sexta-feira, maio 23, 2014

Ligou-me do lar

Ligou-me do lar para me dizer que estava no lar. Já lá vai mais de um mês e não gostava de lá estar. Achei piada quando me disse que eram só velhos e velhas, como se ela não se incluísse na designação. Mas a conversa não estava para piadas: A voz embargada da senhora Maria de Fátima não mo permitia. Entre umas palavras mais pronunciadas, surgia uma voz embargada. A filha levara-a para ao pé dela, mas para longe da sua casa e dos seus amigos. Se ao menos tivesse ido para perto do senhor padre, dizia a voz embargada. Já não vou à missa há um mês. Eu frisava-lhe os novos amigos e as pessoas que cuidavam dela. O descanso para a filha, pois que se lhe dava alguma coisa agora tinha quem a socorresse sem demora. Mas ela não gostava. Pertencia às minhas paróquias antigas e já antes ligava bastas vezes insinuando que lhe fazia bem ouvir a minha voz. Era a minha voz e a esperança que lhe infundia e com que lhe respondia. Os lares de terceira idade são o local para onde vão os que já nada têm para dar à sociedade, e quem para lá vai cai nessa realidade. Bem tentei que ela desse a volta ao texto. Que conseguisse descobrir as coisas boas que tinha no novo lar. Mas ela embargava a voz, transparecia o choro e dizia Peça a Deus que me leve. Disse-o duas vezes. O mesmo número de vezes que se me cortou deveras o coração. Prometi que um dia a iria ver. Pedi-lhe que se agarrasse a Deus, que Este não a abandonava. Mas quando desligou o telefone perguntei-me a mim próprio e a Deus porque têm de existir os lares. Porque tinha de ser assim?

19 comentários:

Anónimo disse...

Bom dia
Eis aqui o testemunho na primeira pessoa de uma filha que teve que deixar a mãe num lar.
A minha mãe sempre foi uma mulher espantosamente dinâmica e activa, inteligente e muito bonita.
Há cerca de 5 anos atrás começou a ter lapsos de memória, um diagnóstico incorrecto concluiu que se tratava de alzheimer. Foi medicada para tal e num curtíssimo espaço de tempo perdeu quase todas a faculdades motoras e mentais, neste ponto a situação tornou-se irreversível.
A minha mãe tem quatro filhas, 3 delas têm casa própria distante, uma está a morar em casa dos pais é solteira e trabalha.
Enquanto portadora das faculdades motoras, (as mentais foram-se num espaço de três a quatro semanas) mesmo a um custo elevadíssimo ela esteve na sua casa e dormia na sua cama. quando acamou a situação tornou-se deveras complicada.
Não encontrámos ninguém que assumisse ficar durante o dia com ela em casa enquanto a filha ia trabalhar. Era muito trabalho havia que dar de comer dar banho trocar a fralda e por aí fora... nem mesmo pagando muito bem.
Foi então que surgiu a hipótese do lar, e só quem passa por ter de tomar uma decisão destas saberá o sofrimento que causa tomá-la.
Todos os dias vai lá alguém visitá-la apesar dela não ter já a percepção de quem a visita.
Posso afirmar que é muito grande a dor.
Mas sabemos que está bem cuidada, o pessoal do lar é profissional e competente.
"porque têm de existir os lares." Graças a Deus que existem lares, o problema dos lares é quando são mal usados e servem de local de despejo.
"Os lares de terceira idade são o local para onde vão os que já nada têm para dar à sociedade," Uma afirmação muito forte, acredite que nem sempre é assim. Muitas vezes eles são uma mais valia para quem não tem nada nem ninguém mais a quem recorrer.

Paula disse...

Paz e bem.

Já estagiei num lar. E sei do que fala. Ao ler esta história lembrei-me de outras tantas. Que estão num lar contra a sua vontade e dizem que dali nada mais é o seu destino que não o céu. Tantas vezes tentei apaziguá-las. Tantas vezes lhes falei do Pai. Mas nada mais as alegrava que o momento em que me sentava ao seu lado sem tempo e mesmo que não sorrissem, só o fato de terem ali alguém que as ouvisse, que valorizasse a sua história e as suas reclamações. A verdade é que pouco podemos fazer. Não somos a família para podermos agir por elas. E com tantas pessoas idosas poucas são as funcionárias que se sentam a ouvir as pessoas idosas que tratam. Há coisas boas e coisas más. Mas de todos os que conheci (e foram muitos) em apenas um me senti feliz por perceber que apesar de não ser perfeito as pessoas conseguiam sentir-se bem e apoiadas.

Contudo, não há melhor sitio para estar que na nossa casa, perto daqueles que amamos. E digo-lhe esse é o lugar onde nos sentimos bem e onde deveremos sempre que possível ficar.

