sábado, maio 27, 2006

A fé dos aquecedores

Apesar de ter sido acesa há umas semanas atrás, a fogueira arde, mostra as suas labaredas, umas vezes mais fortes, outras mais do tipo estou quase a deixar de ser. Apagar-se-ia, sem dúvida, se não a alimentassem. Mas alimentam. Há muita gente que gosta de deitar coisas para a fogueira. Sobretudo palavras que joguem em sua defesa e deixem no ar a ideia de que somos perfeitos, sabemos de tudo, como fazer em tudo, como o mundo seria melhor. Bom, vamos à fogueira, que é como dizer, vamos ao assunto. Obviamente, assunto quente. Tem a ver com três aquecedores. Alguém entendido, muito crente, muito caridoso, ofereceu à paróquia. Melhor, a uma capela da paróquia. Pois. Ofereceu sem perguntar se faz bem, exige que se faça anúncio público da oferta. Escreve umas 15 linhas para o padre ler na missa. Coloca umas fitas bem garridas no alto dos aquecedores para que se veja quem ofereceu. Exige ainda que estes se mantenham na referida capela em memória de uma esposa.
A capela usufruiria, é certo, dos aquecedores da fé deste homem porque é mortuária, e dá sempre jeito para aquecer os que ali passam a noite. Mas a senhora responsável pela limpeza e chave da Capela não concorda. Não são precisos. São demasiados. Agora não. Está calor. E concordo que todos não. E que o senhor dos bolsos cheios também agiu de forma menos lúcida ou certeira. E vai daí uma balança nos meus pensamentos. E vai daí que a fogueira não se apaga.
E é tudo por amor a Deus. Uns porque sim outros porque também sim. Vêm uns, vêm outros. Todos têm razões. O padre assim e assado. Mas eu, cuidadoso, não me sinto obrigado a nada. Nem de um lado nem do outro. Ninguém me dá uma camisola marcada com o nome de quem ma ofereceu no lado do peito e depois me obriga a vesti-la no dia tal e tal, ou na semana tal e tal, digo eu. O senhor ri-se. E ninguém me obriga a retirar daqui os aquecedores ou a utilizá-los desta forma ou daquela, digo eu. A senhora ri-se. E andam nisto há semanas, envolvendo a paróquia toda, como se o aquecedor fosse um sinal obrigatório da nossa fé. As coisas que os nossos cristãos inventam!

22 comentários:

Sol disse...

como eu ouvi uma vez um colega seu dizer, essas pessoas pertencem ao grupo da 'confraria dos enjoados'

Manuel disse...

:)

edelweiss disse...

pois é...cada vez mais encontramos estes cristãos 'descafeinado' - dizem que o são quando na verdade não passam de um 'flop' da formação católica de algumas gerações em determinados lugarejos do nosso país...e o pior, é que cada um de nós ao ler estas palavras, identificou nominalmente cada uma das personagens como se do seu próprio mundo pastoral se tratasse. Dá que pensar...

Compota disse...

O q os padres têm de aturar... Será q as pessoas pensam nisso? Ou pensam que os padres por serem padres são pessoas melhores e por isso conseguem aturar isto tudo?

Carla Isabel disse...

esse deve ser dos tais : "do ut des"


Bjs
Carla

Joe El Mendigo disse...

Os cristãos de hoje preocupam-se mais em verem os seus actos a serem louvados, do que dar o louvor a Deus...

Um abraço deste Mendigo

Anónimo disse...

