segunda-feira, novembro 07, 2011

cinco Instante: o Víctor

Veio dar-me um abraço. O último abraço. O senhor Víctor é um reformado que já experimentou a vida. É um homem que, quando fala, diz o que a vida lhe ensinou. É estudado. Tem património. Tem uma vida preenchida. E aprendeu a ser cristão, disse-me, com a minha presença. A face encheu-se de um rubor que parecia timidez. Mas não. Era a face de quem gostaria de vociferar ao mundo. O senhor libertou a nossa paróquia de pecados que não cometemos. Olhei para ele com ar espantado, e perguntei que queria dizer. Quero dizer o que disse. O senhor libertou-nos. O senhor mostrou-nos quem era verdadeiramente Deus. Mostrou que Deus nos ama como somos. Que não nos oprime. O senhor mostrou-nos que a fé não se vive com proibições, mas com caminhos. Que a fé não se vive com medos ou com coisas negativas, mas com a alegria de pertencer a Deus. Até hoje os padres ensinavam-nos um Deus que julga e que manda, um Deus que está à espreita para nos levar para o inferno. E o senhor ensinou-nos que Deus, que é pai, tudo faz para nos levar para o céu. Obrigado, senhor padre. Dê cá um outro último abraço.

13 comentários:

Maria Zete disse...

Que lindo texto Padre! Que bela a sua missão! Mostrar ao seu rebanho a verdadeira face do Pai. Pai que ama incondicionalmente, que abomina o pecado, mas que ama o pecador.Um grande abraço.

QueenSissi disse...

Também temos saudades suas... E pouca vontade de dizer adeus, mesmo até breve custa... As despedidas sempre me custaram muito. Acredito (e talvez seja uma forma de me proteger) que a sua ida tem a ver com a necessidade das pessoas nessa nova paragem - que não será a última... Um bem haja!

Rosa disse...

Que profundo...que certo ...é mesmo esta ideia que muitos de nós tínhamos no pensamento,hoje felizmente, nos é mostrado um Deus de amor, onde os«Pastores» comunicam com as suas «ovelhas»e nos levam todo esse amor ao coração, com uma entrega, e uma fé muito grande.
Bem haja

Anónimo disse...

Este texto fez-me lembrar aquela anedota senhor padre.

" A professora pergunta aos alunos: Quem é que quer ir pro céu?
Todos levantam a mão menos o Joãozinho. E tu Joaõzinho não queres ir pro céu?
Querer até quero, mas a minha mãe disse-me pra ir direto pra casa depois das aulas."

Um abraço pra si.
A.

Porthos disse...

Padre.

Ensinar a sentir e às pessoas o que hão-de fazer com os seus sentimentos não é, sei-o por experiência, pêra doce... É às vezes bastante amarga.

E este testemunho é absolutamente fan-tás-ti-co. É mais uma prova de que este teu desafio foi superado (como se preceisasses que um saloio como eu tu dissesse...)

Parabéns

Um abraço

Maria disse...

Muito bom padre, muito bom. Gostei de ler. Vai ver que com esses dons, logo, logo terá novos amigos e paroquianos a quem fará muito bem.
É uma grande missão e uma grande graça ser o padre que é...
Beijinho
Maria

Anónimo disse...

É por isso que não permanece sempre no mesmo lugar;justamente pra que outras pessoas aprendam e conheçam o Deus verdadeiro que é amor e que as pessoas que o servem e acreditam no mesmo(também são o amor que lhes falta muitas vezes,são abertas e questionadoras e querem crescer com os seus fiéis e não que sigam como robozinhos e concordem com tudo).É preciso coragem e humildade para reconhecer os erros de muitos anos da igreja ,mas enxergar também aquilo que há de melhor e verdadeiro e principalmente de mais belo;que é um poder apoiar-se no outro,crescer com o outro(quem ensina e quem aprende e ambos,nesta convivência estarão trocando os papéis com frequência).Força e coragem sempre,podemos até balançar,mas Deus nos ajuda a nos levantar sempre.E não foi assim;não seria diferente,eu sabia.Abraço.LUZ.

Mafalda disse...

