terça-feira, outubro 09, 2012

Estava capaz de gritar

Estava capaz de gritar. Estava capaz de gritar em plena missa, anteontem, Domingo, dia de Nossa Senhora do Rosário, faz onze anos que a minha mãe faleceu. Era um Domingo, tal como anteontem. Era um final de tarde, seriam umas seis horas. Anteontem, seriam umas sete, a família, junta por outros motivos, acabou por ir, igualmente junta, à missa que também se celebrava pela mãe. Desta vez fiquei do lado de lá. Fiquei do lado de lá do altar. Estava cansado. E não só. De vez em quando acho bom rezar do lado de lá, do lado diferente, do lado que me é mais estranho. Para quebrar a monotonia. E para experimentar o que é ser simplesmente leigo. Cada um deve celebrar a missa com o seu ministério ou função. Concordo. Mas de vez em quando, onde nem nos conhecem, sabe bem estarmos no meio da multidão, a sentir como a multidão sente. Reconheço agora que a maior parte dos sentimentos que tive durante a missa não eram os da multidão. Eram os meus. Eram a minha mãe. No início da missa o padre enganou-se e não leu o nome correcto da mãe ao anunciar a intenção. Sei como são estas coisas e não me importei. Mas a partir daquele momento, o meu pensamento voou na tua direcção, mãe, e a missa foi um quase só pensar em ti. Por isso estava capaz de gritar. Houve ali um momento, enquanto o padre falava e falava, em que me apeteceu interrompe-lo para gritar. Que a minha mãe morreu faz onze anos e queria tê-la por cá. Depois perguntava porque é que se tem de morrer numa idade imprevista. Constatava como são imprevistas as doenças e com o arrastar do tempo elas aparecem mais frequentes e são mais prováveis. Parece que estão latentes no subconsciente de alguém e saltam para fora para morrer. Depois falava do cancro da mãe para dizer que ela não se queixava, porque tinha fé e amava o Deus que lhe tinha dado a vida. Essa vida. Gritava o mais que pudesse para dizer que aquela mulher que é santa, que é de Deus, e que soube aguentar firme na dor e na vida, era a minha mãe. Queria exibi-la com orgulho, como se os outros quisessem saber alguma coisa disso. Não me zango com Deus. Também não adiantava, porque a vida e a morte vão continuar a ser como são. Fogem do nosso controle. Por isso é que Deus é Deus e nós não. Sei que o tempo que vai entre o início da vida e o início da morte é apenas o projecto de Deus para cada um, e que cumpri-lo seria o objectivo maior do nosso existir, sob pena de a nossa vida não valer de nada e para nada. Mas anteontem estava capaz de gritar, porque nem sempre nos apetece fazer a vontade de Deus, ou cumpri-la, ou aceitá-la. E a minha mãe estava ali bem presente, na minha missa. E pouca gente deu conta disso.

19 comentários:

Anónimo disse...

Não tenho palavras para lhe dizer.
O que vou dizer é sobretudo para mim e por mim.
E, permita-me a ousadia, acho que o entendo na sua dôr.
Sei que não é por alguém o entender ou não que vai acalmar a sua dôr.
Estou na fase de não querer aceitar a vontade de um Deus que permite a vida e a morte sem dignidade, sem sentido sem significado, que nos deixa a caminhar no deserto, sem explicações, coloca no nosso interior o desejo de retornar a Ele, coloca em nós a sede d'Ele e no entanto nos abandona ao nosso "destino".
Abandona-nos ao nosso querer, mas a minha mãe ou que resta dela não queria a doença de que é portadora.
Uma demência vascular, dizia o médico, agora é Alzheimer.
Moro muito longe dela e em Julho a última vez que estive junto dela, não me reconheceu, não fala, balbucia palavras soltas sem nexo, não sabe quantos anos tem, nem quantas filhas, não come, não se mexe... enfim quem conhece a doença, na sua fase terminal, sabe do que eu falo.
Muitas vezes, me pergunto que sentido, que significado dar a esta vida, a da minha mãe? a quem ou quem vai entregar o holocausto final? (a vida dela.
Para que se entregue uma vida em holocausto a alguém é necessário ter consciencia de que existe alguém que vai receber esse mesmo holocausto. A minha mãe não tem.
Ultimamente tem-me assolado a ideia de que não quero ter fé num Deus que desde o nosso nascimento nos entrega à vida sem qualquer ajuda, abandona-nos num mundo imperfeito injusto cruel, entrega-nos indefesos à nossa sorte, e ainda por cima coloca dentro de nós um desejo,uma sede insaciável D'Ele.
A si apetecia-lhe gritar durante a missa, eu enquanto descia a serra, a instituição onde ela está fica bem lá no alto da montanha, depois de me despedir dela, parei o carro à beira de uma fonte que existe à beira da estrada e que brota do interior da montanha, sentei-me lá no meio de nada e chorei. Chorei tanto que fiquei sem forças para pegar no carro sequer, fiquei por lá, nesse momento apeteceu-me mesmo ficar definitivamente por lá, vou mais além teria ficado, se não aparecesse alguém que me conduzisse até à casa que era, que é a casa dela. Aquela noite dormi no quarto que em vida foi o dela, e mais uma vez chorei, queria tanto tê-la junto de mim.

