terça-feira, março 01, 2011

O Américo faltou à missa

O Américo faltou à missa. Estava doente e faltou à missa. Em vinte e oito anos nunca faltara à missa. E veio ter comigo à sacristia no final da missa para me contar o seu problema. Padre, faltei à missa. Aquilo que eu entendia como dificuldade, ele via como problema. Não consigo definir o seu olhar em mim. Triste como a noite, se é que a noite é triste. Mas a noite traz a solidão e por isso deve ser triste. Em pouco mais de três palavras, o Américo deixara cair três lágrimas. Padre, estive doente e não pude vir à missa. É claro que o Américo já sabe que, por doença, ficamos isentos de cumprir o preceito de ir à missa. Bem basta a pessoa estar doente. Eu costumo dizer que Deus sabe o quanto custa aceitar a dor, para saber que não lhe deve acrescentar mais dores por causa de não poder ir à missa. Mas o Américo deixava cair lágrimas atrás de lágrimas, mesmo depois de lhe ter feito esta observação. Ele não estava incomodado com a doença. Estava incomodado por ter faltado. E depois rematou. Padre, é a primeira vez em vinte e oito anos que falto à missa. Parecia que o problema estava não só na falta, mas no ter quebrado o recorde. Se eu não conhecesse o Américo faria essa afirmação. Mas como o conheço, sei porque estava aflito. E sei também que ele não quer faltar não por medo de Deus, mas por amor a Deus. Por isso precisava uma consolação minha, mais que outra coisa. Precisava sentir que Deus, apesar dessa falha, ainda o ama. Foi isso mesmo que lhe falei. E que não desse mais importância ao assunto. Importante é que agora estava ali e já não estava doente. Também tinha de assumir a doença que Deus lhe dera. Tinha de assumir a incapacidade de ir à missa que Deus lhe dera. O Américo perguntou-me se era para perceber ainda melhor a falta que lhe fazia a missa, e eu respondi que sim. Também podia servir para isso. Ele começou a sorrir. Falámos ainda mais umas coisas, mas não acho importante relatar aqui. Conto apenas que o Américo, quando me virou as costas, já não tinha lágrimas no rosto e notava-se mais aliviado. Quando saiu pela porta da sacristia é que eu pensei nos nossos cristãos que têm uma facilidade enorme de faltar à missa. Peguei nas minhas coisas e saí também. O Américo já estava a uma distância considerável. Entrei no carro. Liguei a ignição. E foi nesse momento que me ocorreu outro pensamento. A verdade é que também há muita gente que nunca falta à missa, mas por hábito.

14 comentários:

Imaculada Cintra disse...

Olá! Sou do Brasil, Franca uma cidade no interior de São Paulo. Gosto muito de ler seus artigos, a maneira com que escreves. Não sou padre, mas sou Catequista, ajudamos vocês na misssão de formar cristãos...
grande abraço!

Teodora disse...

algumas não faltam porque querem ver o padre! hihihi

pe. vai um biscoitinho?

maria disse...

e a missa para ti, o que é?

Anónimo disse...

Cá está um sinal visivel de como a Missa é verdadeiro alimento para nós!! Tenho pena de nem sempre perceber que com uma simples ida à Missa "mato" esta fome; é que não é só a Palavra nem só a Comunhão a matam, mas uma complementa a outra, não é? Que casmurros (ou será nhurros?) que somos tantas vezes!
Obrigada

Confessionário disse...

Maria, estavas a perguntar-me a mim ou a todos?

Para mim é muita coisa: é acção de graças, encontro de irmãos, partilha de Deus (na comunhão e na Palavra)... é um dos momentos mais especiais que Deus nos deixou como fonte para viver a nossa fé...
Quando bem vivida ela é fantástica!

Anónimo disse...

Olá
Maria,
A missa para mim é a partilha do Uno que existe em cada um de nós.
É como se o Espirito de Deus que em nós habita, nos reúnisse a todos num só mantendo a nossa individualidade.
Perante o "milagre" do cálice e da hóstia eu dou graças, eu louvo, eu agradeço, acho que me completo como um ser humano que reconhece o poder do Deus em si... e, se rende completamente a ELE.
PR

Acolitos de Seia disse...

