segunda-feira, janeiro 16, 2006

Um negócio dos diabos!

Estão a imaginar. Uma daquelas senhoras de secretaria. Nova. Mãe de uma criancita. Muito zangada com Deus. O pai morrera há uns dias. Doença incurável. Pelo menos aos humanos. Gesticulava com nervos, mas, ao mesmo tempo, com alguma doçura. Queria perceber o que acontecera. Por isso falava comigo. Por isso viera ao confessionário. Ela prometera ir a Fátima a pé, 10 voltas à capelinha de joelhos, 10 velas para arder. E nada. Deus não a ouvira. Devia estar muito ocupado, dizia. Ou fizera de conta que não ouvia. Pedia-me para a ajudar a entender. Peguei naquela passagem do leproso que “ao ver Jesus, caiu de rosto por terra e suplicou: Se quiseres, podes curar-me”. Conhecem de certeza. Depois anui: esta deve ser a atitude de quem pede. O senhor da lepra não tinha saída. Fim à vista. E uma atitude humilde. Se Tu quiseres. Eu quero muito. Mas só se for essa a Tua vontade. Se for esse o projecto que Tens para mim. Tu é que sabes. E foi curado. Não quer dizer que a senhora não tivesse uma atitude humilde também. Mas é a postura final. A vontade de Deus. Já imaginou se Deus fizesse todas as vontades?! Da forma como alguns desejam mal a outros, imagine! E a idade que alguns teriam hoje?! O leproso abeirou-se de Jesus e fez um pedido como quem sabe que não pode, como quem sabe que está nas mãos de Deus. Nós, costumamos abeirar-nos d’Ele. Muitas vezes só nessa ocasião. E exigimos, revoltamo-nos, fazemos negócio. Será que Ele se pode comprar?! Será que Ele gosta de ser confundido com o bombeiro?!
Partiu com as lágrimas com que vinha. Mas mais aliviada, a senhora.

24 comentários:

ivan (aka bandinho) disse...

engraçado... como toda a gente se esquece facilmente do livre arbítrio. pelo que percebi quando andava na catequese (sim... eu andei na catequese!) Ele vê-nos e ama-nos, mas não interfere nem intercede...

1gota disse...

Ele sabe o que faz.
Mas à vezes, por não fazer o que queremos que Ele faça, parece-nos que não sabe.
E em momentos mais difíceis é que nos custa mais a acreditar que Ele sabe o que faz. :-(

JOINCANTO disse...

"Fátima a pé, 10 voltas à capelinha de joelhos, 10 velas para arder" e querias que Deus a ouvisse?
Lord have mercy...

Gambozina disse...

Não é fácil falarmos/pedirmos sem ser egoístas.
Quantas vezes já todos pedimos algo a Deus quando precisamos, mas nos esquecemos de agradecer quando algo de bom nos acontece? Eu sei que já o fiz muitas vezes. E sei que não está bem, que não era assim que deveria ser. Quando posso (ou será, lembro?) evito. Não evito pedir, evito esquecer de agradecer. Pedir, para mim, faz parte da fé. Agradecer também.

Luz Dourada disse...

Coisa complicada esta das promessas em troco de...
São resquícios dos cultos da antiguidade em que Deuses ferozes pediam o sangue como preito de fé...acho que ainda hoje há muito disto. No fundo é uma imagem, um pouco mais sofisticada de quem anda pelas cartomantes, videntes, etc...à procura de milagres. É um bocado aquela fé do "faz que eu te pago , ou melhor, se me fizeres eu pago-te!" No fundo não são as pessoas que têm a culpa, aí a Igreja alimentou durante séculos esta crendice do toma lá dá cá. O discurso agora é outro, mas até ao lavar dos cestos...é vindima...
Vai levar muito tempo até que a Fé subsista por si própria, sem essas chantagens emocionais perante as perdas, como se Deus fosse umas vezes bom e outras tirano.
Isto há-de mudar, eu tenho fé.

guevara disse...

Cá está! É isto!
para mim, grande lição, obrigada!

E é assim, que todos os dias me levanto e digo com o sorriso: Deus está comigo! Que seja o que ele quiser.

=)

-sonia disse...

é tão fácil sentirmo-nos únicos em pedidos, únicos em necessidades, é fácil sentirmo-nos únicos e o problema é mesmo esse.

João Gomes disse...

E isto: "Digo-vos pois: pedi e dar-se-vos-á; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; porque todo aquele que pede recebe, quem procura encontra e ao que bate abrir-se-á." Lucas 11, 9-10

Sei que devo ser mais maduro na minha fé... nem sequer é uma questão de maturidade, penso... mas talvez de... fé a sério...

