quarta-feira, setembro 27, 2006

É um pai que ama como o Pai ama

Cheguei na hora de jantar. O convite era para comer em família. A porta foi aberta de soslaio. O acolhimento vinha da cozinha muito ruidoso. Não era hábito. Pelo menos o acolhimento assim. O pai, sentado. O filho mais velho em pé. Eram dois, como a história do Filho Pródigo”. Lembrei por causa da discussão e não pelo número. Quero dinheiro para este fim-de-semana. O pai calava-se. Os seus olhos vieram na minha direcção e pediram desculpa. O filho nem olhou. Retorquia. Mas ao mano dás o que ele pede. Gostei da expressão carinhosa de mano, mas não do significado escondido da observação. O referido mano está fora, na Universidade. Tem problemas cardíacos. Mesmo assim os pais concordaram na oportunidade. Ligavam-lhe várias vezes e não desistiam de enviar tudo o que era necessário. O mais velho gastava muito dinheiro nos copos. O pai já mo contara. Por isso era desigual a distribuição dos euros. Não és bom pai, não és justo, terminou o filho, e bateu a porta. Segui-o, discretamente. Entrara no quarto. Queres ouvir-me, perguntei. Padre, não me apetece. O meu pai é injusto para comigo, e se considerar o que faz ao meu irmão... Não frequenta a missa e naquele momento não lhe interessavam valores bíblicos, evangélicos ou morais. Tapara o rosto, a cabeça, tudo, com as mãos e os ombros. Eu sabia que se fechara fisicamente às minhas palavras. Mas também imaginava que, lá no fundo, as iria ouvir. Falei sozinho, mas em voz alta. O bom pai é aquele que trata cada filho como cada um precisa e não quer dizer que tenha de ser de forma igual. A justiça que nós conhecemos pode ser muitas vezes injusta. Achas que se deve dar uma licenciatura a quem estuda como a quem não estuda? Ou a mesma quantia de pão a quem tem muita fome como a quem tem pouca? Ou dar um “benuron” tanto a um doente como a um que está bem de saúde? Dei mais alguns exemplos, penso que sem maçar. Um pai que ama verdadeiramente os seus filhos, ama-os com toda a intensidade, ama-os o mais que pode, mas cada um de sua maneira. Não ama mais uns que outros. Ama-os de maneiras diferentes, consoante o que cada um precisa de si. A verdadeira justiça não é tratar todos por igual, mas dar a todos e cada um o que cada um precisa. Saí, encostando a porta devagar. Sentei-me à mesa com o pai, e antes de abençoar a refeição, disse-lhe: O senhor é um pai que ama como o pai que é Deus ama.

sábado, setembro 23, 2006

O amor é a melhor cabeceira para resolver os problemas

A cara dele não me era estranha. Mas parecia. A cor do sorriso habitual dera lugar ao estranho mundo amarelecido de uma foto. Tinha sido escolhido, sabe-se lá como ou porquê, ou por quem, ou se tinha escolhido o seu coração. Não perguntem. Estas coisas não se explicam. Era um verdadeiro pai, apesar de adoptivo. Sei-o. E levava Jesus a sério, o que o abonava em grande favor, para se dedicar com verdade. O moço tinha sido abandonado ou abandonara-se à vida pelos pais biológicos. Um, porque não dava, e o outro porque sim, porque ele próprio tinha achado melhor. E a única muleta fora o tal substituto. O tal que levava Jesus a sério. Nem vale a pena contar a história porque é muitas e não apenas uma. A asneira tinha sido feita umas semanas antes. O substituto, agora afectivamente verdadeiro, berrara. Esgotara-se a tentar compreender. Soltara o que havia nos olhos para soltar. O jovem, ali, de rosto enrugado, pesado. Eu diria doente, mas não digo. Recordo apenas que combinava com o amarelecido estranho da foto. A escolha era errada. Porém, ele preferia errar mais uma vez. De facto, às vezes não se entendem os jovens. Sabem o caminho da felicidade, mas preferem ser como os outros. E os outros até nem são como eles pensam. Mas é a mania dos outros, a mania desta sociedade que se impõe inconscientemente. Porém, o que conto não tem a ver com este. Tem a ver com o “afectivamente verdadeiro”. Esse que desabafou comigo a confusão. Não posso dizer que fosse confusão espiritual, como ele apresentou. Pois foi dizendo que sabia que não podia fechar a porta. Nem da Casa nem do seu coração. Dois dias a seguir aos berros, haviam conversado novamente, e o “verdadeiro” abria mais uma vez o coração. Como o de Deus. Para ajudar era mais fácil que o moço não fosse abandonado de novo. Sabia que poderia perder. Mas que valia a pena que o moço não perdesse também. Tudo, desta vez, de certeza. Valia a pena mostrar que o amor verdadeiro continua na ausência, na perda, na forma cristã de ser diferente. O moço continua no erro. Mas levou a certeza de que o “seu pai” ia estar com o coração aberto, se ele precisasse. Este pai chorou ao contar-me mais tarde. Tinha a certeza de que valia a pena sofrer. Assim amou Jesus na cruz, dizia. Na confusão interior, nascera a certeza de que o amor é a melhor cabeceira para resolver os problemas. Era assim que Jesus resolvia.

