sexta-feira, fevereiro 17, 2012

A minha Maria

Andava quase duas horas para chegar à missa. As pernas não ajudavam, mas a vontade conseguia. A minha Maria ia sempre que podia à missa. Muitas vezes esperava-me ao fundo do adro só para me dar um beijinho. Outras vezes esperava-me com um saco na mão. Um bolo. Um requeijão. Uma garrafa das caras. Um queijo. Pois gostava muito do senhor padre. Subíamos a ladeira do adro mão na mão ou mão no braço. Colocava-se sempre na ponta do banco da frente virada para a coxia, à espera que olhasse para ela. Que passasse perto e lhe tocasse a face. Que lhe enviasse do altar um sorriso. Que ao comungar nos olhássemos, cúmplices. Muitas vezes eu comentava com os mais próximos que parecia que ia à missa em busca de encontrar o padre a sorrir ou a dar-lhe atenção. Muitas vezes a ia levar a casa para encurtar a distância, o tempo e as dores nas pernas. Abria-lhe a porta do carro. Quase pegava nela. Ela fazia questão que lhe abrisse a porta de casa com a sua chave. Que entrasse. No dia em que informei que, consoante vontade do senhor bispo, teria de ir para outra paróquia, ela encheu a sacristia de lágrimas. Recordo como se fosse hoje que repetia, e repetia, agarrada a mim. Eu morro. Eu beijava-lhe a fronte. Chorava também. Tiveram de quase a arrastar para sair. Começou a faltar à missa. Um dia perguntei se ela andaria doente e contaram-me que um filho, em tom de brincadeira, dissera que estava doente por causa do padre. O padre que lhe dava um pouco do seu tempo e da sua atenção, muito embora a custo, mas com muita vontade de amar a minha Mariazinha. Já tinha perguntado ao telefone por ela. Haviam-me dito que já ia à missa e que o novo padre também a levava a casa. A minha Maria, que tinha mais de oitenta anos, faleceu hoje, passados uns quatro meses desde que a deixei de ver. Desde que nos deixámos de ver. Desde aquele dia na sacristia. Ligou-me gente da terra. Ligou-me uma filha. Disse-me que a sua mãe gostava que eu lhe fizesse o funeral. Estarei ocupado. Ocupado a pensar que não quero tão cedo incomodar o novo padre com as minhas vontades ou as vontades daqueles que gostariam que eu voltasse por lá. Que estranha forma de sentir-me longe. Que estranha forma de dizer adeus à minha Maria. Ainda a estou a ver. E a sentir. Hoje sinto-me mais longe. Hoje a minha missa será por ela e espero assim encurtar-lhe a distância, o tempo e as dores nas pernas.

22 comentários:

Anónimo disse...

Ora bolas... que ía a sair daqui e voltei atrás!

Padre amigo... embora Pai (Padre=Pai), foi filho amigo da "sua" Maria! Não tenha medo de dar a mão, aos seus paroquianos, o ombro se assim o precisarem... nada lhe fará mal, só lhe abrirá mais o coração a DEUS e a eles também! É nisto que eu acredito... talvez se recorde, do que lhe falo!

Sem medo, seja o "estalajadeiro" do Bom Samaritano!

Filha de Maria s/ login

cata disse...

Eu acho que a Maria sabe que fez o que o Bispo o mandou fazer... E agora é um seu anjo da guarda!

Para mim não fica mais fácil com o tempo enfrentar/aceitar as perdas que a vida nos traz...

das leituras de hoje: Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la.

Cata
http://longoriotranquilo.blogspot.com/

anareis disse...

Querida(o) amiga(o). Estou fazendo uma Campanha de doações pra ajudar os jovens rapazes que estão internados no Centro de Recuperação de Dependentes Químicos onde meu filho está interno também.Lá tem jovens que chegam só com a roupa do corpo,abandonados pela família. Eles precisam de tudo:roupas masculinas,calçados,sabonetes,toalhas,pasta de dentes,escovas de dentes,de um freezer, Roupas de cama,alimentos. O centro de recuperação sobrevive de doações,são mais de 300 homens internos.Eles merecem uma chance. Quem puder me ajudar pode doar qualquer quantia no Banco do Brasil agência 1257-2 Conta 32882-0

Anónimo disse...

