segunda-feira, julho 15, 2013

As missas ou missinhas

Um colega ligou. Estava aflito. Ia ter um funeral e já tinha missas marcadas. Não tinha como fazer tudo. E era mais uma missa. Perguntei-lhe porque não pensava na hipótese de fazer uma celebração sem missa. E ele respondeu que demorava o mesmo tempo. E já tinha arranjado um colega mais livre. Também mais velho. Também mais reformado. E assim sossegava. Na altura não pensei muito no assunto. Desligámos o telefone e eu desliguei o assunto. Mas agora, noite dentro, ocorreu-me que nós, padres se calhar, andamos a banalizar a missa. Corremos a celebrar missas como quem vai e toma um café para se recompor ou angariar mais cafeína. Quantas missas, afinal, somos capazes de celebrar por dia ou por semana ou no tempo? Celebrar missas será a nossa missão? Depois de corrermos de um lado para o outro a celebrar missas para uma meia dúzia de pessoas, ou como alguém lhe chamava em tempos de missinhas, não estaremos a banalizar a missa?

23 comentários:

Danilo Badaró disse...

Olá. Divulguei essa sua postagem no Guia de Blogs Católicos. Lá tem um pequeno resumo e um link para sua postagem. Veja se está recebendo visitantes novos. Sempre que quiser divulgar uma postagem interessante, passa lá no Guia. Sua postagem está em http://blogscatolicos.blogspot.com.br/2013/07/as-missas-ou-missinhas.html

Filha de Maria disse...

Depende...

Depende como é celebrada e da forma como participam os presentes...

Enfim, depende do coração de cada um, se está aberto á Fé, ou se apenas cumpre o preceito!

JS disse...

Só mesmo um padre para se queixar de missas ou missinhas. Já o povinho vai dando graças a Deus se ainda conseguir ter missa ao domingo. Isto, aqueles que se importam; que mais são os que nem querem saber (a não ser quando lhes morre um familiar ou chega a hora da festa).
Entende-se: um padre questiona-se, se sente que o seu trabalho pastoral está demasiado condicionado ou sobrecarregado pela dimensão cultual. E há realmente o perigo do pasteleiro enjoar dos bolos...
Parecia ter-se encontrado solução com as celebrações na ausência do presbítero. Mas os últimos sínodos impuseram um travão a fundo...
E se os trabalhadores da seara são poucos, também vão rareando os fiéis. Lá tem, então, de vir o Abraão pedir: "Senhor, e se forem só meia dúzia a aparecerem para a missa, vais deixá-los sem eucaristia? E se não houver quem leia as leituras, e tiver de ser o padre a acender as velas e a fechar a porta da capela?...

JS disse...

A grande dor de cabeça com as missinhas é o time-frame que é preciso ter em consideração. Fora das cidades, há um horário apropriado para as missas, que tem de jogar com o ritmo dos idosos e gente do campo (que, por exemplo, não gostam de deslocações depois do escurecer) e a vida da gente que trabalha na indústria ou no comércio. E se é complicado conciliar interesses numa paróquia, a coisa piora quando se trata de várias comunidades.
O resultado costuma ser um horário apertado que implica deslocações apressadas entre igrejas, missas cronometradas, pouco tempo para atender as pessoas e cuidar dos preparativos... O que induz uma boa dose de stress e acaba interferindo no espírito de oração do padre: as missas passam a ser fretes.

JS disse...

Relativamente ao condicionamento da actividade pastoral, o caso mais típico é o da catequese. Normalmente, os horários da catequese jogam com o horário da missa dominical ou vespertina, para evitar repetição de deslocações às crianças e aos pais (e às próprias catequistas). Ora, um padre que tenha de celebrar várias missas encarreiradas ao sábado ou ao domingo dificilmente arranja forma de acompanhar as catequeses de perto, e isso acaba por acarretar um alto preço.

JS disse...

Há ainda a questão de muitos padres não saberem celebrar a missa para si mesmos e, sobretudo, para Deus.
Esse foi um dos azares da reforma do Vaticano II, que veio colocar a tónica na assembleia celebrante. E muito bem. Só que a tentação é grande de o padre se focar demasiado em que a missa é para o povo, e só interessa se houver povo, e só se celebra se houver intenções marcadas pelo povo.
Alguns padres nunca celebraram uma missa sozinhos. E por isso, nunca sentiram na pele (e no espírito) a "desnecessidade" de usar a voz, de fazer saudações e diálogos com a assembleia, de recorrer sistematicamente ao "nós" nas orações.
Entenda-se: a missa não foi inventada para ser oração mental ou individual. Mas faz falta ao padre sentir-se individualmente implicado na celebração. Sim, ele celebra pelos outros, com os outros, para os outros; mas às vezes esquece-se de que celebra também por si e para si. Far-lhe-ia bem poder dizer numa missa: "Senhor, tende piedade de mim"; "Eu Te ofereço o pão da vida e o cálice da salvação", "Meu Pai que estás nos céus"...

