Teces em mim uma catedral sem pés
Levas anos, muitos anos antes de mim
Meticuloso e minucioso artesão que és
A tecer-me entre as pedras do jardim
E fazes-me acreditar, em infinito ser,
Que sem esta pedra que sou e não sou
Não consegues construir o teu querer
a Catedral
sexta-feira, fevereiro 12, 2016
terça-feira, fevereiro 09, 2016
A pequena Sónia e a sua mãe doente, em Fátima
A Sónia é uma pequenita da terceira classe. A mãe tem uma das doenças do século, o cancro. ESta tem sofrido imenso, embora sem perder o ânimo de Deus. A Sónia percebe que a mãe sofre. A Sónia gostava de tirar a dor à mãe. A Sónia disfarça, mas sofre com a mãe. Uma vez unidas pelo cordão umbilical, toda a vida unidas.
Encontrei-as em Fátima numa noite destas. A mãe costuma procurar-me para desabafar e contar da forma como vai lidando com a doença. Por isso aproveitámos a ocasião para uma actualização rápida. Desta vez tinha algo especialmente bonito para contar. Veja, padre, eu que não sou muito destas coisas, hoje decidi dar duas voltas de joelhos à Capelinha. Sabia que era doloroso. Sabia que não é o que mais Deus quer. Ou Nossa Senhora. Mas nesta etapa da minha vida, tento tudo. Não se tratava de uma promessa. Era tão só uma vontade. E pensei fazê-lo sem a pretensão de que Deus me cure. Era mesmo só para que Deus me desse força. E nisto, repare… Fez uma pausa para deixar sua cara sorrir… Imagine que a Sónia não deixou e disse que o faria por mim. Disse-o convictamente e impondo a sua vontade. Fê-lo, padre, com um sorriso a olhar o meu sorriso e as minhas pequenas lágrimas. E depois de dar duas voltas, veio dizer-me. Olha, mãe, dei duas voltas por ti. Agora dou mais três por mim.
E eu que pensava que sabia o que ia no coração das pessoas que fazem estas coisas!
vem a propósito este texto que escrevi em tempos: A criança do Santuário
sábado, fevereiro 06, 2016
Qual a obra de misericórdia corporal que mais tens praticado neste ano jubilar?
A sondagem que tínhamos online constatou como é grande o número daqueles que têm pouca preocupação para que hajam mais vocações ao sacerdócio, embora também não possamos afirmar que existe uma despreocupação geral.
Diz-se por aí que a Igreja actual, sobretudo no Ocidente, está em crise vocacional. Diz-se que cada vez são menos os padres. Diz-se que os Seminários estão vazios. Mas será que a Igreja precisa mais padres ou mais leigos empenhados e comprometidos? Esta sondagem reforçou em mim a ideia de que se calhar o nosso esforço vocacional deveria centrar-se nos leigos, pois estou convencido que quanto mais leigos comprometidos tivermos, mais vocações ao sacerdócio poderemos vir a ter. É apenas uma opinião. Mas dá que pensar!
Hoje surge nova sondagem enquadrada no ano da Misericórdia: Qual a obra de misericórdia corporal que mais tens praticado neste ano jubilar? Por um lado, aproveitamos a oportunidade para recordar as "obras de misericórdia corporais". Por outro, esperamos que nos faça reflectir sobre o modo como temos sido misericordiosos.
quinta-feira, fevereiro 04, 2016
a mãe [poema 90]
Não há mais além
Para dizer uma mãe
Há um aqui em mim
Sem morrer nem fim
Ela é quem nos tem
Ela é o que me sou
Ela é, como dizer,
a mãe
Para dizer uma mãe
Há um aqui em mim
Sem morrer nem fim
Ela é quem nos tem
Ela é o que me sou
Ela é, como dizer,
a mãe
terça-feira, fevereiro 02, 2016
Os ruídos e silêncios da missa
Ainda celebro missas com ruído de fundo semelhante a vento que entra pelas portas mal fechadas. Um ruído que soa a terço rezado e por vezes a repetição das palavras que eu professo. Pensava eu na minha meninice sacerdotal que com o tempo este ruído iria desaparecer. Mas não. Há ainda pessoas nas nossas missas do tempo em que a missa era em latim e dava jeito ocupar o tempo com algo útil, que se percebesse e que fosse autêntico. O autêntico possível. E essa gente é a que ainda tem mais tempo disponível para ir à missa. É a gente de um certo tempo de cristandade. O resto da gente já não tem tempo sequer para rezar terços durante a missa. Ou fora dela.
