quarta-feira, novembro 28, 2012

O Henrique e os tamanhos a mais de algumas pregações

O Henrique mora nas minhas paróquias, perto da casa da mãe onde costumo ir comer de vez em quando. São gente que se nota ao longe a sua beleza. Gente que não olha a muitos meios para amar à maneira de Deus. E por isso ali vou quase todas as semanas partilhar do seu comer. O Henrique é filho desta gente e irmão da Luísa. O Henrique, que andou num colégio de padres, deixou de ir à missa. Deixou-se destas coisas, embora ache que gosta muito de Deus. A Luísa vai à missa, e deixou-se deslumbrar por este padre que lhe está a mostrar um rosto diferente de Deus, diz ela. Que a está a encantar com as suas palavras na homilia, com os seus gestos fora da missa, com as coisas que vai criando ou incentivando, com a forma como acaba por ser, de certo modo, exigente à maneira de Cristo. Enfim, pela boca dela, poderia enumerar uma série de coisas do padre novo que está nesta paróquia que é minha. Tem contado ao irmão este seu sentir. O Henrique, apesar de ser gentil, faz cara de desconfiado. Mas há dias teve, por força da proximidade, de ir à missa onde se baptizava um sobrinho. Até aqui tudo normal. Quando o vi, e por saber da sua mais ou menos renitência em ir à missa, achei que estava na hora de lhe pregar um “susto”, entre aspas. E pelos vistos, consegui. Umas horas depois da missa tivemos oportunidade de conversar, eu o Henrique, ao que ele me disse que estava assim como que de boca aberta. Já tinha visto e conhecido muitos padres, mas a irmã afinal tinha razão. Era um comunicador excelente. Não só falava claro, como quase obrigava a que se estivesse muito atento. Criava um suspense no que dizia. Tinha um raciocínio lógico. Numa palavra, ficara deslumbrado. Eu ouvi com uma certa alegria. Vá, na verdade foi mais um certo gozo. E como se não bastasse, mostrei-me muito de acordo com ele. E no meio de um discretíssimo Mas o mais importante não é o como disse, mas o que disse, ainda me dei ao desplante de acrescentar mais uns atributos à minha homilia. Não a mim, não. Repito que foi à minha homilia! Que ela tinha um princípio, meio e fim, que me saía com naturalidade, que gostava de estar a falar com as pessoas e não para as pessoas, e até certo ponto eu poderia ter razão. Só que a perdi completamente, quando, de um momento para o outro, se deu o inesperado. De cerca de um metro e setenta, passei a ter seis metros e setenta. Fiquei a um palmo do teto da casa. O meu tamanho deveras não cabia em mim. Não lhe disse, mas informei-me, para o caso de eu não ter reparado, que assim é que valia a pena ser padre. Mas quando cheguei a casa, com tanto inchar, com tanto metro a mais, ia-me espalhando ao comprido na entrada da minha humilde casa porque tive de me debruçar para entrar. E de repente, aquele que tinha seis metros e setenta, ficou com pouco mais que seis centímetros. Que vergonha ter caído na tentação de me colocar à frente de Deus, de ter ousado querer um prémio em troca da pregação da Palavra e do Reino de Deus. Como se o importante não fosse aquilo que pregava, mas aquele que estava a pregar, o pregador. Deixai-me ao menos terminar com o meu tamanho normal. Cerca de um metro e setenta.

18 comentários:

Anónimo disse...

Um coração amado não tem medidas... embora os ossos por vezes dançem o tango do aleluia quando este se queixa...

... fratello... abraço forte...

Idalina disse...

Pois eu acho que é mesmo assim que vale a pena ser padre e que tem direito a "ficar inchado", enquanto isso significa o sentimento do dever (bem) cumprido. Acontece-me por vezes ir a uma missa donde saio com uma incrível sensação de vazio - missas com o aspecto mecânico de quem cumpre apenas um ritual. Tudo bem que é a Pavavra de Deus que o padre transmite na homilia, mas é muito importante o modo como o faz. E se esse modo provoca nos "ouvintes indecidos" a vontade de voltar, então a sua missão enquanto padre está a ser bem feita, e se daí surgirem elogios que o fazem "crescer", Ele entenderá...afinal é humano!

Adalberto Macedo disse...

