quarta-feira, junho 08, 2011

Só me apetece olhar para lado nenhum

Só me apetece olhar para lado nenhum. Ainda há pouco, conversando com uma amiga, que é mãe, me dizia que tinha receio de ter mais filhos porque esta sociedade é tão ruim que tem medo de não a conseguir proteger. Ou de não ter como a ajudar a crescer. A ser gente. Hoje ser gente não é o mesmo que existir! E depois falava que a filha mais velha tinha sido abordada por colegas para experimentar o pó. A garota ainda é nova e deve ter pensado que o pó era o que os armários por limpar acumulam. Sabe, padre, os garotos não são como no nosso tempo. Tratam a vida como se ela lhes devesse algum favor. Concordei. Passam a vida à espera que a vida lhes seja doada e não conquistada. Por isso quando ela não lhes dá nada, acham que nada vale a pena viver. São as frustrações de quem não sabe valorizar cada segundo de vida que acontece. As frustrações de quem só valoriza aquilo que se sente. Por isso tanto sobem uma montanha como descem à cova mais profunda e escura. Não sabem o que é procurar, o que é descobrir, o que é caminhar para uma meta, o que é sonhar. Não se comprometem senão consigo mesmo. Eu diria que nem consigo se comprometem. Fazem-no apenas com uma parte de si, os seus sentimentos. Por isso a vida é light. Por isso a fé também tem de ser light. Por isso a fé não é procurada. Deus não é tido senão quando se possa sentir. Não querem nada que tenha de ser procurado. Não querem Deus se este não for uma resposta imediata. Resoluta. Clara. Certa. Não querem nada que seja duradouro ou que demore. Uma missa. Uma prece. Um matrimónio cristão. Só se for sentido, e enquanto for sentido. E aquela fé, que se trata no coração, deixa de poder ser verdade porque o coração só quer sentir e não quer dar nada de si. Não quer dar nada a sentir. Triste e sentida geração a nossa. Dizem por aí entendidos que esta é a geração rasca. Outros que é “à rasca”. Não sei se alguém já pensou nela em termos de fé. Eu queria pensá-la nesses termos. Usar este papel e estas palavras nesse sentido. Mas também só me apetece senti-la. Esta geração faz-me sentir que precisa de um sentido. E é por isso que só me apetece olhar para lado nenhum.

13 comentários:

JS disse...

Ó Confessionário, agora é que estragaste tudo.

A esta hora, o Papa já deve ter cancelado a JMJ.

E os espanhois, que estavam tão esperançados em pôr a malta a comer salada de pepinos, para despachar o stock...

Peregrina Repetente disse...

Boa Noite Padre!
Tocou-me muito o seu post, se calhar pelo que lhe vou "confessar" de seguida:
Tomei a liberdade de convidar um colega seu, para fazer uma palestra acerca de Deus, Biblia, Amor.. na minha paróquia.
Depois de muita insistencia minha lá consegui que o meu pároco concordasse. Ora por azar o dito palestrante teve um pequeno problema de saúde e comunicou-me que não poderia vir.
Qual o meu espanto, quando assim que ligo para a paróquia a avisar do cancelamento da palestra, o Sr. Prior me responde:
" Não faz mal, também não ia aparecer ninguém"
Por acaso este Sr. Padre até se enganou, felizmente, pois há muitas pssoas interessadas, mas eu pergunto:
Estará este Padre a fazer a sua pastoral de evangelização da melhor maneira? quererá ele ter a sua igreja cheia de ar?
Também eu depois desta resposta só me apetecia olhar para lado nenhum.
Desculpe Confessionário o meu desabafo.
Ah é verdade já agora, o dito palestrante vem mesmo cá á paróquia falar, contra tudo e contra alguém.

Confessionário disse...

Ó JS, daquilo que sei dos ventos de Espanha, eles nem com pepinada cancelavam a JMJ...

