quarta-feira, março 13, 2013

Já ninguém se confessa

Já ninguém se confessa, senhor padre. Disse-me uma senhora antes de desapertar o xaile da cabeça e se sentar para se confessar. Ela é do tempo das confissões que duravam várias horas com pelo menos cinco padres. Os padres passavam o período da Quaresma de terra em terra. Ali almoçavam e confraternizavam. Juntavam-se quase todos os padres do arciprestado. Segundo um colega desse tempo, era das melhores alturas do ano. Havia tempo para tudo. Até para estar às horas com a mesma pessoa na confissão. Hoje não é assim, e a senhora do xaile tem razão. Também há menos pessoas nas terras. São muito menos os padres. Não há tempo para estar horas com a mesma pessoa na confissão. Para a maior parte das pessoas a antiga desobriga pouco diz. A palavra Desobriga também não abonava este sacramento. Mas a senhora do xaile tem razão. Mesmo quem se confessa, costuma fazer da confissão um desfiar de frases feitas, memorizadas, de pequenos nadas, mas não daquilo que intrinsecamente está lá dentro de si e é pecado. Eu diria que a senhora do xaile tem alguma razão e que já pouca gente se confessa ou sabe confessar. Ou tem consciência do que é pecado. Ou consciência do perdão de Deus. E depois ainda existem aqueles que acham que não se devem confessar ao padre. Porque ele é como nós, um de nós. Pecador como nós. E embora seja Deus quem de facto perdoa, e não o padre, esquecem a graça sacramental da Confissão. Esquecem que a Confissão é um sacramento. Mas tanto dá. Dá igual estar em graça ou não. Assim como dá igual ir à missa ou não. Assim como dá igual ter fé ou não. Assim como há muitas outras coisas na fé que tanto dá ou não. É a fé dos nossos cristãos que tanto dá.

18 comentários:

Pramos disse...

Boa tarde!
Acho que fiquei em estado de choque com a última afirmação.
"É a fé dos nossos cristãos que tanto dá."
Sé é verdade que assim é para muitos cristãos (que de cristãos pouco terão), também é verdade que não é assim para muitos outros.

E, não se esqueça que o presente é fruto do que foi semeado no passado.
Também na fé foram semeadas sementes menos boas que frutificaram.

PR

Confessionário disse...

Pramos,
Graças a Deus que nem todos entram nesta forma de tanto dá. Graças a Deus! E não podemos baixar os braços, de facto!

Ruth Bassi disse...

Pois é Padre, o conteúdo do teu post é, digamos, inquietante mas infelizmente muito real.
Por um lado,considero que o Concílio Vaticano II veio dar demasiada abertura a muitos níveis e foram sendo feitos muitos e demasiados aligeiramentos à sua margem.Penso que se passou de situações muito definidas e rígidas para outras muito simplificadas. E, temos o caso típico das confissões em que já não há pecado mas falta, em que o que conta é a intenção, em que Deus tudo perdoa e isso gera uma banalização e um esvasiar de culpabilidade. Mas, quem continuar a seguir normas mais consentâneas também se depara com dificuldades, pois conseguir conciliar a sua disponibilidade com o horário das confissões é algo bastante difícil, visto que estas normalmente são dentro dos horários e dias normais de trabalho e por períodos bastante curtos. Só mesmo com muita vontade se conseguem conjugar as duas situações.
Ao domingo, tenho sempre uma sensação dolorosa quando vejo tantas e tantas pessoas a comungar, pois parece-me quase impossível que todas estejam a fazê-lo nas devidas condições, dado que na maioria a "não confissão" é uma constante. Acho que houve como que uma protestantização do nosso catolicismo. Ou será já estamos todos a caminho da santificação?
Beijinho
Ruth

Anónimo disse...

Confesso-me sim,a DEUS! Não aos homens.
NND

Simplesmente Eu disse...

Olá!

Eu sou católica praticante (detesto esta denominação, mas é para que se perceba).

Já passei por diversas fases na minha fé e em relação a muitos aspectos.

Mas do que aqui agora se fala é da Confissão.

