sábado, junho 11, 2011

Estou contente pelo José

Sentei-me aqui à beirinha da janela. A cadeira está ali disposta para que me sente à beirinha da janela, para que me perca no horizonte que a janela abre ou fecha. Coloquei uma perna em cima da outra. Cruzadas, mas não em forma de cruz. Como se uma precisasse descansar e a outra não tivesse outro remédio senão aguentar-lhe o peso. Olhei lá para fora, para a montanha, e pensei que hoje me sentia como as pernas. Por um lado a precisar de descanso. Por outro a precisar de aguentar. Ainda não tinham passado cinco minutos, ainda não me tinha perdido completamente no horizonte, quando o telefone tocou. Dei um salto, sobressaltado. Não há horas para o telefone. Nem para mim. Era o José que se vai ordenar padre em breve. Uma questão de semanas. O entusiasmo percebia-se nas palavras escolhidas, no tom da voz, na cadência da entoação. Deixei-me embalar pela conversa. Mas também deixei escapar uma ou duas expressões que manifestaram a minha alegria pelo entusiasmo do José. Depois, e como que a brincar, para ele não pensar que era a sério, saiu-me algo como Não sei como ainda há jovens que se entusiasmam desta forma. Ele sorriu. Ou sabia ou disfarçou que achava piada. Compus o ramalhete insistindo que estava a brincar com ele. E comigo. Já lá vão alguns anos. Os suficientes para não me lembrar como estava entusiasmado. Como estava ansioso. Como abria as mãos para experimentar abençoar. Para lembrar como tudo era colorido. Como as pessoas batiam nas costas de contentes. E como agora falam nas costas. E como agora nos carregam as costas. E como a vida hoje nos parece ter perdido alguma cor. O José perguntou se afinal ia à missa nova dele, que é assim que chamamos a primeira missa solene de um novo sacerdote. E eu respondi que não tinha tempo. Que não tinha tempo para partilhar a alegria dele. Para fazer minha a alegria dele. Desligámos e voltei à beirinha da janela. Olhei para a montanha e pensei. Estou contente pelo José, mas tenho de descansar esta perna.

11 comentários:

Filha de Maria disse...

Pois descanse-a bem... pois precisa dela para continuar a caminhar, para ir á frente como quem puxa os outros para Deus!

A Paz de Cristo

concha disse...

Mas que desânimo vai por aí!
A montanha que se avista da janela,deveria ser um convite a subir,mesmo que isso nem sempre seja fácil.É que bem lá de cima a vista é sempre espectacular e interpela.
O José terá de certeza ficado triste,pois eu no lugar dele também ficaria.
Já fui a duas ou três missas novas e de todas elas guardo, o que é a entrega,a alegria e o entusiasmo de quem ultrpassou dúvidas,medos e talvez a oposição dos mais próximos, deixando tudo o que supostamente é agradável, pela incerteza que representa essa missão nos dias de hoje.
Coragem!Porque olhando à volta,podemos sempre ver quem s epoderia queixar mais e não o faz.
Um ahraço na Paz

Maria disse...

Boa tarde senhor padre,
O seu post fez-me lembrar o casamento, é tudo tão bonito tão "florido" nas nossas mentes, e depois os anos passam, vêm os filhos, os netos e esquecemo-nos como foi tão lindo no pricípio, tão entusiasmante. Ficamos contentes pelos outros aqueles que cheios de entusiasmo se encontram em iguais circunstâncias, pelas quais já passámos e que docemente recordamos. Como a vida nos ensinou que afinal as rosas tão lindas e perfumadas, também têm espinhos. E apetece-nos descansar, não uma, mas as duas pernas...
Beijinho
Maria

Maria disse...

PS. continuação do coment anterior,
fiquei contente por saber que o Senhor vai enviar mais um trabalhador para a Sua messe. Que a graça de Deus o fortaleça e que a sua vocação não se afunde na sociedade turbulenta dos nossos tempos.
Maria

Anónimo disse...

Olá conf.

Ás vezes temos de dizer não a muitas coisas para conseguir-mos ter força para continuarmos com os nossos afazeres.
Imagino que o josé seja um pupilo teu.
Mesmo que ele fique triste com a tua resposta, sei que tem consciência do peso que as tuas costas carregam.
Tambem imagino que sejas daqueles que está presente do seu caminhar diario.
Nem sempre o importante é estar nos principais momentos, muitas vezes as alegrias e as tristesas do dia a dia são mais gratificantes.
Se conseguires estar na sua ordenação...seria bom.Se não conseguires vais-lhe dar aquele abraço, aquele abraço que recebeste quando foste ordenado.

