quarta-feira, janeiro 03, 2018

Uma confissão banal

Confesso que faço demasiadas vezes a pergunta a Deus sobre o que ele quer de mim. Imagino-o a assobiar para o lado, cansado de ouvir insistentemente a mesma pergunta deste pobre padreco. Com tantos assuntos com que tem de preocupar-se, porque cargas de água havia de prestar atenção a uma pergunta tão banal e que, afinal já respondera uma que outra vez. Talvez o padreco estivesse distraído com os seus muitos afazeres. Talvez já não recorde mais, por entre as teias de aranha do tempo, o que lhe disse naquele famoso retiro de há décadas, quando lhe respondeu directamente Quero-te a ti, e ponto final. 
Confesso que também eu estou cansado de fazer a pergunta. Parece que ela já me sai dos lábios sem que dê conta. Como quando se vai ao dentista, se leva uma anestesia e não se consegue controlar verdadeiramente os lábios. Já me tenho mordido, sem querer, à custa dessas anestesias. Talvez devesse morder de novo os lábios e calar o que me vai no coração. Talvez a resposta que um dia Deus me deu bastasse para viver ao comando de uma série de paróquias, de uma outra série de serviços e prestações à Igreja. Mas eu imagino sempre os meus diálogos com Deus como se fosse um namoro. Gosto tanto desta forma de pensar a minha relação com Deus que às vezes até me parece uma veleidade. Ou soberba. Mas é por essa razão que eu faço insistentemente a pergunta e espero constantemente a resposta. Sim, tal como no namoro não basta dizer uma vez Eu amo-te, também a mim não me basta que Deus me diga uma vez que quer de mim. 
Confesso que no fundo, assim, lá naquele cantinho que só existe quando estamos sozinhos e a falar connosco mesmos, eu até consigo esboçar a sua resposta. Tenho umas quantas pistas dela. Mas eu queria ouvir. Ouvir para me assegurar que as pistas são, afinal, mapas. Queria ouvir, porque apesar de saber que fui escolhido para ser sacerdote, eu não sei sempre como sê-lo. Era tão bom que, de vez em quando, pelo menos uma vez por semana, o Senhor Deus se distraísse um pouco dos seus mil afazeres para me dizer Agora faz assim. Mas não diz. Espera por mim, pela minha descoberta, pela minha resposta. Diz ele que essa é a sua resposta. Que a minha resposta é a sua resposta.

13 comentários:

Anónimo disse...

Padre, quase ia chorando ao ler este texto que é de uma grande espiritualidade a meu ver.
Obrigada

Anónimo disse...

NOSSA!!! Confesso fiquei sim com cheio de lagrimas. inicio de ano bem suscetivo para pensar.
ch m

Anónimo disse...

Nada de confissão banal, espiritualidade jorrando por uma mente sadia, em um corpo de homem. e tem mais não e só como sacerdote que Deus
o acolheria, em outros sentidos da vida fazendo o bem o senhor sempre estaria na presença DELE.
Ex Escritor, poeta...

Anónimo disse...

Gostei de ler...fiquei com uma certa inveja, pois também já tive uma relação com Deus assim, também a sentia como um namoro, perguntava mil vezes se é mesmo isso...enfim...há relações duradouras outras menos...como em todos os namoros...fica a saudade apenas!

Bom ano para o Sr. padre

MJ

Anónimo disse...

É tão interessante perceber que o senhor padre tem esta coisa de tanto amar a Deus como duvidar de tantas coisas. Acho que era Santa Teresinha quem estava sempre a amar e a discutir com o Senhor!

Anónimo disse...

Que boa surpresa encontrar este blog, casualmente, quando nem sequer buscava nada! Apenas a deambular pela net em lugares tão distintos e encontrei-o!!
Sabe, um pouco de encontro ao seu desabafo, acho que é assim que Deus se me dirige, se é que sou digna da Sua atenção. Quando menos espero, alguém me fala sem motivo, há uma frase escrita em algum lado e é tudo tão estranho que penso que é Ele a chamar-me.

Confessionário disse...

05 janeiro, 2018 14:46
Bem-vinda ou bem-vindo

francisco disse...

pergunta o Bispo na ordenação sacerdotal:
"Queres unir-te cada vez mais a Cristo, Sumo Sacerdote, que por nós Se ofereceu ao Pai como vítima santa, e com Ele consagrar-te a Deus para salvação dos homens?"

está em Cristo o modelo, vítima santa consagrada a Deus para a salvação dos Homens, e os Homens tanto necessitam de sacerdotes assim.

todos os dias tem nas mãos Cristo, oferecendo-O a Deus para a nossa salvação e santificação. Espero que na Eucaristia receba de Deus bastantes graças e nos Sacrários das suas paróquias encontre o lugar onde O possa escutar.

obrigado pelo seu sacerdócio, continuação de um Feliz Natal e um bom ano de 2018.





Anónimo disse...

bem...não tenho grandes palavras para dizer o que senti ao ler este texto.
Mas atrevo-me a dizer que foi um dos que mais me tocou.
Que bela "confissão".. é uma intimidade com Deus que até faz um pouco de "inveja", mas no sentido positivo.
Já li e reli e vou continuar, porque apetecia-me "decorar" cada frase...
Bj

Anónimo disse...

AH!!! Estou nessa de de fazer as perguntas para Deus e ainda não encontrei respostas. Bom tanta gente e inúmeros acontecimentos, pode ser que um dia ele ouvira minhas orações.

Confessionário disse...

09 janeiro, 2018 11:06

Também a mim me apetecia gravar cada frase. Mas esqueço-as muito... lol

Gui disse...

Pois eu repito-lhe vezes e vezes sem conta a palavra Porquê. Mil e uma e mais algumas vezes pergunto-lhe os porquês em tanta intempérie. Não me responde mas paciência.

Manuel disse...

E a Resposta será mesmo essa: Deus, através de nós!