quinta-feira, julho 21, 2011

Tão só porque é

A Maria veio de França ao funeral da mãe. Teve de vir à pressa e deixar a sua vida normal para trás. Tanto deixou, que agora está a ser-lhe difícil voltar a essa vida normal. A mãe partiu. A mãe a quem ela ligava todos os dias. A mãe que a ensinara a viver e a incentivara a emigrar porque a vida está difícil de viver. E agora partira. Não tinha ainda setenta anos, e partira. É muito comum a pergunta. Mas a Maria não se inibiu com isso e, no meio de um afago, perguntou. Porquê, padre? Porque é que Deus a levou? Porque é que Deus ma tirou? Dói-me sempre o injusto do verbo levar ou do verbo tirar. Deus não leva ninguém. Deus não tira ninguém. Deus ama. Mas também estes verbos e estas expressões são comuns. E temos de levar ou lidar com eles. O luto tem destas coisas. Precisa destes verbos, destes espaços. E por isso o padre tem de ser muito compreensivo. E as respostas, como Jesus fazia, podem ser feitas com outras perguntas.
Estávamos perto do quintal de uma das vizinhas. Uma daquelas que enche o quintal de flores. Flores amarelas, vermelhas, roxas, rosas, tingidas, matizadas. Flores de todas as cores e feitios. No meio delas, destacava-se uma rosa branca, lindíssima. Com o indicador apontei na sua direcção, e falei na direcção da Maria. Aquela flor é linda, não é? Acenou que sim, a olhar para ela e depois para mim. Depois empoleirou os ombros, como que a perguntar que interessa isso para a conversa, ou a afirmar que isso não lhe interessava de momento. Continuei a apontar na direcção da rosa e perguntei: Já pensou porque é que Deus fez aquela flor tão bela? Para responder repetiu o empoleirar dos ombros. Fiquei à espera, e na espera ela deve ter-se sentido incomodada, porque deixou escapar quatro palavras num sussurro que só quem pressupõe entende. Ninguém faz essas perguntas. Acho que ainda usou o vocativo Padre. Mas já não ouvi porque falou muito baixo ou porque interrompi. Nós geralmente não perguntamos a Deus sobre as coisas boas. Só perguntamos das más. E olha, Maria, que, com certeza, a resposta deve ser a mesma. Não é nem porque sim nem porque não. É tão só porque é.

18 comentários:

Anónimo disse...

Sendo verdade, num momento de grande dor não era esta a resposta. Tão só porque não era.

Maria Zete disse...

Sabe Padre, é que nos momento de grande dor, ficamos com a mente meio que entorpecida e fica dificil, as vezes impossivel racionar, penso que a Maria naquele momento estava voltada apenas para a grande perda.Deus que nos ama profundamente, incondicionalmente, entende quando usamos os termos "levar" ou "tirar", ELE sabe que o nosso humano é fraco e que muitas vezes sucumbe diante da perda de alguém que nos é tão caro.

Rosa disse...

As coisas boas são aceites com tanta alegria e entusiasmo, que até nos esquecemos de agradecer,desvalorizando um pouco essa parte.
Agora as menos boas, essas são sentidas,sofridas e atribuídas a...a vida tem destas coisas.

Maria disse...

Olá,
Para mim a resposta está certa. Tão só porque não há nada que alivie a dor, neste momento, mas pode desviar o pensamento por instantes e quem sabe aceitar o sofrimento de outro modo. A ideia que fica é que a senhora não percebeu a mensagem, mas ela estava lá...e era para ajudar.
Paz e bem,
Maria

Anónimo disse...

Olá

Para mim as palavras não têm nenhum valor ou sentido nesses ou noutros momentos.

Sinto que é mais importante sentir/ter a presença de alguém que nós escolhemos para desafar o nosso desgosto.

Por vezes o nosso sofrimento ou desgosto é tão forte, que basta esse alguém escutar com atenção as nossas palavras

Por vezes o nosso sofrimento ou desgosto é tão forte, que basta esse alguém dar um sorriso, um olhar, um abraço para não nos sentirmos sós.