terça-feira, setembro 19, 2006

sondagem_ "Em que deve apostar, hoje, um padre na sua paróquia?"

Passados que vão dois meses da última sondagem, depois do meu descanso, e 459 votos, chegou a hora de avaliar a sondagem que estava no lado direito, no sidebar. A questão era:
Em que deve apostar, hoje, um padre na sua paróquia?

E os resultados são:
1º- Formação_ 22%
2º- Direcção Espiritual_ 19%
3º- Eucaristia_ 18%
4º- Comunhão paroquial_ 11%
5º- Oração_ 10%
6º- Movimentos e grupos_ 6%
7º- Cidadania_ 5%
8º- Catequese inf-adolesc
_ 5%
9º- Caridade Social
_ 3%
10º- Primeiro Anúncio_ 2%
algumas considerações:
1. Não era novidade para mim a necessidade de FORMAÇÃO. De facto há mais de 20 anos que deveria ser uma preocupação de todos os párocos para que hoje os leigos tivessem maior consciência do seu papel e daquilo que constitui a verdadeira fé. Porém, nos tempos que correm e por causa do número de sacerdotes e das suas ocupações, esse papel deveria ser cumprido com a ajuda dos leigos. No entanto, como estes ainda não têm a formação necessária, está aqui “um molho de brocas”. Que fazer? Aproveitar as homilias?! É um bom princípio, desde que o Evangelho seja pregado.
2. De novo uma conclusão que retirámos noutras sondagens. A vossa segunda opção, a DIRECÇÃO ESPIRITUAL, clarifica a importância que cada vez mais os sacerdotes têm em ouvir, ou dito de outra forma: as pessoas têm necessidade de serem ouvidas.
3. A EUCARISTIA é o centro da vida dos cristãos. Se ela não for autêntica ficamos coxos. Mas será que hoje as eucaristias conduzem e alimentam a vida dos cristãos?!
4.
Entendo como COMUNHÃO PAROQUIAL todo o esforço em fazer da comunidade cristã uma comunidade como nos princípios do cristianismo, em que a cabeça é Cristo é o corpo somos nós, uma comunidade de amor. Mas com os conflitos inerentes a uma estrutura organizada, e com uma sociedade cada vez mais individualista, como conseguir que toda a gente se ame?!
5. Engraçado como nem eu saberia em que escala da sondagem colocar a ORAÇÃO. Ela é essencial na vida de cada um e na vida da comunidade, mas sabemos que ficar a olhar para o céu sem os pés assentes na terra não chega para se ser verdadeiro cristão! Encontrar esta escolha no meio da tabela deixa-me descansado.
6. Aqui há uns anos ouvi um sacerdote falar da importância dos MOVIMENTOS numa comunidade porque eles possuem já percursos que ajudam tanto os seus membros como a comunidade. Caminham por si. Porém, às vezes também se fecham em guetos e ficam virados para si, impedindo aquilo que se pretenderia de uma verdadeira comunidade de cristãos.
7.
Fiquei um pouco preocupado pelo facto de se ter deixado para um segundo plano, muito segundo, a CATEQUESE DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA, porque a julgo um pouco o coração da paróquia. Mais me preocupei pelo facto de estar em pé de igualdade com a CIDADANIA, algo que escolheria em último porque vejo esta opção quase como uma questão política, e, apesar de os cristãos terem obrigações de cidadania, julgo que o mais importante é descobrirem a fé e o sentido das suas vidas na paróquia. Encontro uma razão para esta opção da Catequese pelo facto de ela precisar de uma grande renovação, sobretudo em Portugal. Estarão os catecismos a corresponder às necessidades?!
8. A CARIDADE SOCIAL é uma constante em cada paróquia. Já existe em abundância e é verdade que podem haver outras instituições preocupadas com ela. Mas não podemos esquecer a preferência de Jesus pelos pobres e marginalizados. É uma forma de viver o Evangelho na vida.
9. Engraçado como acho que hoje, apesar de não ser o seu papel, as paróquias e os párocos deviam preocupar-se mais com os afastados da Igreja, com o PRIMEIRO ANÚNCIO. A vossa escolha, se calhar, deveu-se ao facto de nem sequer ainda termos os ditos católicos com a formação necessária!
10. Não sei bem que conclusão podemos tirar do facto de esta ter sido a 1ª sondagem do confessionário com resultados mais equilibrados, mas eu vou reflectir e rever, à luz delas, os objectivos pastorais deste ano para as minhas paróquias. Valeu.
Hoje surge nova sondagem. Num início de ano e verificando cada vez mais a necessidade de novas vocações sacerdotais, a pergunta é essa:
Quais as razões que impedem o aumento das vocações sacerdotais?

