terça-feira, janeiro 10, 2006

Uma grande bactéria

Tinha dentro de si uma bactéria desconhecida. Os médicos não a conheciam. Estava inconsciente há duas semanas. Vinte e quatro anos. Tudo num repente. Dores esquisitas. Urgências. Médico. Medicamentos. Médicos de novo. Urgência para Coimbra. Coma. Afinal duas bactérias desconhecidas. Ligada a máquinas. Não podemos desistir. Nem de esperar nem de chorar. Liguei para o pai. Disse duas ou três palavras. Insisti que não sabia que dizer. Não me reconhecia o direito de saber o que dizer. Temia a revolta contra Deus. É que o pai era, por assim dizer, um afastado. Um que deixara Deus só para os casamentos, baptizados e funerais. Por isso nem falei em desígnio de Deus. Disse apenas que ia rezar. E do outro lado, as lágrimas disfarçadas. O mesmo pai afastado, dorido, sofrido, respondeu. É Deus que me deve estar a dar um abanão. Deve querer dizer-me qualquer coisa. Tenho pensado muito Nele ultimamente. Tudo depende Dele.
Eu sorri disfarçadamente. Por detrás do auscultador. Um misto de dor e alegria.

P.S. Já passaram quatro semanas e ela já foi desligada das máquinas. Dois pontos a favor de Deus.

25 comentários:

Vítor Mácula disse...

Mistério.

Mistério da vida.

Mistério da fé.

Mistério.

E já é falar demais.

Abraço.

palheirense disse...

Foi a Maria com a partida da avó, agora este pai....Ó Confessionário são duas coisas tão fortes que nos abalam um pouco.
Ás tantas somos quase levados a pensar que Deus faz questão de provocar estas situações para nos tocar.
Eu continuo a pensar que Ele pode aproveita-las mas provoca-las não.
Abraço amigo a todos.

sophiarui disse...

Rezarei também por ela...

Abraço

Confessionário disse...

Palheirense, tb não acho que ele as provoque. Tão só que deixe que aconteçam. Aliás, na fragilidade se reconhece a força e o poder de Deus, a Sua necessidade.

Mais, que os sinais da presença de Deus não são sempre os sinais positivos, não. Ele, como se costuma dizer, escreve muitas vezes direito por linhas tortas...

MC disse...

Tu livra-te em falares em desígnios de Deus.
Reza, reza, reza, reza e acompanha, acompanha, acompanha, acompanha.

Nós faremos outro tanto.

Carla Isabel disse...

É a fé que nos move!

Bjs

carla

zebeirão disse...

Desígnios de Deus, não.
Contingência da natureza humana, sim.
Mas como o sofrimento nos faz crescer!!!!
Que mistério este! (como dizia o Vitor)

Abraço

Carla Isabel disse...

Obrigada pela força que me dixou no meu blog!

Tenho fé sim!...é a fé que nos move!

Obrigada

Bjs

Carla

MC disse...

"dois pontos a favor de Deus"
de Deus ou do homem?

Ver para crer disse...

E ainda há quem pense e diga:
porquê o sofrimento?!
às vezes precisamos mesmo de um abanão...

Caros Amigos disse...

Cá estou eu outra vez!...
E valeu a pena vir. É que recordei o abanão que um dia levei por coisa parecida. Não queiram saber...

xana disse...

Então, caríssimos... ?!!
E agora estás bem?

xana disse...

Confessionário, como confessei algures já em outro post, creio que na história da Maria, acredito muito nisto que uma vez li:

"Todo o homem tem, mais cedo ou mais tarde em sua vida, o seu encontro com Deus"..

Coisas da Tony disse...

Nos momentos felizes, louva a Deus.
Nos momentos difíceis, procura Deus.
Nos momentos tranquilos, adora a Deus.
Nos momentos dolorosos, confia em Deus.
A todo o momento, agradece a Deus

Sonia disse...

Que descanse em paz.

Sonhadora disse...

É o sentimento de impotência que nós sentimos quando não podemos impedir a partida de alguém, que muitas vezes nos faz cair em nós, e perceber que não somos tão auto-suficientes como pensamos.
É preciso muitas vezes cairmos (em nós)para nos levantarmos de novo para a Vida.

Pdivulg disse...

Que dizer? Ás vezes o silêncio é de ouro.

Confessionário disse...

Chiiii... depois do que disse a Sónia, fiquei intrigado! Se calhar não fui claro. A minha amiguita não faleceu (pelo menos ainda não! e esperemos que não!). Foi desligada das máquinas porque começou a reagir bem. Os pulmões já funcionam por si. Continua inconsciente, mas já meche e tem reacções.
Desculpem se induzi em erro...

JOINCANTO disse...

Pois, eu inicialmente também não percebi se a menina morreu ou não, mas de qualquer forma os pontos (e os louros) são sempre de e para Deus.
Abraços

guga disse...

Sou 1 bocado céptica, mas acho que abanões levamos todos os dias de todo o lado e nem por isso muitas vezes aprendemos mais ou melhor.

Tenho fé em algo superior, mas devo confessar que nos últimos 4 anos principalmente comecei a ter dificuldade em segurá-la.

Sandra

Luz Dourada disse...

Eu acredito que a fé e a oração, desencadeiam energias espirituais que podem ajudar a promover a cura, não só espiritual mas física, pois as duas andam interligadas.Aliás já há pesquisa médica neste sentido. A fé é a escada que nos leva a Deus e muitas vezes nós não somos capazes de a utilizar. Mas também me pergunto? E se a menina tivesse morrido? Isso seria um sinal de menos amor de Deus? Acho que não. Nós estamos demasiado agarrados às nossas emoções para percebermos que nem sempre o que nós mais desejamos é aquilo que é necessário acontecer. Digo isto e no entanto assisti à vida da minha mãe que, tendo fé, nunca ficou totalmente conformada com a morte do seu filho de 4 anos. E dizia...mas foi a vontade de Deus... e Deus é bom - Deus á amor...
Estas coisas, estas lutas entre o emocional e a fé, são muito, muito complicadas. Pelo sim pelo não, prefiro pensar que a ciência desenvolver-se como se está a desenolver, já é um sinal de Deus entre nós e tentar confiar nesse sinal. Por outro lado, também me conforta pensar que morrer fisicamente é uma estado aparente, porque a alma continua a existir...
Mistério da fé....mistério do amor...

Confessionário disse...

Luz... e quando eu digo que nestas coisas podemos ver Deus, quero reforçar a ideia de que, na fragilidade, damos conta da força e do poder de Deus, da necessidade que temos Dele, da realidade humana, pois não somos deuses...

guevara disse...

levamos abanões todos os dias, alguns nao suficientes.
mas também nao sei se têm que ser sufucientes.

tanta gente que quer acreditar e nao consegue, que pode ser mais um daqueles desejos inconfessaveis, tornados realidade pela pior razão.

nao sei... digo eu.

O-ren Ishii disse...

sou um pco ceptica... já houve tempos em que acreditei, já houve tempos em que quis acreditar que acreditava, agora simplesmente sei que não sei se acredito... Há factos que me deixam de pé no cepticismo, há outros que me fazem ter fé...
Mas neste caso... que bom para ela... há outros tantos que não resistem a situaçoes identicas... Eu conheci um deles...

Confessionário disse...

O-ren Ishii, o acreditar depende de uma predisposição amorosa interior. É uma questão de paixão e de fascínio que leva todo o nosso ser a moldar-se em redor dessa referência, Deus... Deixa-te seduzir, e logo verás. Não penses. Não raciocínes. Deixa o coração falar...