quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Estava saturado de estar saturado

Estava saturado de estar saturado. Estava com os paroquianos, mas desejava logo a seguir estar em casa. Fechado ou pelo menos que não entrasse ninguém com facilidade. Que pudesse sair de vez em quando, de preferência para longe e sozinho. Dizia que ainda conseguia sorrir para as pessoas quando estas lhe causavam um transtorno que, na maioria das vezes, para ele constituía um problema. Perguntei como conseguia e ele respondeu-me que era sincero. Que se esforçava por amar a pessoa e não o que ela estava a dizer. Sorria por fora, e para dentro usava os dentes quase cerrados do sorriso para premir com força e relaxar os nervos. Perguntei-lhe porquê e respondeu-me que não sabia. Perguntei-lhe se não tinha amigos, e respondeu-me que sim. Mas que ultimamente, mesmo quando estava com eles desejava chegar a casa rápido porque tinha o não sei quê para fazer. Se estivesse com eles em casa, fazia um esforço enorme para estar acordado contando piadas. Mas não gostas deles? insisti. Gosto imenso. Que seria de mim sem eles! Perguntei-lhe se andava cansado e respondeu-me que não. Que estava apenas saturado. Mas depois lembrou que quase todos os dias ainda antes de jantar já se encontrava com sono.
A conversa ocorreu ao telefone e desliguei para falar pessoalmente com o padre Y. É um pouco mais novo que eu. Não sei como vou entrar em sua casa. Mas estas conversas são de casa e não de rua ou fios de telefone.
Porém ao virar costas lembrei o que há dias dizia a umas senhoras da paróquia. Às vezes apetece-me adoecer para passar umas férias no hospital. Ao menos nessa ocasião as pessoas aprenderiam a viver com aquilo que se pode e não com aquilo que gostam de ter ou da forma como gostam de ter.

9 comentários:

ainat1987 disse...

Este texto assenta-me que nem uma luva :( Há alturas em que já não peço para adoecer para ir para o Hostipal(Porque ai ainda continuaria a ver pessoas....) penso que seria bom mudar de planeta!
É preciso ter paciência e continuar a "lutar" diariamente.

Antonio Valerio, sj disse...

Tenho também contacto com alguns párocos amigos e fico surpreendido com a quantidade de coisas que têm, as pessoas que vêem, as coisas q fazem. Fico impressionado com a resistência deles, muitas vezes em situações que humanamente não são muito consoladoras. Pergunto-me também que força e que equilíbrio podem encontrar? É tão fácil sentir-se saturado, ou com falta de energia. Esta é uma situação tão comum, que acho que deveria por-se o problema do porquê de acontecer.Porque se espera tanto de padres, e porque é que um padre espera tanto de si mesmo. Umas férias fariam cair na conta do que é realmente importante e do que permanece. Não são férias de hospital ou de ir para fora uns dias, são ferias de tempo alargado de uma leitura atenta do presente.

Rezo pelo seu amigo, e também por si.

Luisinha disse...

Isso acontece porque se lida com pessoas e a meu ver, o sacerdócio é das formas mais desgastantes de se lidar com pessoas, porque acho que é das únicas posições em que menos as pessoas compreendem que um padre também é um ser humano, alguém com necessidade da sua privacidade e com o direito de "ser do contra". As pessoas ainda se "penduram" muito na figura do padre e têm-no como a sua "salvação" ou como alguém onde podem descarregar as suas mágoas, os seus problemas, e esperando muitas vezes que o padre os ajude ou lhes resolva as coisas. Por ainda existir a imagem do padre ser alguém "santo" a quem podem sempre recorrer, as pessoas não se fazem rogadas, e em vez de procurarem o que podem dar de si, partem em busca do que é que os outros lhes podem dar! Não é assim?! Por mais prestativo que uma pessoa possa ser, por mais bondosa, por melhores intenções que tenha, nem sempre há disponibilidade e paciência para tanto! Quando não estamos bem temos o direito de nos queixarmos, mas as pessoas ainda não admitem isso de um padre... Ainda bem que a sua identidade foi preservada eheheh Estando na posição de padre, estar saturado por tantas coisas que nos são contraditórias é uma constante e também serve para nos trabalharmos ao longo do tempo. Ao aprender a lidar com um tipo de pessoa vamos ganhando habilidade para lidar com outras, apesar que ninguém é igual! Ao mesmo tempo, lidar com pessoas faz parte de um auto-crescimento que poucas coisas nos podem dar, porque só a lidar com pessoas descobrimos aquilo que nos fortalece, que nos enfraquece, onde estão as nossas virtudes ou defeitos. Porque se não lidássemos com pessoas seria muito fácil dizer "eu ajudaria" mas na prática quantos fazem isso?? Mesmo que seja um sorriso forçado, uma presença contrariada, vale sempre a pena! É bom para quem recebe sentir que está a ser valorizado e para quem dá que mesmo sendo uma situação difícil está a transmitir um bem e a aprimorar a si mesmo em qualidades como a paciência e a caridade.
Senhor Padre, não diga "asneiras"!! Era preferível uma fuga para o meio das montanhas onde ninguém o encontre do que num hospital, não?! De certo que num hospital ainda iria ter de "aturar" mais gente só com visitas, e ao menos numas montanhas isoladas desfrutaria a paz da natureza :)
Ok... São coisas que se dizem da boca para fora só para o desabafo! Eheheh

Teodora disse...

