quinta-feira, maio 01, 2014

A Maria do Céu

A Maria do Céu tem um nome bonito. É Maria e é do Céu. Tem um problema na coluna ou nas costas, que lhe tem afectado o cérebro e a cabeça, como explicou com duas lágrimas. É uma mulher sofrida. Esta doença está na moda, senhor padre. Como se as doenças também fizessem moda. Como se as doenças se vestissem de acordo com gostos ou estilistas. Elas vêm sem avisar e sem épocas, sem pedidos e sem gostos. Olhe que a gente não consegue estar sentada, deitada ou de pé. A única posição possível é a do sofrimento. A filha vai pelo mesmo caminho. Valha-me ao menos o meu nome, disse, e que este sofrimento nos traga a alegria do e no Céu. Seja o que Deus quiser, mas que me queira como o meu nome diz, Maria do Céu. Tenho um nome bonito, não tenho, senhor padre? Tem, de facto, um nome bonito e eu não disse mais nada porque ela já tinha dito o que eu teria para dizer.

5 comentários:

Ruth Bassi disse...

Olá Padre,
Embora não haja modas para as doenças, a verdade é que vão sendo identificadas algumas mas o seu
tratamento nem sempre. Penso que,por vezes, poderão ter surgido na sequência da mudança de hábitos de vida, aos vários níveis.
Porém, só existindo um grande amor a Deus,será possível aceitar com resignação algumas situações limite.
Só a esperança em alcançar um dia a plenitude junto DELE continuará a dar sentido a uma vivência de sofrimento mas isenta de revolta.
Beijinho
Ruth

Anónimo disse...

Uma boa maneira de pensarmos em Maria neste seu mês de Maio é recordarmos cada Maria do Céu!

Anónimo disse...

A questão do sofrimento do corpo coloca-me sempre muitas questões. A primeira delas tem a ver com a natureza do sofrimento. Quero pensar que o sofrimento não é infligido por Deus, que se deve simples ao facto de sermos matéria. Mas este pensamento não me tranquiliza. Sei que Deus é bom, omnisciente, omnipotente e misericordioso. Um Deus bom não pode querer o meu sofrimento; um Deus omnisciente conhece-me a mim e ao meu sofrimento; um Deus omnipotente pode libertar-me do sofrimento; um Deus misericordioso libertar-me-ia do sofrimento.
Mas o sofrimento é uma realidade apesar de Deus. Se creio em Deus, tenho de compatibilizar a ideia de Deus com a existência do sofrimento. Não posso ocultar Deus no sofrimento. Tenho que atribuir um sentido ao sofrimento. Qual o sentido do sofrimento…? Na resposta, tenho necessariamente que fazer intervir Deus. Não pode haver sentido sem Deus! Se o sofrimento é um mal, Deus é bem. Se Deus permite o meu sofrimento é porque este é para o meu bem. E, às vias tantas, até já fui escolhido para viver este sofrimento… Não encontro Deus no sofrimento, mas trago Deus para o sofrimento. O meu sofrimento deixa de ser em vão, vai ser recompensado com um bem maior. Assim é-me humanamente possível aceitar o sofrimento... E se esse bem não me for acessível na terra, tê-lo-ei que buscar no Céu. Lá encontrarei a minha Bem-Aventurança…
E, no meio de tudo isto, suscitam-se-me outras questões. Estaremos preparados para viver gratuitamente o sofrimento? O que aprendemos sobre nós, sobre os outros e sobre Deus durante o processo de sofrimento? Qual o testemunho de fé que ele nos dá? Não radicará nisto a sua “utilidade”...?
E, entre questões, algumas certezas ficam. A de que todos procuramos fugir-lhe a sete pés. E que, perante a sua inevitabilidade, todos desejamos resignarmo-nos. Não para que o sofrimento seja vivido em esfuziante alegria. Mas para que, pelo menos, seja vivido em paz. Connosco, com a vida e até com Deus. E com a nossa própria mortalidade.

PR disse...

Bom dia!
Quando percebemos que "A única posição possível é a do sofrimento.", dá-se a transformação interior que leva à salvação, operando-se então como consequência a mudança do que nos rodeia.

Não gosto do "sofrimento" seja a que nível for, reconheço no entanto que sem ele eu jamais seria a pessoa que sou, foi o sofrimento e a luta pela própria vida que me levaram a querer encontrar-me com Deus, com um Deus que descubro a cada dia, muito diferente daquela imagem que me haviam passado em criança.

Foi no meio da dor física e psicológica, do desespero, perante o absurdo da vida e a lógica da morte que eu quis deveras saber "Quem és TU? e quem sou eu?".
Ainda não tenho certezas nem sei se alguma vez as virei a ter mas a claridade aos poucos vai inundando uma alma nem sempre imaculada.

Não terá sido o nome da Senhora que a levou a concluir desta forma acerca do sofrimento mas concordo que é um nome digno de nota.

Anónimo disse...

Jesus também não gostava do sofrimento. Se gostasse não teria perdoado pecados, realizado curas e feito ressuscitações. Jesus também não queria experienciar o sofrimento. Se quisesse, não teria suplicado ao Pai, prostrado por terra, que afastasse de si “este cálice”. No entanto aceitou-o. Não por ser de sua vontade, mas para cumprir a vontade do Pai. Através do exemplo de Jesus, percebemos que o sofrimento chega sem respeitar os nossos gostos e vontades e que a sua aceitação é um acto de confiado amor em Deus. Jesus conhecia o Pai. Sabia que o seu sofrimento era salvífico. E nós… conhecemos o Pai? Podemos porventura amar e confiar n’Ele sem O conhecermos?!
O sofrimento apresenta-se-nos sem fazer nenhum sentido. Suscita-nos muitas questões. Confronta-nos com a nossa vida, com a morte, com Deus. Abala-nos tão profundamente que nos orienta directamente para o essencial. No essencial está a vida, a saúde, a espiritualidade e o amor. Está o maior amor de todos. Está Aquele que tudo pode. E, no meio da nossa aflição, a tendência é não ver Deus como “salvação”, mas como “tábua de salvação”. Procurar um Deus super-herói, com superpoderes, que nos liberte do sofrimento e nos mantenha vivos e saudáveis. E ficamos presos nesta sua faceta miraculosa. Mostramos-lhe o nosso rosto sofrido, mas não procuramos conhecer o Seu. Trazemo-Lo para o nosso sofrimento para o tentar convencer a realizar a nossa vontade, sem nos encontrarmos verdadeiramente com Ele no nosso sofrimento. Não O procuramos para amar. Não confiamos na Sua vontade. Limitamos a nossa fé ao nosso interesse imediato. Por isso, é bom saber que há ainda quem O descubra todos os dias, quem procure e o queira realmente encontra-Lo e mais do que preservar a saúde e a vida, alcançar a salvação. Eu cá não sei se conseguiria.