segunda-feira, maio 22, 2006

Mas andas frustrado?

Telefonei. Já nem lembro porquê. Acho que era para pedir um favor. Demorou a atender, o meu colega. Pouco mais que trinta anos. Estava já para desligar quando atendeu. Seco. Diz, ouvi. Pasmei. Então rapaz? Muito trabalho? Demasiado, respondeu. Que fazes agora? Nada, respondeu. Estas aonde? Em casa, respondeu. Mas hoje não saíste? Tive uma missa, respondeu. As respostas secas assustaram-me. Que se passa? Não me apetece falar. Mas fechares-te é o pior que te pode acontecer! Não me apetece abrir-me, para variar. Estás a deixar-me preocupado. Deixa que isso passa. Pensei nas inúmeras tarefas que ele tem quando senti uma lágrima do outro lado. Não tenho tempo para mim, foi acrescentando. Só para os outros, e neste momento, apenas para fazer coisas. Já há muito que não tenho uma verdadeira folga. E precisava algo mais que isso. Precisava sentir-me especial. Precisava sentir que era especial para alguém. Mas és especial para Deus, disse-lhe. Eu sei. Mas agora queria ser especial para mais alguém. E os teus paroquianos? Respondeu apenas que Pois... Apeteceu-me dizer uma asneira. Refreei-me. Mas andas frustrado? Não és feliz? Não respondeu, nem com um Pois. Imagino que o corre corre da vida lhe leve o tempo para não ter tempo para pensar em si. E se calhar agora está a pagar por isso. A história vocacional dele é muito bonita. Conheço-a e admiro-a. Fomos colegas. Agora custava-me entender o que se passava. Bem, vou desligar, disse-me do outro lado. Eu ainda esbocei mais uma palavra, mas foi directa ao silêncio do bip bip. Baixei o auscultador e pensei. Bolas para ultimamente! Tenho cá uma sorte! Era para lhe pedir um favor e nem deu tempo. Também não devia ter tempo! E pensei: que raio de modelo de padre estamos nós todos, bispos, colegas, cristãos e ditos cristãos, a criar nos dias de hoje, que parece não trazer a felicidade aos que escolhem esse caminho? Vou rezar…

39 comentários:

Joana disse...

Cheirava a madeira antiga. A única réstea de luz entrava pelos vitrais. Encontrei a porta [entreaberta]. Entrei... e vou voltar.

Boa semana

Manuel disse...

Texto impertinente, com muito pertinentes questöes! :)

Temo bem que muitos padres passem por muitos periodos assim. E näo é só o corre-corre que provoca isso.
A dimensäo humana do sacerdote é sistematicamente esquecida, com a desculpa de que "quem tem o amor de Deus, näo precisa de mais nada". Acontece que se esta frase tem muito de verdade, tem um outro lado de puro cinismo.
Conheço vários que, simplesmente desistiram.
Devia funcionar aqui a comunhäo presbiteral. Mas, claro, essa só funciona quando está tudo bem...:)

Confessionário disse...

Eu sabia que era impertinente, Manuel. Mas, e já deeves ter reparado, eu gosto de tratar as coisas pelos nomes! Abuso, sei. Mas tb é a minha maneira de ser. E ainda por cima, ultimamente, tenho tido muito que contar! Estou até cansado das que me têm acontecido ou rodeado. Estarei tb eu a começar numa de...?!

Confessionário disse...

Manuel, esqueci esta e volto:
O que me preocupa mesmo nem são bem as causas. Porque isso conseguimos, inclusive, responder, saber, descobrir. O problema está naquilo, no modelo de padre, que queremos ou temos de ser! No modelo de padre que Deus quer!

Confessionário disse...

J.L., entendo!! Mas podes entrar em contacto comigo por mail?!

NaSacris disse...

A dimensão humana/ afectiva é uma dimensão fundamental na vida do sacerdote , mas que muitos vão sublimando com o activismo, com a dedicação aos ministérios, às pastorais, ... Mas há momentos em que olhamos para o espelho e, às vezes acontece-me, descubro-me funcionário de Deus, na comunidade. E numa comunidade que olha muitas vezes para o padre como aquele que está ali para dar-se, sempre disponível, sem limites, sem rservas, e nem se lembram que também ele pode ficar doente, ter momentos de solidão, passar por uma depressão.
Para ajudar a superar isto o padre deve ter uma maturidade humana e afectiva acima da media. Teoricamente deveria ser assim, mas na prática...

disse...

