terça-feira, novembro 05, 2013

Porque este mundo não é meu.

Magico e magico sobre a vida, sobre esta minha forma de viver. Encho os pulmões de ar e fico com uma vontade enorme de mudar o mundo. De mudar sobretudo a Igreja. Porém, à medida que os pulmões vão esvaziando, dou conta que para essa tarefa não basta encher os pulmões, por mais ar que lhes entrem. Invento todas as forças para que os pulmões se esvaziem devagarinho, para ver se consigo reter algum ar que se respire, mas nada. Aos poucos vai-se todo, e escapa à minha vontade de ter os pulmões cheios. Tal como tudo na vida e na Igreja de que sou padre. Resisto-me. Insisto-me. Encho continuamente os pulmões. Mas eles esvaziam logo a seguir. Porque não sou dono deles. Porque o ar não é meu, é de Deus. Porque o mundo e a Igreja são de Deus. Posso. Mas afinal não posso. Hoje dei comigo a magicar sobre a vida e sobre a Igreja, que no fundo se confunde com a minha vida. Queria que tudo fosse de outra forma. Mas a forma de Deus não cabe nesta forma. É muito maior. Rezo a pedir que me dê forças para mudar o mundo, mas nem o meu mundo consigo mudar. Rezo a pedir que me dê forças para mudar a Igreja, mas nem eu consigo ser autentico na minha fé. Rezo a pedir para que consiga mudar os que me rodeiam, mas nem a mim me consigo mudar. Não há pulmões que aguentem. Porque este mundo não é meu. É de Deus. Eu é que me esqueço.

21 comentários:

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Gosto muito deste texto

Ana Melo disse...

Vidas longas de mais!!??

Sucessivas repetições de erros, penso que a partir dos trinta, somos quase só uma repetição de erros.

Rezo, penso que feliz, todas as noites, para que Deus me leve para mais perto dele.

Rezo todas as manhãs - ai! não me quiseste levar!? então tens de me aturar!! - na minhas manias de tentar viver ao teu jeito JESUS - e Tu sabes! que isto me faz um pouco mal educada! não sabes!?

Anónimo disse...

Tenho um ou outro amigo sacerdote. Convenci-me que ao longo dos anos todos eles iriam amadurecer, iriam encontrar o seu caminho, iriam progredir. Acreditei que todos nós com o tempo e com a idade chegássemos mais além. Mas agora dou-me conta que nem sempre é assim. Há pessoas que parece que nunca melhoram espiritualmente, por mais que queiramos, por mais que tentemos, por mais que rezemos… e porque é que uns parecem chegar e outros não? Porque é que alguns parecem nunca interiorizar? Porque é que continuam a mentir, mesmo sendo sacerdotes? Porque é que insistem nos mesmos procedimentos, nos mesmos erros? Talvez porque não conseguem mudar, tal como eu em tantas coisas.
Quando leio os seus textos, sou franca, sinto-o como alguém que pode fazer muito no seu dia a dia, mas a sua espiritualidade parece-me inicial. A sua forma, e sem ofensa, parece-me de um novato que ainda nem se encontrou a si, nem ao seu lugar na igreja, nem ao lugar da igreja em si. A mim transparece-me uma certa instabilidade, é incómodo. Transmite sem querer pouca convicção na sua vocação. Não sinto em si radicalidade, apenas vontade. Quase parece que quero massacra-lo, mas é o contrário que desejaria, deixo-lhe apenas o conselho, encontre-se (no sentido total), vai ver que precisará de mudar muito menos do exterior do que pensa.
(não é uma critica)

Confessionário disse...

Olá, anónim0/a de 06 Novembro, 2013 16:26

"magico e magico" e continuo a achar sempre que quero mais, ser mais, mais Igreja, mais de Deus, mais à maneira de Deus!
Podes chamar a isso uma espiritualidade inicial, e eu posso chamar-lhe um passo do caminho. Não há ninguém tão espiritualmente profundo, que não faça questões, ponha dúvidas, hesite (podia recordar imensos santos, e podíamos recordar muitos dos profetas... olha o Elias, coitado!).
E, curiosamente,incluí este texto na etiqueta "espiritualidade"!... porque a espiritualidade é isso mesmo, um Caminho.