maria disse...

é isto, amigo ;)

aqui está o homem! e eu iria ainda um bocadinho mais longe: porque não te zangas com Deus? ajuda se eu te disser que os sentimentos (a zanga é um sentimento) não são bons nem são maus. Ler o António Damásio (neurologista com vários livros publicados) ajuda a perceber isto.

Como lidamos com os diferentes entimentos, sim, já é acção nossa que exige inteligência, racionalidade etc.

e sem falar mais no que o teu post me sugere, quero apenas dar-te um forte abraço, amigo.

maria disse...

Ao autor do comentário das 17:24 envio também um forte abraço, acrescentado que o Deus revelado por Jesus não nos deixa abandonados à nossa sorte e desespero, tanto assim é que: "ainda por cima coloca dentro de nós um desejo,uma sede insaciável D'Ele." tão belo!

Rosa disse...

Não tem palavras,muitos sentimentos,muitos pensamentos que correm velozes e vontade de gritar o que vai na alma e o que dói.

Filha de Maria disse...

Não vou dissertar, nem falar-lhe da(s) minhas dores... deixo-lhe apenas (como aprendi com o nosso amigo Joaquim), um "abreijo" fraterno!

Joana ;) disse...

Gostei de conhecer um pouco do (homem/ser humano), por detrás do padre, sempre ao serviço dos outros.

Um grande abraço e como diz um amigo meu;
Força...
Bjs

Moçambicano disse...

Olá, Caro Amigo P.e Confessionário.
Olá a Tod@s que por aqui passam.

Quando perdemos Alguém que amamos muito, a Saudade dói. Passam os anos, e dói. Sempre. Por vezes, muito.
Como o P.e Confessionário diz, "temos vontade de gritar" essa dor. E quantas vezes - até por falta de quem esteja disposto a ouvir/compreender esse "grito" -, temos de o "abafar".

Porque sei o que significa esta dor, há muitos anos que procuro acreditar que "(...) todas as nossas relações, todas as histórias de amor (no seu sentido mais lato) que tivermos construído em vida, Deus as plenificará." (Michel Duquesne, ICNE, Lisboa, 2005).
E porque também sei que só se consegue, apesar de todos os momentos de dúvida, Acreditar Nisto em Comunhão Espiritual com @s Outr@s, aqui reitero os meus votos de que, como Irmãos, como Companheiros de Peregrinação, aproveitemos este "Fórum" para Vivermos o Essencial do Ano da Fé que se avizinha: Ajudarmo-nos fraternamente Uns aos Outr@s!
Redescobrirmos juntos razões para a Esperança!
Dessa forma, talvez Pessoas como @ Anónim@ das 17.24 não sintam tanto que "isto é tudo uma treta, bonitas palavras quando está tudo bem, mas "na hora da verdade",...".

Um forte Abraço Solidário, Amigo P.e Confessionario.
E um Abraço para Tod@s.

Moçambicano.

Moçambicano disse...

PS: Agradeço à minha Mãe - que felizmente ainda é viva -, a sua firme Fé, muito pouco fatalista, e por conseguinte pouco "à portuguesa".
Foi uma Fé amadurecida em "Terras de Missão"...
E é também essa "Herança" que me ajuda a suportar os "caprichos" dos seus quase 84 anitos (e quase 38 de Viúva).