Confessionário.
Acho que depois do post da religiosidade, a conversa com o Henrique, “caiu que nem ginjas”! Essa dose de auto estima nada tem de sobrançaria, muito antes pelo contrário. A pregação não existe sem pregador, e a Palavra tanto pode ser enfadonha e durar um momento, como mudar a vida de quem a ouve. Isso é mérito e responsabilidade do pregador. Assim como precisas Dele, também Ele necessita de ti: se a Palavra é viajante, o pregador é a estrada; não tem sucesso uma boa letra se não tiver de um bom cantor.
Gostei deste comentário. Mentalmente pus-me no lugar do Henrique e fiquei a pensar que seria muito interessante falar contigo.
Abraço

Anónimo disse...

Bom dia!
Fez um relato que foi de encontro à forma como imagino que sejam as celebrações a que preside.
No final do dia de ontem, tive uma surpresa semelhante à que deve ter tido o seu Henrique.
Sabia que o formador de ontem seria um padre que não me "caía em graça" e não sei explicar porquê, inventei-me mil e uma desculpas para faltar, mas nenhuma delas tinha consistência, para seguir em frente e fazer com que eu faltasse.
Lá fui eu convicta de que passaria 2 horas sem abrir a boca.
O homem ontem não levou a guitarra e começou o encontro com uma oração, sem fórmulas, simples mas muito bonita, aquela oração fluía através dele naturalmente, percebi nitidamente que não fora estudada,(embora tivesse como se costuma dizer, principio meio e fim), nem decorada préviamente, fechei os olhos e deixei-me conduzir...
Senti o silêncio e quando os abri estavam já todos sentados excepto eu e o padre que se mantinha à minha frente a olhar para mim. Fiquei vermelha, pedi desculpa e sentei-me.
O homem esboçou um sorriso, e lá começou a lição.
Obrigada! disse-me no final, Obrigada por me ter permitido ver o que hoje vi em si.
Foi muito importante para mim, saber e sentir que as palavras que pronunciei chegaram ao coração de alguém, chegaram ao seu coração.
Afastei-me sem lhe dizer nada, mas a pensar no sucedido.
Ontem nem ele era maior que eu, nem eu maior do que ele, ontem pela primeira vez, acho que nos vimos do mesmo tamanho e os dois conseguimos ver o quão grande é o DEUS que habita em nós.
Gostei muito de ler este seu post.
Fez-me bem.
Obrigada também por me permitir escrever neste seu espaço.
Obrigada pela partilha e pela oportunidade de partilhar estas coisas, certamente insignificantes para a maioria das pessoas mas importantes para mim.
Obrigada!

Joana disse...

Adalberto Macedo;

Gostei e concordo com o seu comentário!
"Roubou-me" as palavras. lol :)

luz disse...

Boa noite padre.
Gostei do que li.
Nós muitas vezes precisamos também de sentir que gostam do que fazemos, ou que as nossas palavras não caem em saco roto.

Todos os Domingos vou à Eucaristia, a uma paróquia vizinha porque realmente o padre transmite a Palavra de Deus com clareza (principio ,meio e fim)e com entusiasmo. É assim que deve ser....
Não se sinta culpado,nem envergonhado...deve tranquilizar-se
e ficar em paz com a sua consciência.
Um abraço amigo.

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes disse...

Toda a braseira para se manter viva e acesa precisa de ser soprada...é perfeitamente humana a sensaçao de te veres agigantado...em resultado do que fazes ou do que dizes. És um violino nas m~~aos de Alguém...que toca como ninguém...basta apenas seres violino...quando andava no seminario, pensava tanta vez: - como é que desta gente, por vezes muito reles...invejosa...mesquinha...terrorista uns para os outros...v~~ao sair um dia, sacerdotes?...E deram mesmo...e muitos deles , a maioria, foram e s~~ao bons sacerdotes...
É assim mesmo. Deus faz maravilhas, através de nós...em qualquer arte a que nos dediquemos. Maas, na de ser padre..muito mais. Agora, cá de fora, vejo bem que assim é. O sacerdote tem a particularidade de ser o especialista de ent"rar pelas "almas" dentro...e sentar-se à nossa mesa...de quem , no fundo, n~~ao olha a meios"...para amar e por amor.
Preocupa-te só em seres fiel...a Quemserves como homem e sacerdote.

Adalberto Macedo disse...

