sexta-feira, março 08, 2013

Não nos dá o que pedimos mas o que precisamos

A Luísa é catequista de um grupo de adolescentes do oitavo ano. Estão naquela fase. Todos nós sabemos. A fase de colocar tudo em causa. A fase de fazer perder a paciência a qualquer um. A fase em que a presença de Deus deixa de ser passivamente aceite para ser uma realidade na minha vida. Se Deus quiser e se eles quiserem. Mas a Luísa não se explicou com estas frases. Queixou-se apenas. Estou cansada. Baixou os braços e suspirou. Depois disse que às vezes tinha a sensação de que Deus estava distraído. Não nos ajuda nesta coisa que, ainda por cima, é Dele. Na última hora da catequese, no outro dia, só me faltou chorar, senhor padre. Saí zangada porque Deus não me ajudava. O que me valeu é que quando cheguei cá fora, à rua, estava lá a mãe da jovem que me havia provocado tamanha zanga do coração. Falámos vários minutos seguidos. Foi o que me valeu. Foi Deus que lhe valeu, interrompi. Nós queremos que Ele nos resolva os problemas. E o que Ele faz é dar-nos a forma de os resolvermos. Ele não faz tudo o que queremos. Mas está lá, discreto, a fazer o que precisamos. Não nos dá o que pedimos. Mas dá-nos o que precisamos.

18 comentários:

Pramos disse...

Bom dia!
"E o que Ele faz é dar-nos a forma de os resolvermos."
E é disso que precisamos, pois se Ele os resolvesse por nós deixaríamos de ser livres.
Falo apenas por mim, sabe bem sentir que "ELE" é o capitão mas que somos nós que decidimos qual o rumo a seguir.
"Não nos dá o que pedimos." e ainda bem, pois já lhe pedi coisas que eu não daria ao meu filho.
"...dá-nos o que precisamos.", nem sempre entendemos de imediato esta atitude, mas quando a interiorizamos (falo por mim) é aí que acontece o milagre e nos ajoelhamos, gratos, completamente rendidos, amando sem reservas a CRUZ.
Bela esta sua partilha.
Senti o "sentir" da Luisa, e o meu próprio sentir.

Bem haja!



JS disse...

Este é dos tais casos que, se fosse Jesus a ouvir, sentar-se-ia junto da pessoa e começaria também a chorar...

JS disse...

Ó Confessionário, eu, se fosse a ti, experimentava o ritual de exorcismos. Não sei se adiantaria alguma coisa, mas, pelo menos, a catequista ficaria ciente daquilo com que estava a lidar.

Anónimo disse...

Ora lá esta. Não teremos o Papa que pedimos, mas o que precisamos!
Belo pensamento, sr confessionário.

Bruno disse...

Fica aqui em jeito de oração, a letra de uma música da "banda jota". Não sei se o original é deles, ou se simplesmente a adaptaram

Eu pedi forças e Deus deu-me dificuldades para me fazer forte.

Eu pedi sabedoria e Deus deu-me problemas para resolver.

Eu pedi coragem e Deus deu-me pessoas
com problemas para ajudar.

Eu pedi favores e Deus deu-me todas
as oportunidades.

Eu não recebi nada do que pedi
mas recebi tudo o que precisava.

Joana ;) disse...

Bruno;

Tbém eu conheço e adoro essa música.
E a letra realmente faz todo o sentido, tal como este texto do pe. confessionário...

Bjs :)

Peregrino disse...

Tudo bem… compreendo que não somos de ferro e precisamos pedir ajuda quando não conseguimos levar sozinhos o barro cheio de água agitada… mas mal vai o caminho do discipulado (não concordo muito com o termo catequese…!)…quando alguém que abraça a missão do Anúncio, perde totalmente o leme e tem que recorrer à “chibadela” como diziam os escuteiros do Crisma que orientei alguns anos, recorrendo aos Pais para “dominar” aquilo que é apenas pedido-grito de ajuda de um coração que está em ebulição fruto das leis da natureza (adoelescencias…!)…e também da sua total incompreensão-confusão das coisas da Fé… se nós adultos vivemos tantos dilemas quanto mais um jovem...! Quando não se consegue “ganhar-conquistar” um coração…. já se perdeu o a autoridade para seguir como “mestre” dos caminhos da Fé…… espero estar enganado, mas creio que é mais um adolescente que logo que tenha oportunidade, sairá desse caminho…!


Calma…não estou a dizer-sugerir que não tenha que haver disciplina e trabalho em coordenação com os progenitores… e que também algumas vezes é pura falta de educação.. … mas não existe nada mais danoso dos que as “queixas” aos pais… também caí nesses erros e sei o que aconteceu a alguns… felizmente que consegui na maior parte dos casos repor os cacos que gerei…!