Testemunhos como este arrepiam-me!!!
Estou a poucos passos de ser Padre!

Mas lá no fundo…

Sempre aquele medo!

A solidão!
A falta de um abraço!
A falta de um carinho!
A falta de uma presença feminina!
A falta…

Depois… o isolamento!
Espero que não aconteça!

Os colegas estão longe!
A Diocese é grande e as estradas são más!
Um copo? Talvez dê para espairecer…
Ter dinheiro e não ter amigos para beber não mi gusta!!!
Ter amigos? Isso sim!
Nem que não haja dinheiro mas sempre amigos!

Os padres novos… aqueles que ainda estudaram comigo podiam ajudar mais!
Sempre muito trabalho, dizem eles!
Nunca estão contentes com o povo!
Nunca estão contentes com as paróquias!
Nunca estão contentes com nada!
Nunca estão contentes!
Os seus rostos tristes!
Muitos já nem ligam!
Será que é por já serem padres?
Será que é não andarem contentes!
Será que é por não serem felizes?

Depois dizem: «Tem cuidado! Pensa bem no que te vais meter!!!»
E eu…
Um arrepio!

Será que sou um semina sonhador!
Será que a minha felicidade é utópica?

Estou consciente que a minha vida não vai ser um mar de rosas mas…
será que vai ser um poço de espinhos?

Fico com Medo!

E todos os dias ouço: «Não tenhas Medo!»
Será isto um incentivo à felicidade ou um empurrão para o abismo?

Sou um semina feliz…
Não sei se o serei como padre…

Mas… tenho sempre em mente:
«Quem deita a mão ao arado e olha para traz não é digno de Mim, diz o Senhor!!!»

Precisamos de padres felizes!!!

abraço

Paulo disse...

A vida de sacerdote, nos dias que correm (voam, melhor dizendo) têm destas coisas. Sobra pouco tempo para NÒS e para VÒS. Penso, como leigo que sou que, algumas pequenas coisas deviam mudar...quais? Boa pergunta! Talvez os padres poderem ter uma familia, alías, no inicio tinham.

padrecarlos disse...

Caro confessionário sou o Pe. Carlos. Sou padre diocesano. Fui ordenado há oito anos. A qualidade que mais aprecio na comunidade em que estou inserido é o carinho com que a minha gente me acolhe, os gestos de carinho, que com regularidade manifestam para comigo.
Entrei no seminário em 1982, tinha 12 anos. A minha entrada no seminário deveu-se à influência dos meus pais e de alguns amigos, com apenas doze anos não foi certamente por vocação. Com o tempo e com a ajuda dos amigos e dos formadores fui descobrindo a vontade de Deus a meu respeito. Motivou-me o ideal de amar e servir os outros e o mundo de uma forma diferente. Na altura da minha ordenação partilhava a jeito de testemunho num jornal diocesano: “aceitar o desafio de não me satisfazer com um simples dia-a-dia sem novidade, significa procurar o sempre mais que apela à descoberta do divino que existe em mim. Assim a vida torna-se aventura, sentido novo de cada instante, chamamento de Deus... Que todos nós cristãos, nos sintamos participantes deste acontecimento construtor da nova humanidade, ansiada por todos...”.
Este meu sentir enchia-me de muita esperança, sem medo do futuro, queria dar-me em plenitude à minha gente, a uma comunidade alargada e não de forma exclusiva a uma pessoa, por Cristo e com Cristo.
A área que na minha vida tenho mais dificuldade em trabalhar é a da escuta. Cinquenta por cento da minha actividade passa por ouvir. Ouço quando estou no cartório, na orientação espiritual, no sacramento da reconciliação, etc.
Escutar é diferente de ouvir porque escutar implica estar atento, não só ao que o outro diz mas também, à forma como o diz. Estar atento àquilo que nos quer comunicar de si para que nós o possamos compreender verdadeiramente.
Acontece que muitas vezes, quando alguém pede para conversar comigo eu nem sempre tenho uma atitude de escuta. Escutar bem é difícil e por isso, a forma como eu me apresento impede-me de escutar, assim experimento sentimentos de tristeza, desilusão, irritação. Por outro lado dou conta que tenho que aprender muito e tento trabalhar-me dia a dia para melhorar a minha escuta, experimento nestas ocasiões sentimentos de muita esperança.
Com o passar dos anos começaram os meus desencantos: as pessoas começaram a fazer criticas, à minha forma de estar, às minhas companhias, os colegas nem sempre entendiam a minha forma de ser nem as minhas partilhas, diziam-me muitas vezes que era inexperiente e inocente. Muitos dias e noites vividos em solidão e na revolta.
Apesar da desilusão vivida em alguns momentos, eu continuo a sentir o chamamento de Deus, porque Deus não faz lixo e, porque tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome ele vo-lo concederá, dizia Jesus Cristo. Acredito profundamente nesta afirmação de Jesus. Eu não me ordenei para agradar a todos, mas sim para agradar a Deus. Deus tem-me dado a graça e a humildade para me levantar nos momentos mais duros e difíceis da minha vida.
Ajudou nesta situação, um fim de semana de encontro matrimonial. Ajudou a saber escutar.
A partir desse momento fui percebendo, pouco a pouco, que o que me era proposto era outra forma de me comunicar com alguém, com confiança e abertura, não tendo medo de me revelar e expor os meus sentimentos, o que me vai lá dentro, aquilo que sou, o que penso, a forma como me vejo.
Esta nova perspectiva tem-me permitido encarar a minha actividade paroquial de uma forma mais relacional e menos como função, o que dá ao meu sacerdócio um sentido muito mais comunitário.
É o meu pobre contributo ao desafio colocado

