sexta-feira, abril 08, 2016

As não respostas que são resposta

A mãe gostara da homilia que eu fizera no funeral da sua filha. Porventura havia respondido às suas inquietações naquele momento indisível, que não se podia dizer porque seria o meu dizer e não o seu. Mas pelos vistos assimilou em si o que eu dissera na inocência da minha vontade de deixar Deus falar em mim. E o curioso é que não dissera quase nada. Ou melhor, não utilizara frases cliché ou dogmas que enfatizamos muitas vezes nas homilias para consolar ou para orientar o nosso olhar à Ressurreição. Simplesmente deixara quase tudo em aberto.
Recordo que apresentara algumas propostas de entendimento da morte, mas que deixara no ar afirmações de que não sabia tudo, pois que a forma de eu receber o mistério de Deus era diferente do contexto de qualquer outra pessoa. Não fiz o papel de quem não sabia que dizer, o que ocorre também muitas vezes no nada com que nos deparamos em funerais. Eu sabia o que estava a dizer. Só não queria apresentá-lo como encerrado numa doutrina sobre o mistério da morte.
Assumir em nós a incompreensão da morte é também assumir um Deus que se faz presente mesmo quando parece que nos faltam as palavras. Pelo menos foi o que pensei depois do comentário agradável daquela mãe. Espero que não tenha sido apenas complacente, mas aberta ao dom da morte que é tão incompreensível.

4 comentários:

Paula Ferrinho disse...

De facto, os funerais podem ser momentos tão grandes, importantes e sábios de evangelização! E às vezes são tudo menos isto... qualquer coisa que se quer despachar, no sítio mais lúgrebe e escondido da Igreja, ou na "IGREJA DOS MORTOS", como se diz em algumas terras quando há referência à igreja onde se velam os corpos.
Quem sabe se esse seu momento de "inspiração", em que deixou espaço para respostas, em que não impôs algumas ideias feitas, em que falou de "dentro", mas de forma pessoal e por isso segura, certamente, não foi o efeito do Espírito Santo em si, operando através de si para chegar aos outros?
Quem sabe...
Gosto sempre de o ler.

Paulina Ramos disse...

Fiquei sensibilizada ao ler este post.
Pensei no quão proxima estarei, ou não, dela.
A forma como abordaste o assunto da morte, o facto de não o quereres encerrar numa doutrina tocou-me pela positiva.
Acho que qundo morre alguém que amamos choramos apenas a nossa condição miserável após a partida daquela pessoa que amamos, e fazemo-lo muitas vezes sem consciência disso, achamos então que choramos pelo facto de a pessoa deixar de ser visivel neste mundo.
Oxalá pudessemos ver o que ela em verdade é... Um tempo sem tempo, uma plenitude indizivel.

Anónimo disse...

Paulina, gostei tanto do teu comentário. Com efeito, a morte, como mistério que é, tem uma linguagem única e inexprimível só possível de alcançar direccionando os olhares para a ressurreição. E, como o Padre Confessionário muito bem diz, é ao assumirmos em nós essa incompreensão que conseguimos evitar afundarmo-nos nessa experiência dolorosíssima que é ver partir aqueles que tanto amamos. Ainda agora, ao tentar consolar uma grande amiga que passa por uma experiência de luto idêntica, tentei transmiti-lhe isso mesmo. A morte está-nos gravada no ADN mas é inegável que será sempre maior que quaisquer palavras ou que o nosso próprio entendimento. Assumirmos isso, acentuando o silêncio da morte no mais íntimo de nós mesmos permito-nos atravessar essa experiência curiosíssima e tão incompreensível de um Deus polifónico e aparentemente disperso mas que está sempre presente, mesmo quando aparentemente nos faltam as palavras.

Paulina Ramos disse...

Anónimo 10 de Abril 13:57
Ultimamente as lagrimas têm dificuldade em surgir, o teu comentário tocou-me ao ponto de elas fazerem uma breve aparição.
Estou-te grata pelo que li.
Que esse Deus polifonico aparentemente disperso mas sempre presente te traga a paz a tranqulidade a aceitação que me trouxe a mim depois de ler o que escreveste.
OBRIGADA!