Também aqui, tive (ou tenho) fases.

Na adolescência tive dúvidas, muiiiiitas dúvidas, questionei o Sr. Padre Vitorino acerca de tudo! Mas não desisti. Teimosa que só eu!

Nesta fase, confessava-me porque tinha de ser, senão não podia comungar, achava aquilo uma balela. Mais tarde (e para encurtar a história que não interessa a ninguém) e muitos padres depois encontrei um Confessor, ou seja, aquela pessoa (o meu Padre Zé), com quem gostava de conversar, a quem gostava de pedir conselhos, que me limpava as lágrimas de tristeza e me dava um abraço quando vertia lágrimas de alegria…que me dava paz, que sossegava a minhas angústias quando relatava os meus “pecados”.

O padre Zé partiu para outra paróquia à 6 meses, aqui bem perto. O Padre António…não conheço, não se dá a conhecer.
As pessoas são diferentes, os padres são diferentes, EU…continuo a mesma…complicada!!!

Agora estou uma vez mais cheia de dúvidas, vou visitar o padre Zé (e a minha consciência diz que não o devo fazer), ou dou uma oportunidade ao Padre António?

Este é sempre um assunto muito complicado, pelo menos para mim!

Anónimo disse...

A minha opinião é demasiado simplista e ignorante, deve-se à minha humilde auto análise. A FÉ entendo-a como um sentimento tão profundo que mais que se tente fugir não se consegue. É parte de mim e não algo que possa ou não ter por opção. Agora como a vivo, como a vivi e como a irei viver isso é que vai dependendo. No meu caso, cresci no seio de uma familia muito religiosa, mas nunca me senti Igreja, não tinha a distancia suficiente para perceber que lá estava não porque alguém me obrigava, mas porque fazia realmente parte da Familia. Sou pecadora, sou das que participou de corpo nas várias actividades da Igreja, mas de alma distante. Confessei-me sempre por ritual, sem devoção e das tais que dizia alguns pecados que considerava que são de dizer,escondendo outros que se calhar não são graves mas por omissão e mentira foram tornando-se maiores e juntando outros vários. Deixei de me confessar, não sentia que o devia fazer, não conseguia confiar no Padre como confessor. Hoje, sinto que o tenho que fazer e é isso que irei fazer nesta Quaresma. Por isso, para mim como cada um vive a FÉ pode ser mais ou menos próxima da Igreja, mas não se deixa de a ter. Quanto mais nos distanciamos do que é NOSSO mais sofrimento nos infligimos e acabamos por (re) descobrir a nossa essência.

Anónimo disse...

Até parece que confessar é coisa fácil de se fazer, Senhor Padre… Só na cabeça de quem não tem grandes pecados…Para mim, em grau de dificuldade e atrapalhação, está ao nível de uma ida ao ginecologista… minto…é bem pior… se perante um tem que se despir a roupa, perante o outro tem que se despir a alma…depois disso, quem é que estando no seu perfeito juízo pode ainda ficar em estado de graça? Normalmente, o resultado é ficar-se sem graça nenhuma, durante dias e meses a fio… Enquanto nos lembrarmos de uma, não pensamos em metermo-nos noutra… E eu tenho muito boa memória… Infelizmente os ginecologistas e os padres também têm... Por isso, o argumento de que é Deus quem perdoa, por muito verdadeiro que seja, não incentiva nada à prática da confissão através de intermediário… Não há falta de consciência do que é o pecado, Senhor Padre, há é uma enorme consciência do que é a memória… O padre mais desmemoriado é o melhor padre confessor… Normalmente, coincide com o mais avançado em idade…Depois, mesmo que se consiga ir em frente com a confissão, a coragem não é premiada…. É que os nossos pecados perdoados continuam todos gravados na carinha do padre confessor…Olhar para ele e saber que conhece todos os nossos podres, tão bem como nós, de lés-a-lés, de frente e revés… Faz corar até à raiz dos cabelos... Não é falta de confiança, Senhor Padre, é partilha de intimidade não desejada… Como se já não bastasse, entre nós e os padres há uma grande desigualdade… Os padres sabem o chorrilho dos nossos pecados, mas o que é que nós sabemos dos deles, o que é que nos contam? Nada! A meu ver, a única forma que ainda há de salvar a confissão, é pôr os padres a confessarem-se-nos, logo no início de cada confissão… Assim, cada vez, que olhasse para o padre confessor e visse estampado no seu rosto os meus pecados, pensava cá com os meus botões, também sei, quais são os teu, também sei... meu malandrão…

Anónimo disse...

por custar, se calhar ainda tem mais valor!

