Ele de óculos. Professor. Ela de um penteado de cabeleireira. Filha de um médico. Gente culta. Entendida. Com formação. Estávamos a preparar o baptismo do seu filho mais novo, o Rodrigo. Até pelo nome parecem o que são. Digo eu, que tenho um nome mais usual. Costumo explicar o baptismo e o ritual com palavras simples, comparações engraçadas. Coisas da vida de cada um. Uma hora de diálogo aberto. Claro que abordamos a fé. O tema. Porque, às vezes, a fé não se aborda. Não está no lugar. Não se sabe. A tradição é que aparece. Ou os avós. Ou a festa de apresentação da criança. Ou sempre foi assim. Ou a religião onde nascemos. Ou… sei lá. Mas o baptismo é uma questão de fé. Nem que seja a fé dos pais ou dos padrinhos.
Depois de umas quantas palavras e sorrisos e assentimentos, o professor rodou a cara ligeiramente. Olhou-me de soslaio e declarou. Honestamente Senhor padre, como podemos ter a certeza da nossa fé? Não leve a mal. Pode até parecer que não sabemos o que estamos a fazer. Mas esclareça-me, por favor.
Depois de umas quantas palavras e sorrisos e assentimentos, o professor rodou a cara ligeiramente. Olhou-me de soslaio e declarou. Honestamente Senhor padre, como podemos ter a certeza da nossa fé? Não leve a mal. Pode até parecer que não sabemos o que estamos a fazer. Mas esclareça-me, por favor.
Apanhou-me desprevenido. Não o tema, mas a pergunta. E falámos mais uns largos minutos. A fé não é fruto de certezas, mas pode ser uma certeza. Ou ser uma certeza nossa. São coisas distintas. A fé é fruto do coração e não da razão. Não podemos raciocinar a fé. Podemos senti-la. E podemos ter a certeza desse sentimento. Quando acreditamos (em algo que é mistério) estamos a sentir que amamos e não a provar que conhecemos o mistério. Esta dualidade é que confunde muito as pessoas. Quando um jovem se enamora de uma jovem não tem certezas de saber quem ela é, como é ou como vai ser. Mas ama. E mesmo depois de casado, vai descobrindo novas coisas, porque está mais próximo da amada. Porém, esta permanece um mistério. E porém também, ele continua a querer estar do lado dela, a querer viver com ela. É mais ou menos assim a fé. De qualquer forma, quando a fé é verdadeira, ela passará indubitavelmente por momentos de incerteza e de dúvidas. Mas é isso que a enriquece. Também não concordo muito com aqueles que têm a fé porque sim. Só por isso. Que não questionam. Costumo dizer que essas pessoas vivem mais a religião que a fé. E Deus o que nos pede é que vivamos a fé.
Não sei se expliquei bem. Ou o suficiente. Eles foram embora com vontade de voltar, disseram. Fiquei apenas com a certeza da minha fé.
Não sei se expliquei bem. Ou o suficiente. Eles foram embora com vontade de voltar, disseram. Fiquei apenas com a certeza da minha fé.