É de lamentar a inexistência de reflexões aprofundadas sobre esta temática- os conflitos na comunidade e sua gestão. Sendo que se trata de uma fonte inesgotável de sofrimento para párocos e paroquianos...
Perante o caso concreto, parece termos, de um lado, o desejo de ajudar, de oferecer algo de útil e (talvez) de cumprir a vontade de um familiar, misturado com o desejo de reconhecimento, de notoriedade, de prestígio; do outro lado, o desejo de ajudar, de ser útil e de zelar por um imóvel, misturado com o desejo de apropriação, de posse e de controlo. Ao que acresce um braço-de-ferro para ver quem tem poder, quem manda: seja entre o benemérito e a zeladora, seja entre cada um deles e o pároco. Teste esse que pode ter surgido por iniciativa dos contendentes, ou por instigação dos seus apoiantes. Que podem ter também a sua própria agenda, os seus próprios interesses. Complexo...
A mensagem evangélica é clara e não pode ser escamoteada: "os primeiros são os últimos", "não saiba a mão direita o que faz a esquerda", "eu vim para servir e não para ser servido", etc. No entanto, há que reconhecer e aceitar a disfasia entre o ideal e a realidade quotidiana, onde se jogam o compromisso e o pragmatismo, procurando o equilíbrio entre o dar resposta às necessidades da comunidade e, ao mesmo tempo, o satisfazer dos interesses de cada indivíduo. E, de facto, abundam os exemplos de objectos e edifícios religiosos que ostentam o nome de quem os ofertou/custeou; ou da apropriação por parte de quem deles cuida/usufrui: a minha sala de catequese, o meu altar, o meu banco na igreja...
Rejeitar esta esquizofrenia, em nome de uma suposta pureza da fé, é ingénuo idealismo. Se não for mesmo uma deturpação ideológica... O que não significa renunciar a progredir. Neste sentido, é de extrema importância que o responsável pela comunidade saiba valorizar as iniciativas desinteressadas e altruístas, seja a nível de bens ofertados, seja a nível de serviços prestados. O padre tem de saber mostrar o seu sentido reconhecimento às pessoas em causa e de apontá-las como exemplo à comunidade. Pode parecer contraditório, mas tal é o paradoxo cristão: "os humildes serão exaltados".
O problema é qunado os vários interesses em jogo colidem. Como agir?... Não há receitas mágicas: o que funcionou ontem pode não surtir efeito hoje; o que deu resultado na paróquia vizinha pode ser contra-producente na minha comunidade. Há ocasiões em que se exige neutralidade; noutras, tem de se tomar partido. Há alturas em que vale a pena esperar que o tempo resolva; noutras, é urgente uma tomada de posição. Há momentos em que o padre tem de resguardar-se, incumbindo outros de enfrentar o problema; noutros, é necessário que o padre faça uso de toda a sua autoridade. Há horas em que a discrição e o segredo são fundamentais; noutras, faz falta que a comunidade tenha conhecimento do que se está a passar.
Mas há algumas constantes que convém observar: tentar ser objectivo, isto é, fugir à pessoalização do conflito; tentar manter a coerência de critérios; tentar que ninguém perca a face ou se sinta encostado à parede; e, sobretudo, tentar manter Deus afastado do assunto, isto é, que o seu Nome não seja invocado em vão...
JS

Confessionário disse...

JS, gostei.

palheirense disse...

E que tal colocar perante o ofertante a passagem das Escrituras que diz:
"Que a tua mão esquerda não veja o que faz a direita"
Abraço e um cabaz de paciência.

Fá disse...

Olhe Padre
que já sei o que é passar frio nas Igrejas, sei! Que já suspirei por uns aquecedorzinhos para juntar o calor da alma ao calor do corpo, já... Para não falar nas pessoas de idade, que essas coitadas... Por isso fique com eles. Se não precisa de todos deixe algum como suplente...:)))) E aproveite a altura para mais uma vez evangelhizar quem os deu... Sempre com Amor e por Amor...
Um abraço

ruipda disse...

Em primeiro lugar, caro Padre obrigado pelas suas confissões mais ou menos espirituais, mais ou menos mundanas, mas sem dúvida (ou possivelmente) reais. :) E algumas divertidas, pelos menos para quem lê, não para o amigo Padre, já que vive-las deve dar uma grande dor de cabeça.

APARTE:
Questão que me surge:
Os aquecedores são móveis ou fixos? (Parece patético mas importante dada a pequenes de alguns argumentos descritos).
Se são móveis a senhora da limpeza terá a sua razão, não faz sentido colocar os ditos aquecedores na capela. Amigo Padre, não sei... Talvez conversando com o senhor e calmamente agradecer-lhe a oferta, garantindo que guardará os seus aquecedores bem fechados nas caixas, para ninguém os danificar,colocando-os lá mais para o Outono. Certamente o senhor perceberá que as suas «reliquiosas» dádivas devem ser protegidas das mãos curiosas e nunca se sabe, andam para aí uns larápios!!!...
;)


POSSIVEL CONCLUSÂO PARA O PROBLEMA:
1.Aceita os aquecedores (partindo do princípio que são necessários no local).

2.Garanta ao bondoso senhor a devida divulgação da sua dádiva em espaço oportuno e perante a comunidade, convença-o a deixar tudo nas suas mãos. Não se esqueça de se mostrar grato pela bondade do senhor, como se da irradicação da fome no mundo se trata-se (se me entende). Não ceda ( na sua consciência) a requisitos de publicidade. Pode perfeitamente utilizar os aquecedores como símbolos de ofertório, bem bonitos com uns panos vermelhos e como quem não quer a coisa tapando possíveis nomes (eheh ;) ).

