terça-feira, janeiro 27, 2026

nós não somos Igreja

Umas semanas após o início da catequese, reunimos aqueles que entraram pela primeira vez nesta caminhada de fé. Aquelas caritas entusiasmadas encheram a igreja. Era a primeira vez que eram o centro da comunidade. Havia uma festa para eles e o entusiasmo era tanto que nem sabiam como sossegar nos bancos. A homilia foi quase toda para eles. Falámos da Igreja, da importância da Igreja, do que era ser Igreja. Estiveram muito atentos a aprender tudo, até ao momento em que lhes disse que eles eram Igreja. A gargalhada foi geral. Pensavam que eu estava a brincar com eles. Por mais que insistisse que eles eram Igreja, não acreditavam. Ó senhor padre, como é que nós somos Igreja se não somos feitos de pedra, disse um garotito mais espevitado e atrevido. E todos riram à gargalhada.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

sexta-feira, janeiro 23, 2026

entre o dia e a noite [poema 402]

sento-me à mesa com o prato nas mãos 
equilibra-se nos dedos, como a vida 
não tenho fome mas como, assim me aguento 
entre o dia e noite 
 
ontem chorei antes de me sentar à mesa 
não havia mais pratos e isso assustou-me 
onde estão os outros pratos? assim não há vida 
entre o dia e a noite 
 
um vento passa e levanto-me da mesa 
o prato vem colado a mim, onde quero comer? 
e o vento volta a passar, como peregrino 
entre o dia e a noite 
 
leva-me 
entre o dia e a noite

terça-feira, janeiro 20, 2026

A Joaninha

A Joaninha portara-se um bocadinho mal. Digamos que um bocadinho era favor, mas ela era uma querida e custa dizer que se portou mal próximo do muito mal. A mãe teve de intervir com algumas palavras duras e uns olhares reprovadores, mas a pequerrucha resistia com as suas razões de oito anitos. Não tardou muito em magoar a mãe. Por isso, esta teve de lhe lembrar uma coisa que a filha não podia esquecer. Joana Maria, tu não te esqueças que fui eu que te dei a vida. A Joaninha não desarmou e, tal como aprendera com a catequista Amália, respondeu prontamente. Isso não é verdade, mamã. Quem me deu a vida foi Jesus. A mãe teve de esconder o rosto da admiração e da vontade de sorrir. Pois, pois, Joana. Mas ele deu-te a vida através da tua mãe, que sou. A Joaninha tinha a sua razão e a mãe também tinha, e muito bem, a sua razão. Ainda assim, é bom ouvir pequerruchos a falar de Jesus desta maneira. Foi Jesus que me deu a vida, mamã.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista e o menino"