segunda-feira, fevereiro 23, 2026

A Igreja fácil

Vivemos num tempo do fácil. Tudo tem de ser fácil, de fácil acesso, de fácil consumo, sem dificuldades, adversidades, contratempos, sacrifícios ou compromissos. Sem um não aos nossos desejos e vontades. Neste contexto, a Igreja tem-se tornado um espaço ou um lugar onde o fácil também acontece. Ou, para sermos mais honestos, um espaço onde os seus principais agentes facilitam para se tornarem populares de forma mais fácil. Infelizmente, quando um padre exige alguma coerência entre o sacramento que se exige como um direito e a vida que lhe deve corresponder, está a alterar as regras deste tempo. Li algures a um outro colega, referindo-se a este tipo de situações, que “o consumidor não quer ser discípulo; quer ser cliente”. Concordo. Por isso se não há nesta loja, vai-se à loja do vizinho. Procura-se o padre facilitador, aquele que, como referia esse colega, “por preguiça pastoral ou medo de ser impopular, ‘despacha’ sacramentos”. E depois este padre é que é bom e aquele é que é mau. Mede-se o padre pelo facilitismo com que ele se presta a ser um comerciante do sacramento. Este é que é o padre porreiro. O outro é o padre que afasta as pessoas da Igreja. Como se estas pessoas não estivessem já afastadas e não quisessem manter-se nesse afastamento. Vivemos num tempo do fácil e, muitas vezes, por causa do porreirismo, a Igreja vai-se transformando, muitas vezes, numa Igreja fácil.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma conversa de acolhimento e imposições"

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

O Martim e o Miguel

O Martim é acólito. Ou melhor, é um quase acólito. Fica ao meu lado na missa, e vai ajudando quem ajuda à missa. Está a aprender e um dia destes vai ser acólito à séria. Porém, no dia da festa queria ficar ao pé do amigo Miguel. Olhe, senhor padre, hoje não vou para ao pé de si, pode ser? É que queria ficar ao pé do meu amigo Miguel. Estar com os amigos é uma ideia excelente, e é assim que somos Igreja. Por isso me congratulei com a ideia do Martim e decidi lançar-lhe um novo convite. Trazes o Miguel contigo para ao pé do altar e ficamos todos juntos. E assim foi. O Martim ficou feliz da vida e o Miguel da vida ficou feliz. O Martim aprendia e ensinava e o Miguel aprendia e sorria. Foi uma missa muito mais bonita.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Miguel e a guerra"

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Deus baixíssimo

O Altíssimo abaixou-se para ser o Baixíssimo. Assumiu a carne frágil da humanidade. Depois subiu novamente. Mas subiu para o lugar da morte, a cruz. Subiu para baixar ainda mais. Para baixar aos mais periféricos dos periféricos, os criminosos. Devo dizer que me custa imenso pensar num Deus que se deixa associar aos criminosos! Não há baixeza maior! O Deus que tudo pode, baixa-se como nenhum de nós se baixa. Basta pensar nas vezes em que buscamos algum tipo de superioridade em relação ao nosso próximo, em relação ao nosso semelhante. Apesar de ser um gesto que se tem vindo a perder, mesmo nos momentos mais íntimos da liturgia, ainda há quem se ajoelhe diante de Deus. Pergunto-me, no entanto, se não será um rito sem verdade quando não aprendemos a baixar-nos de verdade. O Papa Francisco dizia que a única ocasião em que devíamos estar acima de alguém era quando estendíamos a mão para levantar essa pessoa. Infelizmente, mais rápido nos achamos mais superiores que os outros e os tentamos abaixar a nós. Deus baixíssimo nos ajude! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Indizível amor"

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Epístola de S. Paulo aos coelhenses

A senhora Delina, para além do nome estranho, tem outras coisas estranhas. Mas é muito bem-intencionada e está sempre pronta, nos seus setenta e muitos anos, a ajudar na comunidade. Também faz parte do grupo de leitores. Troca muitas letras e, por isso, também troca muitas palavras. Bem lhe digo para treinar a leitura, mas não adianta nada. Eu estou convencido que ninguém, para além de mim, dá conta. As frases não fazem o mesmo sentido, mas acho que muitos dos nossos cristãos ouvem as frases sem ouvir o sentido delas. Claro que exagero. Mas como ninguém se queixa das frases que a Delina muda e transforma, estou convencido de que o que interessa é que se trata da Palavra de Deus e ponto final. Por isso é que quando a Delina trocou a epístola de S. Paulo aos Colossenses por epístola de S. Paulo aos coelhenses, só eu é que me ia escangalhando a rir. O resto da comunidade manteve-se impávido e sereno.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A leiteira de S. Paulo"