sábado, janeiro 21, 2006

Uma velhinha sincera

O padre gesticulava. Ainda lembro. Eu era seminarista. Acolitava. Tratava-se da grande festa lá da terra. Era um padre convidado. Gestos e mais gestos. Nunca gostei muito destas homilias ou sermões. Gritava. Esbaforia. Depois admoestava. Silenciava as palavras. Falava em tom grave. Usava a voz da cabeça, do diafragma e da garganta. Sabia usar as técnicas todas. Chama-se a isto a retórica homilética. Se não chama, crio-lhe o nome. Eu ria por entre os dentes. Mas havia quem chorasse. E S. qualquercoisa, com o peito cravado de sangue, suava horrores vermelhos de sofrimento. Como o sangue de nosso senhor Jesus Cristo derramado no altar da sagrada eucaristia, o sacrifício do eterno Pai. No meio de tantas palavras, a gente tentava descobrir a Palavra de Deus. Tentava, pois. E continuava a tentar porque não se conseguia. Mas havia quem arregalasse os olhos. Grande espectáculo. Isto é que é sermão. E ainda tinha que dizer várias vezes o nome de S. qualquercoisa para merecer os tostões. Tipo, quarenta e cinco minutos de palavras no mínimo. Pois que, como num espectáculo, a gente não paga para ver dez minutos de conversa.
Mas o melhor veio no final. Após a demorada missa, saímos, ou entrámos para a sacristia. Desparamentação. Vem uma velhinha ao nosso encontro. Ao encontro do padre. Muito curvada. Muito risonha. Senhor padre, o senhor falou tão bem. Parabéns. O caro padre, inchado, perguntou então. Gostou, foi, minha linda? Ao que ouviu a resposta: ai, senhor padre, desculpe, pode falar mais alto, que sou um bocadito surda!!

13 comentários:

ivan (aka bandinho) disse...

eheheheh.


por acaso na minha infancia, lidei com um padre que sabia como fazer passar a mensagem, qualquer que fosse a plateia. sabia adequar o discurso a cada situação. e ainda mandava umas bocas pelo meio, para por toda a gente a rir, com a ironia que lhe era costume. e nunca se esquecia do mais importante,no meu entender: fé.

erva-cidreira disse...

"Paris vale bem uma missa" :)

Emanuel disse...

Obrigado pela visita "Confessionário"!
E obrigado também pelo comentário.
Ainda bem que existe mais alguém que pensa dessa maneira em relação ao caminho de cada um.

Um abraço

xana disse...

Ao confessionário tão bem disposto:

Um sorriso num abraço!

Ou..

Um abraço num soriso!

Carla Isabel disse...

Olá amigo

Eu também sorri!
É que na minha terra isso também acontecia...e eu também ás vezes sentia que era um exagero aquelas homilias forçadas...
Obrigada por partilhares conosco estas passagens!
Bjs
CArla

Sonhadora disse...

Também já assisti a missas assim! Realmente há quem fique extasiado com tanta eloquência ("Isto é que é sermão!"); e há quem ache um exagero. Costumo dizer que nem sempre quem fala mais alto é quem tem razão, e por vezes fica aquela sensação que estamos mais perante uma representação do que uma homilia. Mas o importante é que a mensagem chegue e ainda bem que chegou à velhinha!
Obrigada por este momento tão alegre!

Luz Dourada disse...

eheheh!

Essa é muito boa!
Ás vezes a surdez ajuda muito...

Sonhador Acordado disse...

Quando as homilias se tornam "sermões", nem sempre me sinto muito bem na missa. Já ouvi algumas homilias que me lembram esta, se bem que sem os gestos, mas com o tom e as palavras como desecreve. Quando não se tem a lucidez de distinguir o exagero, podem-nos fazer sentir bastante mal. Discordando da velhinha, ainda bem que nem todas são assim.

Confessionário disse...

Sonhadora, achas que a mensagem chegou à velhinha?!

Confessionário disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Sonhadora disse...

Confessionário:

Pois, é verdade... nem a ela nem a ninguém na missa!

Vítor Mácula disse...

Caros.

Eh eh eh eh!

Pois, a malta quer é distrair-se de si e da reflexão e contemplação… Pois… Seja como for, as técnicas e ímpetos “teatrais” não são por si “desviantes”. Têm é que ser orientados pelo amor e pela “apostolice”, e não pela vaidade e pela busca de aprovação e aplausos – como aliás, todo o resto. Quanto às homilias, como é evidente e penso eu.

Isto também me remete para a espectacularidade que a Igreja muitas vezes assume, tanto em procissões como nos meios desta esplendorosa época de mediações e representações tecnológicas e outras…
Mas isto sou eu, que também sou um pouco surdo...

Eh eh eh eh! Ganda post!

Abraços.

palheirense disse...

As senhoras mais idosas da aldeia onde nasci tinham, algumas ainda têm, o habito de rezar o terço na Eucaristia durante a homilia. A minha própria mãe tinha esse hábito e quando eu lhe perguntava porquê dizia-me que podia ouvir e rezar ao mesmo tempo. Claro que elas não tinham culpa, era um procedimento que vinha de há muitos anos. Não sei se era a mensagem do Pároco que não lhes prendia a atenção por não comunicar em linguagem apropriada se eram os próprios padres, porque não era só na minha aldeia, que achavam normal. O que é certo é que se fizesse uma pergunta a qualquer delas sobre as reflexões do celebrante a resposta era invariavelmente “Não me lembro”.
Mas, durante as celebrações do Senhor dos Passos, em que eram convidados diversos Sacerdotes para “fazerem os sermões “ nas diversas etapas da procissão, principalmente o que fizesse o “sermão” do Calvário, se não conseguisse gritar e dramatizar o suficiente para pôr todas aquelas senhoras a chorar, não voltava a ser convidado.
Elas não tinham percebido nada nem o pregador tinha acrescentado nada ao seu pouco saber Evangélico mas saíam todas lavadas em lágrimas e a dizer “que grande sermão”
Abraço amigo.