Mas então porque nos diz para pedirmos? Bem sei que nesta pequena citação, o pedir aparece juntamente com o procurar e o bater... tenho para mim que isso não é por acaso...

Mas se pedimos e vamos à procura, porque não encontramos...?!
Serão os meus olhos que estão tão fechados?
Será egoísmo?
Será dificuldade em perceber o que é importante?

...

Sabe bem vir aqui... mesmo que seja com muito pouca assiduidade... sabe bem...

Um abraço!

Sonhadora disse...

Nunca percebi esta história de pagar promessas com idas a pé a Fátima... O Mundo fica melhor por alguém ir a pé a Fátima ou outro santuário qualquer? Se for de carro já não vale?
Pessoalmente, sinto-me mais realizada como cristã se ajudar alguém que precise do que fazer uma romaria que mais parece uma prova de resistência...

Pdivulg disse...

Vi ontem o filme o Evangelho de São João, e recordo aqui isto. Lázaro que Jesus prezava tinha morrido e Jesus ressuscitou-o, no entanto voltou a morrer... Quanto à ida a Fátima mesmo que fosse lá a fazer o pino, não acredito que Deus fosse alterar fosse o que fosse. Isso apenas mostra o tipo de Fé que essa mulher tinha uma Fé muito distorcida de valores reais do Amor de Deus, mas não acredito que ela tenha culpa, terá a Igreja, o ambiente que a rodeou e a educou nessa Fé. No entanto temos de respeitar, porque bem sei que perante o desespero da doença e da morte quem não tentaria tudo?

Carla Isabel disse...

é complicado explicar isso ...!

e nos momentos dificeis sentimo-nos perdidos porque não compreendemos porquê!

esse é o momnto das pegadas na areia!

Bjs
CArla

Vítor Mácula disse...

Caro confessionário e restantes.

Já não sei quem dizia que era quase blasfémia, pensarmos que sabemos melhor que Ele o que melhor é para nós.

Mas, tal como o texto diz, desde que a intenção final seja “fiat”! – podemos dizer-lhe o que nos vai na bolha e na alma.

E é o que nos vale, senão rebentaríamos, com a vida e com a morte.

Quanto aos negócios, nunca são com Deus; a mortificação dos sentidos e as acções sacrificantes têm como fundo a reconstrução de si próprio na conformidade desejada com uma vida cristã. Negócios e contratualidades, são sempre com o outro, isto é, são mesmo dos diabos…

Enfim, como diz o Joincanto: Lord have mercy - e de nós todos.

Sei lá.

Abraços.

zebeirão disse...

Quanto a doenças e qualquer outra espécie de sofrimento, há logo uma pergunta que sobe do coração á boca: "Porquê a mim? Que mal fiz eu a Deus?"
É a atitude primária, normalíssima (!); ou nem tanto.Mas dificilmente perguntamos: "O que é que eu fiz para que me aparecesse esta doença, o que é que nos meus genes está "avariado" ou estava no "banco de dados" genético e que permitiu que agora eu esteja doente?"
Fazemos como "Adão e Eva" que, de culpado em culpado, acabou por ser Deus o culpado porque os tinha criado!
Depois, entramos numa de negócio com Deus. Normalmente isso dá mau resultado, porque Deus não Se deixa vender.
Dificilmente assumimnos a posição de Jesus Cristo: "Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice; no entanto, não se faça a minha vontade, mas a Tua!"
Creio que o que Lhe devemos pedir é sabedoria para os médicos e força e coragem para nós. E, depois, saber agradecer.

Coisas da Tony disse...
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Coisas da Tony disse...

Hum….amigo,

Não sei se a senhora terá ficado mais aliviada! O alívio, nem sempre é algo imediato…muito menos quando se trata da perda de um ente querido, neste caso do esposo, com todas as implicações que isso acarreta ao nível social, económico, profissional e familiar. No entanto importa lembrar que o luto é um processo de gestão emocional e passa por várias etapas, entre elas a incompreensão, a revolta, que se transforma em raiva…tudo isto tem de ser muito bem gerido. Da mesma forma que há pessoas adultos que nunca saíram da adolescência, há pessoas que nunca conseguiram ultrapassar o luto. Pode levar anos a ser ultrapassado. Aqui os padres, a comunidade, a família têm um papel extremamente importante. Quanto aos negócios vs “Fiat” trata-se de um questão de educação e formação que a todos diz respeito. Diz respeito à Igreja, aos padres, aos educadores, aos formadores, à sociedade em geral e a cada um de nós através do nosso exemplo. Que exemplo damos nós de confiarmos n’Ele…de lhe darmos a mão e nos deixarmos guiar como um criança se deixa levar pela mão de sua mãe?
Depois de ter lido o teu texto lembrei-me das “pegadas na areia”. É importante confiar. Desconfiar é útil, mas confiar é também muito bom e higiénico, principalmente, quando se trata de confiar n’Ele. Quanto aos pedidos, sonhos e desejos, acho que Deus deve gostar de ouvir os seus filhos sonhar! (não gostam de saber os sonhos dos vossos filhos?!)

