sábado, janeiro 27, 2018

o verbo [poema 170]

Há uma palavra que não sou eu
Mas diz-se como se me habitasse
Vai-me soltando por entre os dedos
Como se suportasse
Esse segredo
Que não é seu

Vem ou vai, morre ou nasce
Sobe ou desce
pelo céu

6 comentários:

Zilda Souza disse...

O segredo para mostramos na vida. E que somos mais duros do que ela.

Zilda Souza disse...

A confiança em si próprio e o primeiro segredo do êxito.

Anónimo disse...


Este delicado poema: intitula: «o verbo» - assim mesmo em letra miudinha mas com um carácter forte – diria que esta é uma palavra do ramo das minúsculas intemporais, onde se incluem todas as palavrinhas sem acentuação, com cinco letrinhas ou menos que isso, humildes mas assertivas, pequeninas mas muito carnudas, ricas de conceito, donde há sempre muito conteúdo para explorar.

Com elas, pouco a pouco ou de uma só assentada, vem surgindo à superfície a informação nelas preciosamente guardada. Os olhos brilham-mos à medida que puxamos a corda e elas se vêm aproximando da superfície. É então que as vemos à luz do dia, abrem-se à luz, e são por nós empregue nas mais diversas tarefas, profissionais, sentimentais, religiosas, simplesmente alegóricas ou outras. O processo inicia-se com uma ida ao saco das palavras. Às vezes a escolhida é a primeira que surge; quando há mais exigência ou disponibilidade, procura-se, remexe-se, voltam-se as costas, torna-se e não damos com aquela que precisamente procuramos. Vai uma outra, já me aconteceu muitas vezes – não havendo alternativa possível, não há escolha.

Pegamos nas palavras, nas mais delicadas com uma pinça – sempre com muita cautela, para não as machucar exercendo sobre elas uma pressão injustificada; noutras, com o indicador e o polegar, como se estivéssemos a segurar uma borboleta pelas asas – ou de uma traça, que é mais corrente. Outras é à macheia e quase ao pontapé. O saco cai, as palavras entornam-se, doem-nos as costas e zumba!, varre-se o palavreado para boca do saco a dentro. E dá-se um nó. Nozinho, pronto, porque ainda podemos precisar de palavras noutras ocasiões.

O mais divertido é construir frases com palavras. Podemos fazê-lo só com a pontuação. E podemos dar-lhes um ar de graça, juntando na mesma linha palavras, letras, sinais gráficos, desenhos, borrões de tinta, marcas de chocolate e outras coisas maravilhosas. Pense-se só nas notas musicais, oh! As letras, as palavras, as sílabas e os sinais são teclas, de que se extrai som, através de um instrumento comum, a voz, podendo ser tocado em várias línguas. E a música escrita? Nesta clave, naquela clave, e a música entra no papel e sai das mãos, do sopro, e dos instrumentos, e fala a mesma língua, um «esperanto» musical, a universalidade possível em várias notas, acordes… A música, o verdadeiro verbo da linguagem?

Anónimo disse...

…Voltando ao «verbo», ao do poema em cima, por que o próprio poema é verbo personificado, arrasta em si um sentido, agita-se, espavoneia-se, contrai-se, ridiculariza-se, engrandesse-se, cumprindo a linguagem escolhida pelo poeta. Diria que se estende diante dele, cresce e encima-se, desce e arrosta-se. Choca, no sentido positivo: é um despertar, desabrochar da palavra. Se o «verbo» é acção visualizada – uma palavra lida será sempre visualizável (desmintam-me todo os cegos). Mesmo as que se incorporam apenas conceitos abstractos, são visualizáveis, e isto para além da sua corporeidade gráfica.

Podemos muito bem ter um «verbo» no topo de uma Árvore de Natal – porque não? - atendendo que neste caso a opção deverá recair sobre um «verbo» ligeiro, no respeito pela trigonometria do espaço, para que possa brilhar sem sobressaltos, vitimizando o Pai Natal, ou pior ainda, algum gnomo. Mas, dizia-se que o «verbo» é acção visualizada*1, se o «é» também comporta emoção, cor, dinamismo ou estaticidade: é um veículo preferencial de construção e condução do ser humano, que obviamente se constrói com palavras. Esta relação de intimidade entre o que aquele que constrói e é construída, está na génese da nossa humanidade, no centro da sua essência, do que nos diferencia primacialmente dos outros animais. Nascemos apetrechados de aparelhos de comunicação verbal, prontos a mergulhar no mundo das palavras; e, são elas que vão abrindo os seus caminhos, edificando-nos, circulando-nos no sangue, fazendo de nós grande parte daquilo que somos. O «verbo» é tridimensional. Não estranhemos por isso que o «verbo» se solte pelos dedos do Sr. Padre Confessionário, aliás essa é uma imagem possível de ver de olhos fechados, com algum entusiasmo. Está apenas na sua mão conduzir o «verbo». Poderoso é apenas o «verbo». Por isso é alfa e ómega, princípio e fim, a esconder entre os dedos esse segredo que não é seu. Se o «verbo» tem impulso bastante para subir ou descer, nascer ou morrer, ninguém duvida. Há muito «verbo» enterrado, com fundada esperança de ressuscitar, ressurgir, emprestar uma linguagem repleta de sentido ao mundo que nos cerca. Porém como tudo na vida, muito foge ao nosso controlo. Atentemos no verbo «pneumonia», um verbo de estação fria, a chamar a atenção para a necessidade de inspeccionar regularmente o «ar» e para o fazer em plena «harmonia». Ainda assim as mortes por conta deste «verbo» (impropriamente chamado por muitos de «advérbio»). Resta concluir, em síntese, de forma a alcançar uma conclusão que as mãos de Deus são muito mais poderosas que as nossas, e dessas não podemos fugir. Mas ente tanta palavra, o mais fantástico, porém, é o que nos deixa sem palavras, ainda que o agente provocador do estado sejam outras palavras. Para culminar em beleza, sugiro que nesta quadra festiva tente colocar no papel poemas sem «verbo». É um desafio, já está e é tempo disso. Santo Natal


PS:
- «O Menino Jesus» - é verbo?
- «A palavra é o dínamo do futuro da humanidade» - Sófofilio de Herades, sec. IY antes de Cristo, Criptácia.

Confessionário disse...

Muito, mas muito interessante!
Apesar de longo, muito absorvente.
Apesar de profundo, um incentivo.

grato

Anónimo disse...


Obrigada pelas suas palavras tão simpáticas.
Nem sei qual hei de escolher.

B. Natal!