segunda-feira, agosto 01, 2011

É a vida

É a vida. Dizem os transeuntes. Chamo-os transeuntes porque não sei o nome de todos, e estão a passar junto ao caixão. A Maria da Conceição não diz nada. Está no caixão, deitada. Ou o que resta dela. E os transeuntes não se cansam de repetir É a vida. Ou É assim a vida. Fazem-no com um ar dramático. E, sem querer ou sem perceber o real significado da expressão, os transeuntes referem-se à morte como a vida. É a vida. É a vida.
Um dia destes vou fazer uma homilia sobre isto. Mas agora detenho-me apenas a contemplar a situação e a sorrir por dentro. O nosso povo entranhou esta expressão e chama à morte vida. E assim, sem perceber que o está a fazer, afirma uma enorme verdade de fé. É que a morte não é outra coisa senão o acontecimento da Vida em plenitude, a Vida eterna.

25 comentários:

Maria Zete disse...

Interesssante, achei que só no Brasil se usava esse termos "é a vida" em velórios. Sabe que eu em alguns velórios, quando ouvia alguém dizer isso, pensava cá comigo mesma, não é a vida é a morte e me punha sorrir em silêncio, evidentemente quando o falcido ou falecida não tratava-se de alguém muito próximo.Apartir deste texto e de sua reflexão Padre, passarei a ouvir a dita expressão com "outros ouvidos", os ouvidos da Fé. Abraços em Cristo.

Anónimo disse...

Não ficava lá muito bem dizer que era a morte. Ela é plenitude mas ninguém a quer. Há dom da morte?

Anónimo disse...

Será que existe vida antes da morte?

Filha de Maria disse...

É a sabedoria do povo, que nem sempre alcança onde chega...

Excelente reflexão.

Anónimo disse...

Olá confessionario,
Este post deixou-me sem palavras e com lágrimas nos olhos.
Adorei.
Pessoalmente sempre entendi a morte como o desprender total de todas as coisas pertencentes a este mundo tridimensional em que vivemos para essa plenitude da dimensão do espirito onde a Verdadeira vida acontece.
Só uma coisa me custa a entender a doença, mas aquela doença que surge aparentemte do nada, refiro-me particularmente a uma demência vascular?

O doente perde a sua identidade como ser humano.

Como explica a Fé esse tipo de doença?

Obrigada por partilhar connosco os seus pensamentos.

Carla Isabel disse...

gosto tanto de o ler!

Bjs

JS disse...

"Há dom da morte?"

Lembrou-me o "que muero porque no muero" de Teresa de Ávila.
O poema chama-se "Vivo sin vivir en mí".

JS disse...

"Será que existe vida antes da morte?"

O padre Anselmo Borges gosta muito de lançar essa questão, para reflexão e como provocação.

Porque a crença na vida eterna se torna muitas vezes pretexto para desvalorizar a vida "terrena". Quando o decisivo é, de facto, esta vida.

Anónimo disse...

que reflexao tao simples e tao profunda!

Anónimo disse...

e a vida mas e tao triste aceitar a partida de alguem que nos amou ate ao fim e que nunca mais veremos nesta vida terrena , adorei este texto .

Rosa disse...

Texto simples, com um largo conteúdo ,de algo que nós não nos detemos a pensar ,mas é mesmo assim "é a vida" é a vida eterna ,

JS disse...

"Como explica a Fé esse tipo de doença?"

A perda de consciência, de si mesmo e do que o rodeia, é de facto uma morte por antecipação, um morrer estando-se ainda vivo.

Aguardam-se soluções por parte da ciência e da medicina; entretanto, há que enfrentar a realidade da doença tal como se nos apresenta, seja de forma brusca e repentina, seja de forma progressiva mas inexorável.

A identidade pessoal, e a sua humanidade, está indubitavelmente ligada à auto-consciência: a forma como alguém se vê a si próprio, se conhece e se reconhece - este sou eu.
Mas na equação entra também a consciência dos outros: a forma como os outros nos vêem, nos reconhecem.

Um elemento concreto: a questão do nome. Todos temos um nome, um nome próprio. É o meu nome, que me define. Mas o meu nome existe pelos outros. De facto, eu não me chamo; eu sou chamado. O meu nome foi-me dado; não foi por mim escolhido. Mesmo que eu o escolhesse, só valeria se fosse validado por outrem. Às vezes acontece mesmo que me dão um nome diferente do que já tinha, uma alcunha, pela qual passo a ser conhecido e reconhecido mesmo que eu não o queira.

