domingo, abril 27, 2014

O padre que morava sozinho

Este padre já faleceu. Já lá vão uns dez anos e faleceu com mais de setenta. Mas contaram-me esta história que me apeteceu contar também. Era um padre simples de uma paróquia simples. Morava, como quase todos os padres, sozinho. Morava numa casa com três quartos, mas apenas ocupava um. Era um bom padre e não tinha dificuldade aparente em morar sozinho. Levava essa forma de viver como a forma normal de viver de um padre. Como a forma de viver com Deus. Segundo me contaram, não o encarava com desgosto, tristeza ou solidão. Ia partilhando a vida com aqueles que faziam parte da sua simples paróquia. Era uma paróquia simples, mas tinha uma catequese com muitas crianças e adolescentes. Um deles era um acólito assíduo. Tinha feito a primeira comunhão havia pouco tempo e entusiasmara-se no serviço de ajuda à Missa. Numa dessas ocasiões, o padre achou oportuno lançar-lhe a proposta de ser padre. Olha lá, já alguma vez pensaste em ser padre? A resposta não se fez esperar e, na simplicidade de quem não media as palavras, ele respondeu que não. Nem pensar. Que não queria ficar sozinho como o senhor padre. Nem pensar. Não queria viver a vida sozinho. Contaram-me que o padre ficara sem palavras. Imagino que ficara com imensos pensamentos. Os mesmos de quem me contou a história. O padre morava sozinho e provavelmente foi assim que morreu. Sozinho.
Quero fazer votos de que na nossa vida de padres, embora morando sozinhos, nunca nos sintamos sós.

quarta-feira, abril 23, 2014

Como costumas reagir à ideia da tua morte?

A última sondagem proposta surgiu após uma mudança no aspecto do blogue, com novo banner, novas cores e nova música. Agradeço imenso aos votantes e aos comentadores que já antes me haviam ajudado a procurar e a tomar opções mais interessantes no aspecto gráfico deste espaço. Fica de seguida a votação.

Hoje, a propósito deste período que vivemos da Páscoa, tendo presente a paixão e morte de Jesus, lanço uma questão intrigante e pessoal: Como costumas reagir à ideia da tua morte?
Agradeço que justifiquem as escolhas nos comentários.

sexta-feira, abril 18, 2014

Entrego-Te

Hoje entrego-Te, Senhor, os que me pesam. Entrego-Te as cruzes que carrego sem vontade. Entrego-Te a Odília que está com tanto cancro. A Maria que foi abandonada pelo marido. A Maria que está entrevada no andarilho. O José que sofre no matrimónio. O meu pai que está vivo. A minha família que tu sabes. Os jovens que cruzam comigo e não cruzam contigo e eu queria. Os pais dos meninos da catequese que não vão à missa. Os bancos vazios de tantas eucaristias a que presido. Os ventos que levam histórias que não são verdadeiras. Os padres que andam atarefados. Os colegas que eu queria compreender. O meu bispo que eu queria que fosse mais pastor. O cansaço do que tenho de fazer e não me apetece. Os sacramentos devolutos que não quero. A paróquia que parece não querer sê-lo. O conselho económico que quer deixar de o ser. Aquelas vinte e quatro pessoas que exigem que o meu dia seja de vinte e cinco horas, ou seja, todo para elas. O António que devia fazer o que lhe pedi e não fez. Aqueles com quem me apetecia tomar café. Aquelas pessoas que me apetecia amar sem medida. Aquela senhora divorciada. Aquela que não tem pão à mesa e mo revelou. Aqueles que não lembro agora. Aqueles que precisam. Aqueles que não sei lembrar.
Entrego-Te todo este peso que é enorme. Entrego-Te todo este peso para que seja dos dois. Para que, de partilhado, me seja mais leve. Diante da Tua cruz, nesta hora tão grande, os pesos dos que me pesam tornaram-se mais leves. Eu sabia que entregando-Tos, eles seriam mais leves. Obrigado, Senhor, por transformares estas minhas cruzes na Tua Cruz. Obrigado, Senhor, por transformares esta minha vida pesada naquela que é a Tua Vida.
 
