domingo, dezembro 17, 2017

amanhã [poema 163]

Quando não houver papel para escrever
Tecerei poemas com as nuvens, para ser.
Farei esboços de histórias na memória
Dos que fizeram a sua na minha história.

Do céu farei ouvir as minhas canções
Como beijos que cheguem aos corações.

As estrelas serão o meu mundo e o tempo
Onde adormecerei sem nenhum tormento.

Nunca deixarei de amar por um momento

Serei tudo o que te trouxer o vento...

sexta-feira, dezembro 15, 2017

As missas de Natal parte II

Há paróquias que só se enchem para a missa de Natal. Também ocorre o mesmo por ocasião da missa da bênção dos ramos, da missa de Páscoa, da missa da festa da aldeia, da missa quando se vai em romagem ao cemitério. E com menos pompa, também nas missas de funerais. Mas não todas, porque depende do morto a homenagear. 
É uma graça, dirão alguns, termos tanta gente nas nossas Igrejas por estas ocasiões. E é mesmo uma bênção, nem sempre aproveitada, sobretudo para anunciar o Evangelho como ele merece. Que grande oportunidade para chegar ao coração de cada um dos que ainda não se encontraram com Cristo, mas estão ali. Também é de recordar que nessas ocasiões vem muita gente de fora. Familiares e amigos juntam-se, com o motivo da celebração festiva que nos junta numa Igreja ou numa capela lá da aldeia. Tudo são graças de Deus. Suas bênçãos. 
Mas ainda ontem fui celebrar uma missa, a uma paróquia dessas, com 13 pessoas presentes, incluindo eu. Mesmo quando vou a paróquias que deixam a Igreja meio compostinha, pergunto-me sempre pelos outros vinte, trinta, quarenta, cinquenta por cento ou mais que não foram lá compô-la, mas que depois vão engalanados para a missa de Natal, e ai do padre se não tiver possibilidade de lá ir celebrar. Pois que, senão, dizem, o padre é que tira a fé e a religião já não é como dantes. Pudera. Claro que não é como dantes. E embora não pretenda questionar a fé herdada que existia como um modo cultural de viver, não posso deixar de me queixar que não é possível manter esse tipo de religiosidade num tempo em que as pessoas usam a religião como uma feira e o padre como um vendedor ambulante de sacramentos. 
Neste Natal vou ter a coragem de pedir ao Menino Jesus que não ponha mais padres no sapatinho. Talvez quando o número de padres for exíguo e as terrinhas não consigam ter as suas missinhas de Natal, nos detenhamos a buscar o essencial do cristianismo, como um balbuciar de uma criança que vai crescer. Isso mesmo me lembra o Menino Jesus numas palhinhas deitado.

terça-feira, dezembro 12, 2017

O que pensas que é o Natal hoje?

Já lá vão quatro meses desde a última sondagem onde perguntávamos os atributos mais óbvios dos católicos portugueses. Apurou-se, na ocasião, que são sobretudo indiferentes, sem formação, e grande parte deles não é praticante.
A mesma sondagem, concretizada em 2008 (ver aqui) dava conta que eram sobretudo gente sem formação, indiferentes e tradicionalistas. O que terá mudado entretanto?
Deixamos os resultados deste ano em seguida.

Hoje iniciamos nova sondagem a propósito do Natal: O que pensas que é o Natal hoje?

sábado, dezembro 09, 2017

O que é o advento?

A Igreja propõe que, a poucas semanas do Natal, quatro para ser mais concreto, os cristãos se preparem de forma mais especial e intensa para a festa que se aproxima. Chamamos-lhe advento, que vem da palavra latina adventus e que significa vinda. Utilizava-se para falar da chegada solene do imperador ou de alguma personalidade importante. Para os cristãos significa a espera do seu Salvador, Jesus Cristo. Por isso gosto de pensar que toda a nossa vida é um advento. De qualquer modo, cada vez que chegamos a este tempo litúrgico, somos convidados a caminhar de forma especial ao encontro de Cristo. Mas será que todos os cristãos sabem o que é o advento? 
Num encontro de um grupo de meninos dos primeiros anos da catequese daqui da paróquia, a Susana, que é a catequista ao seu leme, ousou perguntar aos seus catequizandos se sabiam o que era o advento. Das duas uma, disse-me ela, ou sabiam o que era ou nunca tinham ouvido falar dele. Então uma das meninas mais atrevidotas, com ar de satisfação e, ao mesmo tempo, de um certo gozo com a sua catequista, respondeu. Ó senhora catequista, então a senhora catequista não sabe que é aquela caixa com janelinhas e que vamos abrindo uma a uma e tem lá dentro um chocolate? E sabe o que é que eu faço com ela? Abro logo todas as janelinhas, e como os chocolates que lá estão escondidinhos, porque vem a avó e dá, mas também a tia e outras pessoas dão um advento. E ria-se perdidamente, porque gostava muito dos adventos. Afinal não havia só um. Havia vários adventos, tantos quantos as pessoas amigas lhe ofereciam. 
É este o advento do nosso tempo, dizia-me a Susana, para concluir. Ou melhor, para deixar tudo em aberto!

