domingo, novembro 04, 2012

Uma romagem animada

Tínhamos acabado de chegar ao cemitério para cumprir a nossa romagem, como é hábito nesta época. Já estavam todos à minha volta para darmos início à Celebração, quando dois cães decidiram penetrar no círculo, por entre as pessoas. Começa o enxotanço daqui e dali. Uns com um psit, não sei se apropriado mas sonoro. Outros com o pé, como se os pobres animais fossem duas bolas de futebol. Graças a Deus que ninguém lhes acertou. Mas talvez por isso os ditos animais teimaram em voltar ao centro da cerimónia. Todos nos distraíamos com a situação. Até que uma senhora chegou à fala com um deles, o que lhe havia passado mais perto. Psit, vai lá para a rua. Ó meus amigos, desculpai, mas não resisti. E no mesmo tom da senhora, embora entre os dentes e mais envergonhado que ela, eu acrescentei. Mas na rua já ele está. Pois claro que a senhora queria dizer Vai lá para fora do cemitério. E todos o havíamos entendido. Só que não resisti. E comigo, nenhum dos romeiros resistiu em soltar uns valentes sorrisos. E assim tivemos uma romagem ao cemitério mais animada. Não que tenham de ser necessariamente alegres, ou alegres desta forma. Mas, a meu ver, seriam mais verdadeiras as romagens que nos fizessem sentir a alegria da Vida Eterna. Ponto final, que ainda estou com vontade de me rir.

12 comentários:

Joana disse...

"Ponto final, que ainda estou com vontade de me rir."

Eu também :)

Adalberto Macedo disse...

Tudo depende da forma como entendemos que devamos horar os nossos mortos: de preto, sisudos, intolerantes e cara de poucos amigos; ou, bem dispostos e afáveis com a perspetiva de que podemos estar a festejar o inicio de um ciclo, por ventura mais feliz.
Perto do Gurué, nos montes Namuli (Zambézia – Moçambique), os trovões são entendidos como a abertura das portas do além quando dão entrada da alma do falecido. ( ohuleliwa Mulako). Homenageiam as pessoas queridas falecidas com festa, música e muita comida em alegres rituais a que chamam (Maqueya)

Anónimo disse...

Provavelmente esses dois caezitos sentiam-se sós, viram tanta gente e decidiram juntar-se ao grupo. Quem sabe se não estaria por lá o dono? Esta é uma época que nos leva mais além no pensamento, remetendo-nos muitas vezes ao silêncio e ao sentir-mo-nos sós, independente de podermos estar rodeados de pessoas. Permitam-me este sentir, os animais têm na minha vida um lugar muito especial. Quando estou triste, apesar de tentar esconder dos que amo para não sofrerem, dos meus caes não consigo esconder. Eles são os primeiros a aproximarem-se e como que a dizerem: "não estejas triste, eu estou aqui". Isto é delicioso. Provavelmente so o entenderá quem tiver e conviver com os animais. Eles tambem gostam de carinho, de companhia. Afinal também são criaturas de Deus. Pessoalmente não enxotaria esses caes, deixava-os acompanhar, não estariam a perturbar! Opinião minha.

Anónimo disse...

"...seriam mais verdadeiras as romagens que nos fizessem sentir a alegria da Vida Eterna".É mesmo.Meditar sobre a nossa precariedade ,sabendo que um dia a mão de Jesus estará estendida para nos receber no seu regaço.A nossa cultura sobre a morte,não tem permitido alargar os horizontes eternos.Aprecio imenso que haja outros povos,que celebram o ritual da morte com naturalidade e com alegria.(Alma Rebelde)

Luz disse...

Boa noite padre.
Até, eu me ri, ao imaginar esta situação.
Uma boa semana para todos.

Anónimo disse...

Boa tarde
:)
"...Mas na rua já ele está. ..."
Outra "saída" de mestre, desta vez com bom humor.
Você faz-me lembrar o pe. da paróquia onde moro.
Também ele, (apesar da rabugice e da idade), a brincar a brincar vai fazendo notar coisas bem mais sérias.
Um dia destes conto-lhe aqui a última dele, não o faço hoje porque nada tem a ver com este post.
Admiro-o a ele que conheço, admiro-o também a si, por esta forma tão subtil de fazer "rir".

Anónimo disse...

”Tínhamos acabado de chegar ao cemitério para cumprir a nossa romagem, como é hábito nesta época.”

Não sei como te permites empreender e acompanhar tais viagens apenas para “cumprir” algo que é ”habito” fazer… julgava-te uma pessoa livre…

…e tanta gente numa cama de um hospital ou numa cadeira de um lar à espera de uma visita…

Confessionário disse...

Não. Não sou livre a esse ponto. E já o dei a entender milhares de vezes!

Ruth Bassi disse...

O facto que contas, Padre, tem o merecimento de ter descontraído uma situação que se avizinhava de tristeza ou, pelo menos, queria parecê-lo.

Ruth Bassi disse...

O facto que contas, Padre, teve, pelo menos, o merecimento de descontrair uma situação que se avizinhava triste ou, pelo menos, queria parecê-lo.
Mas, não teria sido preferível levar os animais para fora do cemitério com um pouco de carinho?
Afinal, eles também são obra do Criador e, nesse caso, estariam talvez abandonados e sedentos de algum calor humano - eles que, normalmente, defendem e amam os seus donos ou os que deles tratam.
Parece que na tua paróquia o Amor anda muito arredio mas, com a tua persistência, hão-de melhorar.
Beijinho
Ruth

Ana Melo disse...

Quando me perguntam, se nem um cão tenho para me fazer companhia!? eu digo que gosto de ver os cães livres (no entanto hoje já me questiono, visto que as “farturas” importaram p´ra aí umas raças que assustam). Eu!! Nem cão nem gato nem piriquito, nem grilo, e até as moscas as gosto de ver ao longe - lá em casa até as plantas são cactos - para não pedirem muita atenção. Animais para mim! por perto! só os que depois de engordados servem de alimento às pessoas.

Este dia!!! e as romagens aos cemitérios!!!! (na minha terra, acho que nunca houve dessas com padre), apercebemo-nos de muitas histórias diferentes, e vividas de muitas maneiras diferentes. Eu lido bem com a morte, tantas vezes vejo as pessoas lidarem tão mal, que tenho medo que seja eu que esteja ”meia” alienada, e que, a qualquer altura fique igualzinha a maioria das pessoas. Pessoas que se agarram ao que podia ter sido, e que nunca mais se deixam viver.

À minha mãe! Embora não tenha largado nunca as roupas pretas, nunca a vi dramatizar a morte, de maneira doentia.

Não! não é por já, eu não ter passado por situações de morte, que normalmente deixam marcas para a vida! o “meu” primeiro namorado , tinha eu 19 anos morreu de acidente rodoviário, com um dos meus irmãos a conduzir (noites de copos, neste caso pensei muito mais no sofrimento da mãe dele, do que no morto ou em mim), o meu pai não sendo novo, também morreu em pouco mais de 2 horas, aos 65 anos. Apercebo-me em mim, muito do choque silencioso do momento, mas muito rapidamente também, vejo o lado da “libertação” de quem morre! Penso muito! que se não tive a “sorte” de ser eu a morrer, não devo, não posso, passar a vida a vive-la quase morta.

Isto é doentio padre?! são sintomas de alguma doença?! Isto um dia destes passa, e eu vou sofrer horrores?!

Anónimo disse...

Ó padre, não são só os cães que metem o bedelho onde não são chamados! Há tanta gente assim!! psit, ruaaaaa