Boa Páscoa, amigo
Ele quer ressuscitar em ti

quinta-feira, abril 17, 2014

acontece [poema 10]

Cresce a noite
Desce o tempo
Cai o corpo
Vence o vento.

Acaba o dia
Vai a história
Faz-se escuro
Na memória.

Bate a Hora
Ele adormece
Depois acorda
E acontece…

segunda-feira, abril 14, 2014

versão altamente inédita da paixão e morte de Jesus

NOTA: não aconselhável a leitores com problemas cardíacos!

A Eucaristia de Domingo de Ramos tem um Evangelho que não passa despercebido. Além de se ler a paixão e morte de Jesus, o tamanho do texto é bem acima da média. São umas boas oito ou dez páginas, aliviadas pela forma dialogada de três leitores. Por melhores que estes sejam e por mais bem preparados que se encontrem, é comum haver gafes pelo meio. Umas melhores que outras. Umas que não trocam o sentido das palavras ou das frases, e outras que as alteram completamente. Umas inusitadas e outras altamente hilariantes. E foi assim numa das minhas paróquias. A leitora até leu bastante bem. Mas para o fim já se mostrava cansada. Assim na cena final da paixão do Senhor, numa versão altamente inédita, temos o Centurião e os que com ele guardavam Jesus, isto é, os soldados, em vez de ficarem “aterrados”, ficarem enterrados. Tal seria o pavor. Mas nisto, vem o final apoteótico. E vemos Jesus na cruz que, clamando outra vez com voz forte, espirrou. Nesta versão Jesus não “expirou”. Espirrou. Não é uma versão má de todo. Espirrar é melhor que expirar. Devia estar constipado o nosso Jesus. Da próxima vez, antes de ir lá para a cruz, que tome os remédios.

sábado, abril 12, 2014

O Domingo de Ramos

A Francisca é catequista dos mais pequeninos, aqueles que hoje chegam à catequese sem saber uma oração, por mais pequena que seja. Nem o anjinho da guarda, que recordo com tanta saudade. Veio-me contar, a propósito destas coisas dos pais que enviam os filhos à catequese, pese embora o princípio da boa vontade e da boa intenção, mas que não poem os pés na Igreja a não ser quando a festa da catequese acontece. Sabe o que me perguntou há dias uma mãe! Ah e tal, ó catequista, não é agora um dia destes aquela coisa dos ramos? Olhe, é agora antes da Páscoa ou depois? É que eu estava a pensar ir. Temos de ir benzer os ramos, não é? Dizia satisfeita do seu interesse em benzer os ramos, como se estivesse a mostrar o maior interesse nos interesses da catequista. A Francisca contava-me que ficara de cara à banda e não soubera responder mais que um É já no próximo Domingo.
Cá está a prova de que os pais precisam mais catequese que os filhos. E mesmo com interesses ainda enganados, vale a pena agarrá-los por estas coisas que a nós, o comum dos cristãos que vão à missa, nos possam parecer coisas de outro mundo. Afinal o outro mundo é também o mundo onde vivemos. Claro que fiquei triste pela constatação. Mas não quero perder a esperança nestes pais. Pior que não saber quando é o Domingo de Ramos ou para que existe uma cerimónia de bênção dos ramos, é estar convencido profundamente que não se podem comer verduras nesse dia, porque depois pode acontecer alguma coisa de mal na vida das pessoas. Pior que não saber, é estar sabedor de coisas, a meu ver, tão desajustadas. Acho eu. Que às vezes já não sei que achar.