Ó padre que ideia a sua! Opte por um spa com banhos, massagens e outros mimos.

Nos hospitais não se dorme. Há barulho toda a noite; aguentamos as nossas misérias e as dos outros; acordamos para ver a febre, as tensões, tomar comprimidos; tomamos banho em casas de banho que não são como as nossas e às 8 da manhã já está tudo a marchar. Isto na versão soft!

Não diga uma coisa dessas padre! Pensamento positivo como dizem os brasileiros.

É preciso saber quando abandonar a cena para mais tarde regressar.

Não é possível dar aquilo que já se esgotou. É extremamente penoso viver em esforço. Por questões de sobrevivênvia, e mesmo quando alguns não aceitam e condenam-nos, há que bater em retirada para voltar mais tarde.

E continua-se em esforço... e "prontos"... é assim... o céu está escuro... não faz sol há muito tempo...prevêem boas abertas para amanhã... vamos ver!

CrisR disse...

Senhor padre como me apetecia fugir agora daqui para alguem lugar...onde ninguem me conhcesses...ou então simplesmente ter a minha vida antiga de volta...porque nessa eu era feliz!

Anónimo disse...

«Um Homem... apenas!

Sou apenas um Homem...
Porque esperam de mim, mais do que se eu fosse apenas e só isso: um Homem!?
Porque esperam que eu não tenha os sentimentos, desejos, fantasias, sonhos e ambições de um Homem!?
Porque esperam que eu não sofra com as derrotas, fracassos, insucessos, humilhações... as minhas próprias ou as que me são impostas pelos outros!?
Porque esperam que eu não me sinta carente, que suporte com um sorriso o peso da solidão!?
Porque julgam que eu não cometo erros (como se isso - cometer erros - fosse contra a natureza do meu 'ser'!)!?
Porque pensam que eu tenho de ser (porque essa deve ser a natureza do meu 'ser') auto-suficiente, imune à dor, à frustração!?
Porque me olham como se eu fosse uma «máquina» e não como aquilo que sou... apenas um Homem!?

Apesar de ser o que sou e quem sou...
Sou apenas... um Homem, Senhor, e Tu bem o sabes...
Conheces os meus desejos, sonhos, ambições...
Estão diante de ti os meus fracassos, frustrações e erros...
Não Te é estranha a minha solidão e a minha carência...
Fizeste-me assim... HOMEM... por isso apenas TU me conheces e compreendes...
Mas não é a Ti que eu recorro...
Não é a Ti que eu procuro...
Não é em Ti que procuro abrigo e refúgio...
Porque sou apenas um Homem...
Vivo ainda a ilusão de um Homem...

Um Homem... apenas, é o que sou Senhor.
Ensina-me a saber viver como tal... »

(30 Maio 2008)

Caro Confessionário

Ao ler este post lembrou-me de imediato este meu 'desabafo' de há alguns meses atrás...

Desejei nessa altura ter um 'colega' que me falasse, mesmo que pelos fios de um telefone... quanto mais um que me batesse à porta...

Admiro-o por essa sua capacidade de estar atento às necessidades (também) dos seus irmãos no Ministério... essa é a verdadeira FRATERNIDADE!!

Abr.

Canela disse...

Pedir para adoecer????!

É porque ainda não sentiram... a vida a "ir", por negligência médica!

Aí, aí... não se brinca com coisas sérias!

Mais explicita, que o anónimo seu colega... impossivel!

O isolamento, faz bem na medida certa. O ser humano, foi feito para viver em comunidade. Se assim, não se sente vontade... algo está muito mal. Se calhar é o momento, de pedir ajuda (humildade).

Cheira-me a tristeza profunda, a esgueirar a depressão...

Coragem, homens de Deus! Coragem!

Anónimo disse...

(Alguns)padres andam saturados; (alguns) professores andam saturados; (alguns) dos profissionais que lidam diariamente com as pessoas andam saturados. Porquê? Já se deram ao trabalho de pensar um bocadinho? É fácil descobrir o motivo. O seu ofício implica escuta, partilha, dádiva. Muitas vezes sentindo-se imensamente pequenos e incapazes de responder com a eficácia e celeridade imposta por que está de fora. Por quem está comodamente instalado nas prateleiras de cima.
Coragem para os que dela precisam. E, mais tolerância.

Bj

Anónimo disse...

Bem, querido Padre, passar férias no Hospital, nem tanto.Mas realmente, as dificuldades que os padres têm em tirar simplesmente férias, são uma questão séria!É bom que haja padres que se preocupem com os outros padres, até porque todos precisamos de ajuda em várias fases desta nossa doce vagabundagem contemplativa, aqui pela terra.Mas há realmente padres «imparáveis».Claro que depois terão que sentir falta de energia ou poderão estar saturados.É normal.Porquê tal grau de exigência consigo próprios?Pq não tirar uma férias a sério, para descansar, reflectir no essencial, dentro do possível afastar o «acessório»....Cristo era um radical fascinante, um homem com uma mensagem exigente,exigente tb consigo próprio, que nos faz querer ir mais longe.Mas Deus também é paciência, é amor.E vocês , Padres, não têm que ser super homens.Têm que ser simplesmente quem são, com a graça da ajuda do Espírito Santo.E têm uma coisa única: podem , por vezes, sentir-se sozinhos....mas têm imensa gente que vos adora! E é tão bom sentir-se amado!!!

Abraço

Mafalda