Outro abraço a Tod@s.

Moçambicano

Anónimo disse...

Lembranças… saudades e mais saudades... vontade de abraçar, beijar, mimar...
Sei o que isso é. Sentimento que muitas vezes me assola, me inquieta, mas também me faz avançar para mais um dia, tentar ser igual a quem já partiu… mas estar longe de o ser… mas voltar a tentar…
Temos de tentar ser iguais a esse seres que partiram, mas que marcaram… que deixaram grandes legados.
Força, tudo isso nos ajuda na caminhada.

Adalberto Macedo disse...

Confessionário.
Não te conheço, mas gosto de ti. Gosto de ler-te. Cada vez mais. Sobretudo quando estás do lado de cá. Li-te com muita emoção e senti logo a urgência em dizer-te qualquer coisa. Que não estás sozinho. Queria faze-lo com este nó na garganta. Com os olhos embaciados. Também li o anonimo das 17,24, e é também para por ele e para ele que aqui deixo o meu comentário. Sou um homem emocional: umas vezes agressivo outras “piegas”. Ao ler-te, chorei e gritei contigo porque estavas a meu lado. Do lado de cá onde se pode chorar e gritar. Chorei e não me embaraço com isso. Sou “piegas”.
Não gosto do padre paramentado! Não me ajeito. Não gosto de homilias chatas, previsíveis, onde já sabemos o fim do filme - Não me espantam. Não me deslumbram. Não me seduzem. Não gosto da maneira como me catequizaram, me ensinaram a por de joelhos e a bater com a mão no peito. Gosto de olhar para o lado e saber que não estou sozinho, que o padre está comigo e eu com ele, com os meus problemas, com os problemas dele. Juntos faremos melhor que Sísifo. Juntos chegaremos ao cimo da montanha. Tentaremos uma e outra vez. As que forem necessárias. Ora puxas tu ora puxo eu.
Padre, dá-me a tua mão. Agora puxo eu.

Confessionário disse...

De longe, tens a minha mão, Adalberto! Também eu gostava de ser sempre uma mão!

Anónimo disse...

Padre,
Compreendo o teu sentir. Também eu, mas há mais anos, perdi a minha mãe vítima de cancro. É uma dor enorme perdermos quem sempre nos amou incondicionalmente em todos os momentos. Jamais iremos encontrar quem nos ame sem pedir nada em troca. Todos nós, mais cedo ou mais tarde, temos de passar por esse momento, mas aos poucos a dor atenua-se e da lugar à saudade. Encontraremos, talvez, amigos ou parentes que nos ajudem a superar mas temos de ser nós próprios a ganhar força para percorrer a nossa "estrada", escolhendo os trilhos certos que nossas mães gostariam e que também têm a ver com o querer de Deus.
Desejo que ultrapasse a dor e sinta regosijo por sua mâe estar, por certo, junto de Deus e velando por si.
Um grande abraço
Ruth

Anónimo disse...

Dizem que a dor interior é a linguagem da alma quando está a ser tocada pela ausência do Amor que tantas vezes foge às nossas perguntas nunca respondidas gritadas na linguagem de homens e mulheres que somos!

Também grito essa dor, e já deixei de a tentar aplacar nos templos, manter esse caminho para mim significaria que dentro de mim continuaria a habitar a dúvida do poder da Redenção e do Perdão que naquele momento abraçou finalmente todas as fragilidades daquela ou daquele que partiu… seria recusar a Graça…

Nas lágrimas que jamais secarão a não ser naquele dia em que elas também correrão pela minha também ausência, vou reescrevendo a outra paixão que só a minha alma conhece e experimenta diariamente...

Anónimo disse...

Percebo-o tão bem...
Ela está junto de si. Se estiver atento, sente a sua presença

Um grande abraço:)

Maria disse...

Padre amigo, senti forte o seu pesar, a sua dor. Diz-se que com o tempo a dor vai-se esbatendo e fica a saudade que aumenta com o tempo. Também já passei por tudo isso há cerca de cinco anos mãe e pai, com um intervalo de 7 meses. A saudade dói, dói muito...
Um forte abraço, estou consigo.
Maria

Ana Melo disse...