Padre C

A sua presença na celebração era muito importante. 1-A última vontade das pessoas para mim é sagrada (mesmo que sejam os maiores bandidos)2- Os laços que criou também são sagrados e merecem o maior respeito. 3- A vontade da família em sofrimento deve ser tida em consideração. 4- Os gestos de simpatia do novo pároco são sinais que facilitam a integração e o acolhimnto. Mas muitas vezes nas igrejas age-se de forma muito cruel. Nas aldeias não noto tanto mas nas cidades é muito visível. Os membros do clero são piores que abutres. Vivemos numa sociedade feita de aparências e os disparates são mais que muitos. Abraço fraterno

Porthos disse...

Meu caro:

Vai lá, celebra o funeral e o resto que se dane! Porque nestas alturas, só o sentir é que conta, acho eu.

Puseste-me a lágrima ao canto do olho, seu bandido!!!.

Abraço

Anónimo disse...

O AMOR é a maior força do universo. Agora é a sua Maria que toma conta de si!

Bjinhos

Também me comovi.

Maria disse...

Claro que doí, doí muito, quando se criam laços de amizade, tão pura como essa, o coração sangra Coitada, a solidão também leva à
morte, ainda que estejamos rodeados de pessoas. Que o Senhor a tenha em paz. Para o Senhor Padre, além das suas orações ela ficará portanto no seu coração durante muito tempo.
Abraço
Maria

Anónimo disse...

As crianças e os idosos são os únicos que nos podem dar lições sobre o amor.

Que descanse em Paz e a si que a acompanhou em vida um grande abraço
Rezo por ambos

Joana disse...

Qualquer tipo de perda é difícil de aceitar. O tempo não ajuda a esquecer, mas sim a atenuar o sofrimento, pois nunca se esquece as pessoas importantes e especiais da nossa vida.
Penso que deveria realizar o funeral da sua Maria, era a última vontade dela e penso que se explicada a situação ao seu colega, ele entenderia como ser humano de boa vontade que deve ser.

Sinto muito a sua perda!
Mas neste momento tenho quase certeza absoluta que a Maria estará num lugar muito melhor que o nosso, sem sofrimento e em alegria plena na presença do Senhor,eu sei que sim e você também.

Vá e faça a Maria e a família feliz por uns breves instantes, breves mas significativos e importantes instantes.
Bjs Joana :)

peregrino disse...

Um abraço forte irmão Padre... esse é o caminho que te é dado percorrer, e a todos aqueles e aquelas que escondidos ou menos escondidos vão "gastando" a sua vida com os outros... tocaste-me também, foi a melhor leitura do evangelho hoje que é vivo, a tua caminhada com a Maria...

Rosa disse...

Não é fácil comentar,mas penso que O Sr.Padre lhe devia fazer o funeral,é sinal que um Padre não passa em vão na vida dos paroquianos, existe laços de afectividade que nos vão ligando ao longo do tempo,são coisas de Deus.

Anónimo disse...

