segunda-feira, dezembro 03, 2012

O padre dos funerais

O padre António, chamemos-lhe assim, dado que tal como há muitas Marias, também há muitos Antónios no mundo, está a paroquiar seis terrinhas do interior, daquelas que só enchem as casas vazias por altura do verão com os emigrantes que regressam às suas paredes. O padre António diz, com pouco orgulho disso, que é o padre dos funerais, como se isso lhe estivesse colado à pele. No ano passado fiz oitenta funerais e zero baptizados. Acrescentou para explicar o atributo. Não sei o futuro daquelas terras. Não sei o futuro da nossa terra. Nem sei o futuro da Igreja, pois que sem nascimentos também não podem haver vocações ou cristãos jovens. Acenei que sim para concordar e que não para demonstrar desagrado. Um senhor que está ligado a essas coisas, dizia-me há dias, em números, a situação do concelho onde moro agora. Desde o início do ano, já lá vão portanto cerca de seis meses ou meio ano, morreram mais de cento e vinte pessoas, o que dá quase um funeral por dia, e nasceram doze crianças, o que dá cerca de duas crianças por mês. Números à parte, o que quererão os homens desta terra? Considerações à parte, o que vai fazer Deus com esta terra?

5 comentários:

Anónimo disse...

" ...o que vai fazer Deus com esta terra? ..."
Deus fará o que os homens permitirem que seja feito.

Adalberto Macedo disse...

“Números à parte, o que quererão os homens desta terra” Não são só os homens, é também a Igreja! Parece-me que o celibato dos padres não ajuda nada . O papa Bento XVI optou por manter o celibato para os padres, considerando mais vantajoso manter a tradição do que ceder às pressões da modernidade. Só que o problema é também demográfico! Ou não ?...

Ana Melo disse...

Deus quer que lhe faça-mos, quando for a hora, um funeral cheio de orações. Eles merecem fartaram-se de trabalhar, a maior parte deles ainda não sabe bem! o que é aquilo dos direitos adquiridos, e dos 300euros que recebem em media, ainda se atrevem a poupar mais do que qualquer um de nós! eu quero acreditar que enquanto forem estando ½ dúzia deles la pelas territas, eles vão tomando conta uns dos outros.

A minha velhota é “rija” vive numa região povoada, a escola ainda não fechou, a igreja é logo ao lado - tudo a 50metros de casa é uma vida cheia!! Preocupa-me, (tenho medo que se aleije) aos 79 anos ainda quer apanhar a azeitona toda, criar frangos e o porquito para poder ir dando aos “mal agradecidos” dos filhos.

Tenho boas recordações dos velhotes da minha rua, fiquei sem avós cedo, não que morressem novos!! os meus pais é que já estavam a ficar encalhados!! quando resolveram constituir família. A minha ultima avó ( avó de mimos) lanche depois da escola, pão com manteiga e café com leite (quase só para as meninas!! que aos rapazes! não havia comida que lhe enchesse a barriga).

Eu não me vejo a cuidar de velhos! gosto de os ver não dependentes, mesmo que já todos curvados! (mas se tiver de ser habituamo-nos!!). Na minha rua houveram 4 velhotes que me vêm a lembrança agora. O t´Chico, tinha umas nespereiras!! (do melhor das redondezas) um problema! pelo menos com os rapazes! (hoje ninguém quer saber das nêsperas, acho que já só moídas em Yogurte). O t´ Manel moco, era meio desconfiado! (ouvia um bocado mal) e quando bebia um copito a mais, começava a dizer que era tudo dele!! a frase que melhor me lembro dele, é, é tudo meu!!!! a mulher dele, a t´Zulmira, também era engraçada!! (hoje seriam ataques de ansiedade)! é que de vez em quando, davam-lhe uma “coisas”, a vizinhança dizia que eram os “espíritos”, porque quando se falava em chamar o médico (acho que o médico que vinha a casa era meio bruto) passavam-lhe logo os ataques. A t´Cavaca, foi a ultima destes a morrer, vendia peixe estava sempre por a rua, apercebia-se muito bem das andanças da cambada nova. Comigo, (eu sempre uma rapariga jeitosa), implicava com uma borbulha ou outra, que me ia nascendo na cara (ainda hoje pareço uma adolescente, não passou), e dizia-me a puxar conversa!! Oh! Nina! elas (as borbulhas) com o casamento passam!! foi-me dizendo aquilo anos a fio!! um dia! lá pelos vinte e tais, “atrevi-me” a perguntar-lhe se era preciso assinar o papel – ela respondeu-me!! à marota!!!!

