terça-feira, fevereiro 04, 2025

Vive num lar

Tem oitenta e dois anos, quatro filhos, onze netos, três bisnetos e um quarto de 3 x 3 num lar onde o deixaram. Já não tem a sua casa nem as suas coisas, mas tem alguém que lhe arruma o quarto, faz a sua comida e a sua cama, mede-lhe a tensão. Alguns dos familiares vão visitá-lo a cada quinze dias. Outros, a cada três ou quatro meses. Outros nunca. Já não sabe onde fica o fogão da casa e como se faz comida. Ainda tem o passatempo do sudoku que permanece em cima da mesa do lar. Não sabe quanto tempo lhe resta, mas sabe que se tem de habituar a essa solidão, ou melhor, a essa companhia que parece solidão. Anda na terapia ocupacional, faz exercícios aos ombros como nunca fizera. Mexe os dedos das mãos como se tocasse piano. Ajuda alguns companheiros, mas tem medo de criar laços porque desparecem com frequência. Dizem que a vida está cada vez mais longa. Aumenta também o tempo para olhar as fotos da família. Essa que o deixou ali porque não tinha onde o deixar.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ligou-me do lar"

3 comentários:

Anónimo disse...

Não pertence à lei da vida os filhos cuidarem dos pais.

Anónimo disse...

“Bem-aventurado aquele que não perdeu a esperança” (cf. Sir 14, 2)

Ailime disse...

Boa tarde Senhor Padre,
Infelizmente essa é a realidade de tantos, que tanto deram e hoje veem-se abandonados num lar. Com 82 anos ainda há muitas pessoas nas suas casas e a fazerem uma vida quase normal.
Uma pena e imensa tristeza que se tratem assim os pais, avós, que tanto deram aos seus familiares e agora acabam por estar desamparados, por falta de amor.
Emília