A hora ia adiantada. A conversa também. Dois colegas falavam coisas de padres. Um deles perguntava porque é que o assaltava tantas vezes a vontade em largar tudo. Já se está a ver que mais do que uma pergunta, era um desabafo, e mais do que um falar para o outro, era um falar para se escutar no que falava. Dizia que lhe assaltava muitas vezes esta vontade de deixar tudo para trás, tal como deixara tudo quando aceitara dar o passo da ordenação, mas agora em sentido inverso. Estava cansado do clima de suspeição que vive diariamente, tal como todos os outros padres. A Igreja encontra-se sob a lente de uma comunicação social e de uma sociedade bastante ideológica, com interesses em a descredibilizar, é certo. E doi. Mas também nas suas comunidades sente que as pessoas estão convencidas que o padre só quer é dinheiro e que a Igreja é muito rica. E também se avolumam as tentativas inglórias para propor a fé. E os esforços por ajudar a compreender a verdade nos sacramentos.
Ele não faz parte do grupo daqueles que têm nostalgia do passado e a ele querem regressar. Aliás, sonha com uma Igreja mais humanizadora e mais próxima das pessoas, mesmo que em menor relevância na sociedade e na cultura. Não quer nada com a Igreja jurídica, sacral e burguesa. Ele quer identificar o seu sacerdócio com a Igreja dos peregrinos, dos que caminham e que, muitas vezes, nem contam. Mas estava cansado. Pensava em deixar o ministério, não como um acto de fraqueza, mas como um acto de franqueza. Não como uma acto de decisão, mas como um acto de vocação. A validação, diante dele mesmo e do próprio Deus, de que há uma náusea, uma solidão, uma ausência, um vazio, uma paixão que é uma cruz desamarrada. É sincero. É autêntico este padre, que apenas quer ser padre para servir e não sabe suportar este cansaço que vem mais de fora dele que de dentro, mas que se entranha.