Desculpe, ter-me demorado no comentário...lembrou-me muitas caras.

Abraço em Cristo,
paula

Anónimo disse...


"Porque haviam de existir os Lares?"

E porque havemos de viver até sermos velhos, doentes e decrépitos?
Se temos de morrer, que seja antes de nos tornarmos um fardo para nós para os outros.

P.S. O Papa vai morrer em Israel, segundo diz um vidente.

Helena

Beli disse...

um dia pensei....poque a vida não começar ao contrario --nascermos velhinhos e acabar criançinhas...começei a imaginar como seria bom acabar a vida amados muito amados como as criançinhas protegidas com muito amor dos país da familia dos amigos...decubri qu Deus Nosso Senhor faz tudo na perfeiçao ...não podiamos vir da barriga duma mulher.....então pensei...temos que passar por um filtro ...muito bem filtrados ...´(dói, não dói!..)mas : os lares os hospitaís , e afins , são o que considero o filtro. o purgatorio ..muito difícil de aceitar ...para enfim irmos para os braços do pai

Anónimo disse...



O melhor é o Sr. Padre arranjar um quartinho para a D. Maria na casa paroquial. O que acha?!

Confessionário disse...

23 Maio, 2014 17:56
quantos quartos iria precisar para tantas Marias de Fátima?! pois pois

E o problema maior é que onde moro há só um quarto, e pequeno por sinal!

Anónimo disse...



Com boa vontade, tudo se consegue. Não precisa de transformar o seu quarto numa camarata, basta colocar um beliche!

Confessionário disse...

Não cabia lá o beliche... mal lá cabe a cama onde durmo... afinal os padres não moram todos em mansões!

Alima das Cartas disse...

Curiosamente ainda hoje publiquei no meu blog algo sobre o drama que estamos a passar na família sobre o ter ou não a minha avó numa família de acolhimento ou num lar.
Eu defendo que um lar bem organizado, apetrechado e com actividades vale muito mais que ficar na casa de algum filho que só pode estar com o idoso à noite, porque trabalha.
Trabalhei em vários lares, quer em Portugal, quer em Espanha e só posso dizer bem deles porque há uma grande estimulação de convívio e actividades que jamais poderiam ter em casa.

Anónimo disse...



Quase que me atrevia a sugerir que oferecesse o seu quarto à D. Maria e que o Senhor Padre ficasse a dormir na banheira... Mas aposto que só tem um poliban!!!

Confessionário disse...

Por acaso é banheira, mas não caibo lá se não em pé.

Ferreira Carvalho disse...

Seguindo o mesmo raciocínio, creio que o sr. padre deveria ceder toda a casa à D. Maria de Fátima e a quem precisasse e criar uma casota para si no jardim. Ah ah ah!

Anónimo disse...


Estou certa que quando o Senhor Padre for para um lar vai ter muito melhores condições. Até lá!

SIRF disse...

A música! As frases que se lêm neste blog são algo que me deixam SEMPRE a pensar. Umas vezes solto uns sorrisos e até gargalhadas| Outras choro...talvez porque me identifico com muito do que aqui se diz. E houvessem mais padres como o senhor confessionário e talvez houvesse mais pessoas nas igrejas. Eu também já conheci dois padres assim mas é difícil. Mas mais que padres, pessoas...que conseguem parar e pensar nos outros. E aliviar-lhes o "fardo" nem que seja ouvindo-as.

Confessionário disse...

Não levo a mal a brincadeira que aqui se passou com as condições que eu poderia partilhar com a senhora do lar. Nem sequer a da casota. Na realidade, fartei-me de rir...

Confessionário disse...

SIRF
muito, mas muito obrigada pelas tuas palavras... Bem desejava que assim fosse, mas nas minhas paróquias tb há bancos por preencher!

Anónimo disse...

Aqui está um tema que me é de facto querido... Trabalhei neste último ano e meio num lar enquanto auxiliar. As circunstâncias e a provação pela qual passava no momento em que ingressei nesta função (a qual jamais, em toda a minha vida profissional, me tinha passado pela cabeça desempenhar) fizeram-me olhar para ela não, como se de mais um emprego se tratasse, mas sim como se de uma terapia se tratasse. Uma terapia que se encontra na ajuda ao próximo. Na impossibilidade de ingressar numa missão em Africa, a possibilidade de trabalhar num lar algures perdido no meio do Alentejo pareceu-me uma missão igualmente nobre! Esta predisposição quase que voluntária que me levou aquela casa permitiu-me sem dúvida ter uma visão não só enquanto funcionária mas profundamente humana e sensível a esta temática da terceira idade. Não quero, de forma alguma, com isto dizer que as outras funcionárias não olhem com humanidade e misericórdia o trabalho que fazem, no entanto por ter sentido que Deus “me tirou literalmente o tapete debaixo do pés” apesar de imediatamente Lhe sentir o colo (contei-te em privado a minha dor, talvez não te recordes o que é normal) senti-me sempre, nem sei bem porquê, mais sensibilizada para a temática. Bom chega de falar de mim e eis as elações que retirei deste ano e meio. Desde já quero louvar as funcionárias, que apesar de tudo, põe o coração naquilo que fazem. Que trabalho tão desvalorizado perante a sociedade. Mal pago, extremamente pesado do ponto de vista físico e psicológico, estigmatizado e ao qual familiares com menos formação se sentem no direito de cobrar as maiores futilidades. A aparência do idoso passa nalguns casos a superar de longe o seu sentimento. Como em todas as profissões existem bons e maus profissionais. Deixo aqui a minha profunda admiração pelas boas.

