segunda-feira, dezembro 17, 2018

papel [poema 198]

Pareciam passos, mas eram folhas de àrvore
a cair à beira da minha janela de papel

Mergulhei nelas como pude, de roupas vestido,
Tapando a cabeça do frio que mendigava na rua

Nadei, por dentro delas, até me sufocar
Eram demasiado envelhecidas, caídas e amarelas
Passara o tempo verde, mas continuavam a ser elas

Mais uma vez voei sem me levantar do chão.
A árvore estava viva e os passos que eram folhas
Vinham até mim, de mansinho, e eras tu

no papel

sexta-feira, dezembro 14, 2018

O Cristo escondido

Possui em sua casa duas mesas cheias de santinhos, como gosta de referir. Depois faz a visita guiada ao santuário. Uso a palavra possui, porque é mesmo esse o sentido verbal da coisa. Ela tem posse daqueles santos todos. Reza a todos. Olhe este Santo António tão lindo. E é mesmo. Distingue-se das outras miudezas que por ali abundam. Digo miudezas no sentido em que são pequenos e, no meio de tantos, acabam por se tornar ainda mais pequenos. Porém, eu não desgosto disto. Nem da atitude da senhora Alcinda, nem da sua piedade. Muito menos da forma autêntica como acho que reza. Aliás, eu próprio tenho duas mesas cheias de cruzes. Como uma coleção ou quase coleção. Gosto de juntar as cruzes das minhas peregrinações, dos amigos que mas oferecem, daquelas cruzes que me prendem o olhar e tenho de as fazer minhas. 
Contudo, na visita guiada da senhora Alcinda, não consegui encontrar Cristo algum. É certo que também não sou pródigo na visão. É certo que era quase como descobrir uma pessoa no meio de muitas pessoas. Mas nem ajeitando os óculos mais aos olhos. A custo lá encontrei um Cristo muito pequenino. Por sinal também numa cruz muito pequenina, por detrás de um Santo que lhe não sei o nome, mas que lhe fazia muita sombra. Era como um anão vigiado por guarda-costas, aqueles homens acima do tamanho normal. Era, afinal, um Cristo escondido. Era aquele tipo de Cristo que se esconde nas nossas muitas piedades, nas nossas muitas jaculatórias aprendidas desde criança, nos rituais a que nos habituámos, nas missas a correr, nas tradições populares, nos muitos afazeres da vida e da religião. O Cristo que se vai escondendo no meio de tanta coisa que lhe faz sombra.

terça-feira, dezembro 11, 2018

O que melhoravas na Catequese da Infância e Adolescência em Portugal?

A 30 de Junho colocámos online uma sondagem que perguntava sobre questões ético-morais. Depois, a 19 de Setembro, e porque foram sugeridas outras questões ético-morais preocupantes, fizémos nova sondagem. Esta apurou os seguintes resultados:
Hoje surge nova sondagem, com um assunto que tem preocupado alguns dos principais agentes de pastoral em Portugal, a Catequese. Embora não querendo reduzir a reflexão a estas opções, achamos oportuna a questão, e achamos que pode gerar um debate interessante. Já sabem que podem/devem indicar a justificação das vossas opções.
O que melhoravas na Catequese da Infância e Adolescência em Portugal?

