quarta-feira, outubro 31, 2012

Aos berros com Deus

Desci as escadas zangado. Antes de pisar o primeiro degrau estivera a dizer umas quantas coisas ao lá de cima. Acabado de descer o último degrau, deparei-me com uma paroquiana de rosto fechado. Esbocei um sorriso largo e ela também. Olhei-a nos olhos e ela fez-me o mesmo. Sorrimos ambos como se quiséssemos fazer de conta que nada se passava. E o padre foi o primeiro a quebrar o sorriso. Então, dona Teresa, que se passa? Não sabia que fazer da vida e não entendia porque Deus não agia na vida dela como ela precisava. Nem a propósito, disse eu. Ainda agora estive a ajustar umas contas com Ele. A dona Teresa abriu o rosto de admiração, e disse, Olhe que às vezes apetecia-me berrar com Deus. Sosseguei-a respondendo que não havia mal nisso, e que eu berrava com Ele muitas vezes. Mais vale dizermos aquilo que pensamos. Afinal Ele já sabe e nós ficamos aliviados. Eu acho até que pode ser uma interessante forma de oração.

16 comentários:

Anónimo disse...

"...Não sabia que fazer da vida...".
Também eu não sei o que fazer da minha. Literalmente.

Também não me apetece "berrar" com Deus, pois "berrar" não faz parte da minha forma de expressar sentimentos.

Quando alguém berra comigo, e acontece dentro da própria casa, eu faço silêncio e escuto.

Costumo dizer que com berros
ninguém me leva a lado algum.

Assim eu faço com Deus, não consigo berrar com Ele.

Acho que se berrar com Ele o afasto ainda mais de mim.

Provavelmente estarei enganada e mesmo quando sinto muita revolta não berro com facilidade.



Adalberto Macedo disse...

Confessionário.
Dificilmente poderia estar mais de acordo com o teu “post”. O que mais me maravilha nisto é pensar que, afinal, a minha irreverência não é tão estupida como isso, pois chegamos a logicas muito próximas, ainda que, admita, partindo de pontos opostos.
Tenho uma antipatia quase congénita com os teólogos que explicam Deus nas suas virtudes, emoções, birras até; numa exegese complicada ao ponto de dizerem: quando Deus (J.C.) disse isto … queria dizer aquilo …! Para mim a Teologia deve procurar Razões para a Fé, partindo da Antropologia para a Teologia e não o contrário. Sempre tive muita dificuldade em vergar-me ao temor com que me catequisaram em criança e o efeito contrário que provocou em mim ainda hoje se mantem.
Também eu tenho tido discussões (muito acaloradas) com o deus que me impingiram em criança! Quem me catequizou mostrou-me um deus: rei, poderoso, justiceiro, com regras muito rígidas (faltar à missa era pecado mortal) e muito pouco piedoso. Felizmente já exorcizei esse deus e tenho tido grandes conversas com um Outro, -Tu cá tu lá-, mas que não vou abordar aqui para que não se riam de mim!
Deus não é o causador das desgraças que lhe atribuímos. Não altera as leis da Natureza porque lhe pedimos ou porque nos mortificamos para que através do nosso sacrifício (reparador) aceite uma cunhazita. Deus não faz milagres “à la carte” . Fui submetido a um transplante de alto risco e não lhe pedi nada! Se correu bem, se calhar é porque o merecia ou por outro motivo que não cabe a mim explicar. Comparo os milagres como o Bombeiro que ateou o fogo para depois ser o primeiro a chegar apagar o incendio e sair em grande, com grandes aplauso.
Um abraço, confessionário. Vou continuas nas minhas interpelações … se Ele estiver para aí virado :))

JS disse...

E eu continuo a insistir: far-nos-ia muito bem ler com calma o livro de Job nas nossas igrejas...

Joana disse...

Uii, é o pão nosso de cada dia...mas depois peço-Lhe desculpa, claro :)

Anónimo disse...

