quarta-feira, julho 24, 2013

Sem título

Ontem recebi duas cartas registadas, com o peso que têm as cartas registadas. Uma falava das dívidas da paróquia. Outra de uma questão de Segurança Social. Depois de abertas recebi um telefonema da senhora tal que queria uma coisa que não faz parte dos esquemas normativos dos sacramentos. Digamos desta forma discreta o pedido da senhora. A empregada falou do assunto que outra senhora fizera assunto sobre uma tal coisa que enfim, nem valia a pena falar. E ainda tenho de preparar a homilia da missa que vem a seguir. Sobra-me pouco tempo para Deus. Ou para mim. E porque penso que sou capaz, e porque tem de ser, e porque assim seja, e porque não tenho tempo para pensar que Deus é que é capaz, deixo-me arrastar para algo a quem um amigo chamaria de auto-projecção em Deus. Como se fosse eu o Deus que tudo pode. E depois vem em mim uma ansiedade que me impede de ter tempo, outra vez, para Deus. Porque tenho de conseguir. E outra vez porque tenho de ser capaz. E zango-me interiormente com as pessoas, porque elas é que me causam estas dores e estas necessidades de ser capaz, e ainda por cima parece que não me entendem, como se o problema fosse delas. E a partir do momento em que eu penso assim, a verdade é que o problema é meu. Só meu. Como ouvi alguém em tempos. Parece que te estás a levar muito a sério. E depois perdemos a liberdade. Acabamos por fazer aquilo que tem de ser feito apenas porque tem de ser feito e não porque Deus aja em nós ou porque de dentro de nós haja esta vontade de fazer assim. E aquilo que eu achava que era confiança em mim, afinal não é bem confiança. E aquilo que era eu deixar Deus ser em mim, acaba por ser um eu agir em mim. Ou se quiserdes, um deixar de ser Deus em mim, para ser eu como deus em mim. A ver se não me esqueço mais disto.

14 comentários:

Anónimo disse...

Caro Sr. Padre,

entendo-o perfeitamente mas em relação ao fato de ser Mãe (que eu amo de paixão sê-lo) de uma bebé de 2 anos (que eu amo mais que a minha própria vida). É uma falta de tempo para nós, para as tarefas de casa,é um cansaço, um aborrecimento porque as pessoas querem vê-la mas não compreendem que eu trabalho, que tenho a casa por limpar e engomar, quero mimá-la e principalmente preciso também eu de descansar...por isso Sr. Padre, é que chego sempre atrasada à Missa (que eu gosto tanto de ir), e para poder ir à mesma, tenho de me levantar super-cedo, e mais uma vez não descanso, não vou andar a pé, não faço tricô(que eu gosto muito)...não rezo o Terço pois chego à noite sempre cansada...e sem dar por isso, um dos pilares da minha vida, Deus, foi posto de parte. Aquele que me dá um sopro de vida, que me pega ao colo quando estou angustiada, Aquele que eu peço que me ajude e ilumine a minha pequena Família, Esse ficou para 2º plano, apesar de saber que Ele não me pôs para 2º plano...mas sinto que O desiludo, e desiludo-me a mim, pois estou cansada, briguenta e má...como compreendo o Sr. Padre... não ter tempo para se dedicar ao que é importante: Jesus Cristo, a Família e Nós...ânimo.
Beijinho de coração,

JB

(hà muito desaparecia, mas sem nunca deixar de ler o seu blog).

:)

Anónimo disse...

É tão bom ler o que escreve, senhor padre. Para mim, é tão dificil deixar-nos de apenas cumprir a rotina. Vivemos demasiado presos nos vários afazeres do dia a dia, com medo de os perder e esquecemo-nos muitas vezes do essencial. Bem, eu esqueço-me. Doi olhar para dentro e perceber que tenho que limpar o jardim interior. Tenho medo de tirar as ervas daninhas e não encontrar nada que cresca. A vida leva-nos para fora de nós, para arranjar desculpas para não olhar para dentro. O medo do lugar vazio que encontrarei aterroriza.

Ruth Bassi disse...

Caro Padre, não és só tu que vives esses momentos de angústia. Também nós, os leigos, dependendo da actividade que desempenhamos, por vezes, enredamo-nos por tal forma nos problemas que acabamos apelando à nossa autosuficiência para cumprirmos uma missão que, se calhar, já não queremos mas também não podemos abandonar.
E no meio de toda esta azáfama onde fica Deus? Por vezes, creio, bastante esquecido e logo quando estamos precisando tanto da sua ajuda. Mas a natureza humana é assim... dando primazia ao material e deixando o espiritual para depois...e, aí, já estando exaustos, ELE fica no esquecimento.
Deveríamos racionalizar as nossas actividades por forma a sobrar algum tempo para nós e para ELE.
Mas, não seria possível delegares algumas coisas em leigos?
Não queiras tornar-te um empregado da Igreja, mas continuares a ser verdadeiramente um sacerdote.
Um grande abraço
Ruth

Anónimo disse...