domingo, dezembro 09, 2018

Uma simples toalha que cai e que se levanta

Coloquei a toalha de rosto no local onde me pareceu que ficava mais segura. Era o local, para o efeito, mais óbvio que o quarto de banho possuía. Estava atrás da porta. Ali a pendurei porque também me pareceu óbvio. Entretanto, cada vez que entrava no quarto de banho, a toalha caía. Cada vez que havia um movimento da porta, ela caía. E eu fazia o óbvio. Baixava-me, para a apanhar e a devolver ao cabide. Caía e eu levantava-a. Numa dessas ocasiões, apeteceu-me desistir, como quem atira a toalha ao chão. Apeteceu-me deixá-la no soalho, mesmo que fosse pisada e não mais lhe fosse fácil cumprir a missão de limpar o meu rosto. Apanhei-a, apesar da pouca vontade. Pendurei-a de outro modo, mais segura. Mas a um novo movimento da porta, tornou a cair. 
É assim a nossa vida. Por mais que nos levantemos, tornamos a cair. Os movimentos da vida, oportunos e inoportunos, desejados e indesejados, naturais ou forçados, como uma necessidade, como uma urgência ou como a única saída, são movimentos que nos fazem cair. E que fazer perante tanta queda? Levantar. Erguer de novo a nossa vida. Pendurá-la de novo e procurar o local mais seguro. Talvez, mesmo assim, tornemos a cair. 
Talvez o melhor fosse pendura-la única e exclusivamente em Deus. Mas até nessa localização, o mais natural é cair de novo. Tal como a toalha possui um peso, por si só, que faz com que caia, mesmo sem querer, assim a nossa vida, por mais sustentada em Deus que esteja, tem um peso, por si só, que a poderá fazer cair. 
Não basta desculpar-nos que somos humanos. O melhor é assumir que somos vasos de barro, e que não há vaso de barro que não necessite de ser moldado, usado, gasto, remendado. Dizia Tolentino Mendonça, no “Elogio da sede”, que o caminho espiritual não nos impermeabiliza da vulnerabilidade. Transportamos o nosso tesouro em vasos de barro. As tentações sempre vão existir. O que a nossa intensidade espiritual pode fazer é ensinar-nos a olhá-las numa outra perspectiva. É a sabedoria de as interpretar. É a sabedoria de as incorporar. O melhor caminho da plenitude, em Deus, é o que fazemos com o que somos, melhor ou pior, mais querido ou mais preterido, mais amado ou mais odiado.

quarta-feira, dezembro 05, 2018

A catequese serve para fazer pessoas boas?

É uma boa catequista. É interessada. Não se conforma com uma catequese doutrinal, escolar, com base no ensino e aprovação de conhecimentos e verdades. Mas há dias, no meio de uma reunião de catequistas, deu a entender que o objectivo da catequese, pelo menos como ela a via, era formar pessoas boas. A discussão que se gerou deu-me azo a clarificar que não basta formar pessoas boas na catequese. É necessário formar pessoas boas por causa de Cristo, ou melhor, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Crescer na fé não é apenas crescer na bondade. Esse pode ser um dos efeitos da fé. Mas a fé é mais que isso. Basta recordar que um muçulmano pode ser uma pessoa bondosa. Um ateu pode ser uma pessoa bondosa. O que a catequese deve fazer é iniciar, formar e ajudar as pessoas a chegar á maturidade da fé, por Cristo, com Cristo e em Cristo.

domingo, dezembro 02, 2018

O cristianismo virá de Cristiano Ronaldo?

A filha da senhora Alcina creio que não tem mais que uns quatro aninhos. É franzina, mas um poço de vida, como se costuma dizer. Está numa fase de perguntas e porquês. Está numa fase em que quer saber tudo o que não sabe. E a mãe, a senhora Alcina, sabe muitas coisas, mesmo em termos religiosos. É uma daquelas pessoas que teve uma boa formação cristã, e que não tem receio de falar da sua fé, da sua catolicidade, do seu cristianismo. Pelos vistos, a filha ouve com atenção as suas palavras sábias. E por isso, um dia destes, interrompeu a mãe no diálogo que esta fazia com uma amiga, para lhe perguntar se o cristianismo vinha do Cristiano Ronaldo. De certo que ele é bem capaz de, nos dias de hoje, ser mais conhecido que o próprio Cristo. Não há sequer uma criança, pelo menos em Portugal, que não conheça este ídolo das nossas gerações. Considerações sérias aparte, com esta história lembrei a piada que em tempos li, na língua castelhana, sobre os argentinos que, numa época conturbada e mais frágil do seu patriota, futebolista e mediático Messi, pediam ao Papa Francisco, argentino de gema, que “bautice a Messi para que se convierta en Cristiano”. Tradução quase literal de “baptize Messi para que se converta em cristão”.

quinta-feira, novembro 29, 2018

O beijo do Pai [poema 197]

Fechei os olhos para guardar o seu beijo
Fechei os olhos para vir a noite
E adormecer naquele enfático beijo
tatuado na minha pele, pelo lado de dentro
Como sombra enrolada no meu coração

Hoje sou o beijo que recolhi.