3.Garanta à senhora da limpeza que o bem estar das pessoas utilizadoras da capela, que tão sabiamente limpa ao ponto de considerar sua, é objectivo primário de toda a questão.

4.Converse com a senhora e deixe-lhe a responsabilidade de proporcionar um espaço acolhedor aos utilizadores da capela, sendo a bondosa senhora a responsável, no Inverno, por ligar os aquecedores e cuidar da sua imagem (limpeza dos mesmos). A senhora passa a ser a responsável por tão valiosa dádiva.

5.Num encontro de paroquianos, no final de uma celebração ou quem sabe depois da leitura do evangelho, respire fundo, ganhe confiança:
-> Fale da mão direita e da mão esquerda, fale dos aquecedores e procure agradecer ao senhor sem nomear o seu nome, pare só quando conseguir ver estampado nos rostos dos seus paroquianos a gratidão devida e na face do senhor o orgulho de quem salvou o mundo.

-> Fale da mão direita e da mão esquerda, fale das enúmeras pessoas que dia a dia, semanalmente, dão algum do seu tempo para cuidar da paróquia e dos seus paroquianos. Não pare até ver estampado nas faces dos seus paroquianos a gratidão devida e na face dos seus colaboradores o orgulho de quem salvou o mundo.

-> Depois de todos estarem satisfeitos aponte para Jesus crucificado e alerte-as para o que pode suceder a quem é VERDADEIRAMENTE bondoso.

RESOLUÇÃO PREVISTA PARA O PROBLEMA:
- Os humildes que dedicam o seu tempo, a sua vida aos outros, não se preocupando com o que os outros dizem ou fazem, perceberão que atrás da cruz está sempre uma luz, uma esperança, uma vida para além de... Não deixarão de ajudar.

- Os que se preocuparam em mostrar e defender o que fizeram, ficarão assustados com o terrível «final» de Jesus (crucificado). Desaparecerão assustados. E claro terá muitos mais problemas nessa semana.

Ou não!!!!! ;)

Bom foi meio a brincar mas com algumas verdades.

Confessionário disse...

Pois, ruipda, são móveis, e a senhora, embora a desgosto, guardara-os numa loja de sua pertença. Mas o problema continuou...

Fá, eu aceitei. Só lhe fiz reconhecer que uma oferta, depois de dada, deixa de ser de quem a oferece e passa a ser de quem a administra, neste caso, eu... e que não me queria sentir obrigado a nada. Que eles seriam utilizados como fosse mais oportuno e adequado às circuinstâncias.

Confessionário disse...

Mas já agora acrescento: porque eu lhe referi a necessidade deles ou de algum deles para a catequese, ontem mesmo recebi mais dois para a colecção. Acreduito na bondade. Mas o senhor quer mesmo a todo o custo que aqueles três permaneçam na dita capela. Quer-me parecer um braço de ferro. E se soubesses quantas vezes já me prociurou para que eu cedesse aos seus desejos... mesmo inoportunamente e indicando-lhe eu a minha pouca disponibuilidade para tratar de aquecedores, e para mais nestes tempo de calor!!!

guevara disse...

bom... estas e outras cenas da vida davam "pano 'pra mangas".

Mas deixemos lá as conversas de café, certo? Bom, deixemos e não deixemos. Vamos é reflectir.

Pdivulg disse...

Fazer no anonimato, tanto Jesus fez e sempre pediu para que não se espalhasse,... o Jesus dos pobres (anónimos) hoje tornou-se o jesus das vaidades?
Há pouco tempo construi-se uma Igreja nova perto de aqui e é absolutamente ridículo que cada vitral tem uma tabuleta com o nome de quem deu. Será que se não houvesse publicidade as pessoas não dariam? E que tal aquelas que gratuitamente dão o seu tempo ou as suas ajudas anonimamente, merecem menos. A única coisa que consola é que Deus lá do alto não lê as tabuletas... Isso tenho eu a certeza!

Paulo disse...