Manuel disse...

Caro Né,

O teu texto fez-me voltar.
Alguma crítica ou algum pessimismo desta conversa, näo deve ser razäo para te assustares. Deve ser razäo, isso sim, para te preparares.
Näo sei de onde és, por isso näo posso falar da tua formaçäo. Mas os seminários maiores que conheço deixam muito a desejar no que toca à preparaçäo para estes aspectos...
Mas que fique claro que o que te espera tem mil razöes para poder fazer de ti um homem inteiramente feliz.

Confessionário disse...

Né, eu ia dizer mais ou menos aquilo que disse o Manuel. E mais acrescento que Jesus teve uma cruz enorme e nem por isso deixou de ser tão bonita e inspiradora. Além do mais, e nisto tenho de penitenciar-me, o que eu apresento aqui neste meu espacito são situações de vida que não consigo esconder, que gosto de enfrentar com autenticidade. Mas encontras, sem dúvida, neste mesmo espaço, muita coisa que nos diz que vale a pena avançar e percorrer este caminho de entrega a deus e aos outros!

mi disse...

ser padre é ser humano...

NaSacris disse...


A frase que está no teu blog tem todo o sentido: "Não deixes que nada te desanime, pois até mesmo um pé na bunda te empurra para a frente"
As dificuldades existem em todo o lado, em todos os modos de vida, em todas as profissões. Os padres temos um plus, um 'algo mais' que Deus nos dá, pelo sacramento que recebemos, pelo ministério que exercemos, pelo povo que nos foi confiado. E isso nos fortalece nos momentos menos bons.
Ânimo, semina Né!

disse...

Obrigado a todos pela vossa atenção!
Pelo vosso incentivo!
Obrigado ao Confessionário que nos deu esta oportunidade para falar destes assuntos!
Abraço po pessoal

MC disse...

ai como isto tá hoje!!!!...vão lá ao jardim, ler a Adélia, vou servindo em pequenas doses...pra não provocar indisposições...

emlino disse...

Proposta de alteração à agenda da C.E.P.: o tema: "O Código Da Vinci e as suas consequências teológico-pastorais" é substituído por: "Que raio de modelo de padre estamos nós todos, bispos, colegas, cristãos e ditos cristãos, a criar nos dias de hoje".
...Às vezes olho para os diáconos que lá vão estagiar na paróquia e... "vou rezar..."

Carla Isabel disse...

Olá amigo!

Eu acho que um padre como ser humano devia poder ter alguém...não sei se me faço entender...poder casar e construir uma familia....
Accredito que em muitos momentos sintam efectivamente a falta de um abraço mais intimo, de um beijo...
Porque estar só...mesmo que acompanhado com paroquianos, mesmo com manifestações de carinho dos mesmos!
Acredito também que cada vez é mais dificil seguir a vocação de ser padre...devem haver momentos de muita solidão...eu sei que Deus está sempre presente, mas tb acho que neste aspecto são questões distintas, Deus existe para todos nós...!

Bjs
Carla

paulo,sj disse...