Posta esta informação/esclarecimento, agradeço muito o comentário, que me ajudou muito a pensar. De facto gostava de ter uma espiritualidade mais profunda. uma entrega maior. Mas por outro lado, também gosto que a minha fé seja sempre um recomeçar. Não te sei explicar bem o que acabei de dizer. Mas já o disse.

E tens muita razão quando dizes que quando nos encontramos, descobrimos que há muito menos coisas a mudar exteriormente.

Vou aproveitar tudo o que escreveste, e embora ache que não é tanto assim, acabo por achar que é muito assim...

Ruth Bassi disse...

Padre,
Julgo que os teus pensamentos são demasiado sonhados para encararem a realidade que se apresenta e acabam por provocar uma certa angústia e
nstabilidade pela sua não realização È muito difícil mudar a nossa maneira de estar e de sentir e sózinhos não vamos mudar nada.
Penso que tens de encontrar serenidade e olhar a vida e as suas estruturas duma forma mais real; há muita coisa, e em vários sectores da vida que precisa de ser mudsda. Mas quando e como?
Não é a sofrer espiritualmente que chegas a alguma mudança...
Tenta fortalecer-te
espiritualmente, quer com ELE, quer em comunidade, quer procurando algo diferente em alguns tempos livres. Acho que, provavelmente por razões várias, estás psicologicamente muito fragilizado, e é por aí que deves começar uma renovação.
Um grande abraço
Ruth

Anónimo disse...

"e embora ache que não é tanto assim, acabo por achar que é muito assim..."

Gosto dessa sua humildade, padre. Os escritos de grandes santos estão cheios de "lamentações".

Vá lá trabalhar mais a espiritualidade.
Vá buscar mais certezas à sua vivência espiritual.
E continue a escrever as suas "lamentações".

Confessionário disse...

Ruth, a vida tem-me ensinado a procurar tranquilidade nos meus afazeres, sabendo que as coisas dependem mais de Deus que de mim. Mas por dentro há sempre algo a desejar mais.

De qualquer forma, hoje acendeste-me (com a ajuda de outros comentadores) uma luz amarela: será que me encontro "fragilizado"? Achas?

Anónimo disse...

Parece-me tão triste Padre... Deus o ilumine na escolha do seu caminho, seja ele qual for... Muitos são os caminhos que nos conduzem a Deus, desde que feitos pelo amor.

Anónimo disse...

Olá padre...não sou catolica romana porém sou alguem que caminha consigo á uns anos, lendo e relendo os seus textos e partilhando-os com outros, como ainda este Domingo o fiz na minha igreja (espero que não se importe).
Concordo consigo quando diz que não há caminho espiritual sem duvidas, sem questões e quem conhece bem a Palavra de Deus vê isso espalhado por toda ela. Jeremias era o profeta chorão, por exemplo, mas podiamos falar de tantos outros.
E talvez no seu caminho esteja a ter duvidas sobre a forma de viver a sua fé e a forma de a colocar em pratica face ao que vê na igreja dos nossos dias...eu sinto o mesmo!
Há muito pouca renuncia...há apenas comodismo, reliosidade e tradição e isso não é fé.
Mas se sente que pode estar fragilizado, peça a Deus que se revela na Sua verdade para a sua vida.
Eu sei que a vida de padre permite ter poucos verdadeiros amigos, e que nunca pode dizer o que realmente sente, pois é esperado de si a perfeição da fé, da conduta...mas o senhor é apenas um filho de Deus como qualquer um de nós.
Pessoas precisam de Deus...mas pessoas precisam de pessoas.
Gostaria de poder ser uma dessas pessoas que o ajudariam a caminhar, mas sei que isso não é possivel, por isso aqui fica aquilo que de longe posso dar.
Estarei orando por si!

A graça e a paz de Jesus Cristo seja consigo.

CR

Ruth Bassi disse...