E dizem-se cristãos, batem no peito, vão "religiosamente" todas as semanas à missa...Também eu tive um caso parecido, quando fiz parte de uma comissão de festas. Um emigrante residente nos EUA, deu algum dinheiro para embelezar Nossa Senhora, tendo esta também sido oferecida em tempos pela mesma pessoa. O que depois aconteceu foi que o Padre, nos seus designios, achou que naquele ano saiam outras imagens menos Nossa Senhora. Resultado: Ficou escandalizado e quis que a comissão devolve-se o dinheiro que tinha dado, tendo eu, como membro da mesma, devolvido-o de imediato.

JOINCANTO disse...

Dá para rir e para chorar estas nossas calorosas mesquinhices geladas.

Abraços.

Anónimo disse...

Adorei o que o JS escreveu!!!

Certa vez li Kalil Gibran, falando-nos da Dádiva de dar e receber, irei transcrevê-lo aqui para relembrar e para aprender mais um pouquinho ...

" ... Há os que dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem elogiados, e seu desejo desvaloriza seus presentes.

E há os que pouco têm e dão-no inteiramente. Esses confiam na vida e na generosidade da vida, e seus cofres nunca se esvaziam.

Há os que dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa.

Há os que dão com pena e essa pena é o seu batismo.

Há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria e sem pensar na virtude ... Pelas mãos de tais pessoas, Deus fala; e através de seus olhos, ele sorri para o mundo.

É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser solicitado, por haver apenas compreendido.

As árvores de vossos pomares e os rebanhos de vossos pastos sabiamente, dão para continuar a viver, pois reter é perecer! "

Amigo, adoro seu blog, cada dia que entro aqui eu reflito sobre os texto, sobre os comentários dos amigos que aqui visitam e aprendo mais um pouquinho sobre a grande lição da vida!

Que Deus nos abençoe!

Fátima

Observador isento disse...

Com posts destes até os mortos "ressuscitam" (ou dão voltas no túmulo!), não tanto com o calor de "aquecedores" físicos - eventualmente ofertados com a melhor das intenções, ainda que algo vaidosa, calculista ou erroneamente ("quem não o é que lhes atire a primeira pedra"...) -, mas com "aquecedores" de muita soberba, inveja, ira e avareza, de que o mundo está cheio, inclusive a nível de várias religiões e seitas pseudo-cristãs, bem como entre os maus cristãos e péssimos católicos, que lamentavelmente proliferam como cogumelos venenosos, contaminando tudo e todos...

Só Deus pode avaliar e julgar devidamente as verdadeiras motivações aparentemente delituosas das pessoas, por mais egoístas, anormais ou graves que pareçam, e quem tentar substituir Deus, neste Seu domínio exclusivo, é sacrílego ou iníquo ("anátema"), e por isso mesmo bastante pior que o acusado e condenado em praça pública, talvez só por este ter furtado uma galinha a fim de matar a fome...

Todo o cuidado é pouco, em especial nesta matéria, pois "na medida em que julgarmos (mal), assim mesmo seremos julgados", exactamente pela mesma bitola..., ainda que aparentemente sejamos as pessoas mais honestas e íntegras do mundo...

Uma coisa é ter defeitos e portar-se mal - quem não os tem? quem é exemplar? -, ainda que aparentemente com alguma gravidade; mas outra coisa completamente distinta e ainda bastante mais gravosa é julgar e condenar publicamente, sem bastante fundamento nem autoridade, tais pessoas assim difamadas e caluniadas, que para Deus até podem, directa ou indirectamente, estar a agir muito bem, ou menos mal, pois muitas vezes "Deus escreve direito por linhas tortas", isto é, aparentemente tortas, ou menos direitas, através dessas mesmas pessoas, cujo principal "delito" é o de apenas terem um argueiro em seus olhos, enquanto que nos nossos por vezes há montes de lixo...

E quantas vezes a culpa é de nós mesmos, ou de todos nós, muito mais que do próprio acusado ou perseguido, quantas vezes injusta ou excessivamente!

Enfim, a exemplo do Senhor Jesus e de todos os Santos, o bom exemplo, a humildade e o amor cristão, são sempre a melhor das críticas, a melhor das ajudas para todos aqueles que erram...

1gota disse...

E no fim a culpa é sempre do padre!

marcos disse...

é verdade que as vezes irritam , mas a exemplo de paulo nem todos estão no patamar de crescimento , uns ainda andam a leite, portanto meninos e outros já comem comida da grosssa, mas mesmo assim todos sujeitos ao mesmo amor e graça~, por isso vale a pena cuidar de todos, graça e paz DTA

Avozinha disse...

Eu conheço essas fogueiras, ó se conheço!