Confessionário, obrigado por abordares estas questões... Sinto que hoje em dia precisam mesmo de ser dialogadas sem muitos receios. Eu como religioso, ainda "pequenino" (fiz os votos há menos de um ano) percebo como é importante esclarecer que a nossa vocação tem as suas particularidades.

Uma das coisas que vou descobrindo aos poucos é a união que temos de ter com Cristo. Infelizmente quando se aborda esta questão corremos o risco de sermos tratados por "ratos de sacristia" que não vêm outra coisa à frente que "ascoijas de Jejus". Mas também depende como a tratamos, evidentemente. Temos de começar a ler os sinais dos tempos e perceber que Deus também lá está. E isso faz-se pensar no tempo que damos a Deus, na nossa oração quotidiana, numa relação de profunda intimidade. Como é que eu posso apresentar alguém que não conheço? Com quem não tenho o mínimo de relação? Sim, aparece a questão do tempo. Mas nós temos tempo para aquilo que queremos. Acho que este ponto é primordial. A relação com Cristo não deve ser encarada com superficialidade. Deve ser algo com que me deva debater constantemente. Obviamente reconheço que não é fácil, os momentos de desolação acontecem. Defrontamo-nos com a realidade que é dura. Bem, Cristo não nasceu num "berço de ouro" com tudo resolvido… Ele nasceu numa gruta, só… Dizia-me um amigo (padre) que apercebeu-se que Jesus nasceu nu e nu morreu. Deus, o todo-poderoso completamente despojado… Seja no nascimento, seja na morte! Mas essa graça vai acontecendo, como na história do grão de trigo. Ora, Jesus passou pela radicalidade da total entrega, portanto sabe bem o que isso é. Não me pede mais do que sou capaz, e se pedir acredito que me dará a graça para o pôr em prática.

Conhecer-me, olhar para a minha história com o olhar d'Ele e integrá-la como um ganho para o meu futuro. Graças a Deus tenho alguma experiência de vida, o que me tem dado para rezar e perceber a sociedade, os outros, de forma diferente. O passo do acolhimento que as pessoas esperam de nós é muito importante. Como dizia o padrecarlos, a importância da escuta que as pessoas esperam de nós. Mas isso só é possível se nos soubermos escutar a nós. Sim, passamos por fase de acumular conhecimentos teóricos, mas esses só fazem sentido se percebermos que existe uma vivência pessoal desses conhecimentos. Eu posso dizer a uma pessoa: "Jesus ama-te!" e no entanto sei que isso está escrito nos evangelhos, etc etc, mas se não vivo nem experimento esse amor de forma pessoal, puff, não consigo transmitir esse sentimento. Como dizia, a escuta atenta dos nossos sentimentos, sem moralizar, é um passo para os integrar. Mais uma vez, não é fácil. Não queremos enfrentar os nossos medos, as nossas vergonhas, os nossos limites, mas eles estão lá. O mundo do inconsciente é imenso, e é difícil enfrentá-lo. Começar o caminho passa por primeiro admitir as fragilidades, de onde vêm, o que provocam em mim, mas também reconhecer os dons que Deus me dá. (Bolas, Ele cumula-nos de bens… E não há dúvidas disso mesmo!!!!) Depois, ir conversando com alguém sobre tudo o que nos vai cá dentro.

Leva-me a outro ponto que é a Amizade que tem de existir entre nós. Confiança gera confiança. O acumular tensões só me desgasta. Às vezes apetece chegar a casa e dar "três berros", porque algo irritou profundamente, força, que seja assim. Que eu tenha também a coragem de partilhar. Penso que a santidade passa pela humildade e verdade de sermos quem somos. Eu não sou perfeito e além de Cristo, não conheço ninguém que o seja. Só na partilha mútua com alguém que nos conhece, ou vai conhecendo, é que podemos ir libertando as tensões que nos oprimem. E depois ter alguém com quem possa confessar os meus pecados, para que através do Perdão (per-don; dar o dom) Cristo me empurre para a frente, acolhendo ainda mais. O que me custa é que muitos destes conceitos tenham uma marca pejorativa. O que vem de Deus é bom (mesmo que em muitas situações não pareça) e Ele só quer o nosso bem. Não pode ser de outra forma, pois se assim fosse, deixaria de ser Deus!