Ana Melo disse...

Ei!! Este assunto “mata-me”!!

Sou das que não se confessa à mais de trinta anos. Para mim a confissão e a partilha do Pão na eucaristia estão directamente ligados, portanto a meia dúzia de vezes que comunguei neste espaço de tempo, foram pecados a juntar às centenas em lista, embora pecados de pequena monta, visto que nas situações em causa, a recusa da comunhão seria no meu entender um pecado maior. (acho!! que tenho andado todos estes anos, a tentar, deixar de pecar completamente!!! mas com este sorriso, e liberdade, nem encerrada num convento!!! )

Já por mais que uma vez, alguém mais atento, me fez a observação que “existe” a confissão a Deus directamente!!! e “estes” lá estão regularmente nas filas (grandes) da comunhão, mas eu! com o “meu olhar torto” – hummmmm, isto/este!!! não é exemplo a seguir!

Outra vez!! uma senhora esperou-me no final da missa (missa onde vou raramente, só em dias de festas, que me afastam um pouco das missas habituais), e me recomendou o padre ideal, não deixando na altura de me “consolar”! dizendo que a comunhão, deve ser vista em ultimo caso como um “medicamento”.

Vá!! partilhem as opiniões de cada um!! vamos ajudar-nos uns aos outros!! Vamos fazer dos cristãos católicos, melhores cristãos.
Confessar?!Comungar!? //não confessar?!comungar!?//comungar sempre?!// confessar por necessidade pessoal!? ( sabendo todos que podemos percorrer o caminho tradicional usando a formula simples do: srº padre não “matei “ nem “roubei”!!)

Não importa, se o padre é celibatário, se é um ex-padre casado, se tem namorada, se o padre é uma mulher - importa é que, sendo padre católico, tem de fazer parte do caminho até Deus, para os cristãos católicos.

Mesmo, “ a estas novas relações” temos de ir abrindo o cérebro!!!! Elas estão aí, já sem muitos folclores. Tenho sete sobrinhos lindos todos a ficar grandes, e não vão deixar de ser lindos e bons cachopos, no dia em que, não sendo o esperado! me apresentem um namorado/a do mesmo sexo ( será somente um momentâneo murro no estomago). Desta equação só restará o respeito com que nos vamos tratando/aceitando uns aos outros.

O ano passado na quaresma achei que me ia atrever a pôr esta situação (confissão/comunhão) em dia – não me atrevi. Este ano sinto-me sem forças – fica para o ano – vou mantendo as minhas conversas com o TODO PODEROSO, que um dia por todos nós, pela paz no mundo, se deixou morrer na CRUZ .

Anónimo disse...

Anónimo/a 15/03 - 23:12

Daqui aquela a quem custa... Achei piada ao seu comentário: curto e certeiro!
Abraço

Anónimo disse...

..."Queridos filhos, Eu vo-lo digo, o Sacrifício que hoje Deus vos pede é que mudeis as vossas vidas e que vivais santamente. Deus pede a todas as almas que se arrependam. Não digais que sois demasiado miseráveis, para que deus vos possa perdoar; e que o Altíssimo não pode ser mais compassivo. Deus vem a todos vós, mesmo aos mais miseráveis. Regressai a Deus e Ele regressará a vós. Vinde e fazei no Seu Coração a vossa morada, como Ele mesmo faz a Sua, no vosso coração. Sabei que sem fervorosas orações não podereis ver o Reino de Deus. Lembrai-vos: aquilo que Deus quer de vós é uma conversão do coração. Não tenhais medo de reconhecer os vossos pecados: vivei e ponde em prática o sacramento da Confissão. Meus filhos, Eu vos abençoo a todos."

