quinta-feira, novembro 14, 2013

O Amor da minha vida

O vento soprava, não sei de que lado. Soprava forte quando me fizeram a pergunta. Qual é o amor da sua vida? Gelei com a força do vento. Em tempos diria com facilidade que era o Senhor Jesus. Hoje o peso da idade faz-me pensar duas vezes. Três ou quatro. O peso da idade faz-nos pensar muito antes de dizer as coisas. Eu quero que seja o Senhor. Gostava que fosse Ele. Mas olho em redor e vejo tanta gente que me escolhe no amor. Poderia também desculpar-me com a minha mãe. Ou até o meu pai. Ou até a Igreja. Mas sou um simples humano que, como tal, peregrina buscando o amor. Buscando-o na vida e nos outros. São os amigos, respondo. Então o senhor padre não tem em Deus o seu maior amor? E eu respondo convicto, sem pensar mais que meia vez. Esse é o maior amigo. E o vento leva as minhas palavras, não sei para que lado. Mas leva-as. Leva-as na certeza de que a algum lado irão parar. Talvez cheguem a Deus e Ele me compreenda que, com o avançar da idade, a gente deixa os ideais para procurar a realidade, a certeza do que se vive. E que só O consigo encontrar na vida que vivo e com quem a vivo. Só através disso e da felicidade que me advém dessas experiências ou vivências. Chega de ideias abstractas, pensamentos teológicos, morais ou litúrgicos. É na vida que vivo e com quem vivo que encontro o Amor da minha vida.

19 comentários:

Anónimo disse...

Bom dia!
Confessionário
Não gelei, chorei ao lê-lo desta forma.
Deste lado o vento não sopra, mas chove.
"É na vida que vivo e com quem vivo que encontro o Amor da minha vida."
Também eu encontro e sou encontrada pelo AMOR da Vida, nesta vida que vivo dia a dia.
Muito bela a sua reflexão.
PR

Filha de Maria disse...

Pois... e as mães, têm nos filhos os seu maior amor!

Já a mãe de Lúcia dizia o mesmo, quando ensinava a doutrina aos filhos: "Amar a Deus, sobre todas as coisas", aqui também ela patinava e assumia com verdade o seu grande amor pelos filhos e marido!

Encontrei este testemunho, quando tmbém eu me sentia a patinar neste 1º mandamento, senti-me reconfortada, compreendida e continuei caminho alegremente.

Anónimo disse...

Gostei muito!

LPS

Anónimo disse...

Texto fantástico.
Obrigado, padre.

Anónimo disse...

Não sei se andei a fugir, penso que não, porque sempre tentei entender, como nestas últimas semanas, em que mais uma vez, andei a rever a minha vida, a tentar chegar, a compreender o que não sei ou não posso ou não me é dado saber. Por isso pus mais uma vez de lado, temporariamente, porque sempre volto lá, e quem me dera não ter de voltar, pois sinto-me cansada da incógnita, da pergunta, e de muito mais. Hoje o padre, o do confessionário, no seu desabafo, eu não esperava, fez-me sentir de todas as cores que uma resposta emocional nos pode instantaneamente dar. Confrontada, pela coincidência e perante a emoção que se antecipou aos motivos do coração e à compreensão da razão, desconcertada, desorganizada como um puzzle a reconstruir, fiquei assim meio a nu ao ler. Quantas centenas de vezes me perguntei e Te perguntei quem é o amor da minha vida? Sempre a mesma resposta, para comigo: Não sei se amo o padre, se a Deus. Sim, não sei se estou há quase vinte anos apaixonada por um padre ou por Deus. Quase vinte anos deviam ser suficientes para saber, mas não. Permanece a angustiante dúvida, e também o amor que me acompanha sem reticências, ano após ano. Mas porque é que a resposta haverá de ser dicotómica? Quanto mais quero saber, mais creio que ela é complexa e que a de Deus não é compreensível. Sinto-a como a de alguém que murmurasse longe demais para poder ser entendido. Mesmo quando rebuscamos no mais íntimo, nem sempre achamos. Não quero procurar mais, estou farta. Não quero pensar mais. Penso que um dia surgirá a resposta naturalmente, e se não surgir temo levar a dúvida. Eu também gostava que fosse o Senhor! Mas hoje compreendo que as certezas de ontem não eram mais certezas que as incertezas de hoje. E que ontem não eras mais importante do que hoje. Tenho sentido que devo as minhas desculpas aos que me amaram e que eu não pude amar como mereciam, mas que estiveram ou estão a meu lado. Que também a minha vida está repleta de ideias abstractas, pensamentos teológicos e morais. Repleta do que é, do que poderia ter sido, do que será, e eu aspiro somente às coisas simples e afinal naturais. E que deve ser na vida que vivo e com quem vivo que devo também encontrar o amor. Ou O Amor. Mas é inevitável, a pergunta impõe-se, qual é o amor da minha vida? O padre ou Deus? Acho que vou ter de deixar a resposta para depois…

Anónimo disse...