A verdade é que é vital que se gere mutua confiança entre educador e educando… sobretudo no domínio da Fé… sem ela, a CONFIANÇA, tudo se torna em puro tédio e violência interior… assim vão muitas das nossas “catequeses”…


Um santo Domingo para todos…

Peregrino disse...

Errata:

.. queria dizer (ADOLESCÊNCIAS)… e não (adoelescencias…!)… perdão…

Ruth Bassi disse...

A adolescência é uma fase da vida difícil para o próprio e para os outros - é preciso interagir com os jovens com muita paciência e discernimento a fim de captar a sua atenção e interesse, o que nem todo o adulto consegue. Ser catequista exige muito do próprio para que se interessem por Ele e uma permanente formação/reciclagem
não só de aspecto religioso mas também cultural e pedagógico. Convém não esquecer que os jovens de hoje têm acesso a muita informação e, nem sempre a correcta mas, capaz de deixar sem palavras quem não estiver devidamente actualizado.
Um abraço
Ruth

Anónimo disse...

Padre Confessionário
Gosto de visitar e participar no teu blog. Gosto tanto, que às vezes passo por aqui mais tempo do que aquele que realmente devia. Mea culpa. Confesso, no entanto, que há algo que já há muito me intriga. Não vejo por aqui tratado o lado B da vida. O lado negro da força. O negativo da fotografia. Não estou com isto a dizer, que gostava que fosse essa a temática a dar o mote ao blog. Nada disso. Sinto-me até muito confortável, nesta paleta de tonalidades pastel, com ocasionais laivos de vermelho vivo. Compreendo até os problemas da catequista Luísa e que a moral da história ultrapassa as suas contrariedades. Mas pelo menos de vez em quando...Sei que são aqui tratados muitos assuntos sérios, num ambiente leve e descontraído. Mas há tantos e tantos outros assuntos sérios… Por exemplo, há muitos tipos de sofrimento interior, e na etiqueta "sofrimento" vejo aqui quase exclusivamente abordados os associados à morte, à doença e à solidão…, outros assuntos abordados várias vezes, mas sempre na perspectiva dos mesmos, daqueles que estão duma determinada maneira... (e o que é que sentem os que estão de outra maneira?)… Não vejo nenhuma etiqueta relativa a “pedofilia”, a “prostituição”, “toxicodependência”, “violência”, “suicídio”, “eutanásia”, “jogo” etc…Há tantas situações ou questões menos boas que ficaram de fora e que se cruzam ou suscitam na vida de católicos muito bons. Como é que Deus se manifesta nos momentos enviesados? Naquele período de tempo em que o filho pródigo está fora da casa do pai? No período em que os bons/maus católicos estão caídos no chão? Em situações desesperadas? Se a falta de abordagem destes assuntos não se deve à falta de coragem, que já deste provas que a tens, a que se deve então? É uma opção consciente? Porque relatas aqui as tuas experiências e as mesmas circunscrevem-se ao lado A da vida? (Mesmo profissionalmente?) Porque não consegues encaixar essas vidas na compreensão que tens do que é exemplo de vida? Porque entendes que não vale a pena? Francamente, é uma curiosidade que eu tenho. Perdoa-me o desabafo... Até pode ser que seja eu que esteja a ver mal a coisa. É só para pensares nisso, quando tiveres um bocadinho.

Confessionário disse...

Olá, amiga/o anónima/o de 12 Março, 2013 14:28


Entendi o teu desejo e vou anotá-lo. No entanto, gostava de referir duas ou três coisitas que acho importante termos em atenção como resposta ao teu comentário que gostei, porque construtivo. Assim:

- alguns desses assuntos já foram abordados em alguns posts, mesmo que subrepticia ou indirectamente (outros vincadamente)
- não costumo ir muita na onda da comunicação social ou o que está na berra; acho que este blogue deve primar pelas coisas simples da vida e não pelo sensacionismo dos assuntos ou da televisão, embora os possa tratar de vez em quando
- na minha opinião esse não é o lado mais B do comum dos católicos
- o que abordo são coisas que acontecem á minha beira ou no meu dia a dia ou que, simplesmente me fizeram pensar na minha forma de pensar Deus, e então escrevo
- Nunca me apeteceu muito subjugar a qualquer vontade que não a de escrever o que me apetecer (como uma certa confissão de alma) e às minhas vivências
- Não tenho escrito muito sobre temas, pois aquilo que escrevo são vivências. A vida das pessoas são vivências e não temas.

