sexta-feira, novembro 25, 2011

Um dia os baptismos ainda hão-de ser baptismos

Era-me desconhecida e cuido agora, a uma distancia de dez quilómetros, que me pôs a suar pelo calor que ainda sinto atravessar-me o peito e a nuca. Queria baptizar o filho por tudo o que é mais sagrado, dizia. Já baptizara, faz dez anos, uma filha, e agora era a vez do petiz que tem, senhor padre, dois meses. Eu sei que já o devia ter baptizado, senhor padre, mas não tive tempo. É que o tempo, penso, só existe em nós para aquilo que é a nossa vida. A filha baptizada era do marido, de quem estava divorciada. O filho era do companheiro, que é uma palavra que entrou no vocabulário do amor dos dias de hoje. Expliquei, incomodado, que não era a melhor posição para pedir o baptizado e provei-o com números de leis da Igreja. Mas acrescentei que a criança não tinha culpa, desculpando-me, e que podíamos procurar requisitos para ela se baptizar. Concordou, claro. Depois falei de uma reunião de preparação e começou o habitual negócio de quem não tem as ideias claras da fé. Eu não tenho tempo para isso, senhor padre. E apesar de só ainda estarmos no início da conversa e do negócio, foi perguntando para que era tanta coisa, e afirmando que eram muitas burocracias. Insisti na verdade das coisas, e concordou, claro, porque ela queria um baptizado com verdade. Era difícil por causa do horário de trabalho do pai que este pudesse estar presente. Perguntei-lhe se também não ia arranjar tempo para ir ao baptizado. Compreendeu e falou que ia resolver. Falámos dos padrinhos e do que se lhes exigia. E continuou o linguajar das burocracias. Informei que podia procurar outra paróquia e disse que não queria. Falámos das datas, dos horários e de ser realizado perante a comunidade, na missa, motivos para disparar que ninguém tinha nada a ver com a vida dela. Escolheu um sábado e eu falei da missa vespertina. Concordou até perceber que missa vespertina era à tarde e não de manhã. Falei que eram as normas da Igreja, que não eram minhas e que já toda a comunidade as conhecia. Há três anos que estou aqui. Não sabe. Não conhece, como eu não a conheço. Não vai à missa, sorriu para disfarçar. Perguntei-lhe, com um sorriso marcado por dentes, mais cerrados que abertos, se ela pretendia que a criança fizesse uma caminhada de fé quando ela não a estava a fazer. Calou-se ou achei que a tinha calado. Dei-lhe uns formulários a preencher de um lado e para entender as razões do baptismo do outro. Descaradamente voltou ao dicionário das burocracias. Se as paredes da sacristia estivessem preparadas e não tivessem o branco de uma pintura recente, garanto que as tinha trepado. Por dentro já eu estava a trepar. Voltei-me de novo para ela, cara a cara, olhos nos olhos, e perguntei: Mas afinal eu pedi-lhe para baptizar o seu filho?

16 comentários:

SCAS disse...

Sou católica. Por formação primeiro, agora por opção. Não acredito em praticantes e não praticantes. Se o expoente máximo do ser-se católico é a Eucaristia, não sei como se pode ser católico e não se ir à missa estar com Ele, recarregar baterias, renovar a fé, estar em comunhão com Cristo e os irmãos. Mas isto sou só eu que acho!

Pedi o Baptismo para os meus 2 filhos. Por opção e com fé. Se daqui a amanhã eles quiserem professar outra fé (ou nenhuma), terei de respeitar, claro. Mas não concordo nada com aquela conversa do «eles é que vão escolher, um dia mais tarde, se querem ser baptizados ou não, não lhes vou impor isto.» Ora essa! Também não lhes escolhi a escola? Não lhes escolho todos os dias os programas de TV que os deixo ou não ver? Não lhes escolho os sítios onde os levo para brincar? Não lhes escolho os alimentos que entendo que lhes fazem melhor à saúde? Não lhes hei-de recomendar caminhos de verdade, de respeito pelos outros, de cidadania, se solidariedade? Se mais tarde eles quiserem seguir outros caminhos, estarei cá para os amar na mesma e respeitar essas opções, desde que conscientes e fundamentadas, e que não façam deles más pessoas! Mas acho (eu acho!) que tenho o direito e o dever, como mãe, de lhes dar esta formação, de traçar com eles este caminho que em nada os limita, pelo contrário.