Abraço
RAM

xana disse...

Confessionário,

Ainda bem que ela esteve um bocadinho a conversar consigo.Ainda bem.

ruipda disse...

Num mundo em que o ser humano se coloca a si proprio como o mais... O mais inteligente... O mais numeroso... O mais influente... Aquele que manipula, que altera a seu belo prazer, que domina sobre tudo e todos, é por vezes difícil perceber que apesar de tanto conhecimento o mundo não deicha de ser uma surpresa. Que existe uma série de “fenómenos” aos quais não damos resposta, fenómenos que fogem ao nosso controlo. A morte e a doença são talvez aqueles que mais nos inquietam.

É importante (penso eu) que nós seres humanos, tenhamos humildade para perceber que não conhecemos tudo (todos sabemos isso é verdade, mas será que nos queremos lembrar?), o mundo tem milhões de anos, mas nós humanos começámos a percebe-lo à poucos milhares.

Mas uma ideia que me parece interessante é que procuramos um sentido para a vida ( e por vezes também para a morte), procuramos no intimo de nós mesmos uma forma de fugir à morte, pelo menos aquela ideia de buraco escuro, sem nada, sem fim, sem piedade... No entanto quando alguém especial, como por exemplo Jesus Cristo, chega até nós e nos fala de ressureição muitos de nós não aceitamos e afastamos completamente essa possibilidade.

Porque não? Pergunto eu.
Porque não?
Não será a ressureição a resposta que nos acalma o coração?

QUEM SABE???!?!!?!?!!!!!

Henrique Santos disse...

Sou contra os negócios deste tipo. Deus é Deus, nada de confusões, eu te dou isto emtroca Tu me dás aquilo... É mesmo dos diabos... Deus escuta sempre, e penso que nós temos manifestar sobre Ele a nossa Fé, acreditando ANTES de acontecer. Mas, a vida tem um fim e não duraremos eternamente senão com Ele. É preciso ter presente que a morte significa afastamento neste mundo, mas a passagem para a eternidade, para junto d'Ele. O drama da morte é pois artificial... Eu na minha Fé penso assim. Curiosamente tenho um texto sobre isso no meu blog e gostava da sua crítica.
Um abraço, Henrique

Confessionário disse...

Gambozina... pedir não só é bom, como é óptimo. Lembrava o João: Pedi e dar-se-vos-á. Agradecer tb. Mas o pessoal esquece-se mais facilmente.
Mas o problema verdadeiro está na forma como pedimos. Aliás, não pedimos: exigimos.
Pode até ser um momento de fraqueza. Por isso se perdoa. Mas não podemos deixar de ajudar a perceber como funciona Deus...

Confessionário disse...

Ó Luz, se soubesses as vezes em que me deparo com gente de missa e gente de fé que se cruza com essas coisitas dos cartomantes, das bruxas e das sessões espiritas!!!
Nem sei bem como lidar com isto. Já não é a primeira vez que encontro certas fotocópias nas minhas igrejas paroquiais!!

Sonhadora... tale qual!!

Confessionário disse...

Coisas da Tony, claro que é bom sonhar (desde que saibamos o limite entre o sonho e a realidade) e é natural que as pessoas reajam de maneiras diferentes e tenham de superar etapas. Tb devemos compreender, como dizia o Postdivulg. Mas isso não deve levar-nos a aceitar que as coisas sejam assim. Não pode. Como dizes, formação!
Ahhh, outra coisa: era o pai e não o marido! Foi só para terminar com um sorriso!! Hehe

Confessionário disse...

Sónia, somos únicos. Mas não somos os únicos!

Ivan, andaste na catequese?!! Hummm. Senão marcávamos já na agenda!

impressaodigital disse...

Deus... o ser que a todos quer bem... e depois quando o mal nos rodeia, passa a ser um Ser que não quer saber de ninguém e que deixa cada um ao sabor dos dias, das horas, do finito!!

tenho a ideia que tudo está no livre-arbitrio, como escreveste no teu texto "deus não quer ser confundido com um bombeiro!". Mas também, em altura de incêndio quem se procura?

Confessionário disse...

Impressão, eu não digo que não devamos pedir aos bombeiros que paguem os nossos fogos. Digo que devem apagar... mas dentro das suas possibilidades! Não das nossas exigências. E acredita que já assisti a um pânico generalizado que não deixava os bombeiros cumprirem as suas tarefas, tal eram as exigêcnias!