terça-feira, novembro 27, 2018

Acabar o dia entre quatro paredes

O que fazem os padres quando chegam ao final do dia, a casa, e ficam sozinhos? Foi esta a pergunta curiosa da Sofia que surgiu no imaginário do meu pensamento. Pelos vistos, a Sofia andava a questionar-se, tal como eu, sobre a vocação consagrada, em particular a dos sacerdotes, sobre o que era viverem sós, entre quatro paredes. Como seria? E eu gostava de pintar o filme de outra cor, menos sépia, menos branco e negro, menos cinzento. Gostava de dizer que, ao chegarmos a casa, o mais natural é ajoelhar aos pés do Senhor e agradecer-lhe o dom desse dia, pedir-lhe compreensão pelas nossas faltas, falhas e cansaços. Gostava de lhe dizer que era a oportunidade para nos sentarmos ao seu colo e esperarmos o calor do seu amor. Mas não sei se é essa a realidade. Algumas vezes será. Mas outras, acabamos o dia fechados em quatro paredes, geralmente sozinhos. Mas o pior é que nos fechamos, não apenas nas paredes da casa onde moramos, mas em nós próprios. Ficamos sozinhos, com oportunidade para nos abrirmos ao mestre da vida, para sentirmos que na nossa solidão há uma cadeira à nossa mesa, à beira da nossa cama, que é ocupada por Ele. Mas geralmente ficamos fechados na nossa solidão, voltados sobre nós mesmos. Não há pior solidão que aquela em que nos fechamos sobre nós mesmos. Como uma casa que se encerra convencida que assim evita os assaltos dos ladrões. Faz lembrar um filme que vi em tempos. Um casal fechara-se, barricara-se em casa com medo dos ladrões. O que aquele homem e aquela mulher não sabiam era que o ladrão já lá estava em casa e tinham acabado de se fechar com ele dentro.

sexta-feira, novembro 23, 2018

Os coitados

O território da paróquia tem poucos habitantes. A paróquia tem ainda menos. A maior parte tem debandado em busca de novas oportunidades. As poucas crianças e os jovens aparecem muito pouco. O pouco é sempre o que mais habita aquela terra e aquela paróquia. Mas naquele dia a Igreja estava quase cheia, e na frente destacavam-se dois adolescentes. Um no início da sua adolescência e outro no final dela. O primeiro era um rapaz, e o segundo uma rapariga. Por sinal sua prima. A meio da homilia, que vinha a propósito das vocações e que se adaptava perfeitamente à Semana dos Seminários, pois a missa ocorria nesse período, dirigi-me ao primeiro adolescente. Dirigi-lhe também as minhas palavras. Tu. E apontei para ele, que estranhando a direcção do meu dedo e das minhas palavras, se mexeu no banco. Tu é que podias ir para o Seminário. Tu é que podias ser padre. Na verdade, fui aprendendo com a vida que o convite tu a tu é o mais oportuno. No entanto, a prima agarrou-o com força, e disse. Coitado. Porque fora audível, sorrimos todos. A população em geral. Os que estavam mais ao fundo da Igreja e os que estavam mais junto do altar. O rapaz. Ela própria. E eu. 
E foi assim que percebi que os padres são tidos, afinal, como coitados. Fazemos parte daquele grupo de pessoas que é olhado com pena. Como se o destino tivesse destruído os seus sonhos. Tivesse destruído a possibilidade da felicidade.

terça-feira, novembro 20, 2018

A oração é estar com Deus

A oração é simplesmente estar com Deus. Foi esse o convite que Jesus fez aos seus apóstolos. Vinde e vede. Mas nós teimamos em fazer da nossa oração um desabafo das nossas coisas, dos nossos problemas e insatisfações, quando Deus já conhece tudo isso. Teimamos em pedir coisas e em querer que Deus se manifeste de forma incontundente, quando Ele quer apenas estar connosco e que estejamos com Ele como dois amigos que se amam e se encontram. Teimamos em falar de nós, como se ele fosse um desconhecido e nós uma relíquia a conhecer. 
Às vezes penso que Deus se deve esgotar com as nossas orações tão cansativas, tão chatas, tão angustiadas, tão pedinchonas. O que vale é que nos tem um amor para além de qualquer oração. O que vale é que deve ter uma paciência infinita, e até nessas nossas formas de oração ele deve descobrir que é um modo de estarmos com ele. Que assim seja.