Muitas vezes me deparo com situações de sacramentos - Casamentos e Baptismos (sobretudo) - em que não se trata de questões de fé, de caminho espiritual, mas apenas da Festa, do traje, do pretexto para reunir amigos e família, do lado "pagão" da coisa. Ao ler isto hoje, revi-me um bocadinho no modo de pensar e sentir. Não sou padre, nem quero ser mais papista que o papa, mas as coisas são o que são. Quem quer pedir o Baptismo para um filho, deve querer fazê-lo pelas razões certas. Quem «dá» o baptismo é a Santa Madre Igreja. A Santa Madre Igreja tem regras. E as regras/normas/preceitos devem ser seguidos entre aqueles que a elas escolhem vincular-se seja numa comunidade, num grupo religioso, num condomínio, num grupo desportivo, na sociedade. Nunca percebi o porquê de questionar certas normas. Afinal a Igreja não obriga ninguém a baptizar os filhos... E também nunca vi ninguém a ir à Conservatória do Registo e questionar o horário ou a necessidade de testemunhas ou os papéis a preencher ou o ter de lá ir uma ou duas ou três vezes, se necessário for... Mas isto sou só eu que acho! Entendo que haja exigências e formalismos a cumprir - que os padrinhos sejam pessoas idóneas, católicas também elas (pois se os padrinhos visam assegurar que os afilhados são educados na fé - como podem fazê-lo se eles próprios a não professam?! - hoje em dia já não se trata de substituir os pais em caso de falta destes!), que haja reuniões de preparação (cada vez mais, para as pessoas perceberem o que é o baptismo, para que serve, o que implica, que não se trata apenas de um dia e uma festa). Se podemos perder dias a fio a preparar a festa por fora (ofertas, roupas, decorações), não podemos 'perder' umas horas a preparar a festa «por dentro»?!

Anónimo disse...

Penso que foi um pouco rude na sua resposta padre.
Explico...
No tempo de Jesus, as pessoas eram baptizadas nas águas do rio Jordão. Não era necessário para tal, tanta burocracia da igreja bastava ter-se fé. E melhor que tudo isso, era realizado de graça em nome de Deus. Hoje em dia os padrinhos da criança teem que pagar um valor x.
Quem lhe garante que essa mãe não era uma mulher de fé, que concorda com as Leis de Deus e não com as Leis da igreja?
Infelizmente para nós, as unicas pessoas que podem relizar este sacramento são os sacerdotes que estão ao serviço da igreja.
Padre, Deus é a unica Verdade da Vida, não a igreja e os Homens que a dirigem.
Pois como humanos que são, teem as suas ideias que nem sempre correspondem à verdadeira Vida, pois também erram como qualquer pessoa. Da próxima vez pense primeiro nas razões que levaram aquela mãe a pedir o baptizo do seu filho. Pois temos que ser compreensivos, tolerantes e não juízes. Se não o conhece-se diria que estranhei essa sua atitude padre.
Abraço

LUZ DE MARIA PARA AS NAÇÕES disse...

Graça, Redenção e Paz!
Convidamos você a colocar neste blog a imagem da Senhora de Todos os Povos e a oração ensinada por ela para pedir um NOVO derramar do Espírito Santo no mundo!
“Esta oracão foi dada para a salvação e conversão do mundo!

Maria disse...

Oh! Senhor Padre, não pude deixar de sorrir, na verdade os seus textos transparecem o seu sentir e é muito franco ao expô-los. É precisa paciencia e uma pessoa não é santa...de certeza que essa senhora se não reconsiderar entretanto, vai daí a dizer cobras e lagartos a seu respeito. Mas gostei da sua resposta, muito boa mesmo..
Grande beijinho
Maria

Avó Babada disse...