Eucaristia é uma celebração em memória da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Também é denominada "comunhão", "ceia do Senhor", "primeira comunhão", "santa ceia", "refeição noturna do Senhor". Eucaristia é " o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar o sacrifício da cruz no decorrer dos séculos até ao seu regresso, confiando assim à sua Igreja o memorial da sua Morte e Ressurreição. É o sinal da unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da vida eterna." Eu gosto de chamar à Eucaristia a Festa dos Corações Agradecidos, porque é por excelência a celebração festiva da nossa Gratidão ao conhecermos o Amor de Deus que é Graça. É a Graça de Deus, que Se faz Dom imerecido, que nos faz desbordar em Gratidão.Por Isso é uma doença para as almas apaixonadas, por este banquete, em que ficamos Sacrarios Vivos, quando comungamos o proprio Cristo.Doi muito...Já senti algo parecido, mas foi uma celebração da palavra, e portanto o diacono só tinha as hostias consagradas, para um certo numero de pessoas, e as pessoas excederam a previsão, ele bem partiu, e repartiu, mas quando chegou á minha vez nada... foi uma tristeza de morrer, doi tanto, é como ir a uma festa, a um banquete e passar fome porque não há comida.

Maria Zete disse...

Sou dessas pessoas (Cristãs) que precisam da Missa, tanto quanto do ar que respiram. Sinto-me renovada, Sinto-me alimentada. Não digo que nunca perço uma missa, pois as vezes por algum motivo deixo de ir, mais sinto um vazio imenso, saudade do encontro com meu Deus, saudade essa saciada na Eucaristia.

maria disse...

estava a perguntar-te a ti! E obrigada pela tua resposta (e pelas outras, já agora).

A tua história provocou-me uma série de pensamentos e sentimentos. Sobretudo o termo "faltar". Cruzei-a com a leitura do Evangelho do próximo domingo (Mt7, 21-27).

E pergunto-me como é que chegámos a este ponto de reduzir o Evangelho à prática dos actos celebrativos. A tal ponto de se ouvir dizer: "sou católico não praticante". E a questão é perguntar-se: praticante de quê? Do crescimento próprio e do(s) outro(s) (da prática do amor) ou de alguns ritos onde privilegiamos o nosso lado sensitivo? (Peço desculpa, mas inquieta-me que todos tenham referido apenas sentimentos gratificantes e nenhum de amargura, desalento, perplexidade...etc).

Não há luz sem sombra e ainda não vivemos na "Jerusalém Celeste".

Somos capazes de abraçar com a mesma paz e tranquilidade a todos os irmãos presentes na celebração? E aos "ausentes"?

E temos sempre presente que o Corpo de Cristo que comungamos é também aquela(s) pessoa(s) com quem embirramos ou q embirra connosco...as que ignoramos, desprezamos, esquecemos...?

É que não basta dizer:"Senhor, Senhor...".

Se é ACÇÃO de Graças, não pode ser apenas sentimento, emoção, é convite ao "fazer", sabendo que só "fazemos" porque Deus "faz" em nós.

JS disse...

É sempre bom lembrar que uma fé simples (sem sentido pejorativo) se fixa, antes de mais e sobretudo, na prática e no rito. O fazer está acima do pensar e do sentir. E todo o esforço é posto no assumir o rito de forma sistenática, constante e perseverante.

O aprofundar do sentido religioso procura ir à raiz dos comportamentos, esclarecer pensamentos e purificar intenções. Mas tal não pode ser feito à custa de menosprezar os actos ou ritos, ou de desvalorizar a sua prática em nome de "puras" intenções, sentimentalismos e altas filosofias.
Infelizmente, este tem sido um erro recorrente.

Espero amanhã ouvir do meu pároco: por favor, jejuem, dêem esmola, intensifiquem a vossa oração. De preferência, de forma esclarecida, entendendo a finalidade dessas observâncias e assumindo-as de coração recto. Mas, antes de mais, façam, pratiquem. Sem actos, não há fé que nos valha: de boas intenções está o inferno cheio.

JS disse...