Como sabes, Espanha está a tornar-se cada vez mais laica. Eles precisam de jovens na rua que se manifestem, nem que seja com pepinos, para mostrar que vale a pena ter fé.
Mira que me estas dando ca unas ideas!

Confessionário disse...

Ó pregrina, só li teu coment depois de ter escrito o outro, e não queria, com a brincadeira, estragar a seriedade do que contaste. Desculpa.

Mas... já agora... que me lembrei, e para aliviar... e que tal uma pepinada tb ao teu padre?! heheheh é só para nos fazer rir

Peregrina Repetente disse...

OH Confessionário!
De pepinos nao gosto..mas venham pipinos,alfaceas, tomatos o que quiserem mas façam a JMJ, com salada, cru, cozido, assado, como e quando quiserem.
Quanto ao meu pároco, eu mandva-o fazer uma peregrinação a pé até Jerusalém, aí de certeza que iria perceber se valia a pena....ehehhe
Descompremiu, SIM. Obrigada
Um abraço

Filha de Maria disse...

Também não gosto de pepino! Estou safa, ufa!

Fora a brincadeira... do que li, li muito do que vejo e não gosto do que vejo...

Boas saladas e sem pepino.

P.S.: Oh peregrina... então mandava o pobre homem a pé até Jerusalém? Dê-lhe um Jumentinho ao menos...

Susana disse...

Caros Amigos,
Reparei nos comentários do post anterior que acham que o interesse dos posts é medido pelo número de comentários.
Pois tenho a dizer que frequento o Confessionário frequentemente, e nunca deixei comentários, e sim, acho os posts muito interessantes !!
Aprendo, fico com coisas para pensar e até já me reaproximei do confessionário aqui da paróquia...
Obrigada por tudo, sr Padre !
Lembre-se sempre que tem muitas visitas que entram e saem sem deixar rasto, mas levam muito para casa !!

Anónimo disse...

Esta geração "light" é a mesma que no nosso país vive à espera que sejam os outros a resolver os problemas.

Em Portugal precisamos de arregaçar as mangas todos!

Apetece emigrar...

Idalina disse...

Os nossos miúdos hoje, são o reflexo da sociedade em que nos transformámos. Hoje vive-se a correr e para o "sentir". Tudo é efémero, tudo tem que ter respostas imediatas, seja de que maneira for ou parte-se para "outra". Assistimos de todos os lados à "desrresponsalibização" generalizada.
"Sabe, padre, os garotos não são como no nosso tempo. Tratam a vida como se ela lhes devesse algum favor. Concordei. Passam a vida à espera que a vida lhes seja doada e não conquistada" - aqui acho que a culpa é nossa, da minha geração (já por cá ando há alguns anos) que foi protegendo e dando tudo de mão beijada sem que eles tivessem de dar nada em troca, habituámo-los a não terem de lutar pelas coisas, inventámos a palavra "trauma" e abolimos tudo o que podia causar esse grave problema e agora eles sabem que não precisam de estudar muito porque não chumbam, sabem que podem fazer mal à vontade até aos 16 anos, que os pais e educadores os não podem punir (e não estou a falar de punições físicas), sabem que tem direito a tudo sem terem o dever de nada.
Mas isto não é geral: "Não sabem o que é procurar, o que é descobrir, o que é caminhar para uma meta, o que é sonhar. Não se comprometem senão consigo mesmo. Eu diria que nem consigo se comprometem" - Eu trabalho com crianças e jovens na paróquia e sei que se lhes dermos motivação eles não são assim. Tenho criado situações que me têm provado que o que lhes falta é mesmo a motivação e quando existe eles trabalham com vontade e ficam felizes quando atingem os objectivos.
O problema é que lhes foram cortados os objectivos. Não creio que sejam uma geração "rasca" nem à rasca" são uma geração a quem tiraram o "porque lutar" e o "poque acreditar". E penso que se fomos nós os mais velhos que lhes tirámos isso, devemos ser também nós a tentar repor, enquanto ainda temos tempo.