Nem todos os utentes se encontram no mesmo estado de saúde.

Alguns encontram-se de tal forma dependentes e dementes que cuidar deles deixa completamente de ser um ato profissional para passar a ser uma ato de misericórdia e compaixão e cujo retorno (para qualquer funcionária provida desta sensibilidade) é extraordinário, não só pelo idoso, como pela família que não é imune ao sofrimento. Muito pelo contrário, tive várias vezes a sensação que a família sofre bastante mais nestes casos, uma vez que na maioria das vezes o idoso se encontra já destituído das suas faculdades mentais. O que seria destas famílias se nestas horas não tivesse o apoio das instituições? E quantas vezes a pergunta surge: “Meu Deus porque levas pais de família com 40 anos e deixas estas vidas prolongarem-se desta forma?” Espero com fé um dia obter a resposta…
(continua)
SL

Anónimo disse...

(continuação)
Depois existem os casos como a D. Maria de Fátima, contrariados, amargos, ávidos de atenção… O melhor retorno que se pode ter, limita-se a conseguir arrancar-lhes um sorriso. Uma gargalhada é um dia claramente ganho J. No meio de tantas D. Marias de Fátimas, lá aparece um ou outro bem disposto e cuja boa disposição se nota claramente que é fruto de estar bem resolvido com a vida.

Nem sempre a família é responsável por esta amargura típica desta fase da vida passada num lar. Muitas são as famílias presentes que ainda assim não conseguem reverter esta infelicidade em que os idosos mergulham num lar. No entanto já diz o velho ditado popular “ de velho se passa a menino” e se a Lei obriga os pais a participar ativamente na vida escolar de um filho também deveria obrigar a participar ativamente na vida do idoso no lar. Evitaria com certeza atitudes que se assemelham a autênticos despejos. Ao invés de criticar a instituição e as funcionárias, que é sem dúvida o mais fácil para tentar aliviar a consciência, seria bastante mais construtivo se a família questiona-se os técnicos da instituição “como podemos ajudar para que ele se sinta melhor?” Os padres parecem-me aqui também terem algum papel. Uma visita do Sr. Padre alegra sempre.



No entanto esta é sem dúvida a grande questão que me fica desta experiência: e nós na casa dos 30 e 40 anos como nos preparamos para a velhice??? Ou a velhice é como a morte? Que Deus nos livre, mas lá o fundo acreditamos que só acontece aos outros? Bem sei que a minha experiencia se passa num contexto rural, onde a maioria dos idosos é iletrado e carregam no rosto uma vida cheia de sofrimento e dificuldades. Mas nada nos prova que a ignorância é motivo para ser infeliz. E não foram poucas os idosos a quem ouvi dizer “ dantes éramos mais pobres mas mais felizes”



Se aos 30 anos sabemos mais que aos 20 e aos 40 anos mais do que aos 30, como é possível aos 80 não carregarmos um tipo de sabedoria que nos traga paz e um sentimento de bem resolvidos com a vida? Agora que a população está a envelhecer cada vez mais, não nos caberá a nós preparamo-nos para aceitar a nossa terceira idade. Trilhar um caminho de vida que nos permita a nós obter a sabedoria necessária para sentir verdadeiramente a partida para um lar com outro espírito?
SL

SIRF disse...

Infelizmente nem todos se dão ao "trabalho" (será?) de ir à Igreja, nem que seja uma vez, mas ouvir o que lá se diz. E é pena! Porque se calhar fazia-lhes tão bem!
Infelizmente também não vou tanto quanto ia à uns anos. É verdade que o pároco mudou. É verdade que não me identifico muito com certas atitudes e isso faz-me pensar muitas vezes em sermões antigos mesmo quando estou a ouvir um sermão atual! Sobre a mesma passagem....sobre os mesmos temas. São visões de padres diferentes. Mas temo que também eu esteja diferente e dificulte a crença! Bom... Continuo por aqui...a lêr este belíssimo blog e a refletir sempre que posso.