terça-feira, dezembro 05, 2017

Missas de Natal

Não sei como fazer para marcar tanta missa no dia de Natal, comentei com uma paroquiana de umas das minhas aldeias, no ensejo de que me aliviasse o peso de não saber que fazer. Como todos os cristãos compreendem que as coisas estão cada vez mais difíceis a este nível, também a Sandra compreende. A primeira coisa que disse foi um longo e pesado Pois. E acrescentou que as coisas estão a ficar complicadas. Mas decidiu dar uma ajudinha e perguntou porque não arranjava um padre.
Primeiro ri-me. Depois respondi que um padre já eu tinha arranjado. Eu mesmo. E por último pedi-lhe que arranjasse ela um. De facto parece que a nossa obrigação de padres, quando não podemos fazer certas celebrações, é a de arranjar padres. Outros padres que nos substituam. Mas poucos casais se preocupam em arranjar filhos padres. 
A Sandra também sorriu porque entendeu. Mas depois foi citando, um a um, nomes de padres que ela pensava que estavam disponíveis, isto é, sem paróquias. Contudo, um a um, todos os nomes que referia são agora párocos. Em verdade, não é fácil encontrar um padre disponível para ajudar outro padre, porque todos, afinal, vão precisando de ajuda. Entre sete, oito e mais paróquias, não há como celebrar missa de Natal em todas. Além de ser humana e praticamente impossível, é esquecer que a verdadeira missão da Igreja está muito para além das missas. Elas são o centro da vida cristã, mas ainda é mais importante a vida cristã. Os padres têm-se gastado a celebrar missas, porque não há padres para celebrar tanta missa. E depois sobra pouco tempo para anunciar a Boa Nova da salvação, essa que Jesus nos trouxe quando nasceu. Além disso, deixem-me dizê-lo. O Natal é muito mais que a missa de Natal.

sábado, dezembro 02, 2017

Os nadas do padre João

O padre João tem, muitas vezes, a vontade de não fazer nada. Tem vontade de fugir para coisas que sejam iguais a nada, desinteressantes, desnecessárias. Tem aquela vontade de fazer o que apetece sem que uma obrigação moral, doutrinal, funcional e até espiritual lhe esteja colada como um cordão umbilical à sua progenitora. Gosto particularmente desta comparação para explicar o estado do Padre João. Sabe-se que a intimidade que o novo ser possui com a mãe lhe advém dessa religação de ser, o cordão umbilical. Mas também se sabe que se não se corta, nunca será o verdadeiro ser para o qual esse cordão serviu. A vontade do padre João fugir é, portanto, a vontade de ser, tal como a mãe natureza, a que eu ouso chamar de Deus, teve o ensejo de vocacionar. Ser verdadeiramente padre.
Não sei muito bem como falar do padre João. As palavras tornam-se tão confusas como a cabeça dele neste preciso momento que, afinal, já se vem arrastando há semanas. O padre João está cansado de ser e de viver à custa do que os outros esperam dele. Quando decidiu dar este rumo à sua vida, prometeu que iria dedicar a sua vida àquilo que Deus esperava dele. E agora sente que está a fazer, não o que Deus espera, mas o que os outros esperam, o que nem sempre, ou quase nunca, coincide. Por isso se vê tentado a não fazer nada, a fugir, a esconder-se para se sentir ele próprio, a desaparecer para poder ser. O padre João está com vontade de não fazer nada. Esse nada que, afinal, é tudo o que ele queria neste momento.

terça-feira, novembro 28, 2017

Será o padre um homem como os outros?