Isto para dizer que a nossa identidade pessoal repousa também na consciência dos outros, na consciência que os outros têm de mim. Basta pensar no recém-nascido, com uma auto-consciência incipiente, mas que é reconhecido pelos outros, o que lhe confere uma identidade e humanidade, mesmo com muito para construir.

Por seu lado, a demência destroi muito da identidade e humanidade pessoais; mas há algo que se preserva e salvaguarda na consciência dos outros. No caso de a situação ser revertível, será precisamente por aí que a identidade será reconstruída: com a pessoa a confrontar-se com aquilo que dela está guardado nas consciências alheias.

Mesmo perante a morte da pessoa, dizemos que ela continua viva, na memória dos que a conheceram, a amaram e vão mantendo aceso esse amor. "Não te esqueceremos" é a promessa mais bela que se pode fazer a um defunto, e que muitas vezes deixamos gravada de forma permanente nas campas. O problema é que também nós desapareceremos...

JS disse...

Ora, pela Fé acreditamos em Alguém que não desaparece. Alguém que já nos conhecia antes de termos nascido, que já nos amava antes de sermos gerados. Alguém que primeiro disse o nosso nome, chamando-nos à vida, à existência.

"Aqui estou, porque me chamaste", dissemos, antes mesmo de saber dizer. E na resposta a esse Outro vamos descobrindo a nossa verdadeira identidade, quem somos e tudo quanto podemos ser. N'Ele aprendemos a conhecermo-nos e a reconhecermo-nos.

E no fim, só Ele poderá voltar a chamar pelo nosso nome. "Luís!", "Ana!", "Miguel!"
E quando o fizer...

nonô disse...

Miuto interessante e real
este belissimo texto
que nos deixa a pensar,
sobretudo, se nós somos desprendidos o suficiente
desta vida terrena ou só pensamos
nesta verdade da nossa fé quando estamos perante estas situaçoes.

obridada por mais esta reflecçao e por tudo o que aprendemos consigo.

bjs.

Confessionário disse...

Ó Nonô, eu tb aprendo tanto convosco!!! Aprendo sobretudo a amar e a Ser...

Simone disse...

"É a vida" é a expressão do conformismo de quem sabe que a vida e a morte andam de mãos dadas. Como pode alguém olhar para um cadáver e pensar na Vida eterna?

Anónimo disse...

Bom dia
J.S.
"...A perda de consciência, de si mesmo e do que o rodeia, é de facto uma morte por antecipação, um morrer estando-se ainda vivo. ..."
É assistir a uma degeneração do ser que amamos... são doentes que sofrem muito, pois no começo do processo desencadeado pelos pequenos AVC's, o doente não compreende muito bem o que aconteceu, e o que lhe está a aconter, são doentes que reagem muito bem ao carinho, a um tom de voz calmo suave.
Depois vem a perda das capacidades motoras o desnorte.
Aqui eu pergunto muitas vezes...
Onde está a mulher que eu tanto amo?
Quando ela adormecer, que parte dela irá ao encontro da plenitude?
Onde está o Espirito neste tipo de doença?
Desculpe J.S. não é um interrogatório, é apenas tentar extravazar uma dôr que dói mesmo muito.
...

JS disse...

Caro anónimo:

Gostaria de lhe manifestar o meu respeito pela dor que o atinge, e que não tenho a presunção de compreender.
Atrevo-me a partilhar consigo algumas pistas de sentido, que serão sempre insuficientes.

"Onde está a mulher que eu tanto amo?"
Penso que a resposta é: ela está em você, caro anónimo. Como pessoa, deixou de estar em si mesma, já não permanece em si própria. Mas continua a existir pelos outros, a sua pessoa permanece nos que a rodeiam e a amam. Ela está no coração, na memória, na consciência de você, caro anónimo. Você é, no sentido mais forte, o guardião da sua mulher, quem mantém viva, por ela, a sua identidade.

É como se ela, desde que se conheceram, tivesse deixado, fosse deixando em você um backup do sistema, programas e documentos que ela possuia no seu próprio disco. E entretanto esse disco se tivesse degradado, ao ponto de se tornar ilegível, tendo-se perdido tudo o que estava lá gravado. Que não se perdeu, porque existe em backup. Embora a sua esposa não esteja em condições de aceder a esse backup, nem haja ninguém humanamente capaz de fazer a recuperação do que se perdeu.