Mas que é isso!?
Um padre a berrar com Deus?!
E ainda diz que pode ser oração?!

maria disse...

Quando Jesus louvou e desafiou a que fossemos como crianças, mas não estava a sugerir que fossemos infantis.

neste texto vejo a pessoa que se coloca interiormente na verdade, sem dissimulações para que seja aceite e obtenha o que quer (atitude infantil).

E a partir da zanga (emoção) parte-se para a racionalização e responsabilização. Tendo como pano se fundo, como bem diz o JS, a atitude de Job.

Abraço, amigo J.

Anónimo disse...

Se eu não gritar com Deus as pedras gritarão por mim até que o silêncio divino se cale para sempre… só um coração de criança pode e é capaz de falar desta forma ousada com o próprio Deus que se fez Abba Paizinho…

“Alguns dos fariseus que estavam no meio da multidão disseram a Jesus: Mestre, repreende os teus discípulos! " Eu lhes digo", respondeu ele, se eles se calarem, as pedras clamarão". Lucas 19,39-40

Filha de Maria disse...

Sem qualquer pretensão, partilho aqui o que aconteceu comigo:

Miúda revoltada com a vida, que queria apenas uma família normal e feliz... um dia sai de casa para ir a missa e ia naturalmente revoltada, o meu coração "gritava" assim a Deus;

Olha meu Deus; Tu que criaste tudo, que fazes e desfazes... desvenda lá este grande mistério... eu não sou desta família, não posso ser... devem ter-me trocado à nascença.

E nesta "gritaria", dei-me conta de um grande erro, semelhanças fisionómicas, e voltei á carga;

Olha meu Deus... não terei por acaso um meio-irmão mais velho, por aí? Vê lá bem... eu não me importo, que seja apenas meio-irmão, contando que seja mesmo meu amigo.

No fim... senti-me mal, por ter gritado com Deus... atafulhei este diálogo dentro de mim, no mais fundo que encontrei e segui caminho para a Missa.

As dores e revolta foram crescendo comigo, um dia afastei-me da Igreja!

Doente, cansada e triste entrei de novo na Igreja... magoada com a vida e com as pessoas e sem "meio-irmão mais velho". Desta vez senti viver duas parábolas;

Filho pródigo e Bom Samaritano.

Tinha aberto finalmente o meu coração a Deus... alguns meses depois (vários), recebi da mão do Pai Celeste, um irmão mais velho, um irmão espiritual... quando me dei conta, chorei de alegria por muito tempo... não queria acreditar, que ao fim de mais de 20 anos, o meu pedido tinha sido ouvido.

Hoje, as circunstancias da vida encarregaram-se de me tirar este meu irmão mais velho, mas no meu coração ele está lá, e não me esqueço que é um presente de Deus para mim, e por isso rezo por ele todos os dias no 3º mistério do Terço.

Quando gritamos com Deus, não O ouvimos e assemelhamos-nos a imagem do naufrago que quase afoga o nadador salvador!

O tempo de Deus, não é o nosso. Foi isso que aprendi!

A Paz de Cristo.

Ruth Bassi disse...

Ola Padre,
Quando li o teu post quase tambem ia gritando com Deus; mas nao.
Toda a vida me tenho controlado para nao magoar este ou aquele. Nao faria sentido que fosse agora magoar o proprio Deus - ja bastam as faltas cometidas voluntaria ou involuntariamente.
Mas, tambem penso que, nao podemos zangar-nos com ELE porque as coisas nao nos correm bem; temos e necessidade de nos consciencializarmos da linha de conduta a seguir e em que ELE esteja incluido. Provavelmente iremos sentir-nos mais confiantes.
Beijinho
Ruth

Anónimo disse...

Sou o Anónimo de 01 Novembro, 2012 00:20

Volto aqui porque não estou a entender muito bem alguns conteúdos de comentários que aqui foram partilhados…!