Padre amigo, deixe-me tratá-lo assim, porque já o considero como tal só pela sensibilidade, frontalidade e amizade que demonstra pelos que estão por perto de si. Ora aqui está uma das situações que eu não entendo na igreja, o afastamento dos padres das paroquias onde alguns criam laços de amizade e assim ajudam os paroquianos, evangelizam e tornam-se perto da população, até daqueles que não estão tão perto de Deus, por ordem dos bispos. Então o objectivo da igreja não é ou deveria ser o estar junto do proximo, como Jesus fez? Porquê essa prepotencia dos bispos, quando os sacerdotes estão a fazem um excelente trabalho? Os srs bispos que me perdoem, mas não sejam as "ovelhas ranhosas" da igreja! Deixem os padres com as suas paroquias e os paroquianos com os seus padres vivenciar a vontade de DEUS. Com essas constantes estupidas mudanças fazem com que aconteça o que está á vista de todos. As igrejas estão vazias e os poucos que as ainda frequentam são aqueles idosos que tinham e continuam a ter por hábito ir á missa, em que metade do tempo estão a dormitar e enquanto acordados ouvem o padre falar e não percebem nada. Vale-lhes a doutrina que a sabem de cor, para que haja alguma "especie" de participação na eucaristia. OU A IGREJA É REPENSADA PARA OS DIAS DE HOJE, OU DAQUI A MUITO POUCO TEMPO FECHAM PORTAS. Morrem esses idosos, e celebrar missas para os bancos não me parece atrativo. Vêem o destino das escolas primárias que havia por cidades, vilas e aldeias? Pois ou isto muda, ou as igrejas passam a fazer parte desse patrimonio. Os bispos que se cuidem, vão arranjando já vagas nos lares, porque não vão dispor da vida de mais ninguem. Acabam com a dos sacerdotes e com a evengelização como Jesus queria que acontecesse. Amigo Padre Confessionário, não tenha problemas por dar a mão ou abraço, a quem lhe pede! Seja criança, adulto ou idoso, feminino ou masculino, branco ou negro. Afinal somos ou não todos filhos de Deus ? Dizem-nos uma coisa, tomam atitudes em contrário!...
Obrigada por este espaço, não desiste dele, mesmo em espaço virtual consegue transmitir o que não se encontra pessoalmente

HD disse...

Qual o critério do Evangelho, para não estar no Funeral?
Esse gesto estraga tudo o que descreveu…
Essa mania de algum clero, ser asséptico nas relações e afectos, destrói muito da evangelização.
Não seja funcionário do templo, mas sim pastor!
HDias

Anónimo disse...

É por estas que eu gosto de si.

Bjocas

JS disse...

Penso que alguns dos comentários acima são bastante injustos. Embora os compreenda, pois que a maior parte de nós nem chega a saber o que é isso do bem comum e o que implica pugnar por ele.

Da minha parte, parece-me que o Confessionário tomou a decisão mais acertada. O que não significa que não lhe tenha sido muito difícil, e mesmo dilacerante (como se sente no texto que ele escreveu). E não seria eu a recriminá-lo se a sua decisão fosse diferente.

Quando uma paróquia perde o seu padre, entra em processo de luto. Que é tanto mais doloroso quantos mais foram os anos que ele passou junto da comunidade e quanto mais intensos foram os laços afectivos e de amizade criados. A paróquia tem de fazer todo um caminho de aceitação de que aquele padre já não mais será o seu padre, de que a vida da comunidade tem de continuar e de que há que abrir o coração a um novo pastor, à sua forma de ser e de trabalhar, e criar disponibilidade para o amar.

Ora esse processo pode sofrer um grande retrocesso se o padre que partiu começa a reaparecer na paróquia que deixou há pouco tempo. Na cabeça das pessoas instala-se a ideia, mesmo que inconsciente, de que o padre, afinal, não os deixou; de que, em momentos difíceis ou importantes da paróquia, ele voltará; de que, se alguém lhe pedir, poderá contar com ele para alguma celebração.

E gera-se, assim, uma situação bastante complicada: o coração dos paroquianos fica dividido entre o padre antigo e o padre novo, e facilmente isso descamba para o tomar partido e o aparecimento de divisões dentro da comunidade. O padre novo, por muita amizade que tenha ao colega, sente que este lhe está a dificultar o trabalho, o que pode dar origem a ressentimentos, para com o colega ou para com as pessoas da comunidade que se mantêm apegadas a ele; o padre antigo também não faz o luto apropriado, o que lhe pode dificultar que se entregue de alma e coração à nova comunidade ao seu cuidado; e a outra paróquia, vendo que o pároco é tão solícito para com os antigos paroquianos, rapidamente pode passar da compreensão ao ciúme.