É hábito que, sobretudo em ambiente de café, quando aparece um padre e se senta numa mesa tal como os outros circunstantes desse espaço, se façam afirmações do tipo O padre é um homem como os outros. É a frase típica quando se quer dizer que o padre também pode cometer excessos, beber uns copos, participar numas farras, bailar ou divertir-se. É curioso que, em muitas destas ocasiões, o padre é, como se costuma dizer, mirado e remirado com desconfiança. Mas mesmo assim dá origem à famosa expressão que serve como justificação para dizer que o padre também pode ter os seus deslizes ou fragilidades. Preferia pensá-la como se fosse o mesmo que dizer O padre é cá dos nossos. Mas até isso é excessivo, se for para exprimir que faz parte do grupo dos boémios. Melhor seria que fosse para dizer que é um dos nossos no sentido em que é o nosso padre. 
Na minha modesta opinião, um padre não é propriamente um homem como os outros. É homem como os outros. O que é substancialmente diferente. Aliás, ninguém é igual a outro. Não queremos que o padre seja igual a qualquer outra pessoa, e se o fosse, que essa pessoa fosse Cristo. Mas até isso poderia também ser excessivo, porque não há outro Cristo que não o próprio Cristo. A nossa almejada configuração a Ele nunca poderá ser uma transformação na sua pessoa. Isso mesmo me diz que é arriscado dizer que o padre deveria ser um outro Cristo, ou como alguns documentos da Igreja referem, um alter Cristo. A configuração com Ele, une-nos a Ele, coloca-nos no seu íntimo, tal como o colocamos a Ele no nosso íntimo, mas nunca nos transformará n’Ele. Bom, mas parece que me estou a distanciar do que queria dizer sobre O padre é homem como os outros. Dizia eu que não me parece uma afirmação acertada. Não significa que eu não queira que os padres sejam homens. Mal deles, se fossem anjos ou um outro ser divino que não tivesse os pés na terra. Não são seres sobre-humanos ou dotados de uma qualquer forma que não seja humana. São seres humanos, que, tal como todos os seres humanos, têm debilidades. Do mesmo modo, têm gostos, pensamentos, sentimentos, opiniões, formas de viver como toda a gente. Mas um padre não tem de ser igual aos outros, tanto como não tem de ser diferente. Tem de ser tão só um padre que é homem como os outros.

sexta-feira, novembro 24, 2017

coração de Deus [poema 162]

Aperta-se o coração, por não respirar
Cada vez que o nó mais se aperta em si
Míngua e desaparece, por falta de ar
Quando não se encontra dentro de ti

Ó Senhor deste coração, que aparentas fugir
Quando parece que não há mais para onde ir

Não venhas a mim, mas ao que é meu
Coração encarnado de tanto sangrar
Quando a noite cai sobre o céu
E deixa de ser para te poder amar

Todo teu, no teu que ser mais especial,
O Coração

terça-feira, novembro 21, 2017

Relações pré-matrimoniais e o pecado

Não interessa propriamente o teor da conversa, que ocorreu ao telefone. Mas interessa referir que, entre outras coisas, falámos sobre as relações pré-matrimoniais. Como se sabe, grande parte dos jovens que decidem casar pela Igreja, hoje, já vivem uma vida em comum e possuem uma vida sexual activa. Por muito que possa custar, é um dado adquirido, perante o qual nem sempre se sabe que pensar. Neste sentido, ouvi do lado de cá da linha de telefone, o que a pessoa do lado de lá disse sem constrangimentos. A relação sexual de quem se ama, mesmo antes do casamento, é menos pecado que andarmos zangados uns com os outros. Porque a primeira, em princípio, é feita com amor, e o segundo é feito sem amor. Eu não sei se concordo com uma afirmação assim tão arriscada. Mas é inegável que o pecado é uma ausência de amor, e o que é feito com amor, em princípio, não é pecado.
A conversa deixou-me a pensar. Deixou-me a pensar sobretudo numa Igreja que, às vezes, concentra demasiadas energias nas questões morais ou sexuais. Para mim, a Igreja não é um conjunto de regras, mas uma forma de viver, tal como a fé não é um mero assentimento a determinados dogmas ou virtudes, mas uma configuração com uma pessoa, Cristo. É preciso humanizar mais a Igreja. Não no sentido de que seja mais mundana, mas no sentido de que seja mais de Deus. O Reino de Deus não é uma construção religiosa para uma conduta religiosa, mas uma dinâmica para um mundo mais humano. Creio que precisamos de uma pastoral humanizadora, não tanto no sentido filosófico, antropológico ou sociológico, mas no sentido cristão da palavra, isto é, uma pastoral que humanize a vida para a levar à plenitude de sentido e de felicidade que o Pai nos concede. Talvez assim, comecemos a olhar-nos uns aos outros com menos olhares reprovadores e com o olhar misericordioso de Deus. Talvez assim a Igreja pudesse explicar aos jovens que as melhores relações são aquelas que, por amor, conseguem trazer mais felicidade à nossa vida.

quarta-feira, outubro 25, 2017

Lar [poema 161]

Não conheço mais que esta vida
Moro numa casa que não foi construída
No meio do nada para que seja assim
Um passado a que não encontro o fim

Em tudo busco o teu regaço em mim