Incomoda, de certa forma, este ruído. Mas também incomoda ouvir silêncios do lado de lá do altar.
quinta-feira, janeiro 28, 2016
Judas [poema 89]
Vem a noite sublinhada pelas manchas de uma lua
Os discípulos moram em silêncio, o ruído mora ao lado
Numa das pontas ouço e permaneço ainda mais ao lado
O Mestre conta histórias com um belo enredo, cedo
Molho o pão com Ele
Hoje é a minha vez de o levar à morte
Os discípulos moram em silêncio, o ruído mora ao lado
Numa das pontas ouço e permaneço ainda mais ao lado
O Mestre conta histórias com um belo enredo, cedo
Molho o pão com Ele
Hoje é a minha vez de o levar à morte
segunda-feira, janeiro 25, 2016
A Igreja Titanic
Quem já viu o famoso filme da tragédia ocorrida em 1912 que deixou afogar e morrer mais de 1.000 pessoas, deve ter presente como poucas vidas foram salvas. Diz a história que eram poucos barcos salva-vidas, mas que havia neles lugar para mais 470 pessoas além das que foram salvas. Só que, para não se incomodarem os mais doutos, ricos e prestigiados ocupantes do barco, os barcos salva-vidas não foram inteiramente ocupados. Quando o barco enfim se afundou, duas dessas pequenas embarcações regressaram para salvar os sobreviventes, mas a maioria já estavam mortos por afogamento ou hipotermia. Conseguiram ainda salvar 9 resistentes. Conta-se que mesmo assim, de entre as pessoas dentro dos barcos, ainda houve quem resmungasse pela atitude dos que quiseram procurar sobreviventes.
Toda esta situação vem a propósito de uma leitura que fiz há dias e que falava da Igreja como um Titanic. Uma Igreja autorreferencial, voltada para os seus, que tenta a todo o custo salvar-se. Uma Igreja que deixa muitos a afundar porque tem medo de molhar o barco, de o estragar, de correr riscos, de afundar também. Uma Igreja que pode pintar os barcos das melhores cores e apetrechá-los com as melhores máquinas a vapor, mas que esquece a sua missão. Uma Igreja que sabe que deve ir, mas que lhe custa ir e que, por isso, resmunga quando alguém vai. E se vai, muitas vezes já vai tarde. Uma Igreja que tenta aguentar o barco, mas não chega ao cais. Dá que pensar!
sábado, dezembro 26, 2015
Fizemos 10 anos de vida
Ontem, dia 25 de Dezembro, este espaço fez 10 anos.
Na verdade tinha-o iniciado uns tempos antes, como contei em Dezembro de 2006, mas renasceu e aqui está com 10 anos de vida, muitas histórias, muitas amizades, muitos passos dados, muitos textos, muitos comentários, muita coisa que não sei explicar.
Contas feitas:
- 708 textos (544 textos de prosa, 76 sondagens e, nos últimos dois anos, 88 de poesia)
- 13.743 comentários (alguns dos quais também são da minha autoria)
- + de 662.000 visitas contabilizadas
Não sei bem que dizer! É meu costume usar poucas vezes o ponto de exclamação. Gosto mais de frases afirmativas. Porém, hoje é o que me apetece escrever mais. E ao lado dele alguns pontos de interrogação.
O que aconteceu ao longo destes anos está narrado nas palavras escritas, pelo meio delas, em frases não ditas, e com o auxílio de imensos comentários. Não vou esconder que fui muitas vezes ajudado, humana e espiritualmente, pelos comentários aqui deixados. Fazem parte deste espaço, que não é só meu.