Claro que se poderia dizer que este caso era muito especial: era a "sua Maria", bem merecia que se considerasse uma excepção. E é bem verdade. O problema é o depois: amanhã morre o senhor Manel, que até nem era muito chegado ao padre, mas cuja filha orientou a catequese desde que o senhor padre chegou àquela paróquia; no dia a seguir é aquele par de noivos que até foi o senhor padre que os aproximou e os convenceu a namorar, eles que até eram indiferentes um ao outro; noutro dia é aquela criança que vai ser baptizada e que teve uma gestação dramática e o senhor padre foi quem manteve aos pais sempre viva a esperança de que tudo ia correr bem.

O que é que o Confessionário diria a estes pedidos e situações? Que o caso da senhora Maria foi único e que os outros tenham paciência? Ou vai dizer sim também a estes?
E quando surgirem outros pedidos? Começa a fazer acepção de pessoas? Ou decide ir a todas as solicitações, passando a estar presente em quase todos os casamentos, baptizados e funerais da antiga paróquia? É uma coisa complicada...

Confessionário disse...

Gostei muito do que li, JS. Sossegou-me bastante!

Anónimo disse...

Se o JS o sossegou os outros inquietaram-no. Olhe padre se os amigos que fazemos não estão quando deles precisamos é melhor que não cheguem a existir. Pelo menos não temos nem ilusões nem desilusões.

De padres já tenho a minha dose. Alguns vão fingindo outros nem se dão a esse trabalho. Nem Amor, nem amizade. Muita hipocrisia, invejas e maldicências, qb.

Devia ter ido, sim. Acompanhava. Quantos padres estão no funeral de certas essoas com peso e prestígio na igreja?

Anónimo disse...

O "padre novo" para dar fruto tem de esperar até criar raízes e o "padre velho" é bom sinal que colha os frutos. Que mal há nisto? Há ocasiões na vida das pessoas que são verdadeiramente especiais e por isso não admira que gostemos de as celebrar com quem nos toca cá dentro. Todas as situações que o JS menciona o são. O drama da saída de alguns (poucos) párocos acontece porque está associada a perda quase irreversível. Há ciumezinhos palermas. Fiquei imensamente sensibilizada quando um sacerdote amigo no dia do falecimento do meu pai apareceu para rezar connosco e no dia seguinte concelebrou sem que lhe tivesse pedido nada. Esse gesto nunca, nunca se vai apagar da memória. Infelizmente é um caso muitíssimo raro porque a maioria anda sempre afadigada com imensas coisas.
Diga aos seus paroquianos que o coração dos bons é tão grande que dá para todos!


Abraço

Rosa disse...

Se é Igreja, somos todos irmãos qual é a diferença um Padre antigo ir à Igreja que deixou? Somos humanos e gostamos das pessoas;o Jesus Cristo ama a todos,porque não frequentar a outra Paróquia?Então também não posso frequentar outra Igreja?Amai o próximo...

Confessionário disse...

Só Deus sabe o que pesou e o que pesa. É uma balança difícil...

Recordo aqui há uns tempos o que alguém escreveu num comentário, salvo erro, no post "cinco instante: o Victor" ou noutro semelhante. Apontava-me o dedo achando que o que desabafava aqui neste espaço não ajudava o colega que me substituia. Agora imaginem o resto...

Rosa disse...

Sr. Padre eu compreendo muito melhor do que pensa,porque fiquei sem o o meu Prior de quem tanto gostava (gosto) na mesma altura,e vou assistir muitas vezes à Sua celebração,mas lamento e acho injusto para convosco e para connosco,acredite que se pudesse pôr umas rodas na casa eu a tinha mudado

Anónimo disse...

Que texto tão bonito, mas deixou-me um bocado angustiada padre...