Quando fazia os meus Exercícios Espirituais de preparação para os Votos, rezei o Romanos 8, que termina com um hino de confiança fantástico!! Penso que é isto, o mundo real, a nossa vida, podem ser duras, mas se confiarmos um bocadinho mais em cada dia, que Ele, DE FACTO, está connosco, o próprio sofrimento e chatice podem ganhar mais sentido.

Um Grande Abraço!

CA disse...

Tenho estado a assistir com gosto.

As dificuldades existem em todos os estados de vida. No casamento é mais fácil ser-se feliz quando se começa com a preparação adequada e quando se vive integrado numa comunidade com outras pessoas e outros casais.

No vosso estado as coisas não serão talvez diferentes. De fora há muito que tenho a impressão que a formação dos seminários não é muito adequada. Mas passa muito por vocês a possibilidade de as coisas mudarem. Não se esqueçam que têm o direito e o dever de ser felizes e de ajudar a mudar o que for necessário para que os novos recebam uma melhor preparação e encontrem ambientes mais adequados.

palheirense disse...

Isto vai longo e muito participado.
Principalmente por quem sabe do assunto, os Sacerdotes.

Como paroquiano, depois de ler o post do Confessionário fiquei a pensar :
Ao Padre nós exigimos disponibilidade 365 dias por ano, que esteja sempre com um sorriso nos lábios, que concorde sempre connosco, que não adoeça, que não tenha desânimo nem depressões, etc..etc..
Quando ele vem ter com um de nós para nos convocar ao desempenho de qualquer tarefa, a nossa reacção é na maior parte das vezes: Sabe Padre não tenho muito jeito para isso....não tenho tempo......
Depois o Padre vai para casa, olha em volta....não tem ninguém que lhe dê um ombro amigo.... uns ouvidos a quem possa falar...vem o sentimento de solidão... de isolamento.... de desânimo.... por vezes de ingratidão tanto das comunidades como até dos próprios Bispos...então o Padre reza.....mas até isso tem que fazer sozinho!!!!
Em conclusão: Penso ser urgente a hierarquia da Igreja rever a forma como “abandona” os Sacerdotes nas paróquias e principalmente, porque não tem qualquer lógica e até me parece pouco Cristão, a obrigatoriedade do celibato.

ruipda disse...

Olá não sou nenhum expert, nem sei que experiência posso ter para dar a minha opinião sobre o assunto, mas tive vontade de o fazer.

Ter o prazer de participar numa eucarístia, de dialogar numa tertúlia de algum grupo de jovens, de escutar alguém não é o mesmo de ir ao supermercado e fazer as mesmas compras da semana passada e da outra e da outra.

Um dia reflectia sobre isto e parecia-me que nós católicos talvez estivéssemos a transformar os nossos momentos de fé numa especie de abastecimento de supermercado onde vamos buscar as compras.Tal como fizeramos na semana anterior.

Qualquer trabalho, função ou vivência ao tornar-se repetitiva, mecânica, acaba por nos desmotivar, acaba por atrofiar a nossa criatividade e vontade (está provado que inclusive pode ser prejudicial para o nosso trabalho). Essa desmotivação pode ser terrível para pessoas para quem a vontade de fazer algo novo, de acrescentar algo novo ao seu dia a dia é uma prioridade. Tem-se a sensação de que o mundo está realmente a caír encima das nossas cabeças, sentimo-nos atrofiados mentalmente.

Por outro lado quando se vive algum tempo com outra, ou outras, pessoas é necessário que se procure criar novos momentos e vivências em comum, de tanto em tanto tempo (cria-se um novo momento, habituamo-nos a ele, torna-se repetitivo? Cria-se um novo momento e por aí fora). Se para duas pessoas isso nem sempre é fácil, para um padre e sua comunidade a dificuldade é ainda maior (penso eu).

Não sei se a solução se encontra na possibilidade em formar família propria (os padres que opinem ;) )

Penso que uma solução é a rotatividade dos padres por diversas comunidades, de tanto em tanto tempo. Penso que mais de 5 anos é demais na relação padre-comunidade.

Talvez resulte...
Talvez não...
Talvez não tenha percebido nada do post.

Mas foram estas as ideias que povoaram a minha mente nestes últimos minutos. ;)

Talvez o teu/seu colega só precise de alguns abraços. Pelo sim pelo não envia/e-lhe o teu post dos abraços e respectivos comentários ;).

Dulce disse...