JS disse...

Se o padre pudesse experimentar pontualmente celebrar sozinho, isso também o ajudaria a abrir horizontes e a ver para lá da meia dúzia de devotos que bastas vezes tem à sua frente.
Na verdade, sempre que o padre celebra uma missa, celebra em união com todo o universo. Celebra com toda a Igreja, unido a todos os cristãos e não apenas com aqueles que estão ali dentro da igreja; celebra com os anjos e com os santos, como se diz no fim do prefácio; celebra com e em nome de toda a Criação, dando graças ao Criador porque é eterna a Sua bondade.
Olhando a missa assim, será bem mais difícil de a sentir uma banalidade...

JS disse...

Claro que também os outros fiéis teriam bastante a ganhar se pudessem fazer diferentes experiências de celebração. Basta pensar que muita gente nunca teve oportunidade de participar numa missa em volta do altar; ou comungando do cálice; ou...
E até seria relativamente fácil, já que muitas vezes a assembleia é reduzida. Mas as pessoas preferem a segurança do hábito. E também é verdade que as nossas igrejas não são muito funcionais...

Ruth Bassi disse...

Olá Padre,
Depois de alguns dias na Polónia, cuja população é extremamente religiosa, fiquei algo surpreendida com o teu post.Dizes "Celebrar missas será o nossa missão?" e eu acho que não é a vossa missão mas faz parte dela.
Depois de os sacramentos estarem cada vez mais esquecidos e as Missas considerávelmente reduzidas, seria muito mau se ainda o fossem mais.
Porém, também é certo que alguns sacerdotes acabam celebrando um número de Missas que os deixará à beira de uma dessacralização das mesmas. Acho, no entanto, que resulta de alguns sacerdotes terem um sem número de actividades paralelas que os afastam da verdadeira razão do seu ministério, ficando outros com uma sobrecarga enorme de actividade religiosa.
Parece-.me, pois, que se torna necessário um ajustamento na actividade dos presbíteros.
Beijinho
Ruth

Bruno disse...

Tendo em conta que missa quer dizer despedida/envio, até era bom ser banalizada. Tendo em conta que a missa é uma celebração "em memória de Mim" (que de facto acaba por ser a missão dos padres, agir em memória d'Ele) era bom ser banalizada.
O problema é que a banalização da missa leva exatamente ao oposto. Como se diz muito hoje em dia, há cada vez mais cristãos de 4 dias - batismo, 1ª (e última) comunhão, casamento (que muitas vezes não é vivido como matrimónio) e funeral. E em 4 dias de missa por vida (ok, um bocadinho mais tendo em conta a preparação de 3 anos para a 1º comunhão) não é possível vive-la em memória de Cristo, mas sim em "memória" do fotógrafo (tirando no funeral).
O mais irónico é que isso acontece precisamente nos sacramentos, que muitas vezes em vez de sacramentos (tornar sagrado) passaram a "socialmentos" (tornar social).
O problema das missinhas talvez seja antes um problema de se dar mais importância ao "Tomai e comei; Tomai e bebei" do que ao "Fazei isto em memória de Mim". Quase de certeza que todos nós já fomos à missa (em algum momento da nossa vida), apenas para cumprir o preceito; porque precisávamos de falar com Deus por causa de um qualquer problema, mas estávamos tão absorvidos nos nossos pensamentos que nem reparámos que Ele nos respondeu através das leituras ou da homilia; porque nos sentíamos abandonados e precisávamos de disparatar contra Ele; etc.
Por vezes pode parecer que não se justifica celebrar uma missa (por exemplo nos funerais, em que que a celebração não diz nada a muitos dos que lá estão, que nunca vão à missa, ou quando só estão meia dúzia de pessoas), mas Deus está sempre lá e às vezes uma palavra completamente banal no meio de uma frase insignificante, pode ser a palavra mais importante na vida de alguém. Só Deus sabe porque ela foi dita, no momento em que a pessoa certa estava a ouvi-la e tal como as virgens prudentes tinham azeite por não saberem qual era a hora da chegada do noivo, também um padre não sabe quando é que essa palavra será dita (ou melhor ouvida), daí o melhor ser tentar "negociar" um bom contrato de azeite com Cristo, para a almotolia estar sempre cheia.
Que a Paz de Cristo o acompanhe.

Anónimo disse...

Se Deus está em toda a parte, qual a necessidade que (Ele?) tem de que eu vá à missa?

Bruno disse...

Ao anónimo de 22 Julho, 2013 20:00
Se podemos falar todos os dias com a nossa família e os nossos amigos por telefone, que necessidade temos de os ir visitar de vez em quando?