A morte é terrivel, mas também, não é menos as duras experiências das vida.

Anónimo disse...

Olá,
É mais comum questionarmos as coisas más.
Porquê meu Deus?
É um grito, engana a dôr, parece atenuá-la.
É uma pergunta para a qual, não esperamos resposta, quando a fazemos é um sinal de alerta ou grito de revolta...
Se conseguissemos entender a mensagem maior de que neste mundo ninguém morre, ninguém nasce, mas todos nos transformamos... seria bem mais fácil aceitar a ausência dos seres que amamos.
Acredito que as coisas acontecem sem que tenha que haver uma razão para tal.
A doença também me tirou a mãe, como alguém me disse, não há palavras nestes casos, apenas sentimentos...

Renascer disse...

PERGUNTAMOS SEMPRE PORQUÊ????? E SE PERGUNTÁSSEMOS ANTES PARA QUÊ, SENHOR???? TALVEZ A RESPOSTA VIESSE. É QUE O PORQUÊ SÓ DEUS SABE...

MARIA JOSÉ

Filha de Maria disse...

Podemos sempre perguntar... para quê, porquê? Nos momentos de dor, de perda, é legitimo... é o sermos nós próprios, humanos e frágeis.

Contudo; pela experiência de vida, Deus não "rouba", não "tira", não "leva" ninguém. Deus dá-nos tudo... quando alguém parte, ou porque faleceu, ou porque tem de mudar de cidade, país... não é um assalto ao que é nosso.

Apenas chegou a hora de "partir", não pertencemos uns aos outros, mas sim a Deus.

Caminhamos em comunidade, umas vezes mais solitários do que outras, mas ... nada, nem ninguém é verdadeiramente nosso!

A Paz de Cristo

JS disse...

"É tão só porque é".

Uma resposta aceitável, como forma de nos levar a encarar algo de inexorável e irreversível. Não há forma de evitar, não há volta a dar: tudo fica consumado. Não adianta fugir, de nada serve entrar em estado de negação: as coisas são como são, realidade nua e crua. Os "ses" e os "mas" são apenas distracção.

Uma resposta aceitável, como forma de indicar que à religião não compete buscar razões ou causas, mas tentar descortinar sentido. Não é o lugar dos porquês, mas dos para quês (como dizia a Maria José). O olhar não se prende no passado, mas fixa-se no futuro. As coisas são como são. Mas: o que serão?... Aí é que está o segredo.

Todavia, como chamava à atenção o anónimo que primeiro interveio, a resposta pode ser manifestamente insuficiente.
"Porque é que Deus fez aquela flor tão bela?"
E porque é que a flor bela, também ela, irá morrer?...

JS disse...

Uma coisa que certa vez me deixou abananado: ver uma pessoa que tinha perdido um filho ficar extremamente revoltada com o padre da missa, por ele dizer que Deus não tira a vida a ninguém.

Reflecti sobre o assunto e cheguei a esta conclusão: pensar que Deus nos tira aqueles que amamos é uma forma de encontrar um culpado pela desgraça imensa que nos atinge, dando-lhe um nome e um rosto. Há alguém com quem gritar, há um destinatário para a nossa revolta.
E, ao mesmo tempo, tal ideia infunde uma certa tranquilidade: se Deus o tirou de nós, é porque ele está com Deus. Deus tem-no com Ele, e por isso ele está bem, está em boas mãos. Como se reconhecêssemos que o ladrão que nos rouba fosse capaz de tomar melhor conta que nós próprios daquilo que nos levou.

A tal senhora estaria então revoltada por o padre lhe negar essa forma de ver as coisas. Se Deus não lhe tinha tirado o filho, quem, então é que lho roubou? E onde está ele agora?...

JS disse...

Ainda uma achega sobre a forma como os emigrantes enfrentam a morte dos seus que ficaram no país de origem.

