pudesse chamar-se, carinhosamente, de pequenina. Uma fé que, por ser pequenina, sempre tivesse vontade de crescer. Uma fé que fosse sempre caminho. Uma fé livre, que não se agarrasse a nada prévio e buscasse sempre em Deus. 
Creio que a fé das grandes certezas é a fé humana, essa fé que busca em si as respostas e não as busca em Deus. E eu não quero ter esse tipo de fé cheia de certezas e num patamar que não precise de crescer. 
Creio que a fé pequenina é a fé dos que não se fecham na certeza da sua fé…

domingo, abril 09, 2017

Acreditas na Ressurreição?

A sondagem que tínhamos online teve como resultado o que consta na foto em jpg. Em 2006, efectuámos a mesma sondagem  (AQUI) com os seguintes resultados: 
1º- Amor_ 47% 
2º- Pai_ 20% 
3º- Não tenho imagem_ 7% 
4º- Absoluto_ 6% 
5º- Todo-poderoso, e Refúgio_ 5% 
6º- Criador_ 5% 
7º- Juíz_ 3% 
8º- Salvador_ 1% 
9º- Bombeiro_ 0% 

Façam as comparações e digam o que pensam. 

Hoje iniciamos nova sondagem a propósito dos mistérios que se celebram neste período: Acreditas na Ressurreição?

sexta-feira, abril 07, 2017

luar [poema 138]

Faz ontem um dia que o céu caiu
E as nuvens voaram em busca do sol
Os montes baixaram para ver o mar
E as algas tornaram-se um roseiral

Visitei entre véus o que o ar vestiu
Desenhada a noite por onde passei
Uma luz de longe me guiou entre céus
E agora sei que não sou eu que sou
Mas tu.

quarta-feira, abril 05, 2017

Tenho uma espiritualidade queixinhas

Quase me apetecia dizer que sou um queixinhas. Não daquele tipo de queixinhas que está sempre a pedir coisas a Deus. Cuido, aliás, que não peço muitas coisas a Deus. Sou mais daquele tipo de queixinhas que parece nunca estar satisfeito com a vida que lhe toca viver ou com as adversidades que lhe toca tocar para a frente.
Queixo-me muito. Queixo-me na vida. Mas ainda me queixo mais na oração. Muitas vezes transformo esses momentos em autênticas queixas. Perco-me nelas. Queixo-me de tudo e de todos, da Igreja que não gosto e da Igreja que não consigo ser, dos erros que concretizo e que concretizam comigo, dos pecados que cometo e daqueles que não quero pensar como pecado. Queixo-me do que tenho de fazer, do que fiz e do que faço. Queixo-me de mim mesmo, mas sobretudo dos outros. Queixo-me até de Deus. Queixo-me. E ao queixar-me contigo, cuido que rezo as minhas queixas. Assim mais ou menos como quem, partilhando o que sente, mesmo quando não se devia queixar tanto, mais não faz do que partilhar a vida com quem se ama.

segunda-feira, abril 03, 2017

a-teia [poema 137]

Tirava o sono da almofada para si
Guardado num esconderijo de prata
Ligava o gira-discos do bisavô António
Cobria-se com a capa dos tempos da universidade
Fazia embrulhos de nada e do vazío que havia
Gritava para dentro as palavras e os sons
Construia um relógio antigo, meio vintage
Deixava-se cair e mal se levantava da hora
Escrevia Deus como se não existisse
E a casa onde ela era estava fechada

sábado, abril 01, 2017

ela [poema 136]

Entre silêncios de salmo ouvi sua voz
No mais belo cantar que pudesse existir
Era ela, aquela, que visitara meu sonho
De pássaros a voar de uma gaiola gigante

Sussurrei seu nome e apareceu
Para ser ave na minha gaiola

terça-feira, março 28, 2017

A minha mãe não me leva

Andava no quarto ano da Catequese. Viera ter comigo para se confessar, a mando da sua mãe, por causa da festa da Catequese em que vai participar, com o seu grupo, na próxima semana. Trazia as mãos nos bolsos e, como lhe disse que ficava mais bonita se as tirasse de lá, colocou-as uma na outra, com os dedos a entrelaçarem-se e a estalarem ao mesmo tempo. 
Pela reação pareceu-me que estava com algum receio de confessar-se. Ou do que ia confessar. Por isso, ainda antes de darmos início ao sacramento da confissão, perguntei-lhe se estava com medo. Não respondeu, mas fez uma cara de quem não sabia o que dizer porque tinha receio do que pudesse dizer. Eu sei que, na verdade, não se voltara a confessar desde a Primeira Comunhão. Sei que não costumava ir à Eucaristia. Sei que quase tudo lhe parecia meio estranho. Estar ali porque a mãe lhe dissera para estar. A mesma mãe que não a levava à Eucaristia. 
Como me apercebera disso, e porque, infelizmente, não é caso único, perguntei-lhe se era por nunca mais ter ido à missa que estava assim. E aquela criança, afastando os dedos e as mãos, baixou ainda mais os olhos e disse. A minha mão não me leva.

domingo, março 26, 2017

voltar [poema 135]

Talvez um dia seja cego para ver
E nas palavras veja imagens que não sei
Hei-de falar com o corpo enrolado em mim
Voltar ao tempo em que nascia para ser

Talvez um dia chegue como um coração
Para ver de novo as manhãs a renascer
Para tornar a ver-te como no princípio
Quando o mundo ainda era paraíso
Para viver