"Também tinha de assumir a doença que Deus lhe dera. Tinha de assumir a incapacidade de ir à missa que Deus lhe dera".

Mais uma vez, Confessionário, permite-me que manifeste o meu desconforto perante afirmações destas.

Eu compreendo o tipo de teologia subjacente a tais palavras; e sei perfeitamente que as pesssoas simples são sensíveis a este tipo de discurso.

Mas se se considerar de forma objectiva as palavras, elas transmitem uma imagem terrível de Deus. Que não é o Deus em quem eu acredito.

Confessionário disse...

Ok, JS
Mais uma vez tb te entendo. Estás a referir-te à ideia de um Deus que nos dá doença, não é?
A pensar assim, tens toda a razão.
Estaria mais adequado o verbo "permitir"? Ou que forma verbal seria a mais adequada?

A ideia que pretendi transmitir (sem com isso estar a sacudir águas do capote), foi a de que se temos uma doença, Deus que não gosta de nos ver sofrer, não nos aumenta, desnecessariamente, sofrimentos.
Mas isso não explica as frases utilizadas, não é?
Mas já agora, como dirias tu estas frases? Ou que verbos utilizarias?

abraço amigo

Vítor Mácula disse...

há algo nessa coisa de Deus não ter nada que ver com males e doenças, que me perturba um bocado.

fiquemo-nos pelas doenças. a mim parece-me que a vida mortal é esse dom que implica a sua finitude, e que é até na sua fragilidade que um dos seus sentidos mor se desvela: o ser capaz de beleza e bondade no confronto com a sua própria efemeridade. a doença e a morte são inerência funda da vida temporal, e não tenho assim tanta certeza que a conversão, e até a ressurreição, impliquem a anulação do "sofrimento enquanto algo de próprio e natural" (e se o é, faz parte da ordem da criação, e tem algo que ver com Deus); talvez até impliquem a sua assumpção. ou a conversão e a ressurreição são plenitude de prazer? mas este não implica sempre a perca de si e a dor?

a tese de que as doenças e os males nada têm que ver com Deus, e são resultado do pecado de Adão-Eva não me convence muito: implica, como se sabe, que o pecado original mude radicalmente as regras da Criação; cada vez tendo mais a pensar que mudou sobretudo Adão-Eva, e é por isso que são/somos chamados à conversão. seria aliás estranho haver procriação e não haver morte, tão intimamente estas estão ligadas. nós é que estamos tão desordenados e confusos, que a morte (esse encontro com o para-lá da vida) nos soa como uma terrível ameaça de aniquilação.

eu sou mais à Job: a Natureza, os outros, Satanás, nós próprios, etc, melgamo-nos a existência, com co-responsabilidade divina (inclusivé ética); esse Deus que mantém as coisas no seu próprio ser e dinâmcia vital, esse Deus mais interior a mim do que eu próprio, esse Deus oculto e interior.

há um certo gnosticismo e maniqueísmo que está sempre a rondar no catolicismo: o de fazer um deus puro puro puro que nada tenha que ver com a matéria morte mal.

a quem iria eu rezar, se o meu Deus nada tivesse que ver com o mundo e com a vida?...

abraços

Anónimo disse...

Se Deus dá, se Deus permite, nunca saberemos. JS não tem tanta razão como aparenta. Eu que me coloquei diversas vezes essa questão e sobre a qual há “divergências” na postura/mensagem dos santos conclui para mim que sendo certo que todos cremos (penso) que Deus é inteiramente Bom, não podemos ajuíza-l'O pelos acontecimentos, mas pelas finalidades, o que significa que nenhum de nós podendo conhecer essas finalidades pode dizer que quer Deus tenha permitido, quem Deus tenha dado a alguém algo de aparentemente mau, a sua imagem/Ele não pode ser ajuizado como terrível. Pois ninguém conhece os fins de Deus. O importante é saber que quer sejam as Suas opções, ou não, Ele é de facto Bom e Santo, ora isso faz parte do plano da crença e não da razão. Talvez aqui eu dissesse “ aceitar os desígnios de Deus”, a menos que nos coloquemos outra questão, Deus será Ele mesmo todo poderoso? Então teríamos de rever a nossa crença.