sábado, julho 29, 2006

...descanso...

Caros amigos e "paroquianos virtuais", vou estar ausente para descanso, para férias. Vou fazer uma paragem (embora pequenita) para refazer forças físicas, mentais e espirituais. Como têm reparado, ultimamente tenho escrito pouco, comentado pouco. É já o espírito das férias e do descanso. Mas nos próximos dias vai ser mesmo mais difícil aparecer por aqui. Desejo a todos umas boas férias, caso seja o caso, ou bom trabalho, caso seja o caso, ou, por outras palavras, tudo de bom para todos. Amo-vos muito.
Um abraço em Cristo...

quinta-feira, julho 20, 2006

Que pode Deus fazer através de mim?

O rosto significava a sua vida. Uma vida cansada, desgasta-da pelo tempo, pelas escolhas. Vou chamar-lhe Manuel, mas o seu nome não é, de todo, este. Escolho-o porque me lembra o Emanuel, o Deus connosco. Participava na Eucaristia, ouvia minha homilia. Eu reparei nele, pois a face distinguia-se do meio da multidão, da comunidade. Cara nova e estranha. No final tivemos uma oportunidade de cruzar os olhos e uma conversa. Ex-toxicodependente, drogas duras, vida de rua, álcool à mistura. Entrara numa casa de recuperação havia quatro anos. Estava bem, ou melhor. Reconhecera a mão de Deus nesta melhoria. Mas, a determinada altura da conversa, perguntava. Que pode Deus fazer através de mim? Quem sou eu para ser útil a Deus? O padre fala na missão que cada um recebe de Deus, mas eu não me acho nada capacitado para o que quer que seja na Igreja, na vida, no mundo?!
A minha resposta estava na ponta da língua. Ainda bem que me dera a oportunidade de lhe dizer o que me estava atravancado na garganta desde que o vira desanimado no meio da assembleia. Já reparou como Deus manifesta, costuma manifestar, ou manifestou o seu poder? Através, quase sempre de fragilidades, derrotas, coisas simples, actos banais. Ele pediu que desse alguns casos. Só falei em quatro. Mas podia lembrar-lhe mais. O nascimento de Jesus, na maior pobreza, a escolha de Maria, mulher a quem ninguém daria importância, os santos, na sua maioria, frágeis, simples, e alguns com passado bem pecador, e por fim a morte de Jesus. A morte que habitualmente consideramos uma derrota, foi a manifestação máxima do seu poder e do Seu amor. Perguntei se chegava. Ele respondeu que bastava. O rosto mudou de figura.
Afinal, disse-me ele, Deus pode fazer muita coisa por meu intermédio!

sexta-feira, julho 07, 2006

sondagem_ "Que virtudes achas que fazem mais falta num sacerdote?"

Passados que vão dois meses, e 251 votos, chegou a hora de avaliar a sondagem que estava no lado direito, no sidebar. A questão era:
Que virtudes achas que fazem mais falta num sacerdote?