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Apenas para cumprimentar e concordar com as 3 intervenções do participante JS. Tem toda a razão no que diz

Anónimo disse...

olá anónimo. Ele, Deus, não tem necessidade. Como Pai , Ele deseja que todos nós estejamos juntos dEle.
De forma física, em presença, mesmo quando nos custa, quando não nos apetece, quando temos a cabeça noutro lugar...
mj

Anónimo disse...

Boa tarde!
"...não estaremos a banalizar a missa?"
Parece-me que se correrá esse risco.
Não nos podemos esquecer é que essa situação é quase que imposta pelas pessoas, que preferem reconciliar-se com Deus através destas "missinhas" do que fazê-lo através do agir diário.
É que celebrar a Cristo na vida, no dia a dia, dá muito "trabalho" desinstala-nos, obriga-nos a passar das bonitas palavras à acção sem palavras.
PR

Anónimo disse...


(Desculpem-me o extenso comentário…)
Fiquei na dúvida se tinha entendido bem o seu texto. Nem sabia que era possível fazer um funeral sem missa, veja como sou leiga! No entanto se fosse padre não gostaria de fazer nenhum funeral sem missa por decisão própria!
Parece-me que o Sr. Padre, quis aqui exprimir que a quantidade de missas por vezes não permitem sequer a tranquilidade da interiorização, havendo mesmo o risco da sua banalização, (para quem? Para vós, não para nós). Se o dever de um médico lhe exigir fazer 15 operações por dia (conheço quem as faça, e se queixe claro!) o importante é que ele o faça melhor que pode dentro da exigência do dever, não lhe é pedido que lhe agrade trabalhar em excesso, apenas lhe é solicitado que o faça com toda a sua competência, com toda o seu empenho, com toda a sua dedicação. Mas no sacerdote a situação é ainda muito mais exigente.
Nessa tarefa semelhante a uma maratona de missas, afinal qual é o máximo possível, pergunta-se. Também me perguntei, e se eu estivesse no seu lugar? Uma vez que a missa não é celebrada (particularmente) para o celebrante, este também não deve determinar a sua frequência, e fazendo parte do cumprimento do seu dever, e sendo que é Deus que age, ainda que o padre se sinta despojado das suas capacidades óptimas para a celebrar da forma mais conveniente, é capaz de celebrar a quantidade que o amor aspirar, o sacrifício lhe ditar e a capacidade lhe permitir. Por isso é mais do que uma missa é um dever do sacerdote quando não existem exigências em contrário de superiores.
Quando diz angariar cafeína não sei se se refere a crentes, mas ainda que assim seja, que lhe deve importar? Angariaria alguma coisa por si mesmo? Ou para si… sim, porque a cafeína faz bem a quem a toma. E como não o faz para se recompor a si mesmo, também não lhe importará se recompõe alguém ou se a celebração por ventura fosse totalmente inútil, quanto mais se fosse útil para uma só dessas doze! Além de que veja, se entendi, isso trata-se de um sentimento pessoal e a realização da missa penso que ultrapassa qualquer sentimento do celebrante. Ela parece-me como um input/ output, só que o retorno dos dados (a missa) como resultado de uma operação interna, eles são completamente inafectados, ela sai ilesa, independentemente da sua sensibilidade.
Diz que alguém lhe chamava “missinhas”, só poderia ser de forma inofensiva, mas não o sinto tão inócuo como parece. Digo-o porque soa estranho, uma vez que se adjectiva a acção por tudo menos pelo valor da mesma – Jesus. Ou seja a missa não é nem o tempo que demora, nem quem está presente, nem a disposição do celebrante, nada senão ela mesma, com o mesmo valor, infinito, e sempre O Mesmo. Como pode ser missinha? Espero francamente não estar a dizer verdadeiros disparates, e se assim não for, corro o risco de lhe estar a dizer tudo o que já sabe!

Anónimo disse...


Bruno (21 Julho, 2013 02:02, o teu comentário pareceu-me uma antítese entre o princípio e o fim do mesmo, mas isso não vou comentar gostei imenso duma parte... Fiquei especialmente contente! "Por vezes pode parecer que não se justifica celebrar uma missa (...), mas Deus está sempre lá e às vezes uma palavra completamente banal no meio de uma frase insignificante, pode ser a palavra mais importante na vida de alguém. Só Deus sabe porque ela foi dita, no momento em que a pessoa certa estava a ouvi-la e tal como as virgens prudentes tinham azeite por não saberem qual era a hora da chegada do noivo, também um padre não sabe quando é que essa palavra será dita (ou melhor ouvida), daí o melhor ser tentar "negociar" um bom contrato de azeite com Cristo, para a almotolia estar sempre cheia".

Anónimo disse...