Gostei muito da sua pergunta final. A Igreja tem uma certa culpa nestas situações porque tem facilitado muito nos últimos anos. Tal qual como nos casamentos. Não faz sentido procurar a Igreja para casar se há anos que lá não entra.
Mas as fotos da celebração são de facto muito bonitas na Igreja...
É uma grande luta que têm à vossa frente, trata-se duma mudança de mentalidades

Rosa disse...

Infelizmente, encontra-se casos assim em que não à mínima fé e amor a Jesus Cristo,mas também muita falta de conhecimento,uns não vão à Igreja, os tempos de antigamente eram muito diferentes, a fé vivida de outro modo,os Padres vistos com outros olhos,mais austeros e muito mais longe das pessoas,hoje felizmente isso não acontece.
Existem pessoas que vão à missa todos os Domingos mas a Sua fé também não tem mais consistência,porque acaba por ser um ritual.
Eu penso que hoje em dia as pessoas de menos conhecimento, deviam ser tentadas a ter um pouco de catequese, apoio.
Eu hoje vejo a minha entrega,a minha fé,o amor a Jesus Cristo de um modo muito diferente de à uns 3anos atrás,porque alguém me deixei seduzir por Jesus ,porque me souberam transmitir a Sua Palavra, de um modo que me chegou ao coração.
O Beato João Paulo|| disse:"Os consultórios dos psiquiatras estão cheios,porque o confessionário estão vazios".

Porthos disse...

Meu caro Padre.

Sabes que sempre fui daqueles que sentem o que fazem. Nunca fiz o quer quer que fosse para ir de encontro a normas ou a estereótipos sociais.

E acho que a nossa relação com as coisas do Divino tem mesmo que ser assim: Ou se sente... ou não vale a pena.

A meu ver, também essa tua nova paroquiana tem que aprender a sentir... E a tua tarefa é, mais uma vez, hercúlea: Ensiná-la a sentir.

Aquele abraço.

Anónimo disse...

Boa tarde,

Até os baptismos passarem a ser baptismos muita "reforma" a igreja católica romana terá de fazer no seu interior, e manifestá-la às pessoas.

Aquela mulher queria o baptismo para o filho não por fé mas provavelmente por "imposição" social.

Essa mulher fez por merecer a resposta que lhe deu.

Costumo dizer que nas coisas da fé ninguém impõe nada a ninguém, mas quem cruza a porta de um templo em busca do que quer que seja tem de se submeter às regras da organização que está por detrás do templo, e não pode alterá-las a seu bom proveito.

Na catequese eu digo que não obrigo nem peço a ninguém para ir, mas quem vai respeita e cumpre as regras.
Podem discordar delas mas não as podem alterar.

Parabéns pela coragem padre.

Anónimo disse...

Na catequese eu digo que não obrigo nem peço a ninguém para ir, mas quem vai respeita e cumpre as regras.Podem discordar delas mas não as podem alterar.

E assim vai a catequese... Agonizante porque não pode mudar.

HD disse...

A banalização dos sacramentos…
Fomenta-se a preocupação social em cumprir o rito e o preceito, mas desconfigurado do real sentido do “sinal”, que se quer, porque se aceita,….. e compreende …
Cuidado com as regras e normas cegas, pois já Jesus teve uns problemas com elas…
A resposta dada ,apesar de dura , faz todo o sentido. São escolhas.Temos que ser coerentes no que acreditamos ou não.
HDias

Anónimo disse...

Anónimo de 28-18 ; 22:29

Agonizante, não creio.

Os jovens que a frequentam falam por si.

Os principios de Cristo são intemporais e por consequência inalteráveis, isto para o Crente, e para a Pessoa de Fé.

O que precisamos é sair dos templos de pedra e vivênciar a fé a cada segundo que passa.