Bom, podia dizer mais algumas coisitas... mas tou com o tempito muito ocupado. Peço desculpa por isso... abraço a todos

Anónimo disse...

Bom dia!
Confessionário,
Permita-me deixar aqui a minha opinião.
Achei interessante, a intervenção do anónimo de "12 Março, 2013 14:28", achei-a pertinente, mas "admirei" muito mais a sua resposta.

Gosto muito deste espaço e estou-lhe grata por ele. É um espaço que já me proporcionou muita força, tal como é.
Mas é um espaço seu, pensado por si, sentido por si.
São vivências (quer sejam próprias ou alheias) que lhe dão "vida" de uma forma subtil.
Acho que já o tinha mencionado aqui no passado.
É um espaço onde todos nos podemos encontrar (já me encontrei aqui várias vezes, comigo, consigo e com amigos), mas isso não dá o direito a ninguém de ditar as regras.
Faça o que o seu coração (entenda-se coração como o
o lugar da interioridade do homem,
o lugar da inteligência e da vontade) mandar, somente o que ele lhe indicar.
Fique bem!
Muita força para si!

Anónimo disse...

Percebi. Mais ou menos. Que fique claro que tb a mim nunca me apeteceu subjugar a vontade de quem quer que seja, muito menos a escrever sobre o que não lhe apetecer.
Abraço virtual.

Anónimo disse...

Padre Confessionário

Li com muita atenção o teu comentário de 12/03/2013 – 22:07 e admito que fiquei desiludida, com parte da resposta. Não esperava nada ou esperava mais. Ainda assim, agradeço teres disponibilizado o teu tempo, para um comentário tão pronto. Concordo inteiramente com o Anónimo de 13/03/2013 – 10:40, quando diz que este é um espaço de encontro, onde todos se podem encontrar. Mas se é um espaço de encontro, há que ir ao encontro. De todos. Para mim, isto significa, desde logo, pararmos e dispormo-nos a entender exactamente o que o outro está a querer dizer. E, parece-me que falei em alhos e tu respondeste em bugalhos.
Vivo numa cidade pequena, mas ainda assim, fazendo um levantamento por alto, nos últimos dois meses, na minha vida profissional, deparei-me com várias situações “sensacionalistas”, como tu lhe chamas. Exemplificando: Primeira: casal católico de cerca de sessenta e cinco anos, em que um dos elementos apresenta um quadro de doença neuromuscular degenerativa progressiva há vários anos; dificuldades de orientação espácio-temporal; perturbação do discurso; estados de agitação (não dorme, cospe a comida, esmurra). O outro cônjuge, é quem alimenta, lava, veste, calça, medicamenta, locomove, marca as consultas, leva ao médico, ao fisioterapeuta, vai à farmácia, passeia, lava a roupa, passa-a-ferro, cozinha, vai ao supermercado, limpa a casa, … Está ao serviço vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, sem direito a férias, nem a folgas. O único filho reside no estrangeiro, não quer saber. Actualmente, o cuidador está com uma depressão grave. O primeiro, já pediu ao segundo para o matar; o segundo já pensou várias vezes em pôr termo à própria vida; Segunda: Adolescente católico do sexo masculino com vários episódios de violência em ambiente escolar, antecedentes de abuso sexual na infância, por parte do ex-namorado da mãe; Terceira: Mulher católica, casada, vítima de espancamento (assim como o filho menor de idade) e violação por parte do marido; compelida por este a realizar dois abortos, num espaço temporal de três anos; Quarta: Homem católico, causador de acidente de viação, de que resultou um morto e um ferido grave. Conduzia sob influência de álcool e drogas.
(continua)

Anónimo disse...

(continuação)
Nenhum destes casos que aqui deixei foi objecto de tratamento televisivo ou jornalístico (mas pode ser que de futuro ainda venha a ser, quem sabe). Garanto-te que existem muitas, mas muitas pessoas nestas situações. [Não serão a maioria dos católicos, nisso tens razão, embora não tenha percebido a pertinência desse teu comentário (essa parte pareceu comentário de político!)]. É claro que, como disse, foram situações recentes com que me deparei na MINHA vida profissional, situações que se cruzaram no MEU caminho (tenho tantas outras, menos recentes). Aquilo por que estas pessoas passam são as suas vivências, não são temas, embora se possam etiquetar tematicamente. Acredito que estas pessoas necessitem de um especial consolo. Admito que gostaria de ver aqui discutidos alguns destes temas (vivências), porque muitas vezes também eu gostava de as confortar e não sei o que lhes dizer, e este é um lugar de comunhão e encontro. Atenta a tua profissão, depreendi que te chegassem situações idênticas a estas e fez-me confusão não as encontrar aqui expostas, de quando em vez. Pelo que percebo agora, afinal não devem fazer parte da tua realidade. Não são vivências tuas. Tudo bem. Bastava dizeres “o que abordo são coisas que acontecem à minha beira ou no meu dia a dia ou me fizeram pensar na minha forma de pensar deus, e então escrevo”. Bastava.
Afinei com a frase: “Nunca me apeteceu muito subjugar a qualquer vontade que não a de escrever o que me apetecer…”. Tens noção do peso da palavra subjugar, neste contexto? Foi muito mal escolhida. Ainda por cima, levou o meu comentário para onde ele nunca esteve, nem pretendeu ir. É que confundir uma interrogação ou uma sugestão de um penitente, com uma pretensão de subjugação de vontade… Alto aí! Entre as duas situações vai uma grande distância. Não te parece? Não és tu que tantas vezes, chamas a este espaço, de “este nosso espaço”?
Apesar deste ser um local de encontro, neste momento, neste preciso instante, para dizer a verdade,o que me apetece é virar costas.
Fica bem.

