quarta-feira, abril 03, 2013

O leite que seca no cemitério

A barriga da Carla ainda não está proeminente, mas nota-se. A forma da barriga, para o vestido que a dona veste, parece dizer que está lá a pulsar mais alguma vida. Veio falar comigo à saída do carro, apressada, quando me deslocava para celebrar missa numa Capela que está ladeada pelo cemitério. Não nevava, mas fazia frio de neve. Por isso lhe sugeri que entrássemos na Capela para falar. Esta não tem Sacrário nem Santíssimo exposto, e com facilidade lhe fiz a proposta. Mas a Carla não podia. Não podia passar dos umbrais da porta que dão para a capela e para o cemitério. Umas senhoras de xaile na cabeça que ouviam a conversa piscavam os olhares entre elas e acenavam que era melhor não entrar mesmo. Não ouvi nenhum miar, mas achei que ali havia gato. Não seriam remorsos de falar na Capela, pois é habito fazerem-no, até ao exagero, como já assisti. Porque seria então? E no mesmo então fiz a pergunta. Diz-me lá, Carla, o que te impede de entrar. Meio corada, meio a olhar para as senhoras mais idosas, respondeu-me. Dizem que uma grávida não pode entrar no cemitério senão seca-se-lhe o leite. O gato fez-se sapato, e abri a boca num espasmo de admiração. Não conhecia o dito. Não conhecia a lição. Mas aprendi alguma coisa. Que a nossa vida está cheia de ditos que nos afastam ou podem afastar de Deus. Que uma grávida deve ter cuidados não só com a saúde, mas com a fé. A brincar a brincar ocorreu-me que as vaquinhas, coitadas, não podem nunca entrar num cemitério, correndo sérios riscos de deixarem de ser aquilo que são. Claro que ninguém as está a imaginar por lá a dar cabo dos arranjos das campas. Mais me ocorreu que faltava lembrarem-se de que uma grávida não deve entrar no cemitério, pois poderia ser prenúncio ou anúncio de morte ao nascituro. Não comentei nada disso. Seria um despropósito grande, que ainda agora acho que é. Mas a Carla acabou por entrar comigo através dos umbrais da Capela e do cemitério sem a anuência das senhoras de xaile. Fazia frio de neve e não queríamos gelar a conversa. Entrámos e ao que sei, até ao momento, àquela mulher ainda se lhe não secou o leite. Mas nunca se sabe.

10 comentários:

Pramos disse...

Bom dia!
:):):)
"Que a nossa vida está cheia de ditos que nos afastam ou podem afastar de Deus." e dos outros.
A grande lição que tirei desta mensagem, também eu tenho alguns "ditos" ou "preconceitos" que me afastam de Deus, e dos outros impedindo que aconteça a Páscoa em mim.
"Adorei"
Fez-me lembrar um episódio da minha vida menos leve, um pouco mais trágico.
Baptizei o meu filho com cerca de um ano, isto porque a madrinha só podia nessa altura. Fui requisitada para trabalhar, após 4 meses, era um motivo de força maior para a empresa, resultado tive que procurar urgentemente uma senhora que me ficasse com a criança, até aqui tudo normal. Uma das senhoras com quem falei disse-me que não podia cuidar do meu filho porque não estava baptizado. Continuei a procurar.
Um dia toca a campainha era essa senhora, "O sr.Pe. disse-me que não tem mal nenhum cuidar do seu filho... portanto eu gostaria muito de o cuidar" Fiquei agradecida e ao mesmo tempo "espantada". Acabou por cuidar dele até à idade de ir para a pré, e passados quase onze anos sobre o sucedido chama filho ao meu filho, quanto ao meu filho se eu permitisse até dormiria todos os dias em casa dela.
Terminou bem mas poderia nunca ter acontecido devido a ditos e preconceitos.
Impressionante.
Paulina

Anónimo disse...

Não entendi este post confessionário.

Confessionário disse...

acho que nem eu!

Anónimo disse...

Essa tá boa. Ah!Ah!Ah! Mas olha que eu gostei da história das vaquinhas... Na montanha, no meio da neve... só espero que sejam vaquinhas suíças...! Valha-nos a boa disposição e o leite das vacas (que lhes seja barrada a entrada no cemitério), pois não quero perder nenhuma barrinha do bom chocolate Milk! És um castiço!

Filha de Maria disse...

Esta não conhecia eu. Aliás, creio que nunca ouvi nenhuma superstição, com a igreja e de tudo o que lhe está implícito.

Anónimo disse...

Há muitas histórias destas. Algumas bem mais sofisticadas ditas por gente com formação mas igualmente irónicas. Cansa.

Religião à mistura com superstição...

Anónimo disse...

A vida das gerações mais simples e antigas está cheia de ditos que as podem afastar de Deus e que, muito provavelmente, morrerão com elas... No entanto, a fé, mesmo torcida, estava lá... A vida das gerações mais instruídas e recentes está cheia de factos científicos que as podem afastar de Deus... Factos que não se rebatem, porque demonstráveis... Deus terá futuro? Ou, melhor, terá futuro a fé em Deus?

Anónimo disse...

As vaquinhas são sagradas para alguns povos, portanto podemos juntar o sagrado à superstição em muitas culturas religiosas e sociais.
Os milagres e os santos da Igreja também são superstição para muitos que se dizem católicos e cristãos, por isso...

Ruth Bassi disse...

Pois é, Padre, as superstições têm atravessado gerações e, muitas delas, têm permanecido. É utópico acreditar nelas mas, muitas vezes, até os mais incrédulos, receando a existência de alguma veracidade, não arriscam desprezar tão
"acautelados" avisos. E, se acaso surge uma coincidência, isso vai reforçar a tão "indesejada"
credulidade.
Abraço
Ruth

Anónimo disse...

Esta até teve piada. No sublimar é que está o ganho.