Resta rezar, porque a felicidade anda arredia das nossas escolhas... eu ousava dizer que pouco escolhemos, vamos na crista das ondas, ou em águas mansas, flutuando.
Não sou grande mestre para discutir isto, não sei o que é a felicidade, e acho até que é possível viver sem ela, sobretudo se não a procurarmos.
Vamos tendo os nosso prémios de consolação... E vai chegando.

Anónimo disse...

Amigo Padre,
Quanto ao assunto tratado por e-mail, eu continuo firme no proposito de me afastar, mas ainda não esqueci-o! Na verdade ele não saí de meu pensamento!

O texto de hoje fez-me reflitir bastante até mesmo sobre nosso assunto... Todos nós, humanos, independentemente de convicção religiosa temos nossas carências, isso não poderia ser diferente para um padre!
Ainda mais nos tempos de hoje, onde, todos parecem estar voltados para o próprio umbigo.

Ser padre realmente não é uma missão muito fácil, a maioria das pessoas acham que Padre é um ser inatingível, que não adoece, que não fica triste, que não sente solidão, que não se zanga nunca, que não em vontade de chorar ... ou seja, Padre é um "Semi-Deus"!

Eu acho que os padres deveriam constituir família, casar, ter filhos, etc. Pedro era casado, pelo menos, nas escrituras, em algum trecho eu li que Jesus curou a sogra de Pedro, e nem por isso ele deixou de ser um grande apostolo e por sua fé, seu trabalho cristão, a igreja foi edificada!

Fatima
Rio de Janeiro - Brasil

Elfo disse...

54 Bahá'ís presos no Irão apenas por serem Bahá'ís.
Aqui é fácil falar-se das angústias existênciais dos padres, mas será que os Mulláhs,- sacerdotes muçulmanos-, sentem as mesmas dúvidas existenciais qundo mandam prender e torturar Bahá'is apenas pelo facto de pertencerem a uma religião diferente?

Desculpem lá mas havia uma frase de Torquemada, o famoso torcionário assassino da santa inquisição do santo ofício de onde surge esta pérola do cardeal Ratzinger, inspirados por Inácio de Loyola para matar todos os Cátaros e levar tudo na frente incluindo os Templários.

Mas dizia o Torquemada: " matemo-los todos que Deus saberá separar os seus".

Como dizia o "padre Fanhais":

" Que por cada flor degolada, há milhões, e milhões a florir..."

EU TAMBÉM SOU BAHÁ'Í DESDE 1977, PRENDAM-ME TAMBÉM A MIM, OU SERÁ PRECISO IR À FRONTEIRA DO IRÃO E GRITAR A PLENOS PULMÕES: PRENDAM-ME, QUE SOU BAHÁ'Í !

No dia 23 de Maio fui para a montanha celebrar o nascimento desta nova Religião que Sua Santidade O Báb declarou no dia 23 de Maio de 1844.
Prendam-me a mim.

Fui católico até aos dezassete anos e fiz todos os sacramentos que eram próprios de uma família católica, o meu padrinho de Crisma foi o Cónego José Andrade com quem aprendi muito das minhas crenças que evoluiram até hoje. Fui cruzado de Fátima, para quem ainda se lembra do que isso era.

Elfo disse...

Também gosto de fazer orações na Igreja de São Francisco de Assis, hoje rebaptizada por Senhora da Conceição, ou concepção, conforme os puristas da língua.
Ainda me lembro da missa ser dita em latin e fui acólito do senhor prior e tinha que saber em que parte do latin tinha de tocar um sininho estridente ao qual o povoléu respondia sem saber o quê " et con spirito tuo". Um dia enganei-me na parte do latin toquei o sininho fora de tempo -, e nunca mais me deixaram participar como acólito, também tinha o mau hábito de deitar mais água do que vinho no cálice do padre, e era vê-lo a fugir com braço quando eu exagerava na dose da água, para gáudio da assistência.
Casei-me pela Fé Bahá'í e também pela Igreja católica visto que a minha esposa ainda hoje é católica praticante, e a minha filha vai à catequese e eu em casa ensino-lhe os padrões de vida Bahá'í.

Confessionário disse...

Elfo, da mesma forma como exiges respeito, através dos teus comentários neste blogue, para os bahai, tb deves pensar no mesmo em relação aos outros, nomeadamente os católicos. Ainda por cima este blogue é católico. Exigimos tolerância, compreensão, aceitação aos outros... Mas depois dizemos o que queremos e como queremos dos outros! Não acho isso muito correcto.
Uma coisa são as opções, outras as pessoas que as fazem. Tenta distinguir isso... como eu tento!