E os resultados são:
1º-Amor_ 29%
2º- Disponibilidade_ 26%
3º- Humildade_ 15%
4º- Equilíbrio Afectivo_ 7%
5º- Desprendimento_ 7%
6º-Sabedoria_ 5%
7º- Castidade_ 5%
8º- Obediência_ 2%
9º- Auto-estima_ 2%
10º-Austeridade_ 1%
algumas considerações:
1. O primeiro lugar, indiscutível, vai para aquela resposta que, no passado questionário, se tornara a imagem preferida de Deus, AMOR. Eu concluo, com isso, que se espera do sacerdote uma imagem o mais viva possível de Deus.
2. Em segundo lugar ficou a DISPONIBILIDADE. Infelizmente algo que falta nos dias de hoje ao sacerdote em paradoxo com as pessoas que cada vez mais precisam ser ouvidas, acompanhadas. Isto preocupa-me, porque algo me diz que a pouco e pouco os sacerdotes serão menos, terão menos tempo, e estarão ocupados essencialmente com as funções e não com as pessoas. Que fazer? Mais vocações? Menos funções sagradas? E para que serve a disponibilidade dos sacerdotes? Para os sacramentos nas horas que queremos? Ou para nos escutar e acompanhar sistematicamente?
3. Apesar de ter sido uma opção sem votações regulares e constantes, a não ser nos últimos dias, a HUMILDADE foi a terceira escolha. Agrada-me pensar quão importante é sermos simples como as crianças. Humildade não é deixar que façam de nós o que querem, imagino. Mas é servir e deixar que todos os outros sejam mais importantes. Vou meditar.
4. À quarta opção não sei muito o que dizer: EQUILÍBRIO AFECTIVO. Eu sei que é imprescindível um padre ter o equilíbrio necessário, quer afectivo, quer emocional, quer psicológico, quer espiritual. Mas não imaginei, sinceramente, que esta fosse uma das maiores opções. A meu ver, os responsáveis dos seminários terão de estar mais atentos!
5. DESPRENDIMENTO. Esta sim, seria uma das minhas opções principais, não só porque Cristo ensinou o desprendimento e a atenção ao pobre, como sobretudo porque quem se deixa ofuscar pelo dinheiro ou pelos bens, não tem espaço no seu coração para mais nada. E ainda por cima, corremos muito esse risco, por causa do nosso egocentrismo, sobretudo familiar, isto é, não termos mais com quem partilhar obrigatoriamente.
6. A SABEDORIA e a castidade aparecem logo a seguir, em pé de igualdade. Eu costumo dizer que não se quer um padre doutor, mas um padre pastor. Tudo é necessário, mas um bom pastor sabe o que fazer com as ovelhas, mesmo sem ler os livros.
7. Quanto à CASTIDADE, deixem-me fazer uma revelação que pode ter passado despercebida. De um dia para o outro (como é possível fazer refresh) a votação deixou de ser de 3 pessoas para ser de 23. Hoje é de 24. Quero crer que alguém interessado na castidade dos sacerdotes, insistiu para se fazer notar. Por isso abstenho-me de comentar. Não porque seja apologeta do fim do celibato, mas porque não me parece ser sintoma da generalidade dos “penitentes”. Porém, não deixa de ser interessante como se vota o Equilíbrio Afectivo, uma perspectiva positiva, e não tanto o celibato, uma perspectiva menos positiva.
8. Obediência, auto-estima, austeridade em últimos lugares. Porquê? Será que a hierarquia está em desuso? Já não se querem padres frios, distantes, austeros? O padre tem de gostar primeiro dos outros e depois de si mesmo?
9. Valeu a sondagem. Vou pensar muito! Se vou!
Hoje surge nova sondagem. Num final de ano e a pensar já nos objectivos do próximo ano pastoral.
A pergunta é essa:
Em que deve apostar um padre, hoje, na sua paróquia?

segunda-feira, junho 26, 2006

Levar com alegria o sofrimento?