Pe Conf.

descobri o seu site há relativamente pouco tempo e não me canso de ler os seus posts bem como alguns comentários.

Obrigado por ser, ainda que anónimo, tão verdadeiro, humano e pertinente.

De facto a amizade é indissociável do amor e Deus é amor.

Partindo do princípio que vocês padres se afastam, do ponto de vista geográfico, daqueles que
mais vos amam nesta vida terrena (família e amigos intímos) para abraçar uma ou, na maioria das vezes várias paróquias, com a missão de amar todos e ninguém em particular a não ser Deus, inquieta-me a vossa solidão. As amizades levam tempo a construir, exigem reciprocidade, disponibilidade não só enquanto padre mas enquanto ser humano. Observo muitas vezes o meu pároco, na casa dos trinta, bastante apresentável, com cerca de 7 paróquias a cargo e questiona-me que tipo de amizades pode ter ele construído nos últimos 7,8 anos que passou por aqui nesta zona onde a igreja é tradicionalmente para as mulheres. 7 paróquias para amar é de loucos...Como pode um padre com todos estes afazeres encontrar tempo para si e para construir verdadeiras amizades?

Para alem da questão do tempo, existem ainda outros condicionalismos. Mulheres na casa dos 30,40 solteiras, divorciadas ou viúvas, pelo menos em público parece fugir a sete pés. O cumprimento que lhes dirige é afável como não poderia deixar de o ser, mas muito rápido. As más línguas estão sempre prontas a actuar, um padre bonito, com todo o respeito,é sempre muito vigiado e o meio é muito pequeno.Pelo que para esta franja da população estabelecer uma verdadeira amizade com o pároco é para muitos olhos inapropriado. Sobra-lhes apenas o espaço da confissão para estabelecer algum tipo de amizade. No entanto, a não ser que se trate de uma grande pecadora, a confissão não acontece com a frequência com que se toma um café com um amigo.

Embora reconheça que os homens nutrem uma certa simpatia por este padre,como já aqui referi, nesta zona do país, a missa é tradicionalmente para as mulheres pelo que os homens estão em muito menor número.
Temos ainda as senhoras casadas, com filhos e que por muito amor que tenham à igreja têm o mesmo problema do pároco - falta de tempo. Mas ainda assim algumas encontram tempo para ser catequistas.
Sobram assim as senhoras mais idosas que normalmente se dispõem a servir a igreja e aliviam de alguma forma a sobrecarga do padre.
E pergunto-me: aquelas conversas, que normalmente se têm com o cônjuge ou com os bons amigos,aquelas conversas profundas e deliciosas que podem demorar horas sem que se dê conta do tempo a passar. Com quem as tem o meu pastor? Até que ponto o conhecemos e até que ponto conhece ele as suas ovelhas?

Que Deus o rodeie de bons amigos padre!

Moçambicano disse...

Caro Amigo P.e Confessionário:

"E que só O consigo encontrar (a Deus) na vida que vivo e com quem a vivo. Só através disso e da felicidade que me advém dessas experiências ou vivências. Chega de ideias abstractas, pensamentos teológicos, morais ou litúrgicos. É na vida que vivo e com quem vivo que encontro o Amor da minha vida."

Este extracto mereceria decerto o "pavor" de alguns seus Colegas, mais dados a uma "Espiritualidde profunda". Mas a mim, pessoalmente, faz-me sentir "confirmado" na minha busca.
Obrigado pela sua Amizade.

Um forte Abraço.

Moçambicano

Moçambicano disse...

Também eu "(...) sou um simples humano que, como tal, peregrina buscando o amor. Buscando-o na vida e nos outros.".

E procuro não me esquecer que quando deixamos de (ousar) Confiar uns nos Outros, o passo seguinte é deixar de (ousar) acreditar em Deus.

Outro forte Abraço.

Moçambicano

Anónimo disse...