Nestes últimos vinte anos não dei por velhos, à minha volta, no entanto agora estou numa fase de os voltar a ver! tios! Tias!, está tudo a ficar velho!! vão tomando conta uns dos outros. Já me saiu por varias vezes da boca, a frase - qualquer dia não faço mais nada do que ir a funerais!!!

Mas hoje!! preocupa-me MAIS uma reportagem da TSF, (também estes vão ficar velhos!!) as filas de jovens, não importa a hora do dia, ou o dia da semana, que se fazem à porta de “umas lojas” onde se vendem uns produtos “legais alucinogénios”, uns “cogumelos mágicos”, entre os 5 e os 50Eur!! (à de tudo! convém é não misturar!!!) o jornalista, acaba a reportagem a dizer que os efeitos, que os jovens e os menos jovens, mais descrevem são: os de ver “elefantes a voar”!!!!!!!!!!! AI MEU DEUS!

Anónimo disse...

“Considerações à parte, o que vai fazer Deus com esta terra?”

Padre, ao ler-te fizeste-me recordar aquele episódio entre Pedro e Jesus sobre a questão do destino do João e a resposta de Jesus:

“Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? (João 21,22)

Desculpa-me a causticidade do comentário, mas intriga-me imenso esta nossa forma de caminhar quando falamos tanto da Esperança e da Fé que carregamos em Deus! Que te importa a ti, a mim ou a alguém mais o que Deus tem para aquela terra!

Mas o caminho com Deus é alguma espécie de fundo de poupanças para acautelar o futuro! Ou algum programa com x passos de forma a alcançarmos patamares para assegurar o futuro da continuidade do projecto que nos propusemos levantar numa espécie de herança que queremos deixar a outros que nem por sombras sabemos se alguma vez irão abraçar o mesmo caminho e projecto!

Porque não vivemos nós o dia, o presente na força que nos dará certamente a Graça! Porque teimamos em manter esse caminho que nos leva a tanta insegurança e preocupação interior quando o que Ele quer para nós acima de tudo é que sejamos instrumentos e receptores também da paz que Ele nos deu e dá!

”Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turve o vosso coração, nem se atemorize.” João 14:27

Procuramos e perdemos tempo e forças em lutas e combates que só nos fazem perder a paz e desviar-nos do essencial, quando sabemos há muito que tudo é Dele e por Ele… que somos apenas instrumentos do seu PROJECTO e não do nosso projecto…

”Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.” Salmo 127,1

Abraços…

Ruth Bassi disse...

Padre e,de facto, confrangedor o que se vem verificando e, em especial, no interior do pais. Julgo que se deve sobretudo a crise de valores nao so morais como socio-economicos Os primeiros tem levado a que se realizem cada vez menos matrimonios mas os segundos levam a uma instabilidade e incerteza de futuro que prpocionam o adiar, por vezes, por tempo indeterminado; o nascimento de filhos. Quem ja vivendo com dificuldades e sem esperanca no futuro quer ter seres indefesos que virao engrossar a fileira dos que estao no limiar da pobreza?
E certo que Deus nao nos abandona mas tambem e preciso fazermos a nossa parte.
Beijinho
Ruth