Foi um dos meus Ministros Extraordinários que me abordou. Um doente amigo chegara do Hospital, mas não queria comungar sem antes eu passar por lá para lhe dar uma forcinha. Foi mais ou menos assim que falou.
Encontrei-o sentado. Olhos vidrados, no espaço, na dor, na vida. Amarelos, como o resto da face. Pijama vestido. Sofrimento vestido. A olhar para mim com uma alegria estranha, no mínimo, porque o sorriso era distante. No meio da conversa difícil pelos monossílabos constantes, a dor estava sempre presente. Não aguento. Bem peço a Deus, mas não aguento. Que hei-de fazer? Diga-me, padre. Eu respondi, primeiro em silêncio. Depois com coragem. Que hei-de eu dizer? Que se pode dizer? Não tenho muitas palavras. O que pudesse dizer não lhe retiraria as dores. Mas de uma coisa estou convencido, disse. Tudo na vida se leva melhor com alegria. Será mais fácil levar o sofrimento com alegria. Pesa menos. A alegria retira uns quilos de falta de força. Eu costumo dizer que devemos procurar a felicidade com o que temos. A felicidade que se procura com o que queremos ter é mais difícil alcançar. Se Jesus nos quer ver felizes e nos permite sofrer, é porque no meio do sofrimento também podemos ser felizes. Imagino que seja difícil. Mas penso que é possível. Vai tentar? Vou, respondeu, passado um tempinho de reflexão. Ficou melhor? Fiquei. Mais rápido respondeu.
No final, ficou a brincar com um coração de borracha que alguém lhe tinha oferecido.

quinta-feira, junho 22, 2006

Chama-se Jesus

Eu, dum lado da estrada, à saída de casa. Eles, do outro lado. Mando um Boa tarde e um aceno. De lá respondem quase mecanicamente igual. O Diogo corria de um para o outro lado. Não da estrada, mas do espaço possível que a mãe lhe concedia a medo. Quatro anitos, se não me engano. Meto-me com ele. Insisto. Nada, que a correria era mais interessante. Já se sabe como são as mães, e esta pergunta. Sabes quem é que está além? Sabes quem te está a falar? Resposta pronta e certeira: Jesus. Depois continua a brincadeira como se fosse o mais natural fazer aquela afirmação. A mãe insiste. Não vês que é o senhor padre. Não. É o Jesus. Parecia aquela passagem de Jesus com Pedro, e sempre a mesma resposta. A mãe desistiu. E enquanto isto se dá, nuns segundos que me pareceram dias, a minha boca permaneceu bem aberta e a mão a tapá-la. Quase ia chorando emocionado quando entrei no carro. É claro que eu sei o que dizem os pais quando levam os filhos à missa: Vamos ao Jesus. E a pessoa que ele encontra sou eu. Mas não resisto a pensar alto o que pensei na altura. De facto, quando procuramos a todo o custo descobrir o modelo de padre para os nossos tempos, uma criança ensina que deve ser Jesus, e que deve descobrir-se na Eucaristia. Ela vê no padre, durante a Eucaristia, o próprio Jesus. Pode não ter sido o seu raciocínio. Nem sei se foi raciocínio. Mas foi o meu. E naquele dia dormi bem.

quarta-feira, junho 14, 2006

Uma benção especial de alianças

Óculos fundo de garrafa. Cabelos desgrenhados. Pode parecer que já estou a induzir numa imagem. Mas foi-me trazida desta forma ao fundo do adro. Simplicidade ou desalinho. Também não interessa propriamente porque todos são filhos de Deus e eu vejo-os como tal. Estava a sair do carro. Meio fora meio dentro. Uma mão a segurar a porta. Outra, a segurar-me a mim. Senhor padre. Nem me deixava sair do carro. Desliguei o som do cd para ouvir melhor. Levantei-me. Ficámos separados pela porta. Olhe, sabe, a minha filha... aquela... vai para fora do país. O senhor já sabe. Ela casou pelo civil. Ainda temos de baptizar a menina. Eu recordo o caso vagamente. Casar à pressa. Afirmei que sim, que a baptizávamos. Mas que poderíamos falar primeiro sobre o casamento religioso, por exemplo. Não que eu quisesse obrigar a decisões mais precipitadas ainda. Mas podíamos conversar. Até porque querer um sacramento e não querer outro parece um contra-senso. É contra-senso. E estava a explicar-lhe isto, questionando-a porque não tinha vindo a própria, a filha, quando explicou. Sabe, padre, não queria que ela fosse para o estrangeiro sem benzer as alianças. Eu abri bem os olhos. Desenhei algumas rugas na testa. E perguntei: Como?! E porque não casar? Ela não quer, pelo menos para já. E acrescentou, na sua inocência, que era mesmo só benzê-las. Não era preciso nenhuma cerimónia. Que em qualquer altura eles apareciam para eu o fazer. Ela até se dispunha a trazer as alianças. Eu afirmei. Se é contra-senso querer um sacramento e não querer outro, não lhe parece mais contra-senso pedir uma bênção e não querer o sacramento que abençoa as alianças?! Ahh, mas não pode fazer esse favor, padre? Fechei a porta e comecei a andar, respondendo-lhe como quem não tem tempo para mais perda de tempo: vamos primeiro falar sobre o casamento. Fale com ela sobre isso. A bênção fácil não resolve nada. Nem superstições. Ela pense no que quer de Deus. Depois falamos. E ainda não falámos. Quando me ajoelhei na Igreja, rezei por ela, por eles, os três. Os quatro. Ainda me veio à ideia uma questão económica. Não sei. Podia ser. Mas ainda não falámos.