Isso meu amigo não é agonizante.
Inovar, trazer para a realidade dos nossos dias os principios que Jesus nos ensinou e esses sim são "intocáveis".

Esses pilares da Fé não se podem alterar ao bom gosto de cada "fregês".

Anónimo disse...

Não crê, nem precisa. O meu filho que anda no 4º ano este ano está com seis meninos. No ano passado eram 17. Só para dar um exemplo. Aqui são os números que falam. Vejo por lá mais problemas do que harmonia principalmente entre adultos e penso que este é o principal problema que o prior devia resolver. É difícil porque ele é arrogante e anda mal disposto.

Anónimo disse...

anónimo ultimo

Cada um fala por si e só por si.

De 9 para 16 vai uma boa diferença.

De passivo a activo na vida comunitária e nas Eucaristias, também vai uma diferença.

Jovens que se oferecem para animar os idosos da paróquia, como forma de pôr em prática os temas propostos pelo catecismo do 9º Ano.

Jovens do grupo de catequese que se juntam para partilhar os seus talentos, tais como: tocar viola, piano, cantar, e até ensinar alguns colegas mais desfavorecidos a usar um computador... e por aí fora, são eles que falam e dizem que querem continuar desta forma.

Ver os jovens que orienta partilhar conhecimentos e experiências fora da sala da catequese é recompensador para qualquer catequista.

Creio e continuarei a acreditar firmemente que Jesus Cristo veio por todos, e que os seus ensinamentos não podem ser alterados.
Ele permite que todos se cheguem a Ele de livre vontade, não obriga ninguém a procurá-LO, agora quem opta por Jesus Cristo tem que seguir a doutrina D'ELE, digo a doutrina D'ELE, não a da igreja.

O problema está muitas vezes em regras da igreja católica, nunca nas regras originalmente deixadas pela da palavra de Deus, no seu Filho Jesus Cristo

Se me disser que o empenho dos nossos jovens e crianças da cetequese depende muito do empenho da pessoa que têm como catequista concordarei consigo plenamente.

um cristão disse...

As “agonias” que infelizmente são inegáveis nas catequeses e comunidades cristãs, poderiam transformar-se em rios abundantes de água vida se muitos que anunciam “conhecessem” verdadeiramente o Evangelho! Mas parece-me que é mais importante conhecer e cumprir as “doutrinas” como deixa transparecer o anónimo das “regras que não se podem alterar”, como se o Espírito Santo que sopra onde quer, como quer e em quem quer, fosse maleável aos desejos e pensamentos humanos! Bom seria que muito catequista que por aí assumiu a responsabilidade de educar outros na fé, começasse a ler o Evangelho com mais atenção, sobretudo um coração e uma mente liberta de "presunções" de quem já tudo conhece! Como “ajuda” deixo-lhe uma pista: Actos 8, 26-40, podemos começar todos por aí a lavar os copos onde bebemos dessa água por vezes tão inquinada por doutrinas humanas!

Anónimo disse...

Anónimo 15-12-2011 15:08

"Espírito Santo que sopra onde quer"
O Espirito Santo está onde quer, não está é à mercê das opiniões do "freguês".
Ah já agora O E.S. não sopra, o sopro é apenas uma manifestação.

um discípulo disse...

Disse bem “Anónimo a quem gostaria de falar rosto a rosto, mas o caminho “anónimo” é mais fácil não é, pelo menos imuniza-nos do olhar do outro que nos interpela as certezas! Olhe, não precisa de se repetir, já percebemos as “opiniões” que abundam pelas nossas comunidades, vindas daqueles que precisam de irem buscar não sei eu onde tais certezas sobre o Espírito Santo, para deliciarem com tais “pratos” os seus “fregueses”! Provavelmente o(a) Anónimo deve ter tido alguma “entrevista” marcada por algum anjo celestial para vir aqui contar-nos as “manifestações” do Espírito Santo”! Ou talvez tenha feito a experiência de um “Pentecostes”, não sei, sente-se que caminha seguro!
“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos."Isaías 55, 8 - 9