Um abracito!

Alexandra

Confessionário disse...

À Ordenação vou. Tenho de ir. E tenho muita pena de não poder ir à sua missa. Mas de facto tenho coisas marcadas (podem ser menos importantes; mas fazem parte do meu ministério paroquial!)...

Anónimo disse...

ola sr.padre adorei a sua historia e desde ja lhe digo que isso e natural , todos nos nos sentimos assim e tem dias que a rotina se instala e e o cabo dos trabalhos , mas a ordenaçao de um sacerdote e das coisas mais bonitas que se pode ver por todo o simbolismo que inplica eu ja vi 4 de pessoas que conheço , mas para mim a cerimonia que me toca mais e a da ordenaçao de diaconos de trasiçao , nao me pergunte porque , mas a missa nova tambem e lidissima , mas eu quando um grande amigo foi ordenado , fui a ultma pessoa a dar-lhe os parabens porque ele para mim continua a ser o mesmo , nao me fui mostrar os outros que lhe falaram muito bem , nesse dia e depois nunca mais lhe dirigiram a palavra , eu sou e serei sempre amiga dele .

Anónimo disse...

Está paradito isto, Confessionário!

Number Ten disse...

Ora viva!!
Bem, tabém me parece tudo muito desanimado! Não há dúvida que as responsabilidaees acabam connosco, mas that's life! Digo eu, que me queixo montes de vezes, mas hoje e agora, neste preciso momento, a mensagem é para ser positiva.Como diz o P. Tolentino Mendonça num texto que escreveu recentemente, citando um diálogo do romance de Salinger, “Uma agulha no palheiro”:«Conta-me a história da tua vida fantástica, Ackley - disse eu.- E se apagasses a luz? Tenho de me levantar cedo.» Continua o P.Tolentino :«Calha-me pensar muitas vezes naquela pergunta acerca da nossa vida fantástica, até por que estamos normalmente muito pouco disponíveis para falar disso. Preferimos viver de luz apagada. Tornou-se uma espécie de desporto nacional a lamuria, a propósito de tudo e de nada. Na hora de relatar a vida, o que vem à tona são mais as dificuldades, os medos avulsos, para não dizer os ressentimentos. Mais do que a gratidão pela vida vamos mantendo um irremediável conflito de interesses que nos faz achar que nunca é suficiente o que temos ou o que nos acontece. E neste desencontro interior perdemos a capacidade de contemplar e acolher o milagre que constantemente nos rodeia. Talvez precisemos de uma cura de simplicidade, que nos reoriente para o essencial: a hospitalidade e a comunicação do dom.» Ora, Querido Confessionário, a ajuda que deu ao José já foi enorme, com toda a certeza. E os seus afazeres paroquiais são responsabilidades que se vão igualmente cruzar no percurso do «novo» José.Já tinha saudades de passar por aqui e de o ler.Fique bem e continue a manter esse dom de saber transmitir a vida.
Um abraço
Mafalda

IF disse...

Olá Confessionário,

Ali em cima alguém falou no paralelo das vidas dos sacerdotes e dos casais. E é bem verdade que os sonhos iniciais, as desilusões, as canseiras são parecidas!
Mas o meu Marido e eu costumamos dizer, aos noivos que preparamos, que a vida real é muito mais rica do que a vida que idealizamos. Muito mais cheia e verdadeira. Com o que ela tem de bom e de menos bom, porque é essa que nos é oferecida todos os dias.
Nos momentos mais difíceis (ou de maior deserto) ajuda-me ler a vida de algum santo (contemporâneo, daqueles que viveram as dificuldades e exigências do nosso tempo). A santidade dos outros puxa-me para cima; eleva-me até onde eles me mostram que é possível dar um sentido à falta de sentido do dia-a-dia.
Ânimo e cabeça fresca!

D. R. disse...

Oh... :( Pena que não possa ir. Tenho a certeza que o José adoraria que fosse. Nunca imaginarei o que é ser ordenado sacerdote, o que é abençoar, o que é ser a pessoa mais próxima no momento da consagração... Deve ser maravilhoso....

É bom saber que ainda há jovens que se entusiasmam como o José. Também eu me entusiasmo. Da minha forma, claro.

Mas far-lhe-á bem, sr. padre, recordar muitas vezes os seus "inícios", os primeiros passos como sacerdote... O que pensou, o que sentiu, o quanto se sentia "privilegiado" por ser escolhido para essa missão e o quanto se sentia feliz por poder cumpri-la. Acima de tudo, tentar retomar alguma dessa alegria e entusiasmo. Nunca esqueça: Deus merece tudo de si.

Beijinho.