Elfo disse...

Caro confessionário, escuta apenas o meu grito de revolta e esquece o resto. Jesus perdoou àquele blasfemou porque foi sincero e não um dos aduladores.

Hoje é o meu grito de revolta que ouvis, e, apenas isso. Nunca quiz ofender os vossos dogmas pelos quais me bati durante a minha juventude Católica. Também aprendi que nada acontece sem que seja pela Vontade de Deus, que nem um cabelo da nossa cabeça cai sem que isso seja da Vontade de Deus.

Hoje ocupei o vosso espaço mas estais à vontade para fazerdes o mesmo no meu espaço. Sois sempre bem vindo.
Um abraço fraterno, querido Amigo.

Se calhar temos mais em comum do que divergências... ireis reparar nisso mais tarde. Talvez que o vosso coração esteja ferido - e eu não tenho o direito de ferir o coração de ninguém, muito menos o de um servo de Sua Santidade O Crysto -, com o que eu disse, mas tivestes a coragem de o publicar.
O meu Bem-hajas, como se diz aqui na minha terra.

Anónimo disse...

Concordo com a Fátima e outros penitentes. Quantos não hão-de sentir um amor puro, bonito, terem vontade de gritar para que todos saibam a grandeza desse amor!?...mas, em silêncio sofrem na solidão. Sente a mesma falta de carinho, de afecto, de companhia, as mesmas necessidades que qualquer ser humano.
Um Padre, primeiro que tudo é Homem...(Padre por opção). Estou certa, que não deixa de amar a Deus e cumprir com as suas obrigações de Padre, se tiver alguém com quem possa partilhar a sua vida... Padre, o AMOR é uma dádiva de Deus...
LN

Vítor Mácula disse...

Caro Elfo, Confessionário e restantes.

Eu, enquanto católico, não me considero absolutamente nada ofendido pela referência torquemadesca e etc, do Elfo.

Doi-me, que é diferente, e ainda hoje. Nunca é demais lembrar e atentar.

Obrigado, Elfo.
Rezarei pelos Bahá'is, e pelos Mulláhs.

Abraços.

Dulce disse...

Só volto aqui para acrescentar (hoje sinto-me um pouco provocadora) que conheço muitos padres, e realmente não vejo que a maioria deles sejam mais felizes do que as outras pessoas. Penso que há padres, leigos, agnósticos e ateus felizes como infelizes. Ou nem uma coisa nem outra. Quem é que foi que inventou esse conceito da felicidade e nos pôs atrás dela como o burro atrás da cenoura?
Estou zangada, hoje. Não consigo, claro. Não comigo. Com ninguém. Apenas zangada. E como já tantas vezes aqui vim e sempre fico registada como penitente, hoje não quero ser penitente. Vim só desabafar. Deitar cá para fora estas minhas palavras aparentemente sem sentido...
Fui.
Obrigada por ouvir.

CVJ disse...

Parabéns confessionário por este espaço.
Muitas coisas poderia dizer e repetir o que que já foi dito. Claro que não vale a pena. Ao ler o teu post e os muitos e acertados comentários só tenho vontade de Pôr algumas questões:
É obrigatório a "turma" (desculpem o termo) dos sacerdotes ser mais feliz que os outros?
Não pode um sacerdote sentir-se cansado, só, triste, tentado a abandonar tudo?
Não viveu muitas vezes Cristo as mesmas experiências?
Serão os sacerdotes super homens, ou não homens, mas só divinos? se não vivessem isto seriam eles realmente humanos, pessoas, sacerdotes?
E não se sentiu Deus em alguns momentos "cansado" (Sodoma, Gomorra, Ninive,...)
Não terão eles (sacerdotes) o direito de manifestar estes sentimentos, de preferência a alguém que os poderá compreender, um seu colega?
Muitas outras questões poderiam ser postas. Pela maneira de as fazer é fácil imaginar as respostas que eu lhes dou.
Obrigado mais uma vez por partilharmos estas belas páginas e obrigado pelo sacerdócio.
Coragem e um grande abraço.
Leonel

Bento, um mendigo de Deus disse...