Anónimo disse...

Olá, como mãe de dois dessa geração Light (um rapaz de 19 e uma menina de 16) sei realemtne wquie isso é verdade. Tem tudo muito fácil e não querem se dar ao trabalho de lutar por nada... se fica um pouco mais dificil desistem e ainda nos culpam, como se o unico motivo da nossa exist~encia fossa satisfazer as necessidades e desejos deles. Nãoquerem ir a Igreja, nem passam perto, não se importam com nada, vivem enrolando, por mais que se fale, se chama a atenção... nada importa, só o agora, o imediato... é uma pena!
Teresa

Anónimo disse...

Olá,
Apetece-me olhar só para Ele.
Não o faço mas apetece-me.
Muitas vezes apetece-me esquecer que é nas pessoas que Ele Vive, e foi por elas que Ele morreu.
O ser humano consegue ser tão cruel apenas por prazer.
Tenho um filho com 8 anos que vai fazer a primeira comunhão dia 23 de junho.
Tenho constatado que num universo de 29 crianças, os dedos de uma mão chegam para contar os que têm consciência plena do sacramento que vão receber.
Falta-lhes a motivação e sobra-lhes a vergonha para falar aprofundar o real significado do acto.
Pude comprová-lo na passada terça feira.
Se lhes faltam objectivos não consigo perceber, pois os objectivos não se dão não se tiram nem se recebem, os objectivos são como as metas, em que cada uma/um, meta/objectivo é apenas mais um ponto de partida.
São pessoais intransmissiveis.
O meu universo de acção é tão abrangente como o meio em que estou inserida, tem crianças que andam descalças, umas por gosto outras por imposição, tem idosos, tem jovens, tem adultos...uns com objectivos e outras com falta deles, apontamos-lhes os diversos percursos, jamais os percorremos por eles, estamos com eles, junto deles, olhamos em conjunto na mesma direcção, não lhes emprestamos os nossos olhos...
É também juntos que olhamos a Jesus Cristo O aprendiz, O pregador, O crucificado e por fim a Jesus Cristo O Recuscitado.
Estamos à distância muitas vezes de um sorriso apenas.
E muitas vezes não o querem ver.
Riem-se dele.
Somos anónimos mas estamos lá, quando a comunidade precisa.
Ajudamos, ensina-mos mas não substituimos ninguém na sua relação com Deus.
Acreditamos que a Vida é um compromisso que se faz a "solo", um
contrato que se celebra entre cada um em particular e Deus.
Os mais velhos não tiraram nada a ninguém, quando muito deixámos de dar o exemplo.

Deixámos de dar o testemunho em silêncio... passámos a dar demasiado ênfase às palavras... no fundo deixámos de "dar o exemplo".

Este post tocou-me pelo facto de ser mãe e partilhar das preocupações da sua amiga.
Pergunto-me muitas vezes se teria o direito de ter trazido a este mundo um filho que não pediu para nascer, mas que no entanto é muitas vezes a força e a razão do meu viver.
Desculpe, mas estou com alguma dificuldade em organizar os meus sentimentos.

Maria disse...

Boa noite Senhor Padre,
Assim é de facto. Perdeu-se muito o sentido do espiritual. Só o material conta, por isso alguns jovens se consideram uma geração "à rasca", porque se preocupam demasiado com os valores materiais que de certo modo também lhe foram incutidos pelas famílias disfuncionais em que muitos vivem, ou por este mundo que os rodeia demasiado materialista e que parece ter posto Deus de parte.
Maria

Eu* disse...

Este texto explica o facto de eu ter medo da sociedade onde vivo...parece que tudo mudou...quando eu tinha 10 anos era tudo tão difernte...afinal o que se anda a passar????com 25 tornei me assim...reservada com tudo....de pé atras com todos! Onde está o coração dos mais novos????onde se enfiaram os valores???? :(