Caro Padre,
Pelo que me tenho apercebido pelos teus posts, os últimos tempos não têm sido propriamente fáceis para ti.É natural e humano que em situações menos fáceis não nos sintamos realizados e lutemos com algums dificuldadesn ao nível espiritual. Mas, para além da ajuda de Deus, temos de fazer algo para sair dessa situação.
Acho que provavelmente tens os dias demasiado ocupados e com alguma insatisfação. Devias procurar ter alguns momentos livres que pudesses ocupar de forma diversa.Sem quebrares as tuas obrigações sacerdotais, talvez fosse possível conviveres mais com teus colegas/amigos, ires ao cinema, sei lá... e porque não fazer uns cursos teológicos?
Este ano estou num curso on-line de Teologia, da Universidade Católica e, na sessão presencial de apresentação do curso, constatei que cerca de 50% dos alunos são sacerdotes e são mioritariamente de Bragança e Lamego. Também fiz um curso sobre a Mensagem de Fátima, que foi presencial, e a percentagem era a mesma.
Sê forte e age para seres mais feliz pois ELE também o quer e, além disso, precisamos todos de ti e, se possível, com mais felicidade, ainda que um pouco mais acomodado.
Um grande abraço
Ruth

Peregrino disse...

A fragilidade torna-nos mais abertos à verdade interior que corre com uma força que nenhum dique feito coração humano pode deter… oro por ti Sacerdote Irmão… e não deixes de soprar para fora e para dentro, porque nesse encontro de sopros mistura-se a brisa do Espírito Santo fazendo acontecer aquela viagem do teu coração e do teu olhar que serão levados a ver o sonho de Deus para ti, para todos aqueles que O buscam… da sua verdadeira Igreja que Ele constroi em nós e por nós...

Na barca da fragilidade também física, tb a precisar do toque do Mestre no corpo enfermo… (a experiência do ambiente de um hospital é como uma barca que nos leva sempre mais longe…) ora por mim para que tb o toque surja breve… do corpo e do coração…

Nele que olha por nós…

Anónimo disse...

O Sr Padre repete no tempo inquietações similares o que faz passar a impressão que não tirou grande benefício do que as pessoas disseram em opiniões anteriores. Isto faz colocar a hipótese de que se debruça mais nos seus pensamentos pré (in)definidos do que estará de facto disponível para ouvir e perceber em que é que a opinião dos outros pode ser-lhe útil. Às vezes parece que anda às voltas nas inquietações consigo mesmo, precisamente por colocar as questões, mas não saber ouvir bem o que já lhe disseram. Ora Deus fala pelos outros (Diz que reza para mudar o mundo, para mudar a Igreja, mudar os que o rodeiam, eu acho que gostaria de encaixar isso nos seus conceitos, e de facto Deus é maior do que os seus desejos e conceitos. Acho que tem dificuldade em sair das suas ideias para aceitar outras, embora deseje francamente ter essa abertura).
É evidente que há a reflexão que cada um faz para descortinar a vontade de Deus, mas também se algumas das suas respostas são dadas muitas vezes num curto tempo de reflexão, será porque não reflecte para além dum primeiro momento, reflecte com a rapidez de Deus ou Deus com a sua rapidez? Eu pelo menos acho que ainda quando ouvimos coisas erradas devemos sempre ficar na dúvida se isso não poderá vir a ser-nos útil. Claro que é natural e saudável questionarmo-nos e questionar os outros, há no entanto muitos objectivos diferentes, muitas formas de o fazer e as próprias questões transparecem pensamentos muito distintos de quem as coloca. Gostaria de se tiver (ou tivesse) tempo de reler os seus textos de fundamentar concretamente essa diferença que muitas vezes se encontra neles; de uma postura que nem sempre se assemelha, a meu ver, à postura dos santos (uma vez que comparou ambas as situações). E para finalizar, digo-lhe que acho que é sempre bom recomeçar, a nossa fé, desde que não seja sempre do princípio… mas se tiver de ser, que o seja, é bom que saibamos ao menos bem o que temos para aprender, mesmo quando não me soube explicar bem o que me acabou por dizer. Ah e mesmo magicando, que pode ser quase assim, no caminho da espiritualidade, quem sabe… se fazem santos assim!