A solidão possui dois lados em uma mesma moeda: de uma forma a pessoa se sente abandonada por não ter amigos ou uma companhia mais próxima, em outra ela pode ser por própria opção da pessoa, que se sente bem em ficar sozinha, pois sente-se livre. Acredito e temo estas duas formas de solidão que podem atingir qualquer ser humano. Contudo olho para o alto e penso: "Poderá Deus abandonar aqueles que ama?", e logo me vem a reposta: "JAMAIS".
Contudo, e é preciso ter sempre presente, o Padre precisa de ter tempo para si, para descansar, para reflectir na sua vida,para estar com aqueles que são seus amigos mais intimos... mas como é dificil hoje o Padre ter esse tempo, tanto trabalho pastoral que tudo tira... Entristeço-me por tal acontecer, nomeadamente, e muitas vezes, com aqueles que são os "Padres novos"...
Mas devemos lembrar-mos sempre mesmo nos momentos de maior dificuldade que ser padre significa ser um homem feliz por viver, feliz por sentir-se amado por Deus em Jesus Cristo, apaixonado no desejo de comunicar aos demais a alegria deste amor que dá plenamente sentido e beleza a vida. Acho que acreditando nisto poderá-se ultrapassar esses momentos de angustia, solidão e muito mais....

Abraço

A Capela disse...

Depois de ter lido o post, ontem, passei pela paróquia assim como não quer a coisa e tal, observei, conversei e lá fui sabendo que ajuda podia dar.
São boas estas chamadas de atenção, Confessionário, (Menos a parte dos sarilhos em que me mete..) :'(

Abraço, Malu

Anónimo disse...

Amigo,
Esqueci-me de dizer-te ... Estou viciada em seu blog, entro todo dia para ler seus textos reflexivos os comentários dos confessionários e todo dia reflito com o que leio e aprendo algo, tanto o texto como os comentários são altamante reflexivos e inteligentes ... Seu blog já faz parte do meu dia a dia e ele me faz crescer como pessoa !!! Um grande beijo e um super abraço meu amigo!!!

Fatima - RJ

Confessionário disse...

Já falei de novo com o meu colega, e mostrou-se um pouco melhor. Anda a tentar. Já é bom. Achei que vos devia dar esta palavra.
Um obrigado a todos os que ajudaram este colega através de mim... contei-lhe muitas coisas daquilo que li aqui e mandei-lhe uns largos abraços...

Estrela polar disse...

Também temo que isso acontece se um dia for padre. Não é fácillidar com situações destas mas percebo a necessidade do seu amigo. Precisámos todos de nos sentirmos especiais.

Joe El Mendigo disse...

A solidão o isolamento são as piores dores que o Homem pode sofrer no seu interior...

Um Abraço caro amigo Padre de um simples mendigo...

Joana disse...

Cara Fátima e outros demais:

Parece-me a mim que o tempo que um homem comum dedica á sua família se pode equivaler ao de um padre para com a sua comunidade. Como tal, penso que o matrimónio, para sacerdotes, não toma sentido. Além disso, e falando de amor, "há muitas formas de amar"...

Tenho gosto em acompanhar estas "tertúlias". Parabéns pelo blog!

Anónimo disse...

Joana, se pensarmos assim ... o tempo que um homem comum dedica á sua família se pode equivaler ao de um padre para com a sua comunidade e também a de um médico para com seus doentes ... mas, nem por isso, o médico deixa de formar uma família e tornar-se menos médico por isso ...

Acho o tema muito polêmico, mas irei atrever-me a dar uma opinião sobre o assunto...

"Os Padres são pessoas como todas as outras, que sente dores, felicidade, tristeza, frio, fome, calor, solidão...Deus fez o homem e a mulher para se completarem, se não, não teria tirado uma costela de Adão para fazer a mulher, sua companheira. nenhum ser, vive sozinho, por que os padres não podem ter uma companheira, uma familia. acredito e tenho a pura certeza que o concilio da familia e o sacerdocio combinam muito bem, se não Deus não teria nos deixado essa herança maravilhosa que é o AMOR entre as pessoas. E os Padres não são diferentes...

Acredito que um Padre pode ser casado e execer sem embaraços suas funções eclesiásticas, sendo um exemplo para outros casais que busquem aconselhamento nos encontros de casais com Cristo, econtros esses, comuns nas paróquias aqui no Brasil - O Sacerdócio não castra o homem e o Apóstolo Paulo predica um celibato voluntário como dom do Espírito Santo e um chamado de Jesus Cristo para uma vida exclusiva para monges e freiras que desejam viver em continência perpétua, voluntariamente. "