quarta-feira, abril 13, 2016

As partilhas da D. Amélia

A dona Amélia tem um quintal grande. Couves, cenouras, alhos, batatas, salsa e por aí fora. É um quintal onde abundam aquelas pequenas coisas que se fazem grandes nas nossas cozinhas.
Contaram-me que a dona Amélia era muito generosa. Nada que eu não soubesse já e em primeira pessoa. Contaram-me porém ou entretanto que às vezes chegava à casa ou à porta de algumas pessoas e deixava sacos da sua horta. Contaram que muitas dessas pessoas nem a conheciam. E ela dizia que não importava. E deixava o saco com as couves e as batatas. 
A Amélia é mulher de fé. É discreta. Poucos sabem destas coisas que ela faz. Mas faz, e fá-lo a quem quer que seja porque não espera um obrigada. Não espera receber nada em troca. Dá porque quer dar. Dá por amor. Partilha como poucos sabem o verdadeiro significado da palavra. 
Que bom que é ter assim paroquianos!

16 comentários:

Anónimo disse...

As vezes imagino uma comunidade, para não dizer um mundo, em que todos fossemos donos desta generosidade pura e simples. Poderia alguém deixar de ser feliz? E é assim tão difícil ser como a D. Amélia? Parece tão simples...

Se queres ser feliz, rodeia-te de gente de bom coração.

Anónimo disse...

há um nome truncado uma Emília em vez de Amélia ;) segundo paragrafo, se não estou em erro, e n precisa de publicar este comentário!
:)
há pessoas generosas em atitudes e ações... ainda! temos que educar as próximas gerações para a partilha de ações e não só de conteúdos nas redes sociais! o humanismo é essencial à sociedade!
boa continuação na/da partilha.
Paz!

Confessionário disse...

14 abril, 2016 01:14

publiquei porque a segunda parte tb era interessante... e agradeço muito a atenção

Eu Eu disse...

Cada vez mais necessitamos de "Amélias" dessas na nossa vida e no nosso mundo...

Anónimo disse...

A Amélia podia até não ter nome que iria sempre constar entre os grandes nomes!
Se cada um de nós fosse como a Amélia, não precisávamos de governos, instituições para insinuar o bem! O mundo seria, por si, um "paraíso", a "Casa Comum"

Anónimo disse...

Temos que agradecer à Amélia a partilha... ainda bem que há Amélias entre tantos amigos da onça!
Bjs

Anónimo disse...

Gostei de ler a tua história.
Identifico-me com ela, só que em vez de produtos da terra são livros, flores, as contas na farmácia, da electricidade... e só o faço no anonimato. Por vezes atravesso a ilha apenas para deixar um livro esquecido no banco de um jardim de uma igreja ou na mesa do cafe. Isso mantém viva uma parte de mim. Quando eu era criança, alguém deixou à beira do caminho onde diariamennte passava uma boneca loira, aquela boneca e mais tarde aquele livro influenciaram para sempre o meu agir.
A única forma que eu encontro de retribuir agradecer à vida os horizontes que entao ganharam novos contornos é fazer à semelhanca do que Deus fez comigo.

Confessionário disse...

15 abril, 2016 08:11
que interessante tb!

Anónimo disse...

Esse “obrigada” está tão giro, é assim uma espécie de chave para todas as portas, menos a minha, pois também não gosto de receber agradecimentos. É bom saber que ainda há gente que gosta de partilhar e pôr em comum, a fraternidade e familiaridade são coisas que muito aprecio, elevam-nos a um outro nível, se era aí que pretendíamos chegar. A minha humilde casinha mais parece a da Joana na arte de bem receber, sempre pão e vinho sobre a mesa e uma toalha lavada. Mas também sou muito bem recebida na casa dos meus compadres, sempre disponíveis nessa nobre arte da reunião à mesa. E entre uma refeição e outra, lá se tomam uns pirolitos e umas coisas mais modernas e isotónicas pois temos que nos adaptar aos tempos que correm. Este seu textozinho é tão interessante Sr. Padre, um retrato a preto e branco da sociedade portuguesa!

JS disse...

Este tipo de generosidade/partilha é bem comum entre gente que trabalha a terra sem ser directamente por negócio/profissão. São vestígios de uma economia de troca directa, usualmente em círculo familiar ou de vizinhança. A senhora Amélia dá ideia de ir um pouco mais longe na caridade.

Por um lado, há o lado da abundância: se as condições metereológicas colaboram, facilmente se consegue uma produção mais do que suficiente para as necessidades da casa. Se há coisa que as pessoas do campo não aceitam, é ver as coisas a estragarem-se ou a serem desperdiçadas. Por vezes, a partilha começa até antes, com as sementes ou plantas a lançar à terra que acabam por sobejar.
Depois, há o lado da gratidão: o sentimento que se tem de que o produzido, embora seja regado com o suor humano, é também algo que nos ultrapassa: frutos da terra, da água e do sol, dons da mãe-natureza e de Deus. Trata-se, pois, de dar o que nos foi oferecido, e de continuar a corrente da doação.
Há também o aspecto de uma saudável vaidade e espírito de competição: as pessoas orgulham-se da qualidade dos produtos da sua horta e ficam felizes quando os outros o reconhecem.
Há ainda a vontade de criar e fortalecer laços de amizade e de boa vizinhagem, e de reforçar o espírito comunitário. Ajuda a conservar a paz no coração e a manter a esperança de que, se nos encontrarmos em aflição, sempre haverá alguém que nos dará atenção. Algo que se torna cada vez mais importante à medida que se vai envelhecendo...