E vocês fizeram-me chorar também! E eu sou pouco de choros.

Já lá vão 19 anos, que Deus levou o meu pai. Pai de demonstrar poucos afectos, mas pai que cuida, pai que educa com o exemplo, não lhe conheci vícios a não ser o do trabalho. Foi rápida a morte do meu pai, (o coração falhou), eu estava por perto, fui a ultima pessoa a vê-lo consciente, as ultimas palavras que ouviu foram as da sua menina,(nem à sua menina ele estragou com coisas), a serenidade do seu olhar, a paz do dever cumprido, a paz de quem está no seu “sitio” a segurança de que “quando Deus passar eu vou estar lá”. Penso que aquela paz que se sente na frase “só tem medo de morrer quem de facto não soube viver” – que eu não deixe nunca de te seguir o exemplo, Pai! (bom!será sempre mais simples para mim, pois decidi não casar e não ter filhos - nascer em casa de homens é isto que dá!). O meu pai não era homem de missa, eu cresci a vê-lo ir uma vez por ano à missa, no dia de finados com o melhor casaco pelas costas (era charmoso o meu pai). Eu tenho a certeza Pai! que tu “ pareceste sempre dos últimos”, mas o modo como viveste a vida, levou-te de certeza para bem perto do PAI NOSSO.

(Quanto, aos “engasgos” dos padres nas intenções!! Pensei que eram de propósito! para podermos colocar lá as nossas intenções. Pois! se nos evangelhos, as vezes tão longos, não se engasgam! como podem engasgar-se tantas vezes em meia dúzia de nomes! - só se for da própria letra)

Anónimo disse...

Bom dia!
Anónimo dia 10 às 18:10h
Tentar dissimular a dôr que nos consome por dentro na alma, é uma tarefa árdua, mais dificil ainda quando o sentimento dentro de nós parece ser recíproco mas não pode fluir livremente.
" ... outra paixão que só a minha alma conhece e experimenta diariamente... "
Não só a sua alma conhece mas o Espirito que habita dentro de si conhece igualmente esse sentimento, eu acho que o conhece melhor, bem melhor do que a nossa alma.
Shadowlands - dois estranhos e um destino .
Veja se tiver oportunidade, a mim ajudou-me a encarar o sofrimento de uma forma diferente, encontrei também algumas respostas para algumas questões relacionadas com esse sentimento que (acho eu) surge na vida de cada um, apenas uma vez na vida independenetemente do estado de compromisso que tenhamos ou não e é a alegria de ter acontecido que tem que ser a nossa companheira, de jornada.
Acho que DEUS quer que amemos e sejamos amados, ainda que esse amor more secretamente no nosso coração, vale a pena senti-lo.

Eu choro pela minha mãe que está viva apenas fisicamente.
Choro também por um sentimento que secretamente carego no peito e que sabendo-o reconhecido pelo outro lado não nos é permitido mais do que isso carregá-lo no peito.

Anónimo disse...

os padres não deviam ter dúvidas

Anónimo disse...

Anónimo das 15:16

Os padres têm dúvidas, muitas, diria até têm mais mais dúvidas do que qualquer leigo que se inicie no caminho de Deus, sentem-se responsáveis por ensinar/transmitir às pessoas a doutrina de Cristo, mas são humanos e vacilam... exitam são postos à prova, só mesmo a certeza do AMOR do PAI, para os ajudar a continuar, desse Amor não têm dúvidas (acho eu).

Passam por grandes momentos de deserto, e faz sentido que assim seja, nesses momentos todas as suas certezas são abaladas, sacudidas como árvores num vendaval.

É nesses desertos, nessa aridez desconcertante que a fé individual se consolida.
O Caminho de Deus é desconcertante, para padres e para leigos.

"Mostra-me o teu Rosto" de Frei Ignácio de Laragñaga ajudou-me a perceber aceitar e ultrapassar esse momentos criticos na vida de qualquer pessoa seja padre ou não.

Desculpe a ousadia, se é padre e tem dúvidas "está de parabéns" (desculpe a expressão), significa que não é uma pessoa superficial como tantos (actualmente há excesso de superficialidade).

Fique bem,