Quando penso no futuro, não sei bem que dizer. Não sei bem que vai Deus pedir-me a seguir. Já pensei muitas vezes publicar em formato livro. Mas suponho que isso implicaria dar outro passo, deixando um pouco o anonimato. E não sei se isso é bom para quem me visita. Ou para mim. Às vezes também me vem à ideia um uso maior das redes sociais para que os textos cheguem a mais pessoas. Mas de igual modo não tenho certezas de ser assim que Deus quer. Os textos existem para que quem se encontrar com eles os possa ler.
Não sei muito bem o que por aí vem. Mas sei que já passaram 10 anos e tenho muito para agradecer a Deus. Sinto que neste espaço ficou espelhada a forma como cresci e como cresceu a minha espiritualidade. Sinto que fui muitas vezes força para gente que estava abatida. Sinto que fui algumas vezes um instrumento válido de Deus. E só por isso já valeu. E se, porventura, nalguma ocasião não fui tão correcto ou magoei alguém, mesmo sem querer, deixo agora o meu pedido de desculpas.
Obrigado a todos pelas vossas visitas, comentários, reacções, divulgação e partilhas.
Seja o que Deus quiser!
Quando penso no futuro, não sei bem que dizer. Não sei bem que vai Deus pedir-me a seguir. Já pensei muitas vezes publicar em formato livro. Mas suponho que isso implicaria dar outro passo, deixando um pouco o anonimato. E não sei se isso é bom para quem me visita. Ou para mim. Às vezes também me vem à ideia um uso maior das redes sociais para que os textos cheguem a mais pessoas. Mas de igual modo não tenho certezas de ser assim que Deus quer. Os textos existem para que quem se encontrar com eles os possa ler.
Não sei muito bem o que por aí vem. Mas sei que já passaram 10 anos e tenho muito para agradecer a Deus. Sinto que neste espaço ficou espelhada a forma como cresci e como cresceu a minha espiritualidade. Sinto que fui muitas vezes força para gente que estava abatida. Sinto que fui algumas vezes um instrumento válido de Deus. E só por isso já valeu. E se, porventura, nalguma ocasião não fui tão correcto ou magoei alguém, mesmo sem querer, deixo agora o meu pedido de desculpas.
Obrigado a todos pelas vossas visitas, comentários, reacções, divulgação e partilhas.
Seja o que Deus quiser!
quinta-feira, dezembro 24, 2015
O tesouro [poema 88]
Preparou o seu nascimento
Amou-o como ao primeiro
Preparou-lhe um simples lar
Como casa que já existia
Mandou tecer roupas antigas
Em vasos de barro e argila
Para amar como ele queria
É um tesouro nascido
No local mais escondido,
O homem
Amou-o como ao primeiro
Preparou-lhe um simples lar
Como casa que já existia
Mandou tecer roupas antigas
Em vasos de barro e argila
Para amar como ele queria
É um tesouro nascido
No local mais escondido,
O homem
Aproveito para desejar a todos os meus amigos um Natal cheio desse tesouro!
quarta-feira, dezembro 23, 2015
As três chaves
Tenho três chaves na mão. São chaves que me ofereceram quando ainda não sabia balbuciar que estava vivo. São as chaves imaginárias que coloquei hoje de novo nas mãos para olhá-las e compreender-me.
A primeira disseram-me que abria a porta da vida.
A segunda que abria a porta do paraíso.
A última que abria a porta de Deus.
Disseram-me também que só poderia escolher e ficar com uma. E para me ajudar a fazê-lo, disseram-me que se escolhesse a primeira, escolhia a vida. Se escolhesse a segunda, escolheria a vida em plenitude. Se escolhesse a terceira, era escolhido.
Mas escolhido como? Para quê? De que forma? Perguntei eu. Era escolhido para viver amado, receber o amor em plenitude, viver para sempre em Deus.
Meio encolhido, meio envergonhado, sem me achar merecedor, escolhi ser escolhido. Escolhi a terceira. Afinal era a porta das portas!
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