"Celebrar missas será a nossa missão?"
Tá tudo louco!?
A "missão" do padre é fazer o que mais nenhum mortal pode fazer: missas (tornar Jesus presente na hóstia consagrada e oferecer esse sacrifício único) e confessar. Tão só! Tudo o resto o povo pode fazer!
Se se não entende isso... foram muitos anos desperdiçados no seminário... [possivelmente a culpa nem será dos formandos mas dos "formadores"...]
Leio hoje pela primeira vez este blog e fico bem desencantado. Cândido, agradável, suave... mas completamente ao lado... (desculpe a crueza)
-Leio mais um post: "Já há bastante tempo que não me confessava"... fiquei triste, muito triste... e no entanto qual o nome que escolheu para o seu blog?

Sem qualquer paternalismo rezo para que se organize, acredite que o Senhor está consigo e que pode ser um padre Santo. Eu acredito em si! Força, vamos lá todos salvar almas cada um na sua condição.

Confessionário disse...

Caro amigo, a missaõ do padre não é celebrar missas, mas Evangelizar, isto é, levar as pessoas à Fé e ao Encontro com Deus.
Se a sua missão fosse celebrar missa e confessar (que é de facto o que mais ninguém além do sacerdote pode fazer), então eles deviam passar o tempo a fazer isso. Mas não. A sua missão é ainda maior que celebrar missa e confessar.
Convém que organize as suas ideias da Igreja e dos padres. Quem salva é Deus. Nós somos apenas Seus instrumentos. Além disso, os padres são humanos.
Agradeço o desejo de força. Obrigado

Anónimo disse...

"...levar as pessoas à Fé e ao Encontro com Deus. ... "
E se há padres que querem saber é de ir levando as suas "vidinhas", outros há que conduzem as pessoas a Deus entregando-as nas Suas mãos sem lhes imporem o que quer que seja.
Um Obrigada especial e particular a todos estes.

Helen disse...

EU ACHO QUE MISSA NAO TEM TEMPO CERTO...UMA BOA MISSA EH UMA HOMILIA DIRECIONADA A COMUNIDADE...OU SEJA...QUE AS PESSOAS ENTENDAM, QUE SEJA USADA NA HOMILIA EXEMPLOS PRATICOS...E POR QUE NAO UM POUCO DE ESTUDO SOBRE A IGREJA? AFINAL OS PADRES ESTUDAM ANOS E ANOS...E CERTAMENTE MUITAS DAS COISAS QUE APRENDEREM SAO MUITO INTERESSANTES...TEM QUE EXISTIR AMOR! POIS JESUS ESTA PRESTES A SE DOAR!!! SE A MISSA FOR CELEBRADA RAPIDAMENTE OU DEMORADA NAO IMPORTA...O QUE IMPORTA EH SENTIR TODO O PROCESSO E TENTAR PASSAR TODO O AMOR QUE A CELEBRACAO DA SANTA MISSA QUER MOSTRAR...NAO PODE MOS ESQUECER QUE JESUS FEZ ISSO PARA QUE CONTINUEMOS! E ASSIM ELE NAO NOS DEIXA JAMAIS. :D

Confissões a Jesus disse...

Agora tinha vontade de perguntar ao anónimo 27 Agosto, 2013 16:41 com que autoridade diz isso? :) Vai dizer-me que é com a autoridade de anónimo ou com a autoridade de Jesus? Não pude deixar de me rir quando disse: “acredite que o Senhor está consigo e que pode ser um padre Santo. Eu acredito em si! Força…” Você acredita n’ele? Que bom! Deus também acredita n’ele, aliás acreditou antes de si!

Anónimo disse...

Concordo com algumas coisas que JS disse, nomeadamente, “Basta pensar que muita gente nunca teve oportunidade de participar numa missa em volta do altar; ou comungando do cálice; ou...E até seria relativamente fácil, já que muitas vezes a assembleia é reduzida. Mas as pessoas preferem a segurança do hábito”.
Ora aqui está… quando não se “deixa” outras pessoas participar nas missas quer através de leituras etc, convidando sempre os mesmos da comunidade para o fazer, os outros afastam-se.
Por vezes nem é o Padre que chama as pessoas para as leituras e peditórios, é alguém de sua inteira confiança que o faz e a escolha é feita olhando para trás e a ver quem chega, geralmente são os filhos do Senhor Doutor, Engenheiro etc etc. E os outros?!
Quando o Padre escreveu este post, foi um desabafo, porque são humanos e precisam de desabafar.
Concordo consigo Senhor Padre quando diz que “a missão do padre não é celebrar missas, mas Evangelizar, isto é, levar as pessoas à Fé e ao Encontro com Deus”, concordo consigo, e é preciso tempo para o fazer, mas pergunto mesmo que tenham tempo, os outros da comunidade deixam?!
PL