Joana.
Agradeço-lhe a referência e aproveito a oportunidade para voltar à liça e contar uma estória que ilustra o meu comentário anterior:
-Certa vez, um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Ele acordou assustado e mandou chamar um sábio para que interpretasse o sonho.
“Que desgraça, Senhor!” –exclamou o sábio.”Cada dente caído representa a perda de um parente de Vossa Majestade!”.
“Mas que insolente” –gritou o sultão. “Como se atreve a dizer tal coisa?!”
Então, ele chamou os guardas e mandou que lhe dessem cem chicotadas. Mandou também que chamassem outro sábio para interpretar o mesmo sonho.
O outro sábio chegou e disse: “Senhor, uma grande felicidade vos está reservada! O sonho indica que ireis viver mais que todos os vossos parentes!”.
A fisionomia do sultão se iluminou e ele mandou dar cem moedas de ouro ao sábio.
Quando este saía do palácio um cortesão perguntou ao sábio: “Como é possível? A
interpretação que você fez foi à mesma do seu colega; no entanto, ele levou chicotadas e você moedas de ouro!”.
“Lembre-se sempre” – respondeu o sábio. “Tudo depende da maneira de dizer as coisas, e esse é um dos grandes desafios da Humanidade. É daí que vem a felicidade ou a desgraça; a paz ou a guerra. A verdade deve ser dita sempre, não resta a menor dúvida, mas a forma como ela é dita, é que faz a grande diferença”.
(Auto desconhecido)
Abraço

Joana disse...

Olá Adalberto Macedo;

Gostei da sua estória, principalmente desta passagem:

“Tudo depende da maneira de dizer as coisas, e esse é um dos grandes desafios da Humanidade. É daí que vem a felicidade ou a desgraça; a paz ou a guerra. A verdade deve ser dita sempre, não resta a menor dúvida, mas a forma como ela é dita, é que faz a grande diferença”.

Acho que é daí que nasce a nossa baixa ou alta auto-estima, pois a forma como encaramos as situações da vida, reflecte-se muito naquilo que ouvimos e vivemos ao longo do nosso crescimento pessoal.
Por isso acredito, que familias optimistas, geram pessoas felizes e confiantes.
Já familias péssimistas geram pessoas infelizes e inseguras.

Fique bem!
Bjs

Ruth Bassi disse...

Ola Padre, fiquei contente com este post. Depois do anterior,aconteceu mesmo o necessario para que voltasses a sentir quanto e necessaria a tua presenca para que outros regressem e voltem a amar Deus. Afinal, mesmo com momentos depressivos, e possivel voltar a erguer e conquistar com a palavra. Esta, se for menos teologica e mais relacionada com a vivencia do dia a dia,da-nos mais animo, coragem e envolvencia para nos aproximarmos d'ELE.
Com coragem, Amor e persistencia conseguiras, por certo, atingir os objectivos inerentes aos teus compromissos sacerdotais.
E o agigantar e proveniente duma satisfacao humana mas, no caso, justificavel e Deus atendera, por ceeto, mais ao resultado do que a essa fraquesa,
Beijinho
Ruth

Anónimo disse...

“Quando o vi, e por saber da sua mais ou menos renitência em ir à missa, achei que estava na hora de lhe pregar um “susto”, entre aspas. E pelos vistos, consegui.”

Agora lendo com mais cuidado o post deixa-me dizer-te que foste tosquiar e acabaste por sair tosquiado…(risadas)…!

Mas a tua alegria é genuína sim, não tens que te envergonhar disso, o que importa é que fostes ponte para alguém passar para a outra margem onde já andou antes… não o percas é de vista… não como melga, mas como amigo… mais do que “mensagens” ele precisa descobrir que tu ali e aquele momento pleno de Deus não foi um OCASO…! Que “dentro” de todas essas comunidades existe ainda muita gente capaz de abrir janelas ao ar e à luz para que o espaço onde nos abraçamos em Deus seja mais genuíno…! Obrigado pelo post, fez-me pensar também na forma como ando a acolher os outros…

Anónimo disse...

Bom dia Sr. Padre.
Acabo de ler e estou boquiaberta!
O sr.padre é tudo o que precisamos cá na paróquia.
Não me arranja por aí um ou dois fios de cabelo, que eu mando-o clonar.
É que alèm de tudo o resto...ainda por cima essa do um metro e setenta deitou-me por terra.
Beijinhos.Maria Ana.

Anónimo disse...

