quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Não há engano que pague a nossa generosidade

A senhora entrou pela porta da sacristia adentro com uma criança pela mão. As crianças dão credibilidade às conversas. Precisava falar consigo em particular. Não a conhecia. Mas também não conheço a maior parte dos meus paroquianos. Aconteceu-me um desaire. Disse. Somos lá de cima do Norte, embora não tivesse especificado o norte exacto. Em tempos o meu marido tirou muitas fotografias aqui. Viemos de passeio. Aconteceu que ao colocar nosso cartão multibanco na máquina, ela ficou com ele. Não temos dinheiro para o gasóleo. Podia emprestar-nos, pelo menos, cinquenta euros? Tenho aqui os meus documentos que posso mostrar-lhe. Não mostrou. Sou professora. Não mostrou. Apontou a morada da paróquia para me reembolsar. À pressa. Meti a mão ao bolso. Todo o dinheiro que tinha eram quarenta e cinco euros. É o que tenho. Não fiquei nem com cinco euros para o café. Desde o princípio me pareceu uma história estranha. A máquina comer o cartão? Uma família moderna ter um só cartão? Os padres são potencialmente alvos fáceis. A pressa de ir para outro lado não me dava tempo para pensar. As crianças dão credibilidade aos pedidos. Não eram propriamente necessários cinquenta euros para o depósito chegar ao norte. Mas o dinheiro que tinha no bolso foi-se todo. Mal virei costas disse convicto para mim mesmo que tinha sido enganado. Mas também se não fui, a situação era por demais constrangedora para ambos. Eu costumo dizer aos pedintes que tenho muita gente para ajudar e ajudo. Desta vez desculpei-me dizendo que era mais importante a minha generosidade que o suposto engano da senhora. Não há engano que pague a nossa generosidade. A ver vamos.

28 comentários:

Porthos disse...

Meu caro:

Vais ver que te vão chegar os €45 inteirinhos.

Eu faria o mesmo, mas como é que nos ficamos a sentir quando não entramos nas alegadas mentiras e não fazemos o que nos pedem? É, de facto, uma situação muito constrangedora.

Abraço

Maria de Fátima disse...

Também fico na dúvida. Precisava de ver " a cena " para aferir dessa credibilidade.
Fico à espera que nos conte o resultado.

Enfermeira Técnica disse...

Ô padre! Que bom que o senhor existe. Que bom que encontrei o seu blog. É por isso que acredito que na vida nada é por acaso. Tudo é providencia divina. O senhor me faz rir. Faz-me chorar. Fico a sentir a minha pessoa em algumas de suas histórias (como esta).
Um super abraço e que Deus o abençoe.

Peregrino disse...

Ao ler-te agora Irmão Padre o meu coração estremeceu…!

Encontrei-o numa rua da baixa de Coimbra, e no meio dos abraços e de um prato quente lá fui entrando no seu coração! A companheira partiu no dorso de uma overdose e ele numa aflição porque não conseguia o que faltava para pagar medicamentos que precisa para a saúde destroçada pelas drogas! Fui com ele à farmácia, (aprendi quando servi os mais pobres as rasteiras e trapalhadas de corações magoados com a vida (a sra “professora” é uma conhecida daqueles tempos, viaja por todo o lado…risos, calhou-te a ti agora)… se for medicamentos vou eu comprá-los.. quando foi a altura de pagar fiquei aflito, porque também o sustento diário chega do fruto de almas irmãs que conhecem os meus passos com Deus… até que normalize a vida aqui!

Mas lá paguei, tremendo confesso, sabia que ao fazê-lo ficava…! Dias depois fui para as urgências de um hospital.. encontrei ali uma enfermeira amiga de longa data, conheceu-me no ano que regressei da abadia… falamos e partilhei com ela estes últimos tempos de caminho numa paróquia como irmão! Ao deixar-me, colocou no bolso do meu casaco algo, mas como estava atordoado com as “drogas” que me injetaram, e o casaco estava numa cadeira distante não percebi o que era!