Palavra de honra que não entendi ainda porque chamamos Pai a Deus e depois parece que temos de agir em tudo com esse mesmo Pai como se ele fosse uma espécie de HÍBRIDO e nós também, onde os sentimentos humanos que nos formam a mesma humanidade que o Filho ENCARNOU totalmente dão asas à linguagem do coração libertando-se em expressões de gritos, ou na oração mais silenciosa… ou seja lá no que for e como for…. mas é tudo aquilo que signifique FALAR-COMUNICAR com Ele…. e agora, por uma qualquer razão que desconheço!!! esses sentimentos apagaram-se abafados por uma qualquer espécie de santidade desumanizada…!

Mas não foi esse o próprio FILHO de DEUS que soltou o último grito na Cruz questionando o próprio ABANDONO de Deus…!

Mas afinal que Deus estamos ou andamos nós todos aqui a falar nestes espaços…!?

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigénito do Pai.“ João 1,14

Ò gentinha de bem…. O VERBO….. o próprio DEUS fez-se CARNE…. com todas as implicações que isso carrega…

Como poderemos nós anunciar e oferecer aos outros um Deus totalmente desencarnado que não consegue ou é incapaz de escutar um GRITO de um filho nos momentos das suas maiores angústias também… meu Deus onde andamos nós a louvar e a adorar esse mesmo Filho que ENCARNOU… será que é em alguma espécie de ESTUFA ISOLADORA de sentimentos e das linguagens que os expressam… digam-me… quem é esse Deus que aqui falam alguns…!

Anónimo disse...

Errata:

….parece que temos de agir em tudo com esse mesmo Pai como se ele fosse uma espécie de HÍBRIDO e nós também

que impede de sermos gente como qualquer outra gente normal e corrente,

onde os sentimentos humanos que nos formam a mesma humanidade que o Filho ENCARNOU totalmente dão asas à linguagem do coração libertando-se em expressões de gritos, ou na oração mais silenciosa… ou seja lá no que for e como for…. mas é tudo aquilo que signifique FALAR-COMUNICAR com Ele….

Desculpem ….

Ana disse...

Adorei a imagem “entra no teu quarto e reza” -despe-te! tira esses mantos- o padre tem a sorte de poder levar essa intimidade com Deus até as escadas de casa!! É um felizardo! Imagino que o resto do dia seja de agradecimento! Tanto espaço só para os dois. O óptimo disto! é que o mesmo se repete em tantos outros lares com tantas outras pessoas. Somos uns felizardos.

Ana Melo disse...

Adorei a imagem, “entra no teu quarto e reza” -despe-te! tira esses mantos- o padre tem a sorte de poder levar essa intimidade com Deus até as escadas de casa!! É um felizardo! Imagino que o resto do dia seja de agradecimento! Tanto espaço só para os dois. O óptimo disto! é que o mesmo se repete em tantos outros lares com tantas outras pessoas. Somos uns felizardos.

Maria disse...

Eu já deixei de berrar, agora sussurro, mas acho que Ele me ouve na mesma.
Beijinho.
Maria

Adalberto Macedo disse...

Anónimo do dia 1 e das 20.23.
Com toda a simpatia, e se me permite:
- Compreendo que não compreenda, palavra de honra. Compreendo que discorde! O que eu não compreendo é que não compreenda que “gentinha” diferente, de diferentes catequeses, tenha/possa ter dialéticas diferentes.
Entre “Doutores”, na escolástica clássica cristã (em Agostinho, por exemplo) a razão foi quase hostilizada ao contrário de Tomás de Aquino! O franciscano inglês Guilherme de Ockham., esse, viria “ a partir a loiça toda” …!
Abraço.

Anónimo disse...


Quem berra não ouve o outro, desabafa, mostra o seu descontentamento, mas dá-lhe importância. Sinto que quando se berra podemos correr o risco de não perceber os Seus motivos, mas podemos ter simplesmente esperado sem resposta, então berramos protestando o silêncio… o silêncio de Deus é felizmente afinal o que me tem feito falar-lhe da forma mais parecida com o “berrar”, mas esta forma não me agrada, nada melhor que um diálogo…