Anónimo disse...

Pois devido precisamente à boa memória que acho que os padres têm (como refere o Anónimo de 15 Março, 2013 17:47), especialmente quando se trata de pessoas com quem lidam com alguma/bastante frequência (dos grupos paroquiais), é que me custa confessar-me ao Padre da minha Paróquia. Posso estar errada, mas penso que para quem não participe tanto na Paróquia (além da Eucaristia) poderá ser um pouco mais fácil (ou menos difícil...). É que desarma-nos logo quando o Padre nos chama pelo nome no início. Fui a rezar para que ele não me calhasse. Calhou. Não acho que tenha sido um acaso. Olho para trás e sinto que talvez tenha sido fundamental para a minha confissão, que há muito me fazia falta, pela forma como me deixou à vontade, pela postura que adoptou, pela escuta atenta, pelos conselhos que me deu de forma tão compreensiva. Depois disso, apesar de estar profundamente agradecida, tenho-me acanhado de lhe dizer "obrigada".

Confessionário disse...

Muitos dos meus paroquianos têm querido confessar-se a mim porque, dizem, se sentem mais à vontade. Dizem que eu já os conheço e meia palavra basta, assim como so conselhos podem ser mais adequados. Se confiramos verdadeiramente que quem perdoa é Deus, pode ser mais fácil confessar-se a quem nos conhece.
bj

Anónimo disse...

"Se confiramos verdadeiramente que quem perdoa é Deus, pode ser mais fácil confessar-se a quem nos conhece."

Se confiarmos que é Deus quem perdoa, entao não precisamos confessar-nos pois Ele já conhece o nosso arrrependimento.
abraço

Anónimo disse...

Há muitos anos fui confessar-me e disse: Meu Deus, como sois tão bom! … e ao tomar consciência contive o riso, mas não consegui dizer nem mais uma palavra. Teve o padre de generosamente me ajudar: “ amo-vos de todo o meu coração, pesa-me de Vos ter ofendido…” afinal o padre é que era bom! Lá que tenha passado por maluca isso não me importa, mas acho que devo ter ficado muito mal confessada, ou pelo menos é a sensação que tenho hoje. Assim aproveitei para me confessar em praça pública.

Anónimo disse...

"Se confiarmos que é Deus quem perdoa, entao não precisamos confessar-nos pois Ele já conhece o nosso arrrependimento."
Tenho pensado nesta frase com frequência.
Será que não precisamos mesmo confessar-nos?
Será que se eu me arrepender sinceramente eu não preciso de um confessor?
Algo aconteceu na minha vida muito forte e intenso, não me orgulho mas também não me consigo condenar.
Foi algo que eu não procurei.
Fiz desse assunto um local secreto no qual nunca deixei ninguém entrar.
Às vezes o coração teimosamente refugia-se lá e sente um certo conforto, mas mantém a distância de segurança.
Divido-me entre o acreditar que tudo o que é feito por amor está para além do bem e do mal e a dúvida se o sucedido contaria Deus na sua essência.
Confessionário qual é a sua opinião?
PR

Confessionário disse...

Não sei bem a que te referes... mas nem sempre aquilo que é feito por amor é bom. Imagina que matas algu´´em por amor. ASchas que pode ser bom?! Nunca...
O amor nao pode ser justificação para tudo.

Precisas sempre do "confessor" para te dar algo em concreto e assumires algo concreto. Lá está: refugiareste no amor de Deus não pode ser desculpa para te refugiares num canto. tens de asumir o erro e arrependereste. O Confessor é sempre uma ponte para tal.

Anónimo disse...

"Precisas sempre do "confessor" para te dar algo em concreto e assumires algo concreto."
Este algo concreto diz respeito ao à absolvição a receber e ao compromisso de não voltar a errar?

Tenho medo de me arrepender não vá desaparecer esse erro e esse canto onde me refugio sozinha mas onde, curiosamente, é o único lugar onde me sentirei um pouco acompanhada.

Obrigada!