Confessionário disse...

Olá, amiga/o anónima de 13 Março, 2013 19:28

Depois destes teus dois últimos comentários entendi melhor o teu ponto de vista, e acredita que não respondi com mágoa ou malícia no anterior comentário. Muito menos para te atacar ou te tocar de nforma negativa.
É que já várias vezes apareceram comentários que me tentavam induzir, mesmo sem qualquer tipo de prepotencia, a escrever textos com outros teores mais mediáticos. Nunca me apeteceu escrever com essa necessidade! Sempre quis escrever com simplicidade, como tu repetiste, das coisas que são as minhas vivências.

Talvez a palavra "subjugar" tenha um peso grande. Porém, na minha vida diária lido com muitas tentativas assim, que me cansam. Por isso não é a primeira vez que a uso. Mas reconheço que neste caso, tem um peso desnecessário. Além disso, não se aplicava a ti nem ao teu desejo, mas sim a uma vontade geral que muita gente e muita comunicação social tem, e eu não quero ter. Desculpa-me por isso. E tens razão quando dizes que acabou por levar o teu comentário a um sentido que não era inicialmente o teu. Da minha parte não senti que ele fosse um ataque ou uma imposição, acredita. Nem quis que sentisses que eu o tinha sentido.

Agora que apontaste algumas das tuas muitas vivências senti um certo calafrio, pois de facto não lido com elas tão amíude como tu, e entendo essa necessidade interior de também teres mais auxílios para poderes ajudar esses casos. Muito contente fiquei por perceber isso em ti. Fiquei mesmo a pensar que terei de prestar maior atenção a casos assim, mesmo que não lide com eles muito. Sem promessas, vou esforçar-me por escrever sobre assuntos assim. Convém é que alguém mos faça chegar (pode ser por mail) e para eu próprio fazer uma reflexão digna e útil. Tenho recebido por mail muitas questões, e alguma delas nesses teores, mas nunca me senti impelido a falar delas, até porque algumas são bastante íntimas.

Continuo, no entanto, a dizer, e ainda bem, que não são casos da maioria dos cristãos. Ou talvez sejam, mas fiquem no mais íntimo das suas casas (não foi um comentário político, que eu não percebo muito dessas coisas!).

Com isto tudo, agradeço-te, do fundo do coração, tanto a sugestão/interrogação, como as respostas que destes. Uma das coisas que mais gosto neste espaço é que eu também possa crescer. Acho que cresci mais um milímetro ou dois!

Não retiro o que disse, porque o disse com o uso da razão e do meu sentir. Mas agradeço que te tenhas dado ao trabalho de responder. Podias ter logo voltado as costas mas nao o fizeste. Podes fazê-lo agora. Mas que vás de forma livre e tranquila.

Obrigada amiga/o
Foi bom!

Anónimo disse...

Padre Confessionário

Souberam-me bem as tuas palavras. Fiquei satisfeita por saber que cada um de nós compreendeu, finalmente, o que o outro quis dizer. Pelo cuidado, pelo acolhimento, pela paz de espírito, e por tudo o resto,
Um sentido obrigada!

Anónimo disse...

O amor a Deus não é maior ainda se for gratuito? Mesmo que ele não nos tivesse nada para oferecer, se o Paraíso não nos aguardasse, e, se ainda assim, o continuassemos a amar, não era o nosso amor maior? A fé não está para além daquilo que podemos esperar? Ou o tamanho do nosso amor a Deus depende daquilo que podemos esperar, independentemente de acreditarmos ou não ma ressurreição?? A sua presença nas nossas vidas, devia ser o bastante para o amar-mos. Penso eu de que...