As despedidas são sempre um «até já».Para não custarem tanto., porque realmente custam.Mas que bom levar esses abraços todos no coração.Vai cheio de amor e carinho para as novas paragens.E mais gente boa encontrará.E Cristo, à sua espera.Que sorte!
Mafalda

D. R. disse...

Bem... Confesso que não posso deixar de me emocionar ao ler os últimos textos... Confesso que é por 3 motivos:
- Porque já li este blogue de lés a lés e sinto que o conheço, que está aqui, que é dos meus... E se sofre, o sofrimento é partilhado;
- Porque imagino a dor que será deixar as pessoas que se ama... As amizades que se vão construindo...
- Porque o padre da minha paróquia também tem essas amizades. Uma delas sou eu. E seria muito mau se ele fosse embora. :/
Eu percebo os seus paroquianos (sim, porque ainda os sente como tal e, provavelmente, os sentirá sempre assim)... Já passei por isso uma vez. E sei que é algo que pode voltar a acontecer, a qualquer momento.

Beijinho.
Deus sabe onde precisa de ti. E é aí mesmo que deves estar.

Anónimo disse...

Olá amigo.
Tenho seguido as tuas últimas confissões com grande atenção.
Agradeço-te a coragem, profundidade e beleza com que escreves sobre assuntos que te custam tanto, certamente.
Continua a partilhar connosco os teus sentimentos e experiências.
A mim faz-me muito bem olhar para tantos gestos de amizade.
A ti far-te-à ainda melhor um dia poderes vir aqui recordar estes tempos que viveste e estes amigos que fizeste.

Um abraço.

LPS

Anónimo disse...

Jesus fartou-se de proclamar alto e sem reservas que Deus é nosso Pai...no verdadeiro e total sentido do termo. Porque se anbdou tantos séculos a esconder esta magnífica certeza dada por Jesus?...Claro que um Pai não faz as vontadinhas todas aos meninos. Mas que bom sabermos que todos somos verdadeiramente filhos de um Pai que não pode ser mais rico e bom...

Anónimo disse...

sabe padre, tenho seguido estas confissões últimas, não queria de todo aqui escrever, e calculo que não publicará este meu comentário, mas também me apetece perguntar-lhe se tudo isto facilitará a missão de quem o vai substituir? Ou se para si isso nem importa, ele que se desenrasque? Porque alimentar assim o passado penso que não ajuda muito quem foi pro seu lugar...como se sentirá essa pessoa se ler todas estas confissões??? Ah...já sei...o padre vai dizer que isto é inventado por si...ok...ás vezes era bom que não olhasse apenas o seu umbigo...afinal n~
ao vejo aqui grande desprendimento até porque tem lá voltado...pelo menos é o que se diz...a algumas casas claro...

Confessionário disse...

Olhe, amigo ou amiga de 28 Dezembro, 2011 00:59
Agradeço-lhe a chamada de atenção, e é óbvio que me fez pensar e vou tê-la como penso que é, uma chamada de atenção construtiva.

Estes textos não foram inventados. E poderia mesmo ter escrito mais. Além disso, foram escritos numa fase em que me serviram para ter ânimo.

Porém, queria dizer-lhe (e pelos vistos deve saber) que me preocupei por preparar bem o terreno ao colega que me substituiu, por fazer ver às pessoas que o deviam acolher bem (fiz-lhes quase prometer isso), pedi para não fazerem comparações. Mais, penso que deixei suficientemente bem organizadas as paróquias. Mais, deixei-lhe um bom alojamento. Tudo coisas que eu não tive nem quando fui para lá nem agora nestas paróquias.

Sempre lhe disse que estaria disponível para o ajudar nalguma dificuldade ou dúvida que tivesse. Já me fez algumas perguntas e eu penso que o ajudei.

Tem razão numa coisa: não é fácil desprendermo-nos daqueles com quem nos habituámos a partilhar, aqueles que aprendemos a amar. Por isso se alguém me liga, fico contente. Mas garanto-lhe que incentivo sempre a gostarem do novo padre, até porque é bom rapaz e merece. Curiosamente dizem-me que estão contentes e eu contente fico por eles. Mas claro que não somos iguais. Não há ninguém igual. E é preciso tempo. Eu também preciso de tempo.

Mas não consigo fazer de conta que agora já não amo aqueles meus ex-paroquianos, e alguns em particular: aqueles que fazem parte do meu grupo de amigos. Devia afastar-me deles?! Bem me tenho esforçado por dar espaço ao meu colega e por evitar ao máximo tudo o que seja aproximar-me das paróquias (Já agora informo que sei de colegas que em casos idênticos, não saem das paróquias que deixaram, e não se coíbem de dar opiniões sobre tudo. Eu, pelo menos, tenho-me esforçado).

Mas, por mais que eu quisesse, as coisas do coração são complicadas de gerir.