Estava a pensar... responder, mas apresentaram-se tantos desfechos para a interpretação do que escreveu que gostaria de perguntar claramente: O amor da sua vida é afinal A(s) pessoa(s) ou Deus?
Uma história com muitos finais... pode dizer algo mais para entender melhor??

Anónimo disse...

Bom dia
Li, voltei a ler, e irei continuar a ler...
É que o vento ás vezes quando sopra de alguns lados, faz-nos "abanar" não só o corpo mas também o pensamento, e ás vezes na vida que vivo e com quem vivo, não é fácil de encontrar o Amor da vida, mas por enquanto não desisto...
(O peso da idade faz-nos pensar muito antes de dizer as coisas.
Esta reflexão está simplesmente BELA.
MM

Confessionário disse...

anonimo de 18 Novembro, 2013 16:09

o que é que tu achas?
como achas que este post diz que se ama a Deus?

Anónimo disse...

Se diz amar Deus, vou acreditar. Fiquei baralhada. Não consegui comentar.

Anónimo disse...

Se diz que Deus é o amor da tua vida, eu acredito. Fiquei toda baralhada. Não consegui comentar.

Anónimo disse...

"o que é que tu achas?
como achas que este post diz que se ama a Deus?"
Não sou o anónimo a quem as perguntas eram dirigidas mas permita-me responder é que o Amor de Deus chega até nós através dos que nos rodeiam, é neles que em primeiro lugar deveríamos ver o amor de Deus.

Anónimo disse...

Amiga Anónima de 19 Novembro, 2013 08:40, parece-me que esse também é o ponto de vista do padre, ao responder-me. Acho que ele encontra nas pessoas Deus. A minha dúvida era como se dava esse seu processo interior, um processo que por vezes engana a muitos, e ao próprio. Mas sim, ele concordará certamente consigo! Abraço

Anónimo disse...

"como se dava esse seu processo interior,"
Não existe uma receita para esse processo.
Uma pergunta que me faço frequentemente, como posso eu falar do amor de Deus ou dizer que encontro o Amor de Deus nas pessoas se não o consigo ver no meu marido (por exemplo)...
Ridículo? mas é assim mesmo.
Acrescento ainda que tal como vejo Deus nas pessoas também vejo aquilo a que vulgarmente se chama de "diabo".
Se esse é também o ponto de vista do padre, não é importante para mim, sei apenas que o meu caminho é por aí.
Sei também que muito recentemente foi também um padre que me disse que se eu não conseguia ver Deus nas pessoas é porque não era amada.
Sei ainda que cada um de nós é ÚNICO portanto não há receitas para o que quer que seja, a receita é cada um que a faz.
PR

Anónimo disse...

(O "como se dava esse seu processo", significava "como se deu" concreto, definido e único.
Pode encontrar o amor de Deus nos outros na medida em que o tem e não na medida em que o recebe dos outros. Amamos os outros não porque são parecidos com Cristo, mas na medida em que nos identificamos com Ele é que vemos os outros à Sua semelhança. Vemos o lado melhor dos piores. Os santos até dos diabos viam as qualidades.
Obviamente que esse padre era pouco paciente e foi desadequado. Nem sempre o amor de Deus permite uma manifestação tão directa como a resposta do padre pressupõe. Mas se ama Deus porque se deixa abalar por frases ocas? Deus ama-a independentemente do que lhe disseram ou dirão, esta é a nossa maior certeza relativa a Deus é de que Ele é realmente Amor, tudo o que pressuponha o contrário, não testemunha da Verdade.

Anónimo disse...

PR digo-lhe ainda, todos nós temos de Deus e do diabo, (Bom e mau) normalmente mais da segunda, por isso é realista na sua observação. Peça sempre a Deus que a vá tornando mais à Sua semelhança. BJ

Anónimo disse...

"Pode encontrar o amor de Deus nos outros na medida em que o tem e não na medida em que o recebe dos outros."
Fiquei perplexa perante esta afirmação, nunca tinha pensado "por aí", não sei se concordo ou não mas "adorei" lê-la.
"todos nós temos de Deus e do diabo, (Bom e mau) normalmente mais da segunda, por isso é realista "
Concordo quando diz que todos temos uma dualidade interna sempre em luta, mas discordo quando diz que é a parte má a que normalmente mais se faz notar.
Acho que na vida do dia a dia sobressai a que alimentarmos melhor.
Gostei tanto de ler estes dois últimos comentários.
OBRIGADA!
PR