Boa tarde!
"E depois vem em mim uma ansiedade que me impede de ter tempo, outra vez, para Deus. Porque tenho de conseguir."
Por vezes deixamos que essa ansiedade / agitação tome conta do nosso interior e isso é meio caminho andado para uma depressão ou mesmo um esgotamento nervoso.
Como se as decisões dos outros passassem pelo nosso crivo.
Não passam pelos nossos crivos nem somos responsáveis por elas.
Não sou responsável se o meu marido bebe até cair, sou responsável pelo que deixei de fazer para o ajudar a perceber que todo o vicio escraviza o homem e leva à destruição.
E se outrora levava trinta minutos para chegar a casa, actualmente tento fazer o trajecto em trinta e dois, aproveito esses minutos para entrar em sintonia comigo... em sintonia com Deus.
Gostei muito desta mensagem.
PR

Anónimo disse...

Bem vindo ao mundo real.
Preocupações com dívidas, atender pedidos estúpidos e cumprir tarefas ingratas, tantas vezes indignas, sempre mostrando boa cara ao patrão é o quotidiano de quase todos nós. E ainda temos de arranjar cara, tempo e vontade para ser leigos numa Igreja que muitas vezes pensa que é beneficiária e não dispensadora.
Tempo para nós? Sim, temos. Quando dormimos. Se não sonharmos, porque se há sonhos, regra geral são sobre as nossas preocupações do dia a dia.
Liberdade perdida? Já a perdemos todos há muito. O estado formou-se para nos comer a carne e a Igreja hipotecou-nos os ossos em acordos e concordatas.
Mas Deus existe. E ao menos essa certeza ninguém no-la tira. É o Pai que nos receberá e onde finalmente descansaremos.

Anónimo disse...

Comigo é assim: No silêncio eu tenho espaço para Deus e espaço para mim - sinto Deus. O espaço para mim é afinal para receber de Deus. Em silêncio recebo mais. Pelo menos tenho essa percepção, talvez errada. Mas quando os acontecimentos não permitiram a minha mente focar-se da mesma maneira em Deus, ouvi-l’O pela falta de tempo, silêncio e meditação percebi que havia ainda uma outra estratégia (não minha, mas d’Ele). Podia agi-l’O. Não sou mais pobre obrigatoriamente na agitação contínua. É aí que pode ser Deus em mim. Agindo nas mais pequenas e simples acções como até abrir duas cartas. Aí Dou mais do que Recebo. O meu prazer é, não o Ele ser em mim Para mim, mas o Ele ser em mim mais Para os outros (há mais despojamento quando não recebo tanto, a aceitação do receber menos aumenta O Amor). Quando eu não O consigo pensar, quando eu não consigo agir Deus, ou Deus não consegue agir em/por mim, é porque corro num piloto automático que já não sou eu. É ele, esse piloto, que me “comanda” e isso despoja-nos de nós mesmos, e parece-me que de Deus, quando Ele está mesclado connosco. Quanto mais corro, mais ele me exige. Mas porque é que entra o automático e põe de lado Deus? A ansiedade? O stress? As exigências? O desvio do foco? Quando eu conto sem querer demasiado comigo, com as minhas capacidades, competências, forças? Como elas têm limites e as exigências não, fica o vazio, a frustração, a irritação. Com Presença, sem Presença, com tempo, sem tempo, a liberdade está na minha disposição contínua voltada para Deus. Se o que tem de ser feito é feito para Deus, e sem a sua Presença, não terá mais valor para Ele do que se é Ele mesmo a fazer? E se fizer o que deve ser feito para Ele, cedendo a minha vontade própria, a que teria direito, não poderá agradar-Lhe mais que fazê-la? Porque nunca existe o apenas quando Deus está connosco. Ou então posso dizer: eu faço isto “apenas” por Ti, mas, Tu És Tudo, logo o Tudo é o “ apenas” que enche cada momento da minha vida.

Anónimo disse...

Não entendi a verdade da afirmação "para ser eu como deus em mim". Mas na pior das hipóteses é mesmo bom que, não se esqueça de tratar disso!!

Anónimo disse...