terça-feira, abril 08, 2014

As marotas da homilia

Estava a minha pessoa no meio de uma homilia. Foi num dia daqueles em que me apeteceu ir por ali fora pela coxia dentro. A Palavra de Deus desse dia dava ganas de não ficar parado. E para explicar como ser discípulos de Cristo, de acordo com o Evangelho do dia, a minha pessoa pegava nas imagens do Sal e da Luz, tal como Jesus pegara há muitos anos. Às páginas tantas, entre muitas outras alusões, referi que a luz servia para nós fazermos tudo, pois que sem luz, a apalpar, era mais difícil, e às vezes impossível. Olha o verbo que eu fui utilizar. Apalpar. Umas devotas, que estavam para os lados do coro, deixaram escapar uns sorrisinhos sonoros. Na verdade, até já estamos habituados ou andamos a habituar-nos a um ambiente descontraído ou bem disposto na nossa comunidade. Mas aquela tinha sido demais. Eu tivera um pensamento semelhante na hora em que elaborara a homilia. Talvez o mesmo que estais agora a ter. Deixara-o para trás, porque me parecera inoportuno ou desajustado. Porém, depois das minhas amigas terem deixado escapar os sorrisos, não resisti, fiz uma pausa profunda, respirei com a mesma profundidade, e chamei-as de marotas. Ora o que eu fui fazer. Logo os sorrisos se alastraram pela Igreja toda, e eu próprio caí no mesmo riso desgarrado. Ainda hoje sorrio quando me lembro, e fico a pensar como a marotice entra em todo o lado. Não que isso seja mau ou grave. Eu diria que era desajustado. Mas pelo menos serviu para nos rirmos a bom rir. Espero que o Senhor Deus se tenha rido também. E se não se riu connosco, que se tenha rido de nós

sexta-feira, abril 04, 2014

Os meninos da Primeira Comunhão que não voltaram à missa

Já passou quase um ano desde a última Primeira Comunhão aqui da paróquia. Os meninos que a fizeram estavam no terceiro ano da catequese e passaram para o quarto, ano em que é sugerido que se faça a festa da Palavra. Uma festa que realça não só mais uma etapa de catequese, mas uma integração da Palavra de Deus, isto é, da Sagrada Escritura, na vida destas crianças. Até aqui não há novidade maior. Os pais, na reunião que tive com eles para preparar esta festa e para lhes prestar conhecimentos básicos da Bíblia, saíram contentes da reunião e desejosos que os seus filhos se confessassem. Até aqui tudo bem e não há novidade grande. Assim fizemos no Sábado antes da festa. Os meninos, como manda a regra do entusiasmo, perfilaram para se confessar. Mas qual não é o meu espanto quando descubro que alguns deles, talvez uns quatro ou cinco, não tinham voltado à Eucaristia desde a sua festa da Primeira Comunhão. Dito de outra forma mais óbvia ainda. Desde aquele dia em que comungaram pela primeira vez, não o tinham tornado a fazer. Culpa dos pais. Culpa dos catequistas. Culpa do pároco. Culpa da Igreja. Culpa da vida. Culpa de quem? Não há culpa que resista a um dado adquirido. A festa da Primeira comunhão é muitas vezes a festa da única comunhão. Negue-se o facto e estamos a esconder a cabeça na areia. Não se negue e teremos de repensar a catequese que tem servido, não para alimentar ou amadurecer na fé, mas para cumprir um ritual apenas social e festivo. Soube de colegas que têm obrigado as crianças, através de passaportes carimbados, ou coisas do género, a participar na Eucaristia. Sei de um colega que decidiu não fazer esta festa da Primeira Comunhão no ano passado porque nem as crianças nem seus pais iam à missa. Não sei se resulta ou se resultou. Não sei se deva ou se não. Eu não gosto que a fé seja exigida ou negociada. Assim como não gosto que a comunhão seja proibida. Sei o que não gosto e sei o que gostaria. Mas neste entretanto, não sei o que fazer. Alguém saberá?