Resta a Esperança.

Anónimo disse...

A senhora, muito nervosa e que sofre do coração, está descascando batatas. Entram três vizinhas, preocupadíssimas, sem saber como hão-de dar-lhe a notícia da morte do marido, sem lhe provocarem algum acidente cardíaco.
— Sabe D. Maria — diz a primeira—, o seu marido vinha ali na rua...
— Ah, sim? — diz a senhora, que continua a descascar uma batata.
— Depois, ia atravessar a rua... — continua outra das vizinhas.
— Sim? — diz a senhora. E continua a descascar a batata.
— Depois vinha um carro, do lado de cima... — diz a terceira vizinha.
A senhora continua descascando as batatas, e exclama apenas: Ah.
—Sabe, D. Maria? O seu marido foi atropelado mortalmente pelo carro!
— Olha! — diz D. Maria. Já não descasco mais batatas. Estas chegam para o meu almoço.
Tema(s): Viúvas

Anónimo disse...

Boa noite,
J.S.
Só um esclarecimento, quando me referia à mulher que eu tanto amo referia-me à minha mãe.
Desculpe fui pouco clara no meu comentário.
Obrigada

JS disse...

Cara anónima:

Ok, está esclarecida a confusão.

Penso que o essencial das minhas palavras se mantém. Até por maioria de razão, visto que a nossa identidade pessoal, o que somos como seres humanos, conserva elementos significativos da identidade dos nossos pais. A nossa identidade formou-se primariamente a partir da deles e é-lhe muito devedora.

Há o lado da herança genética e das semelhanças psicosomáticas, que se manifesta, por exemplo, em alguns traços fisionómicos ("tem os olhos da mãe") ou em certos traços de carácter ("é teimosa como o pai"); e há o lado da aculturação, da educação, da convivência e da relação, por onde se transmitem hábitos, formas de pensar, gostos...
Esta ligação é por vezes tão forte (para o bem e para o mal) que se faz ouvir aquela frase-feita: tal pai tal filho.

Assim, cara anónima, à sua pergunta: "Onde está ela?", a sua resposta será: "Não sei. Mas sei que eu estou. Eu estou por ela. Eu estou devido a ela. Eu estou em nome dela. Eu estou dando testemunho dela. Eu estou ao lado dela. Não sei onde ela está; mas sei que ela está em mim".

Anónimo disse...

J.S.

Sei que não há respostas para as minhas perguntas.

Elas são mais à semelhança de um grito de dôr.

Gostei de ler o que escreveu, alias gosto muito de ler as suas intervenções.

Bem haja,

Até sempre

concha disse...

A primeira vez que me confrontei de perto com a morte, foi quando partiu alguém muito próximo.
Foi muito estranho, porque estando eu afastada de Deus,ali não estava aquela pessoa que eu conhecia, alegre, com sentido de humor,sensível e com tantos atributos, que de repente, não estavam ali.A pergunta era onde estava tudo isso.E não tive resposta.Ali naquela capela mortuária eu tinha a certeza que não havia vida tal como eu a conhecia.Há uma lei da Química que diz "na natureza nada se perde nada se cria, tudo se transforma".Só que os atributos referidos não são transformáveis, logo estarão em algum lugar.Foi talvez aqui o começo do meu acreditar hoje numa vida eterna e acreditar que tudo aquilo que a pessoa é na sua verdadeira essência fará parte da vida futura, a vida verdadeira, porque a vida não é só existir fisicamente.É isso e muito mais.

Moçambicano disse...

Olá, Caro Amigo P.e Confessionário.
Olá a Tod@s que por aqui passam.

Ainda estou vivo.

Não fui comentando, mas fui sempre seguindo o Blogue.
Espero agora ter mais disponibilidade para estar Convosco.

Gostei muito do "diálogo" entre a "Anónima" e o "JS".
Disse-me muito, porque infelizmente começo a viver uma situação semelhante com a minha Mãe.
E sei que tenho de fazer um esforço por continuar a ver nela a Mulher Lutadora e de Fé que foi.
E que me deu muito.

Um abraço para Tod@s.

Moçambicano.

D. R. disse...

Também me fez sorrir por dentro, este texto... :)