Bom dia Sr.Padre.
Acabo de ler e estou boquiaberta!!!
O Sr Padre é tudo o que precisamos cá na paróquia.
Não me arranja por aí um ou dois fios de cabelo, que eu mando-o clonar.
É que além de tudo o mais esse metro e setenta deitou-me por terra.
Beijinhos.Maria Ana.

Anónimo disse...

Não é que eu tenho razão.
Pois se até o meu comentário,vá se lá saber porquê,acabou de aparecer colonado.
Maria Ana.

Anónimo disse...

Que vergonha! Ter-se colocado à frente de Deus. Agora, o melhor que o Senhor Padre tem a fazer, para remediar essa grave falta, é colocar-se acima de Jesus Cristo. Pois claro. Foi isso que fez o Zaqueu e toda a gente sabe que se deu bem. E o Senhor Padre, a esticar e encolher dessa maneira, deve ser feito de borracha. Subir a um sicómoro, não lhe vai custar nada! O problema vai ser mesmo encontra-lo. Ao sicómoro. Porque O Outro, até já deve estar instalado na sua casa!

Confessionário disse...

Gostei da ultima frase"Porque O Outro, até já deve estar instalado na sua casa!". Deus assim o queira!

Anónimo disse...

Lembrei-me do Zaqueu por causa daquela dos 6 cm e de um livro que comprei hoje chamado “Paciência com Deus” de um teólogo checo chamado Tomás Halík. Li o Prefácio (pelo caminho) e diz assim:

«Zaqueu é, aqui, muito mais que ele próprio. Ele é símbolo de uma procura, de um desassego. Ou melhor, é símbolo de quantos vivem desassossegadamente em atitude de procura. É assim como Halík o vê: como ícone dos ‘buscadores’, dos ‘espreitadores’. Os traços da sua personalidade e as circunstâncias daquele seu encontro tornaram-se uma parábola aberta do que também hoje significa ver Jesus. Mesmo quando esses ‘buscadores’ não chamam Jesus àquilo que procuram. Mesmo se não é de todo Jesus que eles procuram. A sua discreta curiosidade, aquela esperança muda, a timidez que o traz à distância, o saber-se estranho à multidão que tutela Jesus, a perspectiva diferente que tem sobre aquelas realidades descrevem o modo como muitos vivem procurando. Hoje, em número cada vez maior. Simultaneamente disponíveis para Jesus, mas achando-se demasiado pequenos para esse encontro. (…). É sobre estas ‘franjas’ do grande cortejo de Jesus que ele concentra a sua atenção. Este não é, pois, mais um texto sobre nem sobre a crença, nem sobre a descrença. É um texto sobre o que está nos interstícios dessa dialéctica: essa imensa -‘terra do meio’ habitada por uma crescente massa de gente à procura. (…)»

E na parte, final do livro (péssimo hábito de espreitar o fim), Jesus adverte Zaqueu (a Igreja), prestes a ser submetido ao julgamento final,dizendo-lhe assim:

"Tu esqueceste-te de escutar a minha voz nos que experimentam o meu silêncio, a minha distância, nos que olham do outro lado, do vale das trevas, para o monte do meu mistério, escondido numa nuvem. Aí é que me devias ter procurado. A esses é que devias ter acompanhado, fazendo-os aproximar-se um pouco mais do limiar de minha casa. Era essa a porta especialmente preparada para ti".
- Paulinas, págs.7-14, 284, 2013.

Gostei do prefácio, da abordagem, vamos lá ver se gosto do livro!

Anónimo disse...

Eu já tinha reparado que alguns sacerdotes têm dificuldade em se desvincular de imediato das graças facultadas por Deus por seu intermédio. Acho até que alguns se centram de tal maneira em si que nem se lembram da acção de Deus, e pensando que tudo se deve a eles podem correr o risco de, por alguma soberba engrandecer-se com o feito ou até penalizar os comportamentos daqueles que os ouviram. Ora tanto de uma forma como de outra o problema é o mesmo, como atribuem o feito a eles, também o fazem com o comportamento do comum dos mortais – pelo que o encantamento não é por eles, em muitas das vezes. E isso é importantíssimo descartar e compreender. Mas nem todos o fazem, ou tentam fazer. Assim sendo as suas acções podem tornar-se muito injustas. A nível de espiritualidade eu considero esse um dos erros mais perigosos na relação com Deus.