Sabe eu penso que a maioria das pessoas nao sabem do dia a dia de um padre...e cai entre nos cada padre tem sua rotina...algumas pessoas exageram em seus pedidos, preferem pedir oracao doque rezar...fico muito feliz em ouvir voce sobre isso...que as vezes faz as coisas por que tem que fazer...queria que voces padres fizessem oque tivessem vontade dentro das normas da realidade claro...mas digo assim...dizer nao quando quiserem...e lembra o tal puxao de orelha? Na minha opiniao tem que puxar mesmo! E disse varias vezes isso para meu padre...queria muito saber exatamente oque ele pensa e sente...mas ele nao diz! E horrivel...nunca sei oque realmente pensam! Parece que os padres vivem com medo...sinceramente...eu sinto que o padre da minha paroquia tem medo e vive a fugir de mim...isso me estressa! Eu falo tudo oque penso e sinto...pra que isso?! A verdade pode doer mas ajuda a curar...a mentira pode ser cancerígena e tornar tudo pior.

Confissões a Jesus disse...

É, é mesmo horrível não saber o que o padre pensa e muito mais horrível é não saber o que ele sente! E depois parece que é de propósito é que eles não dizem hum? E quando se procura a verdade e sai da cartola um coelho? Pior mesmo é quando sai um monstrinho... Eu cá não tenho desses problemas, eu seu tudo o que os padres pensam : ) tb sei o que sentem. Anónima, toma isto como uma brincadeira amiga. Já sabes o que penso do outro post.

Anónimo disse...

Olá
Confesso que sempre tive curiosidade em saber, qual é o tão falado chamamento para essa vocação (mas nunca explicado)! Pensei em mil e uma hipóteses, mas não chegava a lugar nenhum (talvez porque nunca a tive, mas mesmo que tivesse nunca poderia ser padre, biologicamente é impossível).
Ao longo da minha formação, tive a oportunidade de frequentar uma instituição Católica, e de estar mais próxima de pessoas que diziam ter essa vocação, ou chamamento, como lhe queiram chamar... Pensei que seria a minha oportunidade para esclarecer a minha dúvida que para mim é pertinente, porque, quando me perguntam porque é que eu escolhi fazer o que faço eu sei responder.. mas nunca obtive uma resposta coerente, ou até vinda do "coração".
E para mim que lido diariamente com padres, eu penso que tudo é encarado como uma profissão como outra qualquer, em que a grande preocupação é de fazer camuflar ou fazer crer que não se praticam outro tipo de práticas que não lhes é permitido. Mas é tudo um engano, enganam os outros e a eles próprios.
Quando fui abordada, para "entrar" nesses enganos, se me permite, fiquei desenganada... caiu por terra tudo o que tinha como certo até então, perdeu-se o respeito. Contudo acredito, que existam padres que realmente possam fazer que que fazem de consciência, mas depois da experiência penso que raros...
E se as pessoas agem em consciência e sabem de ante mão para o que vão, é simples respeita-se, é claro que surgem entraves pelo caminho, mas é assim que sabemos distinguir o correcto do menos correcto. E como poderei eu confessar-me a alguém que eu tenho a certeza que tem as mesmas fraquezas que eu e pelo facto de ser padre não significa que esteja mais próximo de Deus do que eu..

Fique bem

Confessionário disse...

Olá, anónima de 02 Abril, 2014 22:00

Imagino o que sentes e o que pensas. Porém queria dizer-te relativamente à tua última frase, que deverias pensar de forma diferente, pois um padre que tem fraquezas é um ser que entende ou poderá entender melhor as tuas; é um ser que não se colocará de cima a olhar para baixo, mas ao mesmo nível.

Mais, queria dizer-te ainda:
Uma pessoa que fraqueja mas deseja melhorar, está no caminho. Faz parte do caminho cair e ter a coragem de levantar-se.
Além disso, as fraquezas devem ser perdoadas... a incoerência é que não!... ou nem tanto!

Anónimo disse...

Olá mais uma vez...
Falou de incoerência, e é essa que me incomoda, como é possivel alguém, abordar uma mulher e exprimir todo tipo de sentimentos, e minutos depois ir celebrar uma missa como se nada fosse!???
Mas não é o unico... na minha perspectiva era como se eu fosse casada e tivesse uma outra pessoa, o que para mim não é o correcto. quando vou trabalhar eu fico aflita, nunca sei o ke me espera, já dei por mim a pensar, o que teria eu dito ou feito (se é que fui eu) para criar a situação! Não quero com isto passar uma imagem de "santa" porque não o sou..
Mas tenho a consciência de que me conheço muito bem como pessoa, e que sei até onde posso ir. E claro eu também tenho fraquezas, mas tento ultrapassa-las...
Há coisas que nos matam por dentro, e nos fazem pensar qual o sentido disto tudo...

Beijito

Confessionário disse...

Não dês demasiada importância a isso. Cada um presta contas a Deus das suas coisas! Tu só prestas contas a Deus das tuas...

bj

Anónimo disse...

Talvez esteja certo, e a soluçao passe mesmo por não dar importancia ao assunto...

Obrigada, fique bem... :D

MC