Os emigrantes, para conseguirem lidar com a dor da distância e da separação, constroem um sonho, o sonho do regresso do exílio, o sonho do céu na terra, a terra donde partiram. Eles vivem o seu dia-a-dia nessa esperança: de um dia poderem voltar para a terra que os viu nascer e para junto da família de quem se tiveram de separar. E nesse dia, em que voltarão com a vida bem-sucedida, irão recuperar todo o tempo perdido, e irão compensar todos os carinhos que ficaram por dar e receber nos anos de migração.

Ora, este sonho tão poderoso recebe um choque tremendo quando morre alguém que nele ocupava lugar de destaque. E a vida que se leva no país de emigração, normalmente muito sacrificada, fica de repente sem sentido...

Marina disse...

Olá! Encontrei este blogue por várias vezes e não pude deixar de comentar.
Em primeiro lugar quero lisonjeá-lo por este blogue de grande conteúdo.
Em relação a esta postagem, ainda não vivenciei uma morte assim de tão "perto", contudo penseo que me sentiria como essa mulher. Acho que, por mais fortes que sejamos, fica sempre no coração essa pergunta: "porquê?".
Engraçado que ainda há poucos dias a minha mãe me perguntou "porquê que Deus não manda chuva para esses povos que morrem com falta de água?". Fiquei a pensar...
Gostei muitos dessas palavras de consolo da postagem... uma simples rosa branca, será que todos já a observamos com atenção para percebermos o quão maravilhoso é o que Deus nos deixou?...

Paz


Aproveito também para convidar-te a visitar o meu novo blogue: meditandosobredeus.blogspot.com Onde escreverei alguns textos leigos para meditar.

Anónimo disse...

Não me surpreende ver uma pessoa que tinha perdido um filho ficar revoltada com o padre por ele dizer que Deus não tira a vida a ninguém. Pois os padres são exímios a consolar os tristes. É abissal e revoltante a diferença entre o que pregam e o que fazem. Bem pregam os frei tomás...

JS disse...

Caro anónimo (26/07 15:43),

A hipocrisia dos padres, já o próprio Jesus Cristo se irritava solenemente com ela há dois mil anos atrás; o que indicia que a coisa não é nada fácil de resolver.
Talvez julgues que se acabassem os padres, desaparecia a hipocrisia do mundo. Eu tenho as minhas dúvidas.
De qualquer forma, neste campo não me sinto à vontade para atirar grandes pedras, que os meus telhados são de vidro. E do fininho.

Não percebi foi a lógica do teu comentário, ao unir a questão da hipocrisia com o caso concreto que relatei. Talvez queiras explicitar...

Maffa disse...

Vi há uns dias o filme - "A árvore da vida" - História de uma familia q perde um dos filhos aos 18 anos e eles sendo crentes, todas as perguntas que fazem a Deus quando sofrem a perda. É um filme lento cheio de imagens e musica e convida muito à reflexäo.
Eu sou bióloga e muito ligada à ciência - A minha visäo de Deus é de um criador do universo que permitiu haver a vida na terra e de alguém que AMA. Apenas... Näo dá, näo tira, näo magoa ninguém. O mundo existe com as leis da natureza, com doencas, com flores com morte com vida. A vida existe porque há morte e Deus näo tira a vida de ninguém, apenas ama todos e ajuda-nos a viver com sentido na vida.
Que todos os que perdem pessoas queridas näo se afundem em acusacöes mas pensem que Deus está lá para os consolar e para cuidar dos seus entes queridos que partiram.

diogo da silva disse...

Linda explicação. Jamais havia parado para pensar nisso até o momento.

Bela mensagem

D. R. disse...

Lindíssimo... Padre, continue a ser quem é e Deus o continue a abençoar na sua enorme missão. Porque dons, (nota-se) Deus deu-lhos... O dom do entendimento, da ternura, da comunicação... O dom de tocar o coração de quem fala consigo. E até o dom de fazer pensar e de comover o coração de quem lê os seus textos...

Belas formas que encontra para mostrar Deus às outras pessoas... :)

Anónimo disse...

21 Julho, 2011 21:47
Concordo.