Confessionário disse...

JS, bem-vindo
Há muito que não vinhas e estavam aí atrás uns temas que imaginei que comentasses!

Mas quanto a este, e embora tudo o que disseste faça muito sentido, gostava de, em abono da Amélia, dizer que ela faz mais no sentido da "caridade cristã". Na paróquia, sempre ou quase sempre que se precisa de uma mão, a Amélia aparece.

Anónimo disse...

Ai, Sr. Padre, a sua cantilena faz-me lembrar aquela modinha: “Mão morta, mão morta, vai bater àquela porta”, muito propícia às comemorações dos Fiéis Defuntos. Folgo vê-lo tão animado. Haja caridade/misericórdia com o enterro dos defuntos, sejam eles quais forem, até o mais simples animalzinho da terra. O JS já demonstrou anteriormente como é cuidado a fazer enterros. Depois vem sempre alguém que estraga tudo...

Anónimo disse...

OBRIGADA, senhores e senhoras, por enterrarem uma Amélia.

Anónimo disse...

É tanta, mas tanta a generosidade que por aqui vai que uma simples pessoa até fica embasbacada. Quando a esmola é grande o pobre desconfia. Para que há de querer tanta couve, salsa e rabanete, quando a despensa é limitada? Isto é tanto despejo à porta, sem se saber ao certo de quem vem, que a vontade é distribuir. E o pobre pergunta-se, mas que raio se passa aqui? Porquê eu? Em vez de tanta couve, salsa e rabanete, de diferentes hortas, talvez fosse mais fácil negociar directamente com o produtor. Nem se sabe se a agricultura é biológica!

Anónimo disse...

QUE GÉNERO DE SOLIDARIEDADE É QUE TU PRATICAS?
Interrogo-me muitas vezes acerca do que é a solidariedade. Confesso que não sou a maior das praticantes, insiro-me mais no grupo dos beneficiados. Por ser uma clara beneficiária de acções de solidariedade social espontâneas e nada organizadas a minha perspectiva é a de quem fica a ver navios em dias de denso nevoeiro. Sei que a solidariedade não é uma miragem. Sei que a solidariedade de que sou beneficiária é tecida de cima para baixo, numa conjugação de esforços e vontades esclarecidos e empenhados. Não é uma solidariedade que se pratique lado a lado, vendo o outro como é. Não. Essa é a solidariedade que não interessa para o caso. Sei que os praticantes da solidariedade, ao praticá-la, reforçam laços e a sua pertença de grupo: a solidariedade é solidária porque há quem se solidarize o máximo entre si, sem nunca chegar a solidarizar-se verdadeiramente com quem deveria ser o seu objecto último de solidariedade. O que mais importa na solidariedade é a própria campanha. A solidariedade é praticada por gente de bem e, aparentemente, dirigida a gente que está menos bem. A solidariedade que recebi, e que agradeço embevecida, é a do vale tudo. Vale a conversinha enganosa. Vale o aliciamento. Vale o logro. Vale a busca e exploração das fraquezas alheias. Vale a atenção excessiva. Vale a confusão. Vale o gozo. Vale o menosprezo. Vale a devassa. Vale o comportamento contraditório. Vale o falso elogio. Vale a superioridade. Vale a mobilização inexplicável de meios para que ao fenómeno seja atribuída a sua real dimensão e fique patenteado o poder mobilizador que está por detrás da verdadeira solidariedade. Nesta solidariedade em que tudo vale, a solidariedade é obra. A solidariedade é enredo. A solidariedade é paródia. A solidariedade é ridicularização. A solidariedade é devassa. A solidariedade é cerco. A solidariedade tem duas caras. A solidariedade diz-se e escreve-se de forma manipuladora, dúbia e dolorosa, porque o seu propósito é confundir, diminuir até arrasar. É a solidariedade que se pratica com a máxima descrição e sem quaisquer traços de espírito revanchista. É a solidariedade que diz, toma lá prova da minha solidariedade por te teres metido comigo, ó insignificante. É a solidariedade que visa transformar o outro numa anedota em nome da sua própria salvação. É a solidariedade que achincalha e ensina a não confiar e a encerra o outro no seu silêncio enquanto tudo faz para aumenta o alarido em seu redor. É a solidariedade que tudo deturpa, reinterpreta, transforma e diminui. É a solidariedade que aumenta exponencialmente a vontade em resistir. É a solidariedade que prepara caminho até estar pronta para dar o golpe final e levar ao tapete, enquanto eleva os seus solidários praticantes. É a solidariedade que é vitória anunciada e comemorada. É a solidariedade que se aproxima demasiado sem nunca se esforçar verdadeiramente por se aproximar. É a solidariedade de quem nunca se tentou colocar no lugar do outro nem buscou caminhos alternativos. É a solidariedade da pressão de grupo e de meios sobre um só. É a solidariedade que não protege. É o género de solidariedade que pouco ou nada interessa.

Confessionário disse...

16 abril, 2016 18:51
Sobre isso já escrevi alguns textos!
No ano da Misericórdia, para que ela seja autêntica, só vejo uma possibilidade: estarmos junto do que necessita de igual para igual, tal como Jesus fazia... Tal como o Papa propõe nas suas exortações, nomeadamente a última, "Amoris Laetitia" que é super interessante!