Anónimo disse...

Embora o meu comentário pareça não pegar no lado mais positivo e também genuíno do que escreveu, o seu texto tem muito de humano e da esperança de um Caminho de grande crescimento , desde que se lembre de o passar à prática. Afinal gostei do que disse. e isso ainda não tinha dito

Confessionário disse...

Agradeço imenso estes dosi últimos comentários, como agradeço todos aquels que me têm ajudado a crescer. Na verdade, posso ou podemos andar sempre com desbafos recorrentes, posso ou podemos desencantar-nos facilmente nas mesmas coisas porque queríamos nque elas mudassem e esquecemos que nós é que podemos mudar a forma de as ver, mas tenho crescido imenso a vários níveis, sobretudo espiritualmente, com os comentários que leio aqui. Já disse, inclusive e com muita sinceridade, a algúém, que este meu espaço era o meu espaço de meditação. E é. Não imaginam de certeza quanto! E também devo muito do que tenho sido a muita "luz" que se tem feito neste espaço.
Porém, acho que ainda irão ler muitos mais post recorrentes... Sou assim, sinto assim. Pode ser que um dia a minha Igreja que sou seja diferente.

Anónimo disse...

Pois Padre eu gosto deste seu espaço e de muitas das suas reflexões.
Revelou-me a humanidade de um membro de uma Igreja que acreditei, durante muito tempo, estar completamente desumanizada.
Não espero que todos os comentários sejam contos verídicos (podem ser), sentimentos genuínos (espero que sejam), ou desabafos verdadeiramente constrangedores.
Não quero com isto dizer que entendo este blogue como algo fantasioso, muito pelo contrário. Mas ás vezes imagino que as suas dúvidas, anseios e tristezas estão lá para me lembrar que todos somos humanos, mesmo os Padres de uma Igreja de milénios.
E por isso não sei se as suas dúvidas são suas ou minhas e no final não me importo muito de quem são.
Não sei se me fiz entender...

Dulce

peregrino disse...

A Igreja é e reflecte aquilo que somos.... ela será sempre a soma das nossas miserias e riquezas... isso só se descobre se formos capazes de acolhermos a nossa humanidade total que a faz acontecimento...

Confessionário disse...

Sim, entendo, Dulce.
As minhas confissões são, muitas vezes, as nossas confissões.

Anónimo disse...

O Criador de tudo podia rebentar com tudo com um ligeiro sopro...Mas não. Só precisa do pequenino sopro de cada um para o manter cheio...Nada mais quer.
Ninguém por si só, aguenta cheio o seu...se não for Ele...com o seu vento...

E é apenas essa a nossa tarefa...
Um abraço

Anónimo disse...

Comprei um balãovermelho por um tostão...senti-me o mais feliz dos meninos.
Trouxe-o para casa. Estava alí minha felicidade plena.
Quando abri o cancelo da minha casa, uma silva arguta espetou-lhe um espinho...Chorei...chorei...Parecia que tudo na vida se me tinha acabado...


Como me enganei!...

Minha vida inteira tem sido um balão de sonho...
um abraço

Anónimo disse...

"Porque este mundo não é meu" Ainda bem que não é nem seu nem meu nem de ninguém em particular.
É de todos.
E só quando todos se virem como um grão de areia no imenso areal é que algo pode mudar.
Eu não rezo a pedir força para mudar o mundo mas rezo a pedir força para mudar-me a mim.
"Rezo a pedir que me dê forças para mudar a Igreja, mas nem eu consigo ser autentico na minha fé." de joelhos e a chorar permita-me que reze consigo.
PR
Rico e belissimo este texto.

Anónimo disse...

Em vez de encher os pulmões e de os ir esvaziando olhe quem sabe seja melhor às vezes tê-los vazios e os ir enchendo aos poucos: quando os outros mostram incompreensão, quando não é como esperava, quando surge o desânimo a frustração… quando o ar não couber mais expira, nessa altura será de alívio!