quinta-feira, junho 08, 2006

Dois funerais, uma história

Nos funerais há sempre histórias. Não sei bem porquê, mas há. Imagino que seja porque nessas horas as máscaras caem. Ficam as rugas, os sinais, as marcas, a verdade, visíveis. As pessoas próximas do falecido ou falecida ficam sem defesas. Os sentimentos apagam as defesas. Por isso sofremos muito quando sentimos, seja o que for. Porque caem as defesas. Foi assim. Funeral às 10.00 horas. Marcado quase na véspera da véspera, por causa dos filhos. Certo. Nada difícil. Segundo funeral. Mesma paróquia. Todos entendem. Já sabem que são dois em um. A paróquia toda entende. Menos a senhora do segundo defunto. Ela é que manda. Mas e se o padre tem missas a essa hora? Pergunta o cangalheiro. Ele vem para aqui mandar?! O padre pensa que manda, mas não manda. O homem é meu. Eu supus que ela devia estar descontrolada. Apesar do marido estar doente faz muito, estar a sofrer muito, não estava convencida desta hora final. Eu sei o que afirmo porque o visitei uma semana antes deste acontecimento. Quis crer que era uma questão de aproveitar todo o tempo que podia para estar mais tempo com o seu cadáver. Digo-o, porque a hora escolhida era desora. 19.00horas. Mas e o outro defunto? Pergunta o cangalheiro. Não obteve resposta. Naquele momento só interessa ela, a sua forma egoísta de amar, de sentir. Inconsciente, mas prejudicial. Lembro que telefonem aos filhos para a fazerem chegar à razão. Boa ideia, respondem-me. Pior. Parceria com a mãe, e até oferecem dinheiro. Pagam o que for preciso. Indigno-me. Pergunto-me se querem mesmo um padre no funeral! Mais tarde soube que a resposta a esta minha pergunta no silêncio tinha sido dada pela senhora. Se não for com este padre, até vai sem padre. Pior foi o que me contaram que a mãe da senhora, a sogra do defunto, gritara para quem quis ouvir na sala onde jazia o morto. Para a nossa terra só vem a pior merda. Digo a palavra porque não é minha nem a uso como minha. O cangalheiro sofria. Os meus nervos subiam. Não pretendia fazer sofrer mais os familiares do outro funeral. Que esses ainda não tinham perdido a cabeça. Decisão final. Dois funerais. O primeiro, à hora marcada, que não têm culpa de nada. Missa. O Segundo, às 19.00 horas, sem missa nem distribuição de Sagrada Comunhão. Não é permitido haver duas missas na mesma paróquia sem motivo de força maior. Esta era menor. Não é permitido distribuir a Comunhão fora da eucaristia depois de ter havido uma na paróquia. Ao fim e ao cabo, quem fez o segundo foi um colega amigo depois de ouvir o meu desabafo. Obrigado a este.
Hoje, olho a dita senhora e surgem-me dois pensamentos. Primeiro. Pena, porque, até pela fidelidade à Igreja demonstrada noutras ocasiões, argumento que ela se passou da cabeça. Digo fidelidade em vez de fé, pois tenho medo de a utilizar indevidamente. Segundo. Retracção, porque estou a tentar perdoar e ainda não consegui.