Depois, ao sair com alta trazia uma receita também e não eram nada baratos os medicamentos e eu não podia mesmo acredita..! Sabes, Padre, no bolso do meu casaco estava uma quantia… sobrou ainda para 3 cafés depois... risos! Agora a tua partilha! Nunca deixes de fazer o que o teu coração pede, ainda que depois possas ficar… ai… bom… melhor acabar aqui…. Abraço fraterno e bom caminho de Quaresma.

Rosa disse...

À muitos anos dirigiram-se a mim e pediram-me para trocar 100escudos na altura,(trabalhava numa caixa à pouco tempo)troquei,passado 5m vem para trás...olhe deu-me menos 10escudos,dei-lhos...concluindo faltou o dinheiro.
À muita maneira de enganar subtilmente

Maria disse...

Meu bom amigo, a generosidade, tem o seu retorno. Espero que não tenha sido enganado, mas se foi, a sua generosidade será recompensada,
quando menos esperar. Confie e aguarde, melhor do que eu o senhor sabe que Ele não falha.
Beijinho
Maria

Patrício disse...

Essa família deve ser muito viajada. Viajada e azarada, passaram na Maceira à umas semanas e aconteceu-lhes o mesmo.

Confessionário disse...

A sério, Patrício?

Cantinho dos Templários disse...

Caro amigo. Julgo que a generosidade não invalida que haja bom senso. Ajudar sim mas a quem realmente precisa, de preferência através de instituições credíveis e com provas dadas
Caíste no conto do vigário!
Abraço.
F.F.

Maria de Fátima disse...

Pronto, Sr. Padre. Aí tem a sua resposta.
Pecar não pecou ... Mas será que foi insensato ?...

Maria Zete disse...

Pois é Padre, acontece.Ainda outro dia passei por situação semelhante. Uma senhora pediu-me ajuda para uma passagem. Dei-lhe a passagem inteira. Ao virar uma esquina deparei-me com a mesma a pedir passagem a outra pessoa. Deus tudo vê, foi o que pensei na hora.Abraços em Cristo.

Moçambicano disse...

Olá, Caro Amigo P.e "Confessionário".
Olá a Tod@s que por aqui passam.

Ao contar-nos esta peripécia, o P.e "Confessionário" também nos alertou para esta "Sr.a Professora" - que como diz o Amigo "Patrício" é muito viajada e muito azarada. Fiquemos atentos...

Mas que a "prudência" não endureça o nosso coração, ao ponto de algum dia Alguém verdadeiramente necessitado nos bater à porta e nós negarmos-lhe a ajuda necessária.

Concordo que - até com a verdadeira Máfia de "Pedintes de Entrada de Igreja" que por aí anda (são explorados por autênticos "chulos")-, o melhor é a ajuda ser efectuada através de Instituições.

Mas, Amigo P.e "Confessionário", na minha opinião, como dizem os brasileiros, "valeu", o seu ímpeto de generosidade - mesmo que tenha sido enganado. Também Cristo sabia o que O esperava, quando se dirigiu para Jerusalém, mas seguiu em frente...

Um forte abraço.

Moçambicano

Moçambicano disse...

PS: Uma Boa Quaresma para Tod@s, com Muita Luz Pascal!

Um forte abraço para Tod@s quantos visitam este "cantinho"...

Moçambicano

no caminho disse...

in dubium...

Joana disse...

Na vida damos ou doamos por 3 razões:
1ª- porque simplesmente queremos dar;
2ª- porque queremos parecer bons aos olhos dos outros;
3ª- porque esperamos receber algo em troca.
Para mim o generoso dá, porque simplesmente quer dar e ajudar.
Se foi um gesto de generosidade como diz ter sido, então não espere retorno, nem nada em troca.

Devia era ter dito à srª. logo na altura, que sabia que estava a ser enganado, mas mesmo assim lhe dava o dinheiro.
Desta forma ela ficaria a saber que não era um alvo fácil, mas sim alguém generoso que sabia o que estava a fazer.
Espero que receba o seu dinheiro de volta, pois nesta vida ainda existem pessoas de palavra, mas se não receber, lembre-se de que foi um gesto generoso.
bjs Joana :)

HD disse...

"Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas. "
Mt 10 , 16

HDias

Filha de Maria disse...

E qual seria a outra solução, se não tivesse ajudado?

Patrício disse...

É verdade Confessionário, parece que é uma história batida...
Quanto aos outros... de facto é um tema complicado.
Há alturas em que de facto é nítido que estamos a ser enganados, outras vezes a dúvida é enorme...
Se damos, temos medo de estar a ser enganados descaradamente e a estragar algo que poderia ser bem aproveitado.
Se não damos fica o coração apertado porque afinal, Jesus dava de certeza.
No outro dia era um jovem com uma conta da luz para pagar. Queria apenas emprestado, levou para a luz e para o gás. Que pagava quando recebesse a reforma. Afinal a reforma não veio no dia 10, só no 17 sr. Padre...
E afinal venho a saber que uma semana depois a mesma factura foi apresentada a uma outra senhora. (com demasiada insistência para a idade que ela tem).
E depois, há algo que me deixa sempre desconcertado, parece que só há paróquia quando se precisa de algo. Porque nunca ninguém os vê participar...
Mas lá vamos dando e fazendo o melhor que se pode...

Anónimo disse...

Ser generoso não significa que apreciemos ser tratados como tolos. E nem que em nome dessa generosidade, não tenhamos o direito e satisfação de ouvir um 'muito obrigado'. É questão de educação da parte de quem recebe. Por muitas vezes, ajudamos de coração, um padre amigo, ninguém sabia que o ajudávamos (quantias altas, mas graças a Deus, nunca nos fez falta)... JAMAIS recebemos dele sequer um único 'obrigado' ou então 'rezarei por vocês', nem um único gesto de agradecimento. Chegou uma hora em que cansamos de fazer papel de idiotas. Nos serviu de lição. Hoje em dia, não damos mais nada para ninguém. Ser cristão é ser bom...e não ser bôbo.

Anónimo disse...

A propósito, partilho aqui umas linhas, algo descontextualizadas, de um dos blogs mais estimulantes da nossa praça.

"O Estado Providência - essa instituição protestante destinada a substituir a obra assistencial da Igreja - falhou porque os padres foram substituídos por políticos e burocratas, e os mendigos por cidadãos.

"Ninguém sabe dar como um padre, porque ele passa a vida a dar. Ele é o especialista da dádiva. E ninguém sabe pedir como um mendigo, que é um expert a pedir. Ele não faz outra coisa na vida. Só um padre sabe a quem dar, em que circunstâncias dar, e como dar, porque é a ele que todos os necessitados em última instância recorrem. Só ele sabe distinguir um verdadeiro mendigo de um falso mendigo. A própria Igreja tem ordens mendicantes e conhece muito bem o know-how da mendicidade, e as artimanhas do mendigo. Dificilmente um padre é enganado, especialmente se fôr franciscano ou dominicano.

"Pelo contrário, o político e o burocrata que substituiram o padre católico no Estado Providência, geralmente nunca deram nada a ninguém, e não conhecem as manhas do mendigo. São facilmente enganados. Não sabem distinguir o verdadeiro do falso mendigo. (...)

"Nas condições actuais, em que nós, os portugueses, não conseguimos pagar o nosso Estado-Providência, o mendigo está aí também para nos lembrar, em carne viva, o cânone das necessidades humanas que devem ser atendidas pelos outros, e os excessos e os abusos que nos últimos anos cometemos em nome da caridade."

Maria disse...

Ai! Se Jesus raciocinasse como o anónimo das 14:33-de 28-2

Peregrino disse...

Também ao “Anónimo das 14:33 de 28-2…Se aqueles que tanto serviram sem nada esperar a não ser o bem dos que batiam à porta pedir “alimento” sobretudo para a suas almas, contabilizassem nalgum banco celestial o bem ofertado, certamente que já teriam o céu ganho pelo saldo ali acumulado!

Mas também esses vão recebendo daqueles que serviram e também de alguns dos que com eles fizeram caminho, a ingratidão e o esquecimento mais rápido que meteoritos da estupefação que já não surpreendem em nada corações desprendidos das efemeridades deste mundo! Não fossem as almas abertas a dar-se totalmente sem nada esperar e muitos filhos do Pai, e muitos dos que já se deram e dão ainda do pouco que possuem, nem sequer teriam um pedaço de pão na mesa quanto mais uma palavra de gratidão!

Caro Anónimo, a ingratidão infelizmente é um prato que se serve de ambos lados da mesa por esses imensos campos da partilha da Fé e não só… Pobre coração que se cansa um dia da bondade…! Deus na sua infinita misericórdia irá continuar a dar-lhe, Anónimo, sempre, acredite, jamais lhe pedirá contas sobre alguma coisa, a não ser a eterna pergunta: “o que fizeste do teu irmão”…!

Santa Quaresma para o vosso lar...

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Padre,

Uma entrevista muito esclarecedora e que gostei de ouvir.

Cito : "A Igreja establece que o Sacerdote vista de uma maneira que se possa distinguir. O Sacerdote 100% em todos os momentos da sua vida"

http://www.youtube.com/watch?v=wICzPsRs2so&feature=player_embedded#!

Confessionário disse...

ja passaram quase 3 semanas e ainda não veio nada!!! só me rio

Patrício disse...

o empréstimo também não... podemos fazer um clube!

Joana disse...

Oh pe. mas ri-se porque pensa "eu já sabia", ou ri-se com vontade de chorar? Ou melhor ainda, ri-se porque foi generoso?

Eu cá não sorrio, é mais um exemplo de uma xica-experta, neste caso(utilizando crianças como escudo certeiro).

Que exemplo para uma criança e pensar que há tantas mulheres que não podem ter filhos, mulheres que seriam educadoras e mães extremosas.

Vá-se lá entender os designios de Deus... deixe, continue a sorrir, sempre é melhor que chorar. Lol

bjs Joana :)

Anónimo disse...

Aqui na paróquia temos muitas histórias com romenas, pedem à porta da igreja embora contra a vontade do prior. No outro dia diziam: Precisava muito de comer alguém foi com ela ao supermercado. Queria uma galinha, não era um galo, e depois levou uma galinha do campo que segundo conta quem pagou 15 euros nem ela a come! Nos cafés é igual... e eu só me rio. Porque eu quando dou, dou porque quero dar sem ser enganada. Mas anda aí muita gentinha que depois de dar não tem o gosto de se sentir generoso, mas parvo! A minha mãe levou roupas para dar às mesmas, outro dia. Abriu o porta bagagens já com dois sacos nas mãos pediam a mala e o lenço, o macaco o colete reflector, Nos semáforos já me pediram o cd que estava a ouvir no rádio! ahaa ... acho que já ninguém pode ver é pobre... No outro dia vi um velho e pobre, a bater numa outra que usa sentar-se num local público estratégico, deu-lhe pontapés e deitou-lhe água na cabeça em cima do lenço que lhe tapa a cara. Ela resistiu a levantar-se porque afinal não tremia nem parecia ter-lhe dado nenhum ataque, não lhe dêem gritava ele, ela tem uma grande conta no banco. A mulher fingiu arrastar-se e foi-se chamando-lhe todos os nomes, eu só confirmei as minhas suspeitas. Um padre meu amigo contou-me outro dia indignado que deu a uma preta dinheiro e que ela o usou para extensões do cabelo!!! o engraçado foi a cara com que ele me contou o episódio. Então, cada um gere da forma que mais necessita o dinheiro! :)

Anónimo disse...

Somos muito injustos! Quem pede é porque precisa. Mas há alguém que peça sem precisar? Podem é precisar para droga, para álcool, para vender